29 de novembro de 2011

Π Kant A matemática Picante
























Muitos são os dias que se me despertam com a crónica diária de Fernando Alves na TSF. Hoje, nos Sinais dava conta de uma iniciativa de uns jovens universitários cubanos a viver em Miami pelo que percebi com o intuito de facilitar a aprendizagem e compreensão da matemática, coisa tida como horrorosa por muita gente que não é capaz de "dar por isso" e encontrar-lhe uma beleza comparável à de Vénus de Milo. Enfim. É também típico do FA estabelecer ligações poéticas na intersecção dos planos ou na curva parabólica da memória. É assim que derivar para os "seios esferóides" de uma tal incógnita, objecto de desejo e paixão de um improvável quociente. Na verdade, feitas as contas, o que se multiplica é quase sempre a subtracção e quem de vinte cinco tira resulta menos ganho pelo que faz acrescido de menos feriados e mais horas de trabalho não remunerado. É só fazer as contas, diria um tal outro.
Fui procurar mais coisas sobre a Matemática Picante cujo projecto tem na realidade o nome americano de Spicy Math e fiquei um pouco desiludido. Trata-se de uma empresa de ensino da Matemática, eventualmente com métodos bastante criativos, com um bom marketing à americana, ou seja uma boa fórmula resolvente capaz de extrair dividendos com resto zero em poesia. Fica a ambiguidade do nome bem achado que tanto nos pode sugerir um certo tempero nos cálculos como as matrizes para percorrer todas as linhas sinusóides num raio igual à abcissa.

Ao ouvir isto, eu que trocadilho palavras e treino malabarismos com elas transformei logo o Pi cante em Π Kant e imaginei logo um círculo filosófico atravessado por dois raios de luz crítica. E aquele quociente apaixonado por uma incógnita estaria ali. Afinal "a paixão é o mundo a dividir por zero" como atestam "os infelizes cálculos da felicidade" onde um oito deitado chega ao infinito.
E...
Assim nestas poucas linhas
Fica uma estória banal
Com linhas e entrelinhas
E uma moral convergente:
O infinito afinal
Fica aqui ao pé da gente.
José Fanha

Imagens daqui e dali

21 de novembro de 2011

Vale

Um momento divertido do ensaio (foto de Annie Grieg)



Cresci no Vale.
Dizer que Vale é um espectáculo de dança contemporânea dirigido pela coreógrafa Madalena Victorino é dizer muito pouco desta viagem/seara, rebanho/rio, festa/mar de afectos que se constrói por dentro de uma semana inteira, mas que o público só vê cerca de uma hora e um quarto.
Participei no Vale.
Fui por mim e por ti, minha rapariga que me estimulaste. Reencontrei-me com tantas memórias e gentes e animais que por vezes até lhes sentia o cheiro.
A gente do Vale
é um grupo de cinquenta pessoas que não conhecia antes e que me deixa a sensação de ali termos nascido todos e crescido. No final partimos com um sorriso na despedida, como eu parti um dia. Provavelmente, algumas destas pessoas não voltarei a encontrar em breve ou se calhar nunca mais, mas isso também me aconteceu com amigos de infância e continuo a lembrar-me deles.
Valeu!

31 de outubro de 2011

Dia D







Dê grande.
Grande Dê.
DÊ.

Drummondar é dar Drummond.
Dar ao mundo quem se deu ao mundo.
E não cedeu.

Porque o riso mesmo ácido
é sempre uma brincadeira do amor.




SEGREDO

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.


Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.


Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

Carlos Drummond de Andrade
(Itabira, 31 de Outubro de 1902 - Rio de Janeiro, 17 de Agosto de 1987)




15 de outubro de 2011

Outubro ou nada

15Out MARCHA DA INDIGNAÇÃO






A cabeça da minife





Um protesto que diz respeito a quase todos



Animação e criatividade contagiante





Meninas estais à janela



A indignação também faz sede




E o povo até pode desejar um carro novo




Ou habitação condigna
E...


E também houve beijos e namoro. Manifestos (e many festas).




11 de setembro de 2011

Arte no passeio ribeirinho

Ali, junto a um dos primeiros braços da Ria Formosa, no tão proclamado e tão abandonado "Parque Ribeirinho" nasceram há tempos uns pilares de cimento com uma disposição ordenada, mas não de forma a sugerir algo inacabado. Já tinha imaginado que isto seria uma espécie de stonehenge pós-moderno ou até mesmo um objecto escultórico que um certo presidente teria mandado erigir em honra dos seus amigos construtores civis. Podia até, enigmaticamente, chamar-se IMItação. Mas não. Nenhuma placa de broze assinalava o facto e única actividade que por ali vi foram uns acampamentos de ciganos e a utilização dos pilares para pender os animais.



