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9 de dezembro de 2010

Segredo de justiça


Depois de tantas fugas de informação sobre questões em segredo de justiça e com as embaraçosas revelações do wikileaks, a Justiça (assim com um merecido jota xxl) portuguesa mostra que está muito à frente e numa jogada antecipatória, quando ainda nem se falava em wikileaks e já o portentoso sindicato dos magistrados tinha adquirido por ajuste directoà SLN (para os compensar das perdas, porque as coisas não têm corrido bem nos últimos anos) um sistema de codificação para ser usado por todo o povo judicial. Eles bem sabem que providências cautelares e caldos de galinha nunca fizeram mal e melhor é prevenir que chorar o leite derramado e melhor é o burro nas couves que o gato ir às filhoses e prontos.
É espantoso o que esse sistema faz. Torna ininteligível qualquer douta sentença, ou simples dilgência processual, ou até os actos compulsados dos apóstolos se for caso disso. Assim, mesmo que algum documento saia de debaixo da saia do segredo, não há problema, porque ninguém vai entender nada sem a ajuda do tal sistema, que tirando umas comissões para uns afilhados de uma certa pessoa que não convém nomear, até ficou bastante em conta.
Como prova disso, tenho aqui um documento secreto que por artes que não revelo me veio parar às mãos. Suponho que não seja nada de muito importante, mas se fosse?...
Alguém pode saber? Ora experimentem:



=CLS=


Nos presentes autos de acção especial para cumprimento de obrigações pecuniárias que a Empresa ----- intentou contra o Condomínio ------, sito na ----, em -------, pedindo a condenação deste a pagar-lhe a quantia de x.xxx,xx €, acrescida de juros de mora calculados à taxa de 4% desde a propositura da acção e até integral pagamento, juntaram A. e R., representada a primeira por mandatário com poderes especiais para o acto, a transacção que antecede, cujo teor se dá aqui por reproduzido.
Nos termos do art.º 300º, nº 3 do CPC, atenta a qualidade dos intervenientes e o objecto da transacção efectuada, que aqui se dá por reproduzido, julgo a mesma válida, homologando-a por sentença, condenando e absolvendo as partes em conformidade.
Custas conforme acordado – art.º 451º, nº 2 do Código de Processo Civil.
Fixo à acção o valor de xxxx,xx € - art.º 315º e art.º306º do Código de Processo Civil


Not. E reg.

Set.,d.s.
A Juiz de Direito
(Dr.ª ---------------)


Então agora, se alguém conseguir desencriptar a coisa, faça favor. Assim, sem dar muito nas vistas, pode deixar a tradução na caixa de comentários.

23 de novembro de 2010

De como estes deuses modernos andam ainda mais loucos que os outros


Não se fala de outra coisa. Uma febre. Um delírio. Algo capaz de arrebatar as consciências e impor-lhe humildade, resignação e obediência. Todas as homilias em toda a parte e a toda a hora (apenas um parêntesis para assinalar um pequeno intervalo futebolístico em que Portugal derrotou a Espanha, mas aquilo era a caramelos de Badajoz e, por isso, não teve a jactância habitual - ou então estamos mesmo em crise), na televisão, nos jornais, em quilómetros de rádio. Só se fala dos mercados. Uns deuses modernos de quem ninguém conhece a cara que têm os seus caprichos, às vezes acordam nervosos e tal como os deuses tradicionais acabam sempre a descarregar as suas iras sobres os mais fracos. Ninguém sabe, ou ninguém explica, bem o que são os mercados, o que fazem, onde moram - deve haver quem creia que habitam os céus da economia global - e poucos se atrevem a nomear os seus verdadeiros bispos, apesar dos muitos sacerdotes conhecidos não se cansarem de profetizar sobre as vontades dos deuses. Ainda há dias o oráculo de Belém iluminou Obama sobre os destinos da economia portuguesa e o homem lá foi tranquilo. Resta saber se a taróloga Maya o o professor Mambo usando outras abordagens da trancendência não fariam exactamente o mesmo (uma situação para a ciência estudar). É
que com este PSEC (processo de sacralização em curso) a economia enquanto disciplina do saber ficaria melhor com o nome de Economância.
Na antiguidade as pessoas acreditavam em inúmeros deuses e alimentavam o poder dos seus sacerdotes com oferendas e obediência. Depois os múltiplos deuses foram perdendo a sua importância e a maior parte do mundo ficou dominada por três ou quatro religiões, uma espécie de grupo económico de um só deus. Estas religiões ainda têm muito poder sobre as pessoas no mundo, mas muito menos do que tinham e, tirando aquelas regiões em que o poder religioso se confunde com o poder do estado, já pouco condicionam a vida dos cidadãos. E isto porque já há muita gente que não é crente e já percebeu toda a patranha em que assentam todas as religiões. O papa pode falar contra o uso do preservativo. Os movimentos civis continuaram a combatê-lo e o coitado não teve outro remédio a não ser capitular e já acabou a admitir que em certas circunstâncias vá lá então... (quanto às circunstâncias, ainda não disse, mas lá chegará, que o uso do preservativo embora tolerado é uma espécie de via verde para o inferno, mas isso é cada um que escolhe porque deus nos concedeu esse dom na sua imensa bondade) o que só demonstra que a força destas forças está apenas na importância que lhes damos.
Com os ditos mercados é mais ou menos o mesmo. A sua força vem do medo que causam. No dia em que toda a gente se estiver nas tintas para a liturgia que nos entra pelos dias dentro sob a forma de notícias, análises, comentários, debates, os deuses começam a cair. Afinal, têm todos pés de barro.
ps: Acabei de ouvir que a Brisa com as portagens de autopagamento já despediu uma data de funcionários e se prepara para mais acordos de despedimento. Era o que se previa. Já passei por uma dessas e apeteceu-me avariar a máquina. Ainda por cima, em algumas portagens só há uma ou duas saídas e rapidamente se forma uma fila. São os automobilistas que se pressionam uns aos outros. A Brisa deve ter estudado estes comportamentos e não precisa de fazer nada. A alternativa é "aderir" à via verde, ou seja, poupar ainda mais a intervenção humana porque tudo se processa automaticamente.

