26 de junho de 2009

In dubio... pronúncia


O professor criticava, na ausência da própria, uma aluna em termos exageradamente sarcásticos, apenas porque tinha pronunciado Curriculum Vitae como "currículum vite" e não como "currículum vitái", como ele achava correcto. Eu não tenho idade suficiente para alguma vez ter ouvido falar latim pelos genuínos falantes, mas lembrava-me de ter lido algures sobre uma espécie de convenção dos latinistas sobre fonética do latim e sobre as diferenças entre o latim clássico e o latim restaurado, pelo que logo ali fiquei com imensas dúvidas sobre as certezas daquele professor. Parece que também cada língua adopta a sua fonética (por exemplo, o termo latino media dizia-se média em português e cada vez se adopta mais a pronúncia - e até a grafia - mídia, porque é assim que os ingleses lêem). Mas, como costumava ouvir a um amigo meu, milium primum pardalorum est, deixei-me ficar com o ninho atrás da orelha e, logo que pude, fui tentar esclarecer a coisa.
Pois até dizem que é uma espécie de despautério (termo que vem do latim e significa grande asneira ou verdadeiro disparate).

De acordo com a pronúncia tradicional, curriculum vitae pronuncia-se currículum víte, e é esta que deve preferir-se. Pretender impor a articulação vítai (ou mesmo wítai), de acordo com a pronúncia restaurada, parece-me um exagero ou mesmo um pretensiosismo tão grande como seria exigir que se pronunciasse etc. (et cetera) da mesma forma que os romanos do tempo de Cícero: et kétera…
Também é de evitar a prolação vitái, como às vezes se ouve por aí, pois essa nem é tradicional nem clássica. É apenas um despautério…



A minha amiga Xantipa que trata gregos e romanos por tu é que certamente sabe e ainda lhe hei-de perguntar das suas razões.
O latim é uma língua morta e não dará voltas no túmulo se a gente não a pronunciar bem. Portanto para mim estão empatados, ou seja, ex-aequo ( aquele prof dirá ,seguramente, egzaikuo) e tanto faz. Até estou em crer que os latinos nortenhos pronunciariam, de certeza, currículom bite, carago!


Desde que ouvi uma vez um jornalista dizer que um determinado acontecimento tinha sido adiado "sáine dáie", já acho que tudo é possível.

23 de junho de 2009

Pedalanço






Andar de bicicleta na ponte é uma experiência extraordinária. Poder parar, olhar o Tejo, admirar a cidade, as duas margens, observar os mariscadores, as aves... Beijar a meio do tabuleiro da ponte faria o Vasco da Gama arregalar os olhos e cofiar a longa barba. Esta experiência vale os 60 euros e o levantar cedo.


O resto, não. A qualidade das bicicletas (talvez porque montadas à pressa e mal afinadas), a ausência de mais apoio técnico ao longo do percurso, quando as bicicletas se começam a desconjuntar, a intoxicação publicitária e o inenarrável speaker.


A iniciativa é interessante, tem o apoio do IDT, cuja mensagem se perde completamente. É pena que não prevaleça uma associação mais forte a uma ideia de vida saúdável, de respeito pela natureza, de sustentabilidade ambiental.


O que vale é que a gente com quem me cruzei nesta manhã parece não ligar patavina às marcas patrocinadoras e lá vai bem disposta e partilhando o prazer desta aventura. A mochila diz galp, mas a gente a seguir vai é abastecer ao jumbo e pronto.

Ai, um beijo na ponte...

Pedala que ped'alma (desculpa lá esta O'Neil)

20 de junho de 2009

Solestício

Previsões para amanhã:
Onda de calor na Amareleja e Bike Tour na ponte.

10 de junho de 2009

Ainda as europeias

Estive para titular este post como O ovo da serpente, o célebre filme de Bergam de 1977, sobre os sinais promonitórios do nazismo na Alemanha do pós-I Guerra Mundial. Só não o fiz porque ao pesquisar sobre o filme o Google devolveu-me, entre imensas outras alusões e títulos, um do Miguel Portas, muito recente e um outro mais antigo do "abominável César das Neves" e perdi a vontade a essa metáfora.
Ainda assim, e porque isto anda tudo ligado, mesmo que às vezes não entenda muito bem a cosa.
Ah, hoje era sobre as eleições para o parlamento europeu que decorreram no domingo. Decorreram bem, sim senhor, porque o presidente Cavaco em boa hora veio uns dias antes lembrar os portugueses que deveria estar bom tempo (ao contrário do que anunciava a meteorologia) e que na semana a seguir havia dois feriados seguidos e, embora não tivesse sugerido propriamente que dois ou três dias por conta do período de férias teriam um efeito multiplicador, os portugueses entenderam muito bem e aproveitaram a dica. O resto também ajudou. Europa? Ainda se fosse o europeu de futebol!...
Mas o que eu queria aqui deixar registado era outra coisa. Na noite eleitoral, já depois de se saber que o PSD tinha mais votos e o lipidinoso Rangel destilava vingança misturada com o que aprecia ser um programa político para o país, pondo-se em bicos de pés como se tivesse vencido as legislativas, impressionou-me a moldura juvenil que o cercava. De repente tive a sensação de já ter visto aquilo. As mesmas caras de parvo, as mesmas camisas às riscas metidas em calcinha bege de algodão... Estes jovens betinhos são os filhos dos betinhos da AD dos anos 80! Só têm de diferente aquelas lenga-lengas que caracterizam os (outros) hooligans da bola.
Quem viveu esse tempo reconhece os sinais.

2 de junho de 2009

As bestas, novamente

Imagem apanhada aqui


Há dias ouvi por aí nas notícias que alguém da igreja do vaticano teria dito algo como: o aborto é muito mais grave que os abusos sexuais de menores. Não tinha percebido bem o contexto em que tão absurda declaração era emitida, mas fiquei, até hoje, com a pulga atrás da orelha e fui procurar. Estes vermes de sotaina não fazem por menos: em meia dúzia de palavras querem branquear décadas de pedofilia nos colégios católicos irlandeses e combater o projecto de lei do governo espanhol sobre o aborto.


A besta chama-se António Cañizares Llovera e é cardeal. Mas podia ser qualquer um das centenas que ao longo dos anos abusaram de crianças que era suposto proteger, barraram investigações, sonegaram informação, queimaram relatórios, esconderam criminosos, durante muitos anos e em diversos países do mundo.
Daqui a muitos anos há-de vir aí um papa qualquer coisa XXVII pedir perdão ao mundo sobre estes pecados, mas isso não muda a vida das vítimas de abuso que continuam expostos a estes predadores.
É preciso dizer-lhes na cara que o abuso pedófilo é crime. E que, nas circunstâncias em que é perpetrado pelos membros da igreja católica, devia ser considerado crime contra a humanidade. As vítimas são frequentemente crianças já em estado de necessidade, ou aquelas cujas famílias as confiam a uma instituição que respeitam para lhes proporcionar o que julgam ser uma melhor educação.

Revolta-me que esta gente untuosa ande por aí impune e ainda tenha o desplante de vomitar estas baboseiras. Ao menos calem-se. Se quiserem, rezem. De preferência baixinho.

31 de maio de 2009

Nós, europeus. Nós cegos. Noz moscada

As eleições para o parlamento europeu poderão não reforçar a influência de Portugal em Bruxelas e Estrasburgo ou em Quelque-Chose-sur-Mer, mas já trouxeram um enriquecimento súbito (ai, o enriquecimento súbito!...) se não ao português, pelo menos ao politiquês de Portugal.
O candidato que já ganhou foi sem dúvida o Vital. E não me refiro apenas ao uso, com toda a propriedade, aliás, do termo "roubalheira", cujo significado transcende o normal - e parece que bem tolerado - roubo, mas faço. "Roubalheira" é uma verdadeira especialidade portuguesa e nem sei se há equivalente noutras línguas (assim como "saudade"). "Roubalheira" não é roubo, nem furto, nem apropriação do alheio porque isso é crime e, embora também se faça muito, procura-se que ninguém saiba. "Roubalheira" é roubar às claras, com manifesto sentido de impunidade. Num sentido mais popular, será roubar com "as costas quentes" ou ainda, roubar sem "ficar encavacado" que o mesmo é dizer, sem pinga de vergonha.
Mas este enriquecimento súbito (ai, outra vez o enriquecimento súbito...) não se fica por aqui, assim "chirleamente" ou "pedestremente". O verdadeiro euromilhões, o jé-que-pote de toda a campanha, o tempero que faltava ao charco de água chirla do discurso político é mesmo o uso do termo "tranquibérnias".
Outros países, estados membros da União terão as suas traquibérnias, mas duvido que até aqui algum deputado europeu as soubesse designar correctamente.
Acertastes-lhes no nó vital. Quase dez, a bem dizer...

tranquibérnia
s. f.
1. Mixórdia feita aos líquidos de venda para lhes aumentar a quantidade.
2. Negócio de má-fé.
3. Trapalhada; trampolinice; falcatrua; fraude; burla.