Eu passo por ali de bicicleta (a ecovia algarviana, está por ali assinalada) e ontem deparei-me com estas hemi-figuras pintadas e que se juntam à medida que nos deslocamos.


Uma criação muito interessante que as fotos não traduzem muito bem.



Não encontrei qualquer assinatura, mas este tipo de pintura não me é estranho. Julgo reconhecer a marca de um artista plástico farense e vou procurar confirmar.




Há agora mais um motivo para os farenses se deslocarem a este sítio e dar-lhe vida. Pode ser que isso faça com que os espaço se torne alvo de maiores cuidados.








As estórias que me contas dos livros que lês

Do tamanho da mão de uma criança, estriada de verde metálico, de negro brilhante, às vezes também de vermelho alaranjado, com, na traseira, um debrum branco, a urânia pode ser observada em diversas regiões do globo, do Pacífico a Madagáscar, da Índia à Amazónia. A espécie que prendeu mais particularmente a minha atenção é aquela que se conhece sob a designação de Urania ripheus, e que se encontra nomeadamente na América tropical.
Os sábios que se interessam por ela puderam observar um fenómeno surpreendente e espectacular: em certos dias do ano, essas urânias reúnem–se às dezenas de milhares nos locais onde a floresta confina com o oceano, depois levantam voo para a frente, percorrendo centenas de milhas marítimas, até que, não encontrando ilha para pousar, caem esgotadas e afogam–se.
Algumas fêmeas depositam os seus ovos na floresta antes da migração, o que assegura a sobrevivência da espécie; mas a maior parte levantam voo ainda grávidas, arrastando a sua progenitura no seu suicídio colectivo.
(...) Elas foram objecto de uma monografia que as circunstâncias não deram oportunidade de publicar e que se encontra ainda nas minhas gavetas. Exprimo aí a opinião de que o comportamento das urânias não resulta de uma perda do instinto de conservação, mas, pelo contrário, da sobrevivência de um reflexo ancestral que conduz ainda esses animalejos para um lugar onde se reproduziam outrora; talvez uma ilha que tivesse desaparecido; assim, o seu suicídio aparente, seria um acto involuntário causado por uma má adaptação do instinto de sobrevivência a realidades novas; estas ideias tinham seduzido os meus estudantes, mas certos colegas mostraram–se cépticos quanto à formulação.




Amin Maalouf


O século primeiro depois de Beatriz (1992)



Aqui fica transcrita a odisseia suicida das urânias. O livro completo está disponível online.

23 de julho de 2011

Lx - 20110715



Dizias-me há tanto tempo que não te leio e eu quase a penitenciar-me por não erguer aqui esculturas e fogos reais para o mundo saber da alegria e da festa.

Tu escolheste a árvore de folhas mil quase perenes. E não podia ser melhor porque a árvore é sabedoria e memória de um tempo largo.

Grande é o campo do saber. Dos saberes. Como o do amor que se deixa atravessar por um rio de paixão.

Esta foto é linda.

O Contador Gosta disto.

6 de junho de 2011

Graffito criador de realidade

Amoreiras. Lisboa. Foto de Luiz Moreira

alea jacta est

Por este edital se dá como registado nos autos a primeira entrega.
Depois de intenso fim de semana a arrumar quadros, tabelas e figuras cheias de actores...
Pronto, já está. Em prima forma.
Agora temos que ir ali respirar beijos e namoros.

29 de maio de 2011

Saudades

Senti. Sem ti.

