25 de agosto de 2005

Parabéns madame!


No ano de 2005 a coreógrafa Olga Roriz comemora 3 marcantes aniversários: 30 anos de carreira, 10 anos da sua Companhia e 50 anos de idade que não podem passar impunes nem ignorados.
(...) Para não esquecer que a morte existe é preciso festejar a vida.


Acho que já ninguém se lembra, mas há cerca de três mil anos aportou aqui um barco fenício. Descarregaram as ânforas e ficaram três dias na praia a cumprirem as celebrações do sal. Diz-se que se movimentavam no areal segundo a vontade dos deuses expressa nos sons da harpa eólica. Ao pôr do sol tudo parava. O vento calava-se.
E tudo recomeçava no dia seguinte até ao último que era o da partida. Aqueles movimentos repetiam iguais porque era a alma que levava o corpo com ela. Mais tarde chamaram a isto dança. Talvez porque derive de dansal.


FELICITAÇÕES MADAME – PARTE II:
dias 26, 27 e 28 de Agosto, às 18h30
Local: Ilha do Farol - Faro

Duração: 60 minutos
Para todas as idades
Entrada Livre

3 comentários:

Anónimo disse...

O Minuete


Os dois velhos passeiam; vão lento e lento, arrimando-se um ao outro. Olham para o chão; observam o caminho, minuciosamente, por que não succeda tropeçarem em alguma pedra sôlta, em algum tóro carcomido... Vão passo a passo, os dois velhos; elle, de largo chapeu desabado e sobrecasaca verde, empunha com a mão trêmula o bastão de unicornio, encastoado a ouro; ella, com a mantilha negra de outr'ora sobre os cabellos brancos, apoia a dextra no antigo guarda-sol de cabo eburneo e fôrro de seda azul-celeste — reliquia adorada dos seus tempos de moça...

Costumam ambos passear assim todas as tardes, quando o ceu está limpo e a brisa não é fria; vão pela alameda central até o fim do parque, e voltam ás Ave-Marias para o castello; sentam-se então nas suas poltronas de velludo côr de vinho, trocam duas palavras em uma hora, rezam, deitam-se; e dormem, até nascer a aurora, o somno dos justos, ou o dos innocentes, pois tornados são quasi á primitiva infancia...

Mas, nessa tarde de verão, tépida e deliciosa,- esqueceram os seus hábitos — os seus hábitos de tantos annos. Chegaram ao fim da alameda central, e não se lembraram de voltar para o castello; transpuzeram o grande portão de grades bronzeas; e eil-os em pleno campo.

Não; não têm somno hoje; nem fadiga; não querem passar a hora do repouso costumado nas poltronas de velludo côr de vinho. O dia foi bello e quente; o sol teve esplendores desusados; pelo ar erravam perfumes inebriantes, frémitos perturbadores vibravam; alastrava-se pela natureza toda uma palpitação de vitalidade nova. Os dois pobres velhos sentiam-se agitados e febris; seus olhos exhaustos pareciam ver as cousas como em épocas remotas; pelas veias se lhes infiltrava um doce calor extravagante; dir-se-hia que a juventude quizesse regressar...

Por isso foi-se-lhes o somno — o velho amigo pontual das oito horas... E prolongam o passeio pelo campo fóra. Já vem cahindo a noite, em escuridão suavemente graduada; já fica muito para traz o grande portão de grades bronzeas; mas os velhos não cogitam de voltar...

Sob os seus pés tacteantes, incertos, que não sabem mais firmar-se bem, a terra sêcca fende-se, com breves estalidos; hervas aromáticas, pisadas, desprendem essencias acremente capitosas; a mangerona, o rosmaninho, o resedá sylvestre casam os seus perfumes varios, e pejam o ambiente, como um vapor oloroso de caçoulas orientaes...

Na espessa grama saltam, de folha em folha, trillando, grillos bohemios; grossos besouros de couraça negra erguem difficilmente o vôo pesado, esbarrando nos troncos das arvores, e tombando de chôfre; levíssimas phalenas imponderaveis se cruzam no ar , descrevendo círculos amplos, subindo, descendo, á busca de uma chamma em que se queimem.

Ha, certamente, uma embriaguez penetrante em tudo; ha, em tudo, um flúido irresistivel de attraçcão e ternura. Os dois velhos passeiam, arrimando-se um ao outro; de vez em quando, estremecem, e o braço d'elle aperta o d'ella, involuntariamente. Alguma cousa os commove, e os une cada vez mais. É a memoria, que desperta, nítida e suggestiva; é a imaginação, que lhes retrata scenas antigas, fazendo-os reviver a saudosa primavera juvenil.

Aquelles sitios lhes são familiares; por alli andaram, moços ambos e namorados — ha muitos annos... quantos? já lhes perderam a conta! Recordações vibrantes os sacodem a cada passo, subindo-lhes á cabeça como um vinho concentrado e forte, guardado longo tempo... — Foi alli — segreda o velho, vacillante — foi alli, junto áquella vinha centenaria, que eu te disse: Amo-te !... — E a velhinha, um pouco mais adiante, com voz fanhosa e cançada: Foi alli, na orla do bosque verde, que eu te disse: Amanhan é domingo de Paschoa; pódes pedir-me a meu pae...

Que música é essa? Elles a conhecem, sem dúvida, os dous velhos. Ah! como não se lembraram logo ? É o minuete predilecto; o minuete clássico, em que nasceram os seus felizes amores. A primeira vez que o dansaram juntos! . . . Elle, perdido de paixão por esses olhos, outr'ora formosos e raros, não se pudera conter; em certa occasião, beijara-lhe a ella furtivamente as pontas dos dedos... E ella o censurara (como se recorda bem agora!) um pouquinho despeitada, mas não muito: — Cavalheiro! isto não é da regra...

O minuete continúa, gracioso e compassado. Ah! minuete diabólico, que fazes perder o juizo a dois velhos! Velhos?... não; são moços novamente; elle tem vinte annos, ella dezesete...

O minuete seductor os arrebata. Sentem um desejo irreprimivel de dansal-o. Já se curvam frente a frente, em delicada mesura, já elle estende a não, com o braço em arco, para a primeira viravolta; começam a dansar.

Mas de repente a lua, a lua, que nuvens densas escondiam, surge em pleno ceu, clara e radiante; a sua luz bate de chapa sobre os dous velhos, inunda-lhes as faces mirradas, as fontes encanecidas. Elles se contemplam então por um momento; cessam de dansar; e, como envergonhados das suas proprias feições, das rugas, dos cabellos brancos, exclamam ao mesmo tempo: Que loucura a nossa! que diria quem nos visse a dansar nesta edade?

Dizendo isso, riem-se amavelmente; mas, não sabem por que, duas lágrimas lhes tremem no canto dos olhos...



Magalhães de Azeredo

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