18 de maio de 2009

Bendito Mário!

Morrer é nada. Uma basfémia diletante de um procuro e não te encontro. Frente ao mar. Sempre frente ao mar a escrever estratégias na areia burocrática. Uma mulher despida no escuro ou um vice versa pequeno-burguês.
Aprenderei a dizer-te bem. O melhor que puder.

Mário Benedetti, poeta uruguaio "desexilado", faleceu ontem em Montevideo

Si Dios fuera una mujer
¿y si Dios fuera una mujer?
-Juan Gelman

¿Y si Dios fuera mujer?
pregunta Juan sin inmutarse,
vaya, vaya si Dios fuera mujer
es posible que agnósticos y ateos
no dijéramos no con la cabeza
y dijéramos sí con las entrañas.

Tal vez nos acercáramos a su divina desnudez
para besar sus pies no de bronce,
su pubis no de piedra,
sus pechos no de mármol,
sus labios no de yeso.

Si Dios fuera mujer la abrazaríamos
para arrancarla de su lontananza
y no habría que jurar
hasta que la muerte nos separe
ya que sería inmortal por antonomasia
y en vez de transmitirnos SIDA o pánico
nos contagiaría su inmortalidad.

Si Dios fuera mujer no se instalaría
lejana en el reino de los cielos,
sino que nos aguardaría en el zaguán del infierno,
con sus brazos no cerrados,
su rosa no de plástico
y su amor no de ángeles.

Ay Dios mío, Dios mío
si hasta siempre y desde siempre
fueras una mujer
qué lindo escándalo sería,
qué venturosa, espléndida, imposible,
prodigiosa blasfemia.

17 de maio de 2009

Brincar café

A senhora de Fátima encontrou-se com o Cristo Rei. Foram fazer pastorinhos.

O Cristiano Ronaldo em cima de um andor também enchia o Terreiro do Paço.

13 de maio de 2009

Os meninos (escravos) da bola

Foto captada no que parece ser o site oficial da família Gonçalves

Acabei de ver na RTP1 uma reportagem perturbadora. Imagino que muita gente terá visto e entre eles, especialistas de saúde mental infantil, juristas, magistrados, membros das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens e, no meu imaginar, amanhã alguma destas pessoas terá abordado estes pais no sentido de salvar estes gémeos de sete anos e, eventualmente, a mãe.
Há momentos impressionantes nesta reportagem, e dois que persistem a atormentar-me a memória. À pergunta sobre o que gostava de fazer para além do futebol, um dos miúdos procura aflito com o olhar no vazio, no chão, uma resposta que não tem. Ainda pede um bocadinho para pensar e, depois de um penoso silêncio acaba por dizer: jogar à baliza, fazer fintas, marcar cantos... O outro momento é o olhar da mãe no seu silêncio obediente. É um olhar inerte. Tanto pode revelar uma angústia recalcada todos os dias como a distracção de um pensamento fútil, do género se calhar devia ter escolhido outra roupa para aparecer na televisão... ou o meu cabelo estará bem?
Um pai que se traveste de mister e manda os filhos encher quando falham um lance ou perdem o domínio da bola, precisa, no mínimo, que alguém com autoridade lhe diga que o que está a fazer pode considerar-se como sevícias e maus tratos e negação do pleno desenvolvimento a que todas as crianças têm direito. O que se passa aqui não difere muito do trabalho infantil de Padre padrone (1977) num remake dos tempos modernos.
Há psicopatas que disfarçam melhor.





12 de maio de 2009

Pressões de ar (*)

Afinal, parece que os magistrados são pressionáveis. E o mais curioso é serem eles próprios a dizê-lo. Não sei bem de que pressão se trata, se é atmosférica e anticiclónica ou se, sendo baixa é como a dos pneus. Agora temos o caso (chamado) Freeport na pneumologia depois de ter passado pela terapia da fala por causa daquele "t" que às vezes emudece.
Agora é oficial. Houve mesmo pressões. Ouvi nas notícias. Não sei bem como foi (o meu acesso às fugas de informação é muito limitado, apesar do Meo me oferecer o canal do Benfica em sinal aberto), mas arrisco um cenário bastante plausível.
Para aí a três quartos do almoço, naquele momento em que a segunda garrafa de Pera Manca se encontra naquela ambiguidade jurídica de estar meia cheia e meia vazia, o magistrado pressionador diz assim para o magistrado pressionado:
- sabes como isto está, não é?... a crise, e tal.... ouvi dizer que há contratos que não vão ser renovados, sabes como é?...
- já percebi, pá... é para arquivar aquilo, não é?
Deve ter sido assim. Não estou a ver como poderia ter sido de outra maneira. A não ser... ná, não acredito...
- ou arquivas aquela trampa, ou fica toda a gente a saber que a Cláudia Cardinali do parque eduardo VII és tu.
- ok. ok. manda lá vir outra garrafa e não se fala mais nisso...

Talvez até nem tenha sido nenhuma destas pressões, mas elas são impressionantes.

Agora o que eu acho é que devia haver uma grande pressão, sim senhor, para que a justiça funcione e seja célere. Se olharmos para os casos mais emblemáticos dos últimos anos, vemos que é uma desgraça total de embrulhadas, erros processuais, fugas de informação cirúrgicas... Tudo isto na completa impunidade. Ninguém avalia estes senhores.
Agoram brincam às pressões com o seu estatuto de impressionáveis.
Impressionante!



(*)Pressões de ar: são pequenas armas de recreio, utilizadas para tiro ao alvo ou para caçar pássaros. Eram também muito comuns nas feiras, nas famosas "barracas de tiro", onde por vinte cinco tostões se podia, com cinco tiros, tentar acertar num alvo que abria a porta de uma caixa donde saltava um boneco preso por um elástico. O prémio era era uma ginginha falsificada, mas não seria isso que levava lá os homens e os rapazes da minha idade. Eram as meninas de lábios pintados de vermelho que não se cansavam de lançar o famoso (na época) pregão "ó simpático, vai um tirinho?"

6 de maio de 2009

maio, maduro maio

Azibo, 3 de Maio

Terras de Trás-os-Montes: quilómetros de prazer (*).

As viagens são sempre descobertas. Talvez porque sejam sobretudo viagens por dentro de nós.
Encontramo-nos com gente tão igual e tão diferente de outra gente e as conversas misturam-se em tempos diferentes da nossa vida.

Foi bom sentir o olhar no mesmo sentido. Por cima e para lá de todas as serranias. E encontrá-lo lá naquele sítio de insondável bruma a que chamamos infinito.


(*) Off posting:
Eu sei. Este slogan já foi usado e, os mais velhos lembrar-se-ão, por uma marca de cigarros. A publicidade procurava então associar o acto de fumar à condução de um automóvel, dois traços inegáveis de status, classe e distinção que ainda perduram, às vezes criminosamente. Continuo a ver muita gente que conduz e fuma e joga a beata à estrada. Uns quilómetros à frente, poderão ouvir na rádio a notícia de mais um fogo florestal, "provavelmente de origem criminosa", carregar no acelerador e suspirar de alívio: ainda bem que não é na nossa casa...

24 de abril de 2009

abril a brilhar


Sei onde estava no 25 de abril.

Liguei o rádio quando acordei, como fazia todos os dias e, em vez das notícias que ia ouvindo enquanto me despachava para ir para o liceu, só transmitiam marchas militares. Tinha na memória de uns anos antes a rádio também se ter calado e só transmitia música sacra; foi quando morreu o Salazar. A ideia imediata foi deve ter morrido algum gajo militar importante, talvez o Thomaz e continuei pelo pequeno almoço à pressa e a saída a correr porque a carreira do Manel Neto não esperava por atrasados.