22 de maio de 2011

Erros políticos

Escrevi o post anterior antes do debate Sócrates vs. Passos Coelho e teci alguns prognósticos pelos quais tenho que me penitenciar. Mesmo não tendo andado na escola stalinista da santificada autocrítica, confesso (credo!) que errei. Arroguei-me de uma jactância política que de facto não tenho. Errei. Pronto, admito o meu erro. Esforçar-me-ei por me corrigir e não voltar a falar do que não sei.
Comecei por errar na cor das gravatas. Eu anunciei que eram ambas azuis, embora uma mais clara que a outra, ou para ser mais exacto, uma ligeiramente mais escura que a outra. Nada mais errado. A cor, na gama do vermelho alaranjado ou, talvez, cinabre, era de facto uma mais ecura que a outra, mas não deixava dúvidas. Ainda tentei invocar a meu favor que numa televisão a preto e branco ninguém teria dado pela diferença, mas hoje, com ecrãs planos, ele-cê-dês, plasmas, agá-dês, meos e zons que param, andam para trás e para a frente... estas pequenas diferenças políticas não escapam ao olho crítico do povo eleitor.
Outro erro meu, de que obviamente me penitencio, foi o ter vaticinado um estrondoso empate. Nada mais falso. Ainda que tivesse empatado uma hora a ver os dois debatentes a empatarem-se um ao outro a ver se nenhum conseguia dizer algo essencial, a coisa ficou claramente resolvida, ainda antes de terem passado cinco minutos sobre o final do debate. Passos Coelho ganhou com duas voltas de avanço e o seu adversário Sócrates nem deu para aquecer.
Assim vale apena. Ou, melhor, nem valia a pena ter havido debate. Os comentadores resolviam isso muito melhor e sem qualquer dúvida. Eu sei que alguns comentadores, também são candidatos... Mas não poderiam ser todos? E já agora, pelo PSD, claro.

20 de maio de 2011

E se mais houvera, lá chegariam...

O grande problema do nosso sistema democrático é que permite fazer coisas nada democráticas democraticamente.
José Saramago

O espectáculo está montado: no canto direito - gravata azul, 79 quilos, 34,8% das intenções de voto - o candidato a primeiro miniiiiiiistro! No canto esquerdo - gravata também azul, mas um pouco mais escuro, 80 quilos, 34,7% das intenções de voto - o outro candidato a primeiro miniiiiistro! Cumprimentem-se os adversários. O grande combate vai começar!
O árbitro adverte que não admite golpes baixos e que o KO está proibido, incluindo o KO técnico.
O resultado já se sabe: um monumental empate.
Esta gente empata o país e destrói o único capital que nos resta: a esperança.
Acho que só há uma pergunta que os dois debatentes deviam ser obrigados a responder.
O PS e o PSD alternaram no poder durante 35 anos e conduziram o país à desgraça em que está. Ainda que tivessem tido umas ajudas temporárias (mas profundas) do CDS, como é que conseguiram?
Já disseram tudo. Menos isso.
Mesmo sem o saber, 80% do povo eleitor está firmemente decidido a votar nos três partidos do arco da velha, perdão, do arco do poder, imaginem se soubessem!... Ainda se aproximavam dos 100 por cento. Sem dúvida.

24 de abril de 2011

Do amor



Do amor diz-se tanta coisa. Que é cego e arde. E cura dói. Que é doce e aperta o coração. Que é doido e isso é paixão. Eu sei lá o que é o amor.
E assim sem teoremas. Numa visão incompleta e interesseira. (Não me peçam para ser imparcial no amor). O amor é um estado de necessidade.
É a falta que me fazes e a urgência de me teres.

Outro video aqui.