13 de agosto de 2010

O livro vermelho de um presidente estival

O homem apanhou mesmo sol na moleirinha.
Ficamos sem saber se está a pensar no do Car Jung ou do Mao...
O senhor professor é uma autêntica ostra: cada cagadela uma pérola!
Mas o mais interessante é tentar deduzir desta resposta a pergunta que lhe foi colocada.

"No Verão, com alguma frequência, pede-se a indicação de livros de leitura. Se eu tivesse que indicar um livro de leitura aos comentadores estivais, aconselharia o livro dos professores Vital Moreira e Gomes Canotilho sobre os poderes do Presidente da República", disse hoje Cavaco Silva.
"Era muito mais útil que os comentadores estivais lessem esse livro, que foi o livro vermelho dos meus antecessores e continua a ser o meu"


Confesso que apenas ouvi a resposta e não retive nada da pergunta, portanto vou-me deitar a adivinhar:
P1- O que recomendaria aos jornalistas que fazem a cobertura da Volta a Portugal em Bicicleta como leitura entre duas etapas?
P2- Sr. Presidente já leu algum livro de leitura?
P3- Então, recandidata-se ou não?
P4- Tem a certeza de que o papa ainda se lembra do nome das suas netas?
P5- O sr. sindicalista Palma já o informou do que procuram os procuradores?

Enfim... a coisa não é fácil. Aceito sugestões.

10 de julho de 2010

Obrigado, Macário!

Depois de ler aqui e aqui a referência ao comunicado da Câmara Municipal de Faro sobre uma importante medida para a cidade e, porque o Contador é um espaço aberto à participação cidadã, publico aqui uma reacção de um feliz habitante da Horta das Figuras, recebido por e-mail:

Obrigado Macário
A Câmara Municipal de Faro veio informar os munícipes que a partir da próxima sexta feira, dia 8 de Julho irá finalmente libertar os moradores da Horta das Figuras do seu enclausuramento urbano, uma espécie de condomínio concentracionário a que têm sido obrigados pelas anteriores administrações autárquicas. Acontece que apesar de a próxima sexta feira dia 8 de Julho só se verificar daqui a um ano, registamos com agrado que a maldita vedação de rede ali colocada e mantida pelos torcionários de anteriores vereações, já tinha sido retirada há cerca de dois meses e hoje já se encontrava derrubado o intransponível lancil que impedia a circulação entre a cosmopolita rotunda do fórum e a ostracizada Horta das Figuras.
Esta medida, para além de descongestionar a entrada de Faro, a Nacional 125 e, quiçá, mesmo a Via do Infante vem abrir novas perspectivas ao desenvolvimento do bairro. Inspirados noutras experiências como o projecto “Sabura” da Cova da Moura, os moradores já pensam em lançar o projecto “Na m’xaringues”, projecto baseado no empreendedorismo turístico com o qual pretendem dar a conhecer aos visitantes os amplos espaços verdes