O rádio do autocarro continuava a debitar músicas que lembravam filmes de marines e pontes do rio Kuai até que se ouve uma voz de alguém que não era seguramente locutor conhecido da rádio: aqui posto de comando do movimento das forças armadas... e tudo o mais que se conhece. Golpe militar, pensei. E pensei o pior. Pensei nas informações que corriam sobre uma certa oposição de extrema direita ao Marcello Caetano, ao que constava, liderado por Alpoim Galvão. Mas também pensei que se fossem esses, não se davam ao trabalho de recomendar calma à população e prometer que seríamos informados logo que a situação se normalizasse.

Quando entrei na aula já a professora Lília dançava a valsa com Heideggar ou Kant e eu a perguntar se alguém sabia o que se passava e ela a querer expulsar-me e eu a perguntar-lhe se ela não tinha nenhuma ideia melhor no momento em que estava em curso um golpe de estado em Portugal. A aula acabou logo ali e fomos todos, muitos, para a frente da Escola Prática de Cavalaria. Ninguém sabia que tinha sido precisamente dali que tinha saído a coluna militar comandada por Salgueiro Maia.


Depois começaram a chegar notícias e a gente a encher as ruas de riso e abraços e a gritar liberdade. E foi sempre isto que eu achei que era a revolução.


Páro aqui. Vou abraçar abril e o futuro.

23 de abril de 2009

Bomba relógio

Graças a invisível mão amiga, sentámo-nos há dias nos dois melhores lugares do CCB. Partilhámos, de mão dada, momentos extraordinários do espectáculo com a Cristina Branco. Confesso que sozinho talvez não fosse ver. Ficou-me sempre algum preconceito, eu sei, em relação ao fado, mas aqui até gostei de dois ou três fados.
O espectáculo, na base do último disco, Kronos, não é de fado. É música muito bem "esgalhada" e com alguns momentos verdadeiramente sublimes.
E nós ali, de mão dada, na primeira fila. E eu a fazer tremer a cadeira com o frémito da música. A trinta beats por beijo.
Há palavras que nos beijam porque são redondos vocábulos. O'Neil e Zeca na mesma voz. E também Sérgio Godinho.

o teu amor quando palpita
verdade seja dita
põe rastilho no meu peito
trinta batidas num só beijo
sem defeito

feito tac e tic
o teu amor rebenta o dique
feito tic e tac
o teu amor passa ao ataque
feito tac e tic
o teu amor rebenta o dique
feito tic e tac
eu à defesa ele ao ataque
e toca e foge e toca e foge
é uma bomba relógio

o teu amor quando palpita
verdade seja dita
faz-me atrasar os ponteiros
como a ostra esconde a pérola
aos viveiros
feito tac e tic
pérola solta-se a pique
feito tic e tac
faz-me o coração um baque
feito tac e tic
pérola solta-se a pique
feito tic e tac
faz-me o corpo todo um baque
e toca e foge e toca e foge
é uma bomba relógio


Bomba relógio (S. Godinho)
Canta: Cristina Branco

21 de abril de 2009

Pequenas indecisões


Andou mais de cinquenta anos hesitante entre ser poeta ou ser cientista.

Finalmente, decidiu tornar-se agricultor.

Vi-o hoje a arrancar umas couves que atrapalhavam o vemelho das papoilas.

27 de março de 2009

Tu e Ter (nura)

Vou namoralmoçar.

24 de março de 2009

Educação con-sensual

Retrato de JCN tirado aqui

Já uma vez alguém por aqui fez um exercício semelhante ao que Gregory Bateson praticava e chamava de Metalogos - diálogos fictícios que mantinha com a filha sobre as mais diversos assuntos que iam da religião à ciência dando a volta pelos quatro cantos da fantasia.

Hoje apetecia-me uma conversa assim:

- Pai, o João César das Neves escreve tanto sobre Educação Sexual . Deve ser um entendido. Ele teve Educação Sexual quando andou na escola?
- Claro.
- Mas só agora é que vai haver e parece que ainda nem todos se entendem sobre como vai ser...
- É verdade, há muitas dúvidas. Dantes não; estavam todos de acordo: os professores, o ministério, a igreja...
- Sim? Então podiam manter isso. Qual era o programa?
- O que é que achas?
- Não sei... Talvez falassem do que é ser rapaz e ser rapariga e como é que os rapazes vêem as raparigas e as raparigas os rapazes.
- Continua.
- Pois, não havendo uma disciplina de Educação Sexual, devia haver qualquer coisa. Um programa para as várias disciplinas. Havia?
- Sim, havia. Um programa muito simples.
- Ah. O que dizia?
- "bendito é o fruto do vosso ventre" e "não nos deixeis cair em tentação".
- Lindo! Era assim por metáforas, como a poesia...

18 de março de 2009

Uma verdadeira besta em África

Há quem o trate por sua santidade, mas este ser tenebroso de nome Ratzinger é apenas o chefe de um estado remanescente do antigo império romano. E, para quem ainda tenha dúvidas, acaba de demonstrar que é uma verdadeira besta. Escolheu África, o continente onde a contaminação pelo VIH/SIDA está imparável, onde as crianças nascem para morrer com SIDA, insistir na sua senda contra o uso do preservativo, não hesitando em recorrer à mentira e à negação da evidência científica. Esta besta apela à condenação à morte de milhões de pessoas. Mais que Hitler (de quem, dizem, que foi fã na juventude), muito pior que Bin Laden. Devia ser julgado por crimes contra a humanidade.
Eu juro que me esforço por entender donde vem tanta perfídea e crueldade que se diz em nome de um deus que titulam de bom e mesericordioso. Não sou crente, mas sou capaz de subscrever muitos dos valores ditos cristãos, em pé de igualdade com muitos crentes de quem sou amigo. Leio a bíblia e não encontro esse fundamentalismo. Encontro alegorias interessantes, mas também histórias delirantes e prescrições que poderiam ter sentido em tempos e que hoje, a serem tomadas à letra, seriam evidentemente ridículas e hilariantes.
Interrogo-me sobre a possibilidade (e a sanidade mental) de alguém falar em nome de deus e espanta-me como tanta gente acredita. Não sou seguramente um iluminado; não serei eu a estar completamente certo e os que acreditam uns mentecaptos. Há aqui um mistério, não divino, mas da própria humanidade. Esforço-me, repito, por entender este mistério desde que me conheço.
Há tempos, numa pesquisa sobre a posição da igreja católica relativamente à educação sexual fui ter à encíclica Humae Vitae (Paulo VI, 1968) onde se explicita genericamente uma espécie de legitimidade que, não sendo de natureza política, nem científica, nem jurídica se pretende afirmar superior a todas elas:
Nenhum fiel quererá negar que compete ao Magistério da Igreja interpretar também a lei moral natural. É incontestável, na verdade, como declararam muitas vezes os nossos predecessores,(1) que Jesus Cristo, ao comunicar a Pedro e aos Apóstolos a sua autoridade divina e ao enviá-los a ensinar a todos os povos os seus mandamentos, (2) os constituía guardas e intérpretes autênticos de toda a lei moral, ou seja, não só da lei evangélica, como também da natural, dado que ela é igualmente expressão da vontade divina e que a sua observância é do mesmo modo necessária para a salvação.
Ou seja: Jesus disse a Pedro e aos apóstolos que deus lhe teria dito que as leis religiosas e naturais somos nós que as fazemos. É mais ou menos isto que proclamam os chamados doutores da igreja e que ao longo dos tempos justificaram atrocidades em nome de deus.
Não sei que sentido isto fará para um crente. Para mim, alguém que me diga que recebe orientações de deus, que deus lhe disse isto ou aquilo, até prova em contrário, está a viver um estado psicótico e, muito provavelmente a necessitar de ajuda especializada.

Se é isto que se passa com Ratzinger, averbe-se como atenuante e oriente-se o homem para ajuda terapêutica. Mas estou absolutamente convencido de que estamos perante uma verdadeira besta.

Sei que este escrito pode chocar alguns crentes e seguidores do seu papa. É um problema que terão que resolver. O que eu digo dessa besta é merecidamente insultuoso, porém não condena ninguém à morte.
Aos que se sentem como eu revoltados sugiro que se atirem preservativos contra o clero, à semelhança dos sapatos contra o Bush.

