28 de julho de 2008

Concurso em curso

Há anos li uma pequena história, sobre a selecção e o recrutamento de recursos humanos que de vez em quando é trazida de novo à minha memória, por esta ou aquela circunstância.
A história, do século passado e é anterior ao choque tecnológico e à empresa na hora rezava mais ou menos assim:
Uma empresa de média dimensão precisa de preencher um posto de trabalho na área do secretariado de administração. Como é uma empresa moderna, com intenções de se lançar no mercado nacional e internacional e quer demonstrar que cortou com os métodos tradicionais de arranjar um emprego para o filho ou sobrinha de um amigo-a-quem-em-tempos-também-pediu-um-favor, ou porque a menina tem um palminho de cara e se nem sabe escrever à máquina, logo aprende... Não. Trata-se de uma aposta no futuro, um projecto proactivo e filiado nas boas práticas de gestão e por isso recorre a uma empresa especializada na selecção e recrutamento de recusos humanos. Esta, por sua vez, faz publicar um anúncio nos jornais, entre os quais e obrigatoriamente, o Expresso; recebe as candidaturas municiadas do respectivo Curriculum Vitae; após uma primeira selecção convoca os candidadtos e procede à entrevista; analisa e pondera todos os factores; elabora o relatório e prepara a apresentação ao seu cliente. São apresentados os três candidatos, duas mulheres e um homem que segundo os critérios da empresa de RH mais se ajustam às exigências do posto de trabalho. O administrador que é também o dono da empresa ouviu com algum enfado a apresentação e as explicações detalhadas das características e competências específicas de cada um. No final, folheou maquinalmente o relatório por mais uns momentos e proferiu com decisão: Muito bem. Contratamos a loira.

Também nos diferentes níveis da administração do Estado as coisas têm vindo a mudar. Ou não?
Hoje o processo de recrutamento para quase toda a administração pública é feito por consurso devidamente publicitado nos orgãos oficiais e obrigatoriamente no site da BEP (Bolsa de Emprego Público). Exceptuam-se os casos, também esses identificados e assumidos, em que a nomeação se faz por confiança política.
A mim nem me choca que um alto dirigente da administração pública, responsável por um determinado projecto possa nomear os seus colaboradores mais directos na base da confiança pessoal (não distingo se é política, ou técnica ou outra) desde que tanto uns como outros, estejam sujeitos a escrutínio e avaliação e tudo seja claro. Acho, de certa forma aceitável para o estado de direito não garantir sempre o princípio da igualdade de oportunidade em situações em que há delegação de competências e que a escolha possa ser feita por confiança. Tem é que ser transparente e público.

A administração local, só por si encerra um mundo de contradições muito particular. O Poder Local é uma das maiores contruções da democracia e tem-se mostrado capaz tanto das melhores realizações para o bem estar das populações, como dos piores e impunes crimes contra o ambiente, o urbanismo e a cultura. Mas fiquemos pelo recrutamento de dirigentes autárquicos.
As autarquias locais também são e muito bem, obrigadas ao processo concurso para recrutamento de pessoal, incluindo o pessoal dirigente, nomeadamente o de nível intermédio. Sabemos todos que ainda que por vezes se abre um concurso que apenas tem por finalidade regularizar a situação de uma pessoa que já desempenha e até com elevada qualidade, aquela função, ou para promover alguém que efectivamente até merece. Mas um concurso é um concurso; é aberto a todos que satisfaçam as suas exigências e... tudo pode acontecer. Sei de um concurso cujo aviso de abertura praticamente tinha as fotografias dos destinatários e vem alguém de fora e fica em primeiro. Tudo pode acontecer mesmo.
A primeira estratégia parece ser desencorajar os potenciais candidatos. Redigir um anúncio que dentro da forma regular possa deixar a ideia de que já há alguém para aquele lugar. Já vi muito disto, mas parece que há uma nova geração de génios criativos especialmente vocacionados para o non sense a trabalhar nos departmentos de RH.
Vejamos:

A Câmara Municipal de Loulé pretendendo recrutar dirigentes para as suas estruturas, no caso, a macroestrutura organizacional dos serviços municipais publicada no Diário da República, II Séria, N.º35 de 19 de Fevereiro de 2008 torna público através do DR e depois da BEP, a oferta de emprego com o código OE200807/0288, para Chefe de Divisão para o qual se exige a habilitação de Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, complementada com Mestrado na área. Até aqui quase tudo bem se não tivermos em conta que não se explicita qual a área funcional (suponho que é a que se refere no Dr nº 35 que não consultei) e que no conteúdo funcional se remete para o óbvio inerente ao cargo a prover. O cargo é de chefe de divisão e se não importa a área, para quê a especificação das habilitações?

