30 de junho de 2005

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Porque há piações destituladas, fica assim com uns sinais que nem eu percebo...
Comecei por explicar a desconstrução criativa como quem destrói uma construção de legos-mecanos. A coisa é feita assim bonita e certinha para estar na montra e depois a vida não nada assim e a gente percebe que nem precisa de metade das peças.
E que também, sim senhora, tinha percebido tudo desde o início e até era capaz de repetir tudo, porque aquela data tinha algum significado para mim, porque mais coisa menos coisa, fazia anos ou meses ou talvez dias que tinha dado por falta de uma estrela. E era capaz de repetir tudo o que me tinha dito. Que era promoção e ficava isento do pagamento por toda a vida e ainda tinha um bónus de seis meses.
Como se tinha aguentado bem com a tempestade, sugeri que pusesse lá nos registos que estava muito interessado e que ia pensar e assim. E assim podíamos continuar a conversa a compasso de ondas e aragens.
Só não disse que tudo isto era uma bruma com que me enrolava antes do jantar.

2 comentários:

D. disse...

”Andaime do Pessoa face ao Báltico”

Autor: Fernando Alves - DN, 03.Jul.2005

«Gosto de me sentar, diante do Bugio, a ver a arquitectura dos navios. E os cargueiros são, aos meus olhos, as mais belas moradas sobre as águas. Eles têm, tal como as casas alentejanas, a "geometria essencial" de que falava Sophia. Há muito tempo, eu quis morar numa casa assim. Ou zarpar, no convés de um cargueiro.

Isso aconteceu quando, da minha varanda, se via a serra de Sintra. Entretanto, a betoneira não parou e ocultou-me o reino de duendes. E o meu sonho naufragou numa paisagem triste, diante do assobio do Guardador de Rebanhos, do Caeiro "Na cidade, as grandes casas fecham a vista à chave,/Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu."

Chegou-se, na imensidão em redor, a tal impunidade do pato- -bravismo que admito dar o meu voto, em Outubro, sem hesitar, a um edil capaz de um razoável programa de implosão urbana ou que, pelo menos, se comprometa a não deixar erguer nem mais um prédio até cabal contenção do desastre.

De tanto assistir a construção em fealdade, deixei, entretanto, de encarar com a antiga reserva a construção em altura.

Tomei como boas as regras de Vitrúvio, utilitas, venustas et firmitas, ancoradas a uma teia de novos saberes e novas ousadias.

Um dia, maravilhei-me com o edifício do Banco da China e a restante montra de arquitectura que é a baía de Hong Kong, vista de Kowloon.

A ideia de casa mudou no sótão da minha cabeça. Passei a gostar de edifícios que rompam as nuvens, tão altos que toquem os joelhos de Deus ou inacessíveis a patos-bravos, mesmo com escadote.

Estava, assim, dado a cogitações quando soube, esta semana, que Turning Torso, a torre residencial de 190 metros de altura que Calatrava projectou para o porto de Malmoe, fica pronta antes do Natal. Turning Torso justifica, por si só, uma viagem ao Báltico. Googlemos, entretanto, para sabermos ao que vamos.

Calatrava costuma dizer que quem não sabe anatomia dificilmente será um bom arquitecto. Ele sabe anatomia e acredita que "o corpo humano é um templo". Partindo deste quadro conceptual, o valenciano inspirou-se numa sua antiga escultura que representa o corpo humano em movimento e foi erguendo aquilo que, no número de Junho da revista Construcción y Tecnologia, Enrique Chão define como "uma graciosa escultura habitável de betão e aço que dança, desafia a imaginação e leva os materiais a formas extremas; um sonho dos construtores renascentistas finalmente convertido em realidade".

O traço de Calatrava vai, mais uma vez, a níveis de complexidade que são do âmbito da engenharia de estruturas e, não em menor escala, do da poesia. Turning Torso é o movimento do corpo humano em 54 pisos que se organizam em nove blocos com a forma de um cubo, cada qual com cinco pisos, rodando até onde a coluna vertebral permite, 90 graus da base ao topo. Do miradouro, no piso 49, vê-se Copenhaga. É outra maneira de ver a serra de Sintra.

Há nesta estrutura - que alguns dizem parecer uma toalha torcida por um gigante - a tentação vitruviana da figura humana mas, também, a obediência a uma lei primordial que corre os versos de Sophia "Construirás - como se diz - a casa térrea. Construirás a partir do fundamento." É como se Calatrava fosse buscar Fred Astaire e Ginger Rogers, que inspiraram a Casa Dançante de Praga, e os unisse num estranho bailado ao Homem de Vitrúvio de Leonardo da Vinci. E Turning Torso, a dança de betão e aço e vidro desenhada pelo "olho que pensa", acolhesse, em plenitude, o ser interior que, para Bachelard, toda a casa é.

Eu gosto muito de Calatrava e até lhe perdoo o frio que se apanha, à espera de um comboio, sob as palmeiras da Gare do Oriente.

Passado o tempo da casa térrea, inatingível o sonho de brincar às casinhas num arranha-céus, talvez grite, um dia, com o Pessoa, na cidade portuária do Báltico "Ondas passadas, levai-me/para o olvido do mar!/Ao que não serei legai-me,/Que cerquei com um andaime/A casa por fabricar."

No terraço de Turning Torso, o Homem de Vitrúvio despe-se de toda a geometria e transforma-se em ave.»

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Quando for grande, quero escrever assim. Destas coisas.

Deniz Costa

Gregorio Salvaterra disse...

Obrigado, Deniz, por este sinal.
Também eu às vezes encontro faróis e faroleiros que me deixam pequinino. E eu gostava de um dia ser grande e arranhar os céus só com o olhar. Mas disso contam-me as gaivotas que voam alto. E eu vou-me contentando com os prazeres do olhar rente ao chão. Ao nível do mar.