16 de março de 2009

Tranquilidades

"Estou com a minha consciência tranquila."
Esta besta, ou "criatura de deus" para alguns, é o arcebispo de Olinda e Recife e dá pelo nome de José Cardoso Sobrinho. Há quem o trate por Dom antes do nome, mas não consigo encontrar outro epíteto de tão merecimento como besta.
Foi este representante do vaticano que decretou a excomunhão de todas as pessoas envolvidas no aborto a uma menina de 9 anos, violada pelo padrasto. Sobre o violador, nem uma palavra. Será certamente acolhido no "rebanho" (ou na manada, ou na vara, ou na récua, ou na cáfila, com todo o respeito pelos respectivos animais) e tomará os sacramentos a que tem direito. Se necessário for, ainda terá o conforto espiritual e psicológico bem como o perdão e a misericórdia divina.
Agora que já despejei a minha ira, vamos ao que interessa. A revista brasileira Veja foi entrevistar o senhor que não se cansa de repetir "Estou tranquilíssimo" e ao questioná-lo sobre o que acha do facto de tantas pessoas, muitas católicas, se revoltarem com a sua posição, o dito responde assim:
Em primeiro lugar, nós temos de colocar essa questão no âmbito religioso. Acreditamos em Deus? É sim ou é não. E eu suponho que a grande maioria das pessoas acredita. E acreditar em Deus significa aceitar que Deus é a origem de tudo e é também o nosso fim. Essa é uma verdade fundamental. É premissa importantíssima para dizer que a lei de Deus está acima de qualquer lei humana. E a lei de Deus não permite o aborto.
E seguem-se outras que me dispenso de transcrever, mas que são ilustrativas do modo de pensar da igreja. Das igrejas.
Ainda este fim de semana ouvia o Júlio Machado Vaz, na Antena 1, sobre a posição oficial da igreja católica face ao uso do preservativo como forma de cobater a propagação da SIDA em África e, sobre as diferentes posições dos representantes dessa mesma igreja no terreno. Dos mais pragmáticos (Desmond Tutu) que recomendam o uso do preservativo para salvar vidas, aos mais fundamentalistas, capazes de recorrer à mentira, à falsificação, à ameaça e ao terror, para impedir a adesão, já por si difícil, das populações ao uso do preservativo.
O José Cardoso Sobrinho pertence seguramente a esta espécie.
Umas bestas. Todas de consciência muito tranquila.

12 de março de 2009

Lost in translation

Não. Não vou falar do filme de Sofia Coppola que ainda há dias vi em DVD. Até porque a estória do filme passa-se no Japão e este argumento é made in China e confundir a China com o Japão é para os orientais uma indelicadeza tal que é capaz de deixar o naturais desses dois países com os olhos em bico. em bicos diferentes, obviamente.
O escrito aqui transcrito faz parte das indicações, instruções e alertas que acompanham um produto importado da China por alguém chamado Shun Xiang (que deve ser tão difícil de encontrar na China como José Silva em Portugal) que diz estar na Est. Nac. 10, Km 108.3 (a localização é bastante precisa - se não me engano é na recta de Pegões - mas não diz a que horas lá está), 2135 Porto Alto. Para quem estiver interessado também fornece o telefone 962369789.
Agora, meus caros amigos, lanço aqui um desafio. Assim uma espécie de concurso tipo quem quer ser um milionário rafeiro.
Quem for capaz de identificar o produto em causa, depois de ler isto, ganha um exemplar do produto.

Esteira do Aparamento
Eficaz proteger o anb da casa evite de causar
Aplicável ao fundo do furniture goste da tabela e da cadeira etc.

Illustrtions para aplicação
Repare o peda cadeira, tabela, dispositivos elétricos para proteger de encontro ao risco, repare-o na porta, no frame do window e na porta de armário para a finalidade do amortecedor.

Aplicação: Aplicável ao pé do furniture e de dispositivos elétricos tais como ware da cadeira, da tabela, do metal, do china ou do vidro, para evitar o risco da placa do assoalho ou a tabela surface. Also usada impedindo o deslizamento, a vibração, e trabalhar como um amortecedor.

Loja de Caution: Inflammable! Never na alta temperatura, mantem-na por favor corretamente após a desembalagem.

A- limpe a superfície onde esta esteira furará sobre
B- Descasque a esteira fora de seu papel da liberação
C- Fure a esteira na finalidade especial limpa de surface. For, fure mais para thickening

Colagem material EVA de Compositions: self-adhesive


Esta prosa não é nada fácil. Em tempos houve uns literatos que quase lá chegaram e o melhor que conseguiram foi prometer que um cadáver esquisito haveria de beber o vinho novo, mas isso já era gente com estudos e dominavam técnicas de escrita.
Hoje temos instrumentos de tradução automática capazes de produzir um elaborado dadaísmo. Para percebermos bem como funciona, façamos o percurso ao contrário. Pedimos primeiro para traduzir de português(?) para inglês a ver o que dá.

Wake of chipping Effectively protect the ANB of the house to avoid causing Apply to the bottom of furniture like the table and chair etc.. Illustrtions for application Note the peda chair, table, electrical devices to protect against the risk, note it in the door, the frame of the window and door of the closet for the purpose of the buffer. Application: Applicable to the foot of furniture and electrical devices such as ware of the chair, the table of metal, china or glass, to avoid the risk of the floor plate or the table surface. Also used to prevent slippage, vibration, and work as a buffer. Store Caution: Inflammable! Never in high temperature, please keep it properly after unpacking. A-clean the area where the mat on furará B-husking the mat out of his role in release C-drill in the wake of special purpose clean surface. For, drill for more thickening Bonding Compositions of EVA material: self-adhesive

Convenhamos que fica assim uma coisa sonsa. Praticamente realista.
Mas para sabermos exactamente do que se trata, traduzamos agora para chinês tradicional(!).

後切有效地保護ANB房子,以避免造成適用於底部的家具,如桌椅等。 Illustrtions的應用請注意環椅子,桌子,電氣設備,以防範風險,注意在門口,框架窗口和門衣櫃為緩衝區。 應用:適用於腳下的家具和電器設備,如瓷器的椅子上,桌上的金屬,我國或玻璃,以避免地板表板或表面。也被用來防止滑動,振動,和工作作為緩衝。 儲存注意事項:易燃!從未在高溫,請保持適當的後拆包。 一個清潔的地區,墊子上furará β - husking墊子了他的作用,釋放架C -演習之後,特殊用途清潔的表面。因為,演習更加增厚鍵組成的EVA材料:自粘

Agora sim. Quem souber chinês identificará facilmente do que se trata.
Os dois primeiros concorrentes a acertar, ganham cada um um exemplar.
Este concurso não foi autorizado por nenhum Governo Civil nem Militar e por isso não terá a rigorosa fiscalização da Santa Sé nem da PSP de Braga não será apresentado pelo Malato nem pelo Gouxa e garante-se já que ninguém ganha nada a não ser uma imagem do produto aqui postada.

10 de março de 2009

Mar somos, mais que marinheiros


Só o mar das outras terras é que é belo.
Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca...
O marinheiro. F. Pessoa (*)

Sabes? Também eu um dia descobri que pelo Tejo se ia para o Mundo. Muito antes de descobrir este universo do Pessoa(s) já sonhava com este partir e ficar, esta divisão entre a aventura e a conformidade e uma eterna saudade do futuro. Um dia parti donde já tinha partido tantas vezes e fiz-me marinheiro, mas foram mais as vezes que fiquei em terra com medo das tempestades que dizem que há no mar do que aquelas em que verdadeiramente embarquei. E isso tornou-se hábito e rotina escrito nas cartas de marear e diários de bordo ficcionados. Muitas vezes me esqueci de mim, dos que me importam; esqueci-me da verdade, da justiça e até do amor...
Sabes? Há tempos comecei a recuperar a memória. Essa memória de mim. Voltei a achar belo o Tejo da minha aldeia, a forma como nos devolve a luz ao pôr do sol e o eco da passarada nos salgueiros...
Virá a maré e será boa a que escolher. Escuto as gaivotas.
Obrigado pelo abraço.
(*) A peça de teatro O Marinheiro vai estar de novo em cena dentro de dias em Loulé, pelo TAL (Teatro Análise de Loulé) numa encenação de José Teiga, velho companheiro de Laboratório

4 de março de 2009

Um lustro



O Contador de Gaivotas foi criado em 4 de Março de 2004, por Gregório Salvaterra que após um virtual trespasse deste espaço foi contar pinguins para a Patagónia.


Cinco anos é mais ou menos uma idade de cão para um blogue. O que vale é que não vive todos os dias.

