3 de Julho de 2009

Arenas epistémicas *

Resisto à republicação aqui da célebre imagem do ministro Pinho . Ela valha mais que as mil palavras que eu pudesse escrever sobre o assunto. Ainda, tentarei escrever algumas em jeito de contrapeso.
O ministro Pinho diz de si próprio que não é um político profissional e isso a gente já sabia. Falta-lhe aquele jeitinho especial para insultar os seus pares dentro das regras protocolares e a seguir vamos almoçar todos juntos e não se fala mais nisso. Políticos profissionais não se expõem assim e, mesmo quando o fazem há sempre uma cobertura desculpabilizante ou atenuante. Cavaco pode defender o gangue da banca, Manuela pode proferir as maiores tangas sobre a PT, o Citigroup, Jardim pode insulatar todo o "contenente", para só falar de alguns, que isso não fará mossa política. Dois deputados, em plena sessão, podem desafiar-se para resolverem as coisas "lá fora" (entenda-se, à porrada) e continuarem como se nada fosse e a fazerem parte de novo das listas porque as brumas da memória são verdadeiras muralhas de aço e já ninguém se lembrará. Santana fez a figura que fez na Câmara de Lisboa e como primeiro ministro e aí está de novo candidato à mesma autarquia numa espécie de virgindade recauchutada.
A imagem do ministro ontem no parlamento ficará gravada na memória e sempre que ele aparecer na política ela será reeditada. Dificilmente será chamado ao desempenho de um cargo político relevante.
Fiquei a pensar que se fosse assim para todos, se houvesse uma imagem tão forte como a do Pinho de indicadores espetados, ou da anedota do alumínio do Borrego, muitos dos políticos que por aí andam, e que muito mais mal já fizeram à coisa pública do que estes infelizes que foram obrigados a demitir-se, já estariam a fazer outra coisa ou simplesmente a viver dos rendimentos.
Paulo Portas daria seguramente um bom técnico de reprografia depois das 60 mil fotocópias à saída de ministro da defesa; Cavaco devia ter continuado a multiplicar as suas poupanças enquanto os amigos estavam todos no BPN/SLN e isso dava-lhe para uma vida desafogada sem essa maçada de ser PR e correr o risco de cada vez que abre a boca ter que evitar que entre mosca; Ferreira Leite fazia uma joint venture com o Citigroup e a taróloga Maya e abria uma tenda de consultoria financeira, quirologia, curas milagrosas e previsão meteorológica que são actividades nas quais se pode dizer o que vem à cabeça sem que se possa comprovar que se mentiu. E aceito sugestões para empregar condignamente mais uns quantos.

O ministro da economia, provavelmente não tinha muitos indicadores económicos para mostrar. Mas o seu gesto releva de um profundidade e dum saber imenso. Sem discursos sobre a política da verdade, ele é, e traduz, a verdade da política.
Ele mostra os indicadores do real estado da nação: uma verdadeira tourada!

Notícias de última hora dão conta de que a Associação Animal já convocou uma manif de protesto contra as touradas na Assembleia da República e a empresa Unilever (grupo Jerónimo Martins), em reconhecimento pelo extraordinário aumento de vendas de farinha Maizena motivado por Pinho, atribui-lhe um lugar de membro honorário no Conselho de Marketing e Publicidade Disfarçada


*Este título não tem nada a ver com as teorias com esse nome desenvolvidas por Knorr-Cetina... ou talvez tenha; há mais ciência política num simples gesto que em muitas horas de discussão par(a)lamentar.

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26 de Junho de 2009

In dubio... pronúncia


O professor criticava, na ausência da própria, uma aluna em termos exageradamente sarcásticos, apenas porque tinha pronunciado Curriculum Vitae como "currículum vite" e não como "currículum vitái", como ele achava correcto. Eu não tenho idade suficiente para alguma vez ter ouvido falar latim pelos genuínos falantes, mas lembrava-me de ter lido algures sobre uma espécie de convenção dos latinistas sobre fonética do latim e sobre as diferenças entre o latim clássico e o latim restaurado, pelo que logo ali fiquei com imensas dúvidas sobre as certezas daquele professor. Parece que também cada língua adopta a sua fonética (por exemplo, o termo latino media dizia-se média em português e cada vez se adopta mais a pronúncia - e até a grafia - mídia, porque é assim que os ingleses lêem). Mas, como costumava ouvir a um amigo meu, milium primum pardalorum est, deixei-me ficar com o ninho atrás da orelha e, logo que pude, fui tentar esclarecer a coisa.
Pois até dizem que é uma espécie de despautério (termo que vem do latim e significa grande asneira ou verdadeiro disparate).