21 de abril de 2011

A carroça



A nossa comunicação social adora o repet mode. Diria até que veneram o lugar comum e a frase feita e a formulação discursiva automática. E oca. Não sei em donde isto vem, mas admito que poderá ser influência de alguma liturgia à mistura com futebolês. A cada dois minutos de notícias pode sair, sete vezes repetido, o vocábulo troika. Escrevo assim com k, embora a grafia portuguesa acordada consigne a forma troica, para manter a proximidade ao seu significado original. A palavra em russo significa trenó grande puxado por três cavalos. Cá não se usa disso. Os veículos de tracção animal (devo estar a citar o João Catatau das lições de código) por cá têm rodas que é um dispositivo redondo inventado muito antes do FMI e são puxados geralmente por seres chamados bestas. Há também os carros puxados por uma junta de bois, mas esses são muito lentos e fazem uma bucólica chiadeira. Depois há, carroças, galeras com fueiros e sem fueiros. Nas versões urbanas, e sempre puxadas por cavalos, podemos recordar o barouche, a caleche, a biga (em italiano biga mia), a charrete, a carruagem, o coche e por aí fora. Havia quem andasse na berlinda e a coisa com nome mais longíquo que por cá apareceu terá sido a britzka e uma coisa que não sei o nome mas que foi logo baptizado de carro americano que andava sobre carris puxado por cavalos e antecedeu os carros eléctricos.
A história não reza, mas é possível que ainda antes da haver Portugal tenha cá vindo uma delegação de Roma cobrar impostos a este povo que, diziam, nem se governava , nem deixava governar. Nessa altura, os arautos iam de terra em terra e deviam anunciar a vinda da quadriga, que era o carro muito na moda em toda a Roma antiga. Agora temos troika, não rola, desliza, mas precisa de neve.
Como é possível mandar uma troika para Portugal onde praticamente não neva e muito menos no Terreiro do Paço?
As notícias não dizem, mas vê-se pela cara deles quando são filmados à saída do ministério das finanças, que os senhores estão muito angustiados e parece que até já pediram apoio psicológico. O contacto com a situação portuguesa não é fácil, mesmo para pessoas habituadas a lidar com a frieza dos números. Quando viram o valor real dos salários mais baixos e das pensões miseráveis e o compararam com os rendimentos mais elevados começaram a ficar agastados. Quando os diligentes técnicos do ministério lhes disseram que a ideia era dar mais uns cortes, sentaram-se e pediram um copo de água. Parece que estiveram quase a chamar o INEM, mas contiveram-se para que eles não julgassem que vivemos no luxo.
Até tinha a sua graça. A troika ia de padiola.

11 de abril de 2011

Da lógica da batata à coerência da salsicha


Devo começar por dizer que não gosto nada do que vou fazer. Acho de muito mau gosto trocadilhar assim com o nome das pessoas, mas às vezes não resisto. A coisa até nem é muito grave, porque apesar de tudo o nome em questão até parece fornecer alguma blindagem que não sei se o nomeado merece. Aos críticos destas brincadeiras, peço alguma tolerância, pois. Também, caramba, não venho aqui pedir que a Zita Seabra...

Vamos então ao que interessa.

Nas últimas presidenciais estive bastante à rasca e se não fosse o facilitar a percentagem ao Cavaco, nem me teria dado ao trabalho de votar por falta de candidato. No final lá me decidi a votar no único candidato sério que apareceu. Aquele que assumiu a pantominice e a descontrução deste processo. O Coelho da Madeira, qual bicho carpinteiro, não construindo propriamente uma alternativa, talvez tivesse mostrado as fragilidades e overdadeiro caruncho do pau de que é feita toda esta santidade política.

O Nobre apresentou-se como representante da "sociedade civil" e isso em princípio seria um valor. Aparentemente. Porque na sua órbita deixavam-se ver algumas personalidades que, sem qualquer menosprezo pelo trabalho social que fazem, se orientam por uma lógica de dependência do Estado e de alguma chafurdice política pelos gabinetes ministeriais, sejam eles tutelados por quem for. É, de certa forma, esta a "sociedade civil" organizada em lobby e carente de um representante a que mais se galvanizou para apoiar Nobre à presidência. E muita gente, que se não revê nos partidos e nos candidatos partidários "independentes" acreditou que, finalmente havia alguém suficientemente reconhecido capaz de incarnar essa alternativa e fazer disso um projecto ganhador. De ganhar aos partidos, para ver se eles aprendem a ser melhores. A ideia não é má, mas a mim bastou-me um dia ver na televisão a sua comunicação sem som, para ter o sentimento de que havia ali algo que me fazia desconfiar. Acho que não votei nele por isso.

Agora sabemos que aceitou ser candidato do PSD. E que se o PSD ganhar (o que ainda não é líquido) Nobre será presidente da AR, segunda figura do Estado.

Por mim, até pode ser. Mas não deixo de me interrogar sobre a natureza das coisas com que se faz a política. Se os portugueses elegem figuras destas para seus representantes, de que é que se queixam?


A ascenção política é uma máquina com um processamento interno muito complexo e frequentemente inacessível, mas no essencial é muito simples: por um lado entram porcos inteiros e, pelo outro, saem salsichas prontas a consumir.