O mais surpreendente, para quem esteja interessado em concorrer vem logo a seguir. No perfil, para além das competências comuns a este nível de dirigentes acrescenta-se algo finalmente clarificador: experiência profissional comprovada no âmbito da reabilitação e intervenção urbanas e na edificação e urbanização das autarquias locais e formação profissional específica e/ou relacionada com a área funcional posta a concurso, como não podia deixar de ser.

Um telefonema para o número indicado (geral da Câmara) passa de voz em voz até que finalmente (isto porque a terceira senhora foi um pouco mais simpática que as anteriores e disse que havia um número directo para os concursos, mas que mesmo assim ia passar a chamada à sua colega que ainda não era a última) me responde alguém que pode falar dos concursos.
Fiquei a saber que o lugar é para chefe de divisão da Biblioteca e arquivo Municipal e às minhas dúvidas quanto à relevância da experiência profissional exigida, não sabia responder porque receberam aquilo assim para publicar. Não desisti e quis saber quem podia esclarecer. Só a Directora de Departamento, a drª ***
Que azar o meu .

Tenho um amigo que tem as habilitações exigidas e até fez uma tese sobre "A poesia dos alçados laterais" e tem uma vasta experiência em dobrar esquinas. Estava para lhe dizer para concorrer, mas não sei se ele é moço para bibliotecas e arquivos. Ele é mais de andar ao ar livre e ler ao sol.


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3 comentários:

Miguel disse...

JJS,

A CML não é exemplo para nada ...!

O dinheiro abunda, não há necessidades nem poupanças nem sequer contenção de despesas ...!

Há festas, festarolas, festivais para alegrar o povo ...!

Bem Postado ...!
Parabéns pelo seu espaço ...!

Um abraço da M&M & Cª!

*JjS* disse...

Obrigado, Miguel, pelo comentário.
A intenção não é criticar a CML no que se refere à gestão dos dinheiros dos munícipes.
A minha indignação situa-se num outro plano, mais abrangente porque se refere ao nível dos instrumentos da cidadania. Há hoje uma série de mecanismos para garantir a transparência e a igualdade entre os cidadãos e é isso que a meu ver, caracteriza o essencial do estado de direito - a possibilidade de os cidadãos controlarem o exercício do poder. Depois parece haver algumas instâncias que se especializaram em subverter esses mecanismos, paralizando-os ou utilizá-los em seu proveito "dentro da legalidade".
Admito que no caso do concurso possa haver um erro de copy&paste, mas se não houver correcção podemos mesmo pensar em corrupção e eventual favorecimento pessoal, o que é crime.
Felicidades a todos os MMM

Anónimo disse...

A CML é rainha em viciação dos concursos. É tudo para amigos deste e familiares daquele. Até nem acho que é totalmente errado, se de alguma forma este tipo de cunhas fosse proveitoso, só que na esmagadora maioria das vezes é mesmo só para dar o emprego a este ou aquele para que o mecenato se mantenha coeso.
Não se pensse que uma alminha entre ali naquele estabelecimento sem conhecer alguém.
Qualquer um que entra ali não vai para um mundo novo mas sim para um velho onde toda a gente conhece toda a gente. Ali não se faz aquela pergunta “sabes quem é o gajo ou a gaja nova?”

Pegando no seu excerto:
"Há qualquer coisa de errado e não bate a bota com a perdigota, exige-se "experiência profissional comprovada no âmbito da reabilitação e intervenção urbanas e na edificação e urbanização das autarquias locais" e a licenciatura que se requer é a de Línguas e Literaturas Modernas?"

Talvez não entendeu correctamente, o que eles pretendem com este concurso é encontrar um gajo que não tenha experiência prática absolutamente nenhuma mas que seja altamente versado em paleio, sobretudo no que concerne a assuntos das vidas alheias dos conterrâneos.
Conheço N pessoas, bastante validas que querem mesmo TRABALHAR e produzir, concorreram N vezes a estes concursos das amizades promovidos pela CML, e em todas as participações já sabiam a quem é que os lugares estavam destinados.
A politica desta CML, não olha a cores politicas e leva mesmo a democracia a sério ;)