De acordo com a pronúncia tradicional, curriculum vitae pronuncia-se currículum víte, e é esta que deve preferir-se. Pretender impor a articulação vítai (ou mesmo wítai), de acordo com a pronúncia restaurada, parece-me um exagero ou mesmo um pretensiosismo tão grande como seria exigir que se pronunciasse etc. (et cetera) da mesma forma que os romanos do tempo de Cícero: et kétera…
Também é de evitar a prolação vitái, como às vezes se ouve por aí, pois essa nem é tradicional nem clássica. É apenas um despautério…



A minha amiga Xantipa que trata gregos e romanos por tu é que certamente sabe e ainda lhe hei-de perguntar das suas razões.
O latim é uma língua morta e não dará voltas no túmulo se a gente não a pronunciar bem. Portanto para mim estão empatados, ou seja, ex-aequo ( aquele prof dirá ,seguramente, egzaikuo) e tanto faz. Até estou em crer que os latinos nortenhos pronunciariam, de certeza, currículom bite, carago!


Desde que ouvi uma vez um jornalista dizer que um determinado acontecimento tinha sido adiado "sáine dáie", já acho que tudo é possível.

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23 de Junho de 2009

Pedalanço






Andar de bicicleta na ponte é uma experiência extraordinária. Poder parar, olhar o Tejo, admirar a cidade, as duas margens, observar os mariscadores, as aves... Beijar a meio do tabuleiro da ponte faria o Vasco da Gama arregalar os olhos e cofiar a longa barba. Esta experiência vale os 60 euros e o levantar cedo.


O resto, não. A qualidade das bicicletas (talvez porque montadas à pressa e mal afinadas), a ausência de mais apoio técnico ao longo do percurso, quando as bicicletas se começam a desconjuntar, a intoxicação publicitária e o inenarrável speaker.


A iniciativa é interessante, tem o apoio do IDT, cuja mensagem se perde completamente. É pena que não prevaleça uma associação mais forte a uma ideia de vida saúdável, de respeito pela natureza, de sustentabilidade ambiental.


O que vale é que a gente com quem me cruzei nesta manhã parece não ligar patavina às marcas patrocinadoras e lá vai bem disposta e partilhando o prazer desta aventura. A mochila diz galp, mas a gente a seguir vai é abastecer ao jumbo e pronto.

Ai, um beijo na ponte...

Pedala que ped'alma (desculpa lá esta O'Neil)

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20 de Junho de 2009

Solestício

Previsões para amanhã:
Onda de calor na Amareleja e Bike Tour na ponte.

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10 de Junho de 2009

Ainda as europeias

Estive para titular este post como O ovo da serpente, o célebre filme de Bergam de 1977, sobre os sinais promonitórios do nazismo na Alemanha do pós-I Guerra Mundial. Só não o fiz porque ao pesquisar sobre o filme o Google devolveu-me, entre imensas outras alusões e títulos, um do Miguel Portas, muito recente e um outro mais antigo do "abominável César das Neves" e perdi a vontade a essa metáfora.
Ainda assim, e porque isto anda tudo ligado, mesmo que às vezes não entenda muito bem a cosa.
Ah, hoje era sobre as eleições para o parlamento europeu que decorreram no domingo. Decorreram bem, sim senhor, porque o presidente Cavaco em boa hora veio uns dias antes lembrar os portugueses que deveria estar bom tempo (ao contrário do que anunciava a meteorologia) e que na semana a seguir havia dois feriados seguidos e, embora não tivesse sugerido propriamente que dois ou três dias por conta do período de férias teriam um efeito multiplicador, os portugueses entenderam muito bem e aproveitaram a dica. O resto também ajudou. Europa? Ainda se fosse o europeu de futebol!...
Mas o que eu queria aqui deixar registado era outra coisa. Na noite eleitoral, já depois de se saber que o PSD tinha mais votos e o lipidinoso Rangel destilava vingança misturada com o que aprecia ser um programa político para o país, pondo-se em bicos de pés como se tivesse vencido as legislativas, impressionou-me a moldura juvenil que o cercava. De repente tive a sensação de já ter visto aquilo. As mesmas caras de parvo, as mesmas camisas às riscas metidas em calcinha bege de algodão... Estes jovens betinhos são os filhos dos betinhos da AD dos anos 80! Só têm de diferente aquelas lenga-lengas que caracterizam os (outros) hooligans da bola.
Quem viveu esse tempo reconhece os sinais.