27 de fevereiro de 2009


Exmo Senhor Presidente da Caixa Geral de Depósitos

Há dois anos comprámos um T2 e contraímos um crédito à habitação na instituição bancária que V.Exa. superiormente dirige no valor de 100.000,00 euros para pagar ao longo de trinta anos. Após dois anos de pagamentos mensais verifico que a dívida praticamente não se mexeu. A minha mulher ficou desempregada o mês passado, logo agora que esperamos um segundo filho, de modo que o futuro mostra-se deveras preocupante.
Somos pessoas honestas e único rendimento que temos provém do nosso trabalho conta de outrem. Fizemos contas e prevemos que dentro em breve entraremos em situação de incumprimento relativamente às prestações da casa.
Antes que isso aconteça decidimos vir junto de V.Exa. propor uma negociação do empréstimo do qual a Vossa instituição é legitimamente credora.
Fizemos contas e achamos justo vender o apartamento à Caixa geral de Depósitos por 300.000,00, valor provavelmente muito abaixo do que valerá daqui a 30 anos.
Informei-me junto do construtor e ele garantiu-me que na construção só utilizou cimento da Cimpor o que só por si é uma verdadeira mais-valia.
Cordialmente
Manuel Finório

25 de fevereiro de 2009

Coisas lembradas

Manhã de carnaval na Ria Formosa
Lembro-me que na minha infância adquiri, nem sei como, o hábito de percorrer de memória todo o meu dia antes de adormecer. Fazia-o todas as noites depois de apagar a luz. Adormecia assim; possivelmente, muitas vezes, muito antes de terminar essa reflexão espontânea. Também me acontecia ficar na cama de manhã a completar ou a reeditar a revisão dos acontecimentos da véspera. Interroguei-me muitas vezes porque o fazia, quase compulsivamente, e para que serviam essas memórias assim guardadas - hoje, numa linguagem de arquivista, diria, devidamente catalogadas e indexadas. Acho que tinha uma memória prodigiosa e era capaz de localizar qualquer evento: foi no dia que a vizinha Rosa partiu o pé, andava a apanhar azeitona e caiu da oliveira; eu trazia um papel escrito da professora para a mãe ir falar com ela; não dizia para quê, mas eu sabia que era por causa de ainda não ter levado o dinheiro para comprar o livro de religião e moral, 'A nossa história divina' que o padre Octávio tinha levado para a escola, uma caixa cheia deles; nessa tarde briguei com o Luciano e quando rebolámos pelo chão na refrega apanhei com um bafo de mau hálito que cheirava ao mesmo que um alguidar de tripas da matança do porco, no domingo passado.
Os acontecimentos eram assim guardados agarrados uns aos outros e depois vinham com as cerejas e as conversas.
Muito mais tarde compreendi para que serviam afinal essas memórias. Compreendi que as coisas de que nos lembramos também servem para nos fazer felizes e infelizes. Sim, uma coisa e o seu contrário.
E eu que tinha dantes uma memória daquelas estou agora a tentar lembrar-me para que é que comecei a escrever isto. Dever ser... pois, deve ser por isso mesmo.

24 de fevereiro de 2009

Carne aval

Ficará melhor assim, em Braga? Imagem roubada aqui
De acordo com uma notícia desta manhã, a PSP de Braga terá apreendido todos os exemplares de um livro sobre pintura, à venda numa banca de livros, que exibia na capa um célebre quadro de Gustav Courbet (1819-1877) L'origine du monde (1866), exposto no museu de Orsay, em Paris. Imagino que terá procurado o autor para lhe dar ordem de prisão, mas como não encontrou constituiu como arguidos (?), diz a TSF, os funcionários da livraria.
Parece que quem ficou contente foi o bispo de Braga que já quis saber quem são os zelosos agentes, para os enviar a Florença e apreender o David que um tal Miguel Angelo esculpiu muito antes de formar uma banda pop com uns amigos de Cascais. Mas também pode pedir ajuda ao Berlusconi que já tem alguma prática em tapar as anatomias expostas pelos artistas.

Lembrei-me da imagem acima que também deu polémica há uns anos na Áustria e que proponho aos editores da obra, para uma edição especial para a região demarcada de Braga.
Uma imagem do quadro original, pode ser vista aqui.

19 de fevereiro de 2009

Twitter (tu e mais quem?)



Aquele deputado é um erro cultural. Não sei nem quero saber a sua orientação sexual, mas punha-o era a guardar porcos.


(digo eu)



na política, as novas tecnologias são importantes porque nos aproximam dos cidadãos”.


O senhor deputado provavelmente deputou assim um fraseado que twittado se torna tão público como os comentários do ministro sobre a mulher de Sarkozy apanhados pelos microfones direccionais dos repórteres.
Por acaso também acho que as novas TIC aproximam dos cidadãos alguns tiques dos políticos. É bom que os cidadãos saibam o que há por debaixo das poses sérias, enfatuadas e engravatadas.
O deputado em causa veio rapidamente desmentir que tivesse escrito aquele comentário, que não percebe muito de twitter e que alguém twittou em seu nome e que pedia desculpa e encerrava a sua conta. Até podia ser que assim fosse, mas é pouco credível e além disso até se poderia verificar recorrendo assim a um amigo especialista em informática. Encerrar a conta e armar-se em espanto também é uma boa opção. Tão boa que o Público subscreve esta tese.
Ao Correio da Manha - que também acolhe de bom grado esta versão o deputado e não transcreve o comentário, classificando-o de ofensivo para a jurista Isabel Moreira - admite que poderá ter havido negligência sua por usar a mesma password da sua página pessoal. Podia dizer que era um número de oito dígitos que começa em 1 e acaba em 2 e que coincide com uma data de que nunca se esquece. Assim o número de potenciais suspeitos seria de tal modo elevado que teria um valor superior a um atestado de inocência passado por Cavaco Presidente da República.
Isto de facto é uma grande chatice por um lado, mas para o outro, uma grande oportunidade de negócio para os produtores de outdoors. Depois do Pinócrates e do Pinoleiro (afinal quem é o Pinóquio?), já poderá estar em preparação um novo cartaz do Pinuarte. Digam lá que não seria original?

12 de fevereiro de 2009

Revolução

O Google comemora assim o 200º aniversário de Charles Darwin.
E, pensar que ainda hoje, há quem decrete o criacionismo como doutrina oficial a ser ensinada nas escolas.
A teoria da evolução das espécies é uma verdadeira revolução na sua época. A sua obra conhecida como A Origem das Espécies é publicada em Novembro de 1859, com o título completo de On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. Esgotou rapidamente e como não podia deixar de ser desencadeou logo grande oposição da igreja católica que ainda persiste hoje.

11 de fevereiro de 2009

A bispalhada à portuguesa


Eu juro que o que me apetecia mesmo era malhar nos sotainas. De vez em quando saem das sacristias e vêm botar discurso à política. Foi assim em Itália, sobre a morte assistida no caso Eluana a que não tiveram pejo em catalogar de assassínio; é assim em Portugal tentando impedir que se discuta o direito de os homossexuais poderem constituir legalmente uma família, adiantando já que os católicos não deverão votar em partidos que o advoguem (já vieram tentar limpar a borrada que fizeram, mas a gente sabe como eles são).

Eu não acho que lhes esteja vedada a opinião sobre qualquer que seja o assunto da vida da sociedade, mas confesso (!!) que me incomoda o tom de ameaça e uma espécie de ódio a quem não os segue, com que o fazem. E que há outras prioridades e tal, e que os políticos deviam preocupar-se com outras coisas. Até poderá ser que assim seja (acho que não há maior prioridade que o reconhecimento dos direitos humanos) e que a sua participação na discussão seja importante, mas então, constituam-se com partido, movimento, associação, clube, ou como simples cidadãos, qualquer coisa terrena e sujeita às regras da democracia, em igualdade com todos e não com aquele ar de que são intérpretes da vontade de deus e que isso se sobrepõe à legitimidade democrática. Sujeitem as suas opiniões ao sufrágio da sociedade com as devidas consequências, em vez de ao julgamento divino.

Esta gente representa um Estado confessional que não se rege pelas regras normais das democracias. Já vimos invadir estados sobranos, provocar guerras e derrubar governos por motivos mais ou menos semelhantes.

Portugal é uma República e um Estado soberano não religioso. O que a bispalhada às vezes faz é uma ingerência inadmissível. Imaginemos que os altos funcionários da embaixada portuguesa no Vaticano tentavam influenciar os membros da Cúria romana (não sei bem se é este o órgão) para não elegerem tal cardeal para papa porque cheira mal dos pés. É basicamente a mesma coisa.

9 de fevereiro de 2009

(di)Visões




Marcelo diz que o PSD pode chegar ao ponto de pé de flor pedroso.