5 de abril de 2011

Havia do Infante e agora há Vinte e Dois



Eu sei que há muita boa gente que acha que se queremos andar na autoestrada devemos pagar portagens e que o que deve vigorar é um princípio inventado com um fim obscuro, em princípio inventado por alguém que ninguém sabe quem é, mas presume-se que certamente amigo do povo trabalhador e dos mais desfavorecidos que nem carro têm e que por isso nada t~em que pagar para outros se delocarem em duas faixas e a 120 km/h. E logo chamaram a esta teoria «o princípio do utilizador-pagador», o que até não está mal se o compararmos com outro «princípio» em uso em muitas circunstâncias que é o princípio (assim por mim baptizado, para que conste) do «pagador-pagador». Aqui o pagador paga, mas não utiliza, o que faz com que este princípio atinja um fim muito mais principalmente do que o outro. Eu dou alguns exemplos. Através de vários impostos, taxas, sobretaxas, mais impostos aplicados até às próprias taxas associadas ao meu modesto automóvel e ao combustível seria suposto pagar uma rede viária para poder circular, mas se não tenho uma alternativa decente e necessito mesmo, lá terei que pagar (aqui até poderíamos falar de uma extensão do princípio que passaria a ser «pagador-pagador-utilizador»). Outro exemplo: tenho televisão por cabo que pago (juntamente com serviço de internet e telefone) e aqui vigora o princípio «utlilizador-pagador» porque utilizo e depois pago de acordo com um contrato (sempre mais ou menos manhoso, mas vá...) , mas a coisa não é bem assim e na realidade o princípio é o de «pagador-utilizador-pagador» porque todos os meses pago a televisão que utilizo ao meu fornecedor de cabo e, também ao Estado através da taxa de radiodifusão sobre a qual ainda é aplicado o IVA (sempre gostava que me explicasem qual é o valor acrescentado desta taxa) pagando assim duas vezes o mesmo serviço.


Pois que fique bem claro que eu não sou bem contra as portagens (até posso ser porque esse é um negócio que alguém faz com empresas privadas e até com alguma participação do Estado e que em última análise é sempre ruinoso para os contribuintes); eu só é a favor de vias decentes para nos deslocarmos em situações normais, coisa que todos pagamos para utilização comum. Invocar que «o país» não pode suportar isso é branquear a incompetência e, pior ainda, a corrupção que campeia entre o Estado e meia dúzia de grandes empresas que dominam estes negócios e que depois asseguram bons lugares a ex-ministros.


Tenho ouvido e lido alguns argumentos que pretendem classificar as populações desta ou daquela região de não quererem pagar portagens e que isso é uma injustiça porque outros também pagam e etc. Acho uma palermice e seguir esse raciocínio para outras áreas leva-nos para terrenos muito perigosos onde nem se poderá falar sequer de justiça.


Não defendo qualquer medida de excepção para os residentes. Onde não há alternativas, não se deve pagar porque isso é simplesmente uma extorsão. Concordo em pagar um serviço extra, de qualidade melhorada que me permita avaliar a opção face ao custo-benefício. Não devemos pagar, aqui ou noutra área qualquer, nesta região ou noutra, o serviço que nos é devido porque o pagamos.

25 de março de 2011

O lixo

Imagem daqui

Os santos mercados já condenam Portugal ao «nível lixo», uma espécie de inferno da economia global para aonde se atiram os pecadores. Nada que sobressalte (esta aprendi com o Cavaco da presidência, mas acho que o dono do Stand Cavaco - de automóveis usados e seminovos- diria o mesmo), nada que sobressalte o nosso povo, dizia eu, que gostando tanto de calor ainda é capaz de dizer com um tal alentejano que indo parar ao inferno e tentando o diabo castigá-lo com o calor no máximo, "compadre, com a 'calma' que por aqui vai, que fará em Serpa?..."

Ficamos també hoje a saber que, de acordo com uma sondagem, os eleitores dariam uma maioria absoluta ao PSD, ou ao PSD e CDS e que ainda assim o PS se aguentaria num score aceitável, tendo em conta os acontecimentos, o que significa que à esquerda a crise pouco mexe para além de umas décimas.

É, pois, o lixo em todo o seu esplendor. O lixo, luxo que nem todos se podem gabar de juntar num mesmo palco. O lixo-presidente. Cavaco, o grande mandador em silêncio deste baile de roda capaz de voltar a juntar a esquerda e a direita. O lixo-governo que afogado em dificuldades e acossado em várias frentes não soube gerir a situação e avança de peito aberto contra as espadas estendidas. O lixo-oposição-que-quer-ser-governo que não tem alternativa e não pode fazer outra coisa que não pior que o PEC IV, determinado pela UE que por sua vez também está entalada pelo sistema global da finança. O lixo-esquerda-PC-e-BE que (depois de uma moção de censura que podia ter obrigado o PSD a votar contra e não o fez, deixando-o no conforto da abstenção) parece querer ajudar a abrir alas para o noddy Passos Coelho e toda a direita no poder (para fazer o que estes já faziam, é certo) e dar uma ajuda ao velho desejo desta direita bacoca: um presidente (blheck...), uma maioria (pfff...), e um governo (cof). Lindo! E o sol brilhará pra todos nós e a esquerda ficará mais esquerda, e assim, e tal...