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2 de Junho de 2009

As bestas, novamente

Imagem apanhada aqui


Há dias ouvi por aí nas notícias que alguém da igreja do vaticano teria dito algo como: o aborto é muito mais grave que os abusos sexuais de menores. Não tinha percebido bem o contexto em que tão absurda declaração era emitida, mas fiquei, até hoje, com a pulga atrás da orelha e fui procurar. Estes vermes de sotaina não fazem por menos: em meia dúzia de palavras querem branquear décadas de pedofilia nos colégios católicos irlandeses e combater o projecto de lei do governo espanhol sobre o aborto.


A besta chama-se António Cañizares Llovera e é cardeal. Mas podia ser qualquer um das centenas que ao longo dos anos abusaram de crianças que era suposto proteger, barraram investigações, sonegaram informação, queimaram relatórios, esconderam criminosos, durante muitos anos e em diversos países do mundo.
Daqui a muitos anos há-de vir aí um papa qualquer coisa XXVII pedir perdão ao mundo sobre estes pecados, mas isso não muda a vida das vítimas de abuso que continuam expostos a estes predadores.
É preciso dizer-lhes na cara que o abuso pedófilo é crime. E que, nas circunstâncias em que é perpetrado pelos membros da igreja católica, devia ser considerado crime contra a humanidade. As vítimas são frequentemente crianças já em estado de necessidade, ou aquelas cujas famílias as confiam a uma instituição que respeitam para lhes proporcionar o que julgam ser uma melhor educação.

Revolta-me que esta gente untuosa ande por aí impune e ainda tenha o desplante de vomitar estas baboseiras. Ao menos calem-se. Se quiserem, rezem. De preferência baixinho.

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31 de Maio de 2009

Nós, europeus. Nós cegos. Noz moscada

As eleições para o parlamento europeu poderão não reforçar a influência de Portugal em Bruxelas e Estrasburgo ou em Quelque-Chose-sur-Mer, mas já trouxeram um enriquecimento súbito (ai, o enriquecimento súbito!...) se não ao português, pelo menos ao politiquês de Portugal.
O candidato que já ganhou foi sem dúvida o Vital. E não me refiro apenas ao uso, com toda a propriedade, aliás, do termo "roubalheira", cujo significado transcende o normal - e parece que bem tolerado - roubo, mas faço. "Roubalheira" é uma verdadeira especialidade portuguesa e nem sei se há equivalente noutras línguas (assim como "saudade"). "Roubalheira" não é roubo, nem furto, nem apropriação do alheio porque isso é crime e, embora também se faça muito, procura-se que ninguém saiba. "Roubalheira" é roubar às claras, com manifesto sentido de impunidade. Num sentido mais popular, será roubar com "as costas quentes" ou ainda, roubar sem "ficar encavacado" que o mesmo é dizer, sem pinga de vergonha.
Mas este enriquecimento súbito (ai, outra vez o enriquecimento súbito...) não se fica por aqui, assim "chirleamente" ou "pedestremente". O verdadeiro euromilhões, o jé-que-pote de toda a campanha, o tempero que faltava ao charco de água chirla do discurso político é mesmo o uso do termo "tranquibérnias".
Outros países, estados membros da União terão as suas traquibérnias, mas duvido que até aqui algum deputado europeu as soubesse designar correctamente.
Acertastes-lhes no nó vital. Quase dez, a bem dizer...

tranquibérnia
s. f.
1. Mixórdia feita aos líquidos de venda para lhes aumentar a quantidade.
2. Negócio de má-fé.
3. Trapalhada; trampolinice; falcatrua; fraude; burla.

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