Por seu lado, Manuela Ferreira Leite recusa-se a comentar o despedimento de Scholari, vítima dos saldos do freepor(t).


Enfim, talvez, dividindo o mal pelas aldeias o resultado seja um número primo.

5 de fevereiro de 2009

(tele) Visões


Em Nova Iorque abre um quiosque para distribuir notas de dólares (no mínimo 100) a quem quiser. Formam-se filas de muitas horas, mas quem precisa não desiste. Desconfia-se que aquilo é uma espécie de casting da pobreza para um qualquer reality show de horário nobre.

A porno feira de Gondomar afirma-se muito democrática e dá igual destaque a todas as opções sexuais e religiosas. Não é ainda desta que o major mostra o apito, mas a organização anuncia descontos para estudantes e reformados.

O capo da ANTRAN foi oferecer uma boleia a Manuela Ferreira Leite que em jeito de agradecimento disse qualquer coisa ininteligível. Saem honradas as mulheres da recta de Pegões, porque aí são absolutamente claros os negócios com os camionistas.



Amanhã há conquilhas.

Visões III

imagem daqui
imagem daqui


O Ministro dos Assuntos Parlamentares quer que a líder do PSD, Manuela Ferreira Leite esclareça o que pensa da campanha de «ataque pessoal» ao primeiro-ministro lançada pela Juventude Social-democrata (JSD). Augusto Santos Silva refere-se aos cartazes afixados pela JSD, sob o título de «Pinócrates».


imagem daqui


Contaram-me que já há alguém a preparar um cartaz de resposta inspirado naquele da Tania Derveaux.

Chama-se a "Bela Adormecida" e promete não-sei-o-quê para quando acordar.

Alguém acredita?

Há ainda muitas personagens do universo infantil disponíveis para este ano de campanhas eleitorais. Já que estamos a este nível de discurso político, não se acanhem.
Posso já anunciar:
Brevemente. Numa pantalha perto de si.
As quase maravilhosas aventuras de...
Diupão e Diupona

4 de fevereiro de 2009

Visões II

Foto daqui


Portugal foi multado.
O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos condenou esta terça-feira Portugal por ter proibido, em 2004, a entrada nas suas águas territoriais de um navio fretado por organizações favoráveis à despenalização do aborto.

Visões I

Foto daqui

- Maria, estás a ver a pobreza?
- Não, meu querido Aníbal António...
- Ah, pois!... Só se consegue ver com estes óculos especiais, por isso é que não vês.
- Não vejo, mas acredito que existe. Já ouvi dizer...
- Eu bem dizia que a lei do divórcio ia dar nisto...

Lembrança


fria mais que a noite é a ausência
por isso os dedos acordam aves
e soltam-se riso sem pudor
aos recados abraços de jasmim

22 de janeiro de 2009

Todo o cuidado é pouco



Mário-Henrique Leiria pisca o olho a Daniel Filipe

A subversão é o único alimento que se pode comer fora de prazo.
Não mata, nem engorda, mas faz umas cócegas danadas na pasmaceira oficial.
Um pires de tremoços.
Faxavor.

21 de janeiro de 2009

Tu podes, pá!


Yes, you can!
Muito se tem dito sobre esta onda de esperança com a eleição de Barack Obama para presidente dos Estados Unidos da América. Eu próprio, antiamericano quase natural, me deixei contaminar por esta onda que vem bem ao encontro daquilo que são os meus desejos para o mundo. Paz, justiça, equidade entre as pessoas e os povos no acesso aos recursos, respeito pelos direitos humanos, respeito pelo ambiente.
Gostei sinceramente de alguns discursos que li e acho que tirando uma ou outra coisa, são de fazer inveja a muita prosápia que se diz de esquerda e progressista (mas o homem também nunca disse que era de esquerda nem eu sei o que é isso nos EUA). Soube ontem que os seus discursos são escritos por um rapaz de 27 anos, mas a força e convicção não se pedem emprestados (li há dias, a propósito de histórias bíblicas, que as belas narrativas não tem autores, têm contadores) e este homem já foi capaz de fazer acreditar a meio mundo que algo vai mudar.
Quem me conhece sabe que, apesar de tudo isto, eu, que sofro de um cepticismo quase crónico, mantenho algumas reservas até que se cumpram algumas condições:
- retirada das tropas de ocupação do Iraque, cedendo o lugar a uma força de paz, se for esse o entendimento das Nações Unidas
- sujeição plena às regras do Tribunal Penal Internacional
- adesão voluntária à Plataforma de Quioto, com todas as consequências em plano de igualdade com todos os outros países
- tomada de posição clara e equidistante relativamente ao conflito do Médio Oriente
- encerramento do campo de concentração de Guantánamo e libertação de todos os presos sem culpa formada
Yes, you can!
Fiquei a saber hoje nas notícias que já foi dada ordem para suspender todos os processos relativamente a Guantánamo. Fico contente, mas é preciso muito mais. Sei que não vai ser fácil e que isso vai mexer com interesses muito poderosos, mas se assim não for o mundo nada colherá da esperança semeada durante os últimos meses.
Yes, you can!
Só mais uma coisa em jeito de rodapé: fiquei a saber que um descrente como eu, ou um devoto de uma outra religião não cristã, mesmo que ganhasse as eleições não poderia tomar posse como presidente dos Estados Unidos. Pelo menos assim. É que o protocolo oficial de tomada de posse inclui o jurar sobre a bíblia e invocar a ajuda de deus para cumprir o mandato.
Já agora, e na linha do seu discurso sobre a tolerância religiosa, seria bom retirar das notas de dólar a frase in god we trust, quanto mais não seja, porque essa confiança não tem dado resultados e deve ser antes procurada e fomentada nos que gerem a banca e outros grupos financeiros.

20 de janeiro de 2009

Luz


Deve ser bonito o Universo olhado do sítio que se deseja. Mais bonito com a cúmplice mão-dada e o sorriso a iluminar-se quente mesmo quando o sol se inverna assim preguiçoso.

Mas eu não estava e sempre estive lá. A olhar o Universo com os teus olhos.

Entretanto os meus amigos, de outros saberes também universalistas, enviaram-me a habitual newslwtter e não resisti a esta epígrafe:


«Il faut conserver dans nos esprits et dans nos coeurs la volonté de lucidité, la netteté de l’intellect, le sentiment de la
grandeur et des risques, de l’aventure extraordinaire dans laquelle le genre humain, s’éloignant peut-être des conditions
premières et naturelles de l’espèce, s’est engagé, allant je ne sais où
. »

P. Valéry ‘La Politique de l’Esprit’, 1932

Que é mais ou menos o mesmo que (tradução minha):

«É necessário conservar nos nossos espíritos e nos nossos corações a vontade de lucidez, a clareza do intelecto, o sentimento da grandeza e dos riscos, da aventura extraordinária na qual o género humano, afastando-se talvez das condições iniciais e naturais da espécie, se comprometeu, indo sei lá onde.»

E não consegui deixar de pensar em todas as complexas coisas que se passam e estão a acontecer hoje aqui e ali; deste e do outro lado do Atlântico; deste e do outro lado do equador.


O Bolero de Ravel inicia o seu ostinato no telemóvel e nem preciso de ver quem me liga.

Do outro lado brilham constelações.


É por isso que este post vai todo escrito em Lucida Grande.

19 de janeiro de 2009

DesemBUSHemos, pois

E se de repente... assim de um dia para o outro... o mundo ficasse melhor?
Eu sei que as coisas não são assim, mas sou capaz de acreditar na possibilidade de uma esperança colectiva. Um dia acordamos com vontade de viver em paz e somos capazes de nos contagiar uns aos outros e esse querer propaga-se como uma doença. Boa.
O mundo sobreviveu à era Bush. Bush vai-se embora. Desembuche.


Tom Zé e Jarbas Mariz cantam "Companheiro Bush"

Então e o Cavaco? Nunca mais acaba?
Aceitam-se contributos para: "Uma canção para cavaco".
Mas com estilo.

Imagem apanhada no calçadão

16 de janeiro de 2009

ESEanima. Ânimo!


Parece que já não há lugar para mais inscrições

Pode sempre ver em directo na CNN ou ler depois
a reportagem na TIMES

AniMO

Em nome do quê?

Seguindo um pouco algumas ideias daqui e outras dali e talvez dacolá, vêm-me às vezes razões para um proselitismo ateu, se é que essa coisa existe. Provavelmente, não, mas não me parece que seja impeditivo de nada.