Também me interrogo, se este povo-lixo merecerá melhor. E hesito muito entre o alistar-me militantemente num partido de esquerda e ajudar na discussão dos melhores caminhos (correndo naturalmente com as ideias que que o têm conduzido) e o sentar-me na plateia da indiferença a assistir à desgraça. Só que o preço do bilhete para este espectáculo sai carríssimo e é grande a probabilidade de o teatro ruir e, seguramente, os que estão na geral e na plateia ficarem esmagados pelo balcão e pelos camarotes onde se sentam os privilegiados que se safam sempre.

22 de março de 2011

21 de fevereiro de 2011

Sentimento de segurança

Dizem os especialistas que a percepção do perigo é coisa subjectiva e que através do cruzamento de várias variáveis é possível estabelecer um indicador chamado sentimento de segurança.
Ora, foi isto exactamente que eu fiz. Peguei no meu recibo de vencimento, comparei com outro de igual período do ano passado (dizem ainda os especialistas que assim se dá conta da variação homóloga) fiz umas contitas (coisa simples) e verifiquei que comparando com igual período do ano passado, me sinto muito mais seguro.
A probabilidade de ser assaltado na rua é de facto reduzidíssima quando comparada com o assalto sistemático mensal a que estou sujeito, pelo facto de trabalhar para o Estado (tracinho ladrão), mas há mais. Mesmo que seja assaltado na rua de seis em seis meses (frequência muito pouco provável) o prejuízo estará longe de chegar ao saque "legal" da quadrilha Sousa & Santos.

10 de fevereiro de 2011

Cavaco não chega à Madeira

Está explicada aqui a razão. E porque é que a magistratura activa é uma espécie de coprocracia (termo que julgo ter inventado para, educadamente, designar os actos políticos de certa pessoa) o que, dito de outra forma é uma espécie de aula de revisões para uma parte dos portugueses que não perceberam à primeira que o homem nem para presidente do clube de petanca da Tenoca.
Na Madeira, pelo Decreto Legislativo Regional nº 16/2010M, "estabelece[-se] que a prescrição de medicamentos é feita de acordo com a denominação comum internacional e aprova[-se] o modelo de receita médica". Fui ler o preâmbulo, como é recomendado.


O aumento da despesa pública e privada no sector da saúde tem levado todos os países da União Europeia a adoptarem estratégias de contenção de custos compatíveis com a necessidade de preservar a elevada qualidade da prestação de cuidados de saúde.
A promoção dos medicamentos genéricos, a prescrição no ambulatório por denominação comum internacional (DCI), à semelhança do que já se pratica nos hospitais
e o aperfeiçoamento dos mecanismos de comparticipação, são estratégias de contenção de custos adoptadas por todos os países da União Europeia no domínio dos medicamentos.
Proporcionar aos doentes a acessibilidade aos medicamentos genéricos, bioequivalentes e com os mesmos efeitos terapêuticos dos medicamentos de marca, tem sido uma preocupação comum aos Estados Europeus.
As medidas já tomadas pelo Governo da República neste domínio produziram efeitos positivos, mas, a nível nacional, a quota de mercado dos medicamentos genéricos é ainda inferior à da generalidade dos países europeus.


Parece-me bem, mas ao magistratante activo que alega ter recebido "umas cartas" e pareceres de alguns "peritos", não há qualquer evidência científica, pelo menos abaixo do paralelo do Mu, de que os interesses da grande indústria famacêutica e seus aliados fiquem devidamente salvaguardados e, vai daí, toca a vetar que no vetar é que está o ganho.
Estou mesmo a vê-lo. Ai querem saber das acções dos meus amigos do BPN? Ai andam aí a levantar lebres sobre acasa da Coelha? Espera aí que já vão ver como elas lhes mordem!...

Não percamos a esperança. Já falta menos de cinco anos.