Não tenho nada contra quem acredita num deus ou em vários deuses, desde que o façam na esfera privada ou no interior da sua comunidade de crentes. Sempre que isso se torna público e é trazido para a vida social e política sou contra. Quando isso acontece, causa-me sempre alguma brotoeja. Até parece que é suposto que eu, não crente, tenho obrigação de estar a par das conversas que cada um tem com o seu deus e, sobretudo que terei escutado o que deus lhes disse. Nas suas cabecinhas crentes está embutida a ideia de que o seu deus é universal e que portanto fala para todos e que todos ouvem e se há uns que não ligam ou não acredita é porque têm uma deficiência neuronal na área da fé. Enfim, também tenho direito aos meus delírios.


Se a fé, a crença num deus salvador, justiceiro, bom, mau ou como calha, se reservar ao âmbito privado, parece que não vem mal nenhum ao mundo. Pelo contrário, quando uns se armam em iluminados de uma capacidade, conferida e legitimada apenas pela sua fé, de atribuir a outros uma classificação (inclusiva ou exclusiva) que no limite pode acabar numa guerra a matarem-se uns ao outros, há aqui alguma coisa que não está bem e eu não consigo ficar indiferente e respeitador da "liberdade religiosa". Se pensarmos que acontecem guerras em nome de um deus que ainda por cima dizem ser único e o mesmo para todos, não sei mesmo que nome dar a isto. Estou indeciso entre procurar aqui ou aqui.


Já me têm chamado intolerante e arrogante perante a fé dos outros por ter esta posição de confronto. Costumo responder que o facto de não acreditar na existência de um deus não condena ninguém à fogueira, ao apedrejamento, ao ostracismo e por aí fora. Não há conhecimento de que um ideal ateu tenha dado origem a uma "guerra santa", "jihad", ou "cruzada" em que uma parte da humanidade quer eliminar outra parte a quem designa reciprocamente como infiel, apenas porque, ou não acredita em deus, ou, acreditando, acredita de forma ligeiramente diferente.


Se deus existisse, já teria posto cobro a isto. mas deus, dizem, concedeu aos homens o "livre arbítrio". Então está bem. Podem matar-se uns aos outros em seu nome.





Há dias recebi por mail um video em que Obama fala sobre tolerância religiosa. Vinha legendado em português, não tinha som e era uma nítida colagem de partes embora aparentemente do mesmo momento. Duvidei da sua autenticidade e fui pesquisar. Esse discurso existiu mesmo e terá ocorrido em Junho de 2008 e logo no início diz assim:


Whatever we once were, we're no longer just a christian nation; we are also a jewish nation, a muslim nation, a buddhist nation, a hindu nation and a nation of non-believers...



Não consegui a transcrição integral, mas do que me lembro da legendagem em português é bem interessante. Também li nessas pesquisas que este discurso causou bastante polémica no seio dos meios católicos e evangélicos mais conservadores, acusando-o de pôr em causa a herança cristã e fundadora da América (também todos sabemos do valor dessas heranças em sangue) e o tom é de tal modo ameaçador que não me admiraria que um dia destes Obama sofra um atentado com essa motivação. Tudo em nome de deus, claro.

13 de janeiro de 2009

Resiste

Eram outras lutas e outras as formas de lutar. Lembro-me da audição clandestina, mas ao mesmo tempo capaz de puxar o som ao máximo, num desafio adolescente. Era sentido como uma forma de resistência e luta. Causava-nos um arrepio e uma vertigem como se o regime e a guerra fosse acabar já a seguir.
Ontem, como hoje, resistir é já vencer.




Resiste, meu Amor, resiste,
Nas grades do país-prisão,
Não mostres esse ar triste,
Não mostres desolação.

Não, meu Amor,
Não penses que te deixei,
Eu tenho milhões de irmãos
E como eles te salvarei.

De vermelho a nova aurora,
De vermelho vai chegar,
Sorrirá quem chora agora
Quando eu cantar novo cantar
.


Luís Cília
Pode ouvir-se aqui.

4 de janeiro de 2009

Deleituras

Eu que me vejo ateu já devo ter lido mais da Bíblia que muitos dos que se afirmam crentes (ou querentes que exista um deus) e com genuíno interesse em entender o significado daqueles escritos, conjugando-os com o que sei da história da antiguidade e também com as estórias que fui ouvindo da tradição popular. Quando, do Saramago, li O Evangelho segundo Jesus Cristo, tentei encontrar no Novo Testamento a correspondência daquelas narrativas que li em simultâneo. Entre duas ficções, a do Saramago tem, para mim uma qualidade literária incomparável. No entanto, e de acordo com a minha visão não religiosa dos escritos, ditos, "sagrados" é possível, a partir deles, talvez entender o entendimento que os crentes mais fanáticos têm do mundo.

O mundo está em guerra. Muita desta guerra é mais ou menos religiosa.

A mulher que eu amo e que diz amar em mim a "infinita curiosidade" ofereceu-me pelo natal um livro delicioso de José Tolentino Mendonça, de quem já conhecia vagamente alguma poesia, chamado A leitura infinita: Bíblia e interpretação. O título não engana ninguém. A gente sabe logo ao que vem.
A páginas 58, reza (!) assim:

«O estatuto do texto sagrado confirma-o como geneticamente plural: ele junta o elemento histórico com a intencionalidade ampla e descontínua que é necessário perscutar. O sujeito desta perscutação é o leitor, elemento requerido, suposto e esperado pelo próprio texto. O acto da leitura é uma espécie de pacto selado entre ambos. Por um lado, o leitor (não um qualquer, mas aquele dotado de competência) activa a mecânica textual, preenchendo os espaços vazios e indeterminados que vão depois permitir compreender o texto. Há uma história do texto que o leitor é chamado a explorar com o auxílio de instrumentos diversificados e complementares. Ele não pode ignorar a proveniência, a cultura, a linguagem, a composição ou a finalidade do texto. Sem esse levantamento dificilmente pode chegar-se à compreensão» (*)

Eu diria que isto vale para toda a literatura. Mas, pronto. Lá fui eu, de novo, mergulhar na Bíblia, assim ao acaso e encontro:
Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e os fins da terra por tua possessão.
Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro.
(Salmos 2: 8,9)

Não posso deixar de pensar que anda aí muita gente a seguir isto à letra.


(*)José Tolentino Mendonça. A leitura infinita: Bíblia e interpretação. Lisboa. Assírio & Alvim. 2008.

1 de janeiro de 2009

Olá 2009


para o mundo

para aqueles que amo

para mim

para todos os outros



saúde e energia para


a construção da paz

respeito entre os povos

combate à fome e à doença e à pobreza


a força e tenacidade para concluires a tese

estabilidade para continuares a fazer o que tanto gostas

mais aventuras com as meninas


um lugar especial no teu coração

compromisso maior na inovação e mudança

generosidade


inteligência e sabedoria para não deixar o mundo pior do que estava quando nascemos.


um bom resto de ano 2009

5 de dezembro de 2008

O Modelo, a Popota e o Tony Carreira

O meu ouvido, musical e muito relativo, apreende discursos como fraseados sonoros, melodias, batidas rítmicas e, frequentemente ruídos (ia a escrever sem qualquer classificação musical, mas pensando melhor, não é bem assim).

Dum ponto de vista meramente convencional, a maior parte dos discursos que nos entram em casa em prime time, não passa de ruído. Mas, tal como na música, tanto o ruído como o silêncio podem servir intenções estéticas ou buscas transpoiéticas (esta até a mim me surpreendeu). O ruído de um tipo da bola que fala mal e nada tem para dizer vende uns minutos de publicidade num painel animado estrategicamente colocado por detrás. O Marcelo vende-se a si próprio nos gafanhotos que debita sobre tudo incluindo o partido de que já foi presidente e quer e não quer voltar a ser. A Ferreira Leite fica em silêncio cageano alternando com a aleatoriedade stockhauseniana. O Cristiano Ronaldo ganha uma bola de ouro enquanto que o Benfica tem que ganhar oito a zero a não sei quem para não sei o quê. Acontece-me às vezes, surpreender-me a trautear um comentário do Cavaco ou do PauloBento. Uma música pimba que nos fica no ouvido. Enfim.