2 de fevereiro de 2011

A canção de protesto


Que parvos que somos!...
E se a moda pega e nasce um novo movimento de canção de protesto e a ele se associam outros movimentos que por aí andam, mais ou menos latentes?
Parece que entrámos numa qualquer era de revoluções. Ninguém estará interessado em pegar em armas e já não estamos em tempo disso. As armas hoje são outras e serão muito mais eficazes do que as dos exércitos e polícias que protegem ditadores e outros sistemas injustos. Há armas capazes de disparar em cada computador em qualquer parte do mundo, em cada telemóvel e, inevitavelmente produzir notícia replicada em todos os canais de televisão.
Ao ouvir esta canção dos Deolinda, não pude deixar de pensar em alguns jovens amigos que fazem parte do movimento "Maldita Arquitectura" e outros, que noutras áreas se sujeitam a trabalho quasi-escravo.
O caminho é pela IC. Insurreição Criativa.

24 de janeiro de 2011

O primeiro dia dos próximos cinco anos

Ou seja, encavacados e mal pagos.

O país votou. Segundo as regras da democracia, Cavaco ganou a sua reeleição à primeira volta e continua a ocupar o lugar de Presidente da República Portuguesa. Nada disto está em causa. É assim.
Outra coisa é saber se o homem, pelo seu passado na política portuguesa como primeiro ministro por um período que niguém teve, pela forma como se comportou no primeiro mandato e pelas coisas que entretanto se têm vindo a descobrir, incorpora essa grandeza de carácter que o torna merecedor de ser o representante de todos os portugueses.
Há quem não aceite que se ponha em causa o carácter, a honorabilidade, a honestidade, o valor da pessoa. Mas , ou eu andei muito distraído ou nenhum dos candidatos apresentou um programa político de candidatura ao cargo, que já de si está bastante pré-determinado pela constituição deixando a variabilidade para o estilo pessoal do seu exercício, para a marca de dignidade que não poderá envergonhar nenhum português. E isso está no carácter da pessoa.
Ideologicamente não me identifico com nenhum dos anteriores presidentes, mas não hesito em reconhecer-lhes o mérito de terem sabido exercer o cargo sem me envergonharem de ser português. Cavaco envergonha-me.
Ideologicamente representa o que há de mais conservador e tacanho que existe na mentalidade portuguesa. Um provincianismo de sacristia. O chico-espertismo dos que são capazes de ultrapassar todos pela faixa de socorro (pela direita) e meter-se lá mais à frente. O sempre senhor professor ou professor doutor mesmo quando há tantos outros com igual titularidade a quem não é dispensado esse trato. A safadeza cobarde de quando confrontado com as embrulhadas optar sobraceiramente pelo silêncio ou mesmo pela mentira (não percebo nada de acções com nomes em inglês, não me lembro, só passei os cheques). Isto talvez só seja a ideologia dos que não têm carácter, mas ainda assim ideologia, porque pode passar, ser modelo identificador para alguns.
Cavaco, em suma, vende o mesmo produto que Salazar. Mas faz melhor que este. Tem a vantagem de ter sempre a seu lado a sua "senhora" e o resto da família já devidamente abençoada pelo papa do Vaticano.
De resto, se o homem não se assume como político, o que é que lhe pode exigir politicamente? É uma espécie de inimputável, desse ponto de vista.
Há, pelos vistos, muita gente que gosta. Eu não. E não me coíbo de o proclamar com o mesmo direito (embora com incomparavelmente menor alcance) que é dado ao próprio e a quem se identifica com o modelo.
Não desanimemos. Faltam só 1825 dias.

12 de janeiro de 2011

Crepúsculo

[espaço para uma foto que hei-de tirar daqui donde escrevo]

A tarde foi toda de trabalho no gabinete. Responder a mails dos alunos, enviar documentação de apoio às aulas, analisar e seleccionar questões para o teste. Trabalho ao lado de uma janela virada para a ria e gosto particularmente dela durante os finais tarde.
Dou-me conta de que é um verdadeiro privilégio este local de trabalho. Para além da calma que reina porque muita gente vai embora cedo, o sol vai caindo, caindo até mergulhar no horizonte, para lá das ilhas. E fica um lusco cada vez mais fusco e acontece-me parar e ficar apenas a olhar pela janela que me dá uns reflexos alaranjados das águas planas da ria de esteiros e parchais.
É o crepúsculo que se torna praticamente noite no tempo de escrever este post. É verdade que foi várias vezes interrompido na contemplação da luz e do desejo de um abraço coladinho.