Hoje queria falar do Modelo. A cacafonia dos últimos tempos faz-me lembrar um exercício antigo que consistia em inventar um relato de futebol numa suposta língua chinesa em que as palavras bola e golo se diziam como em português. É assim que me soam quer a Grande Orchestra Syndical quer a Camerata Ministerium:
只口喝的乌鸦在路边发现 modelo了一个装了半瓶水的长颈瓶。modelo 地直立在干涸的泥土里 modelo而且瓶口 modelo 比较细而且很深modelo 乌鸦的嘴巴根本够不着modelo 怎么办? modelo 聪明的乌鸦用嘴巴将路边的一块 modelo 块小石头放到了瓶子里。 不一会的工夫,石头已经填满了瓶子 modelo瓶子里的水位升高了。最后乌鸦终于喝到 popota tony carreira 甜美的瓶 中水neste natal 但瓶子牢牢

Há coisas incontornáveis. A invasão e a generalização de uma cultura de gestão por objectivos e a introdução de sistemas de avaliação nos diferentes níveis das organisações parece ser uma realidade donde não há fuga possível. Se calhar, o melhor mesmo é aproveitar algumas coisas boas que isso tem e procurar melhorar aquelas que são verdadeiras patetices irrealistas e que só estorvam o cumprimento da missão de um organismo.
A mobilização dos professores é admirável a vários títulos. Fez o que ninguém fez no resto da Administração Pública que já se entretém com o SIADAP há quase quatro anos. A princípio percebia-se o que queriam numa melodia mais ou menos cantabile e entendia-se a sua resistência a um processo que se desejava ver simplificado. Da parte do ministério, as vozes do que parecia um canto firme entram em sucessivo glissando e assiste-se a uma bemolização das ideias. A frente sindical empolga-se num crescendo até ao tutti finale no dia 3 de Dezembro. Só que, em sucessivas modulações, já se perdeu o tema em ambas as formações e o público já fica incomodado com a algazarra e daqui a pouco começa a patear.
Já se comenta entre o público que é preciso outro arranjo musical, outra harmonização.
O ministério sai mal, pela porta dos artistas e os professores, embora saindo pela porta principal autoglorificando-se como vêm cantando os seus hinos, não escutam as vozes que já lhes dizem que eles não querem é avaliação nenhuma - nem a do modelo nem a do pingo doce.
Como para o ano vai haver, para o próximo natal devemos ter novo concerto, desta vez com a Leopoldina e o Quim Barreiros.
(Já se diz por aí nas coxias laterais que o maestro vai substituir o outro na CGTP.)

20 de novembro de 2008

Coisas do amor na boca dos poetas


Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.
O amor sabe. O amor é um pássaro cego
que nunca se perde no seu voo.

Casimiro de Brito. Intensidades. 1995




Ontem na Biblioteca Municipal António Ramos Rosa - Sessão comemorativa dos 50 anos de vida literária de dois poetas por aqui nascidos ou crescidos. António Ramos Rosa e Casimiro de Brito.
Lançamento do livro de Casimiro de Brito, 69 Poemas de amor, apresentado por José Carlos Barros, leitura de poemas de Casimiro de Brito e de António Ramos Rosa pelo Afonso Dias e pela Tânia e apontamentos sobre a vida e a obra de Ramos Rosa, pelo Casimiro de Brito.
Confesso que conheço melhor e continuo a apreciar mais o Ramos Rosa, no entanto este livro surpreendeu-me muito positivamente. Contém 69 poemas, uns catados ao longo de toda a obra poética ( o primeiro data de 1957) e mais uns quantos inéditos. Percorrem o tema do amor do romantismo juvenil ao amor dos corpos na relva orvalhada. Um amor ao amor que se cresce vida e viagem que nunca acaba e se aproxima da morte nunca definitiva.
Neste livro, gosto particularmente dos Haiku como este:
Não grites, amor-
deixa-me escutar os teus rios
subterrâneos
(Eros mínimo -inédito)

Uma palavra ainda para a novíssima editora algarvia 4´guas (é assim mesmo que se escreve), um projecto de carolice que pretende subsidiar as edições de poesia com a venda da alfarroba da propriedade de um dos sócios. Sempre deve ser mais seguro que as fontes de financiamento da Byblos.

18 de novembro de 2008

Avaliação


Parece que já há um ministro avaliado e sem grandes burocracias.

livreiros entre outras coisas (III)

Há um amor comum a papéis pintados com tinta que às vezes nos leva para dentro de casas com cheiro a estórias e viagens escritas nas prateleiras. Procurávamos o último livro do Carlos Ruiz Zafón que tu nas tuas prodigiosas sínteses já chamavas a Sombra do Anjo e entrámos naquela perigosa livraria sobre a qual já aqui escrevi por duas vezes. Aquele caos é sedutor e apetece-nos ficar ali a remexer e a descobrir coisas que provavelmente já não existem noutros sítios. Os livros têm o preço escrito a lápis no canto da primeira folha e não têm aquelas etiquetas colantes com código de barras. E depois é uma livraria com um livreiro lá dentro que tem sempre uma história para contar, um comentário, uma reflexão sobre o mundo e a vida.
É impossível ir lá e não me lembrar com saudades de um outro livreiro e uma outra livraria que frequentei durante anos, na minha adolescência em Santarém. A Livraria Apolo do Manuel Castela era, pelos anos 70, uma verdadeira Escola-ATL- Sala de Estudo- AfterAulas para um vasto grupo de jovens que gostavam de livros, de música, de tertúlia e de aprender com os mais velhos. A maior parte de nós não tinha dinheiro para comprar livros ou discos, mas passávamos lá tardes inteiras a ler, a ouvir música, ou simplesmente a conversar. O Castela era assim uma espécie de tio da malta e deixava-nos ler os livros sabendo que não os iríamos comprar. E conversava connosco, e fazia perguntas sobre o que líamos e ia buscar outro e aconselhava a leitura. De vez em quando queixava-se de que alguém tinha roubado (acho que ele dizia levado) um livro, mas até parecia encarar isso como uma espécie de taxa para a elevação cultural. Pior era quando a Pide passava por lá e apreendia livros «comunistas» e discos do Zeca e outros revolucionários; aí ficava fulo e praguejava o dia todo.
O Castela morreu há cerca de 25 anos. Não sei se aquela cidade lhe fez alguma homenagem. Mas, se não fez, devia. Também eu lhe devo boa parte do gosto pelos livros, do gosto musical e do desejo de saber.
Para a memória.

4 de novembro de 2008

Sonhâmbulo


Depois de te ler lembrei-me de ter tido um sonho semelhante. Nele, interrogava-me se um país tão poderoso, capaz de armar uma guerra em qualquer parte do mundo, capaz de exportar para todo o planeta uma cultura de violência, de consumo exacerbado, mas também algum do bom cinema e muita da grande música jazz, não seria também capaz de promover a paz (de forma pacífica, entenda-se) no mundo e, usando da mesma ingerência com que derruba governos democraticamente eleitos e provoca golpes de estado, ajudar a combater o estado crónico de fome, sofrimento e doença. E tenho andado com esse sonho assim de um lado para o outro a desdobrá-lo e a tentar perceber nos seus interstícios se isso depende da eleição de um homem, ou daquele homem que nos parece simpático e autenticamente bem intencionado.

Eu não sou americano e não consigo saber se Obama é melhor que McCain. E não sei se, quando fora dos EUA, toda a gente votaria em Obama o faz porque ele é o melhor para o mundo ou para os Estados Unidos da América.

Se eu vivesse lá provavelmente não escolheria nenhum. Para os meus padrões, representam ambos a direita conservadora, por mais que se pintem de mudança progressista.

Para um hipotético (ou talvez nem tanto) governo do mundo, preferiria à partida que não fosse americano (preconceito meu certamente derivado de um antiamericanismo primário).

Mas voltemos a Obama (que a esta hora já deve saber quantos lugares tem no colégio eleitoral) e à esperança que nos faz entrar em casa à hora dos telejornais. Não me parece nada que ele tenha esse sonho. Acho que essa parte funciona apenas para nós, europeus. Para a maior parte dos americanos que votam nele o que funciona é o american dream: um indivíduo que vem de baixo, sobe a pulso e chega ao topo. Por mim não acho nada mal e aplaudo quem consegue demonstrar que é possível tornar esse sonho realidade, através do trabalho, do estudo, da persistência e não porque (à portuguesa) lhe sai o euromilhões ou tem relações privilegiadas com o poder e isso lhe abre as portas para negócios fabulosos com o estado (o que é mais ou menos a mesma coisa, mas aqui com maior probabilidade de ganhar).
Let´s call the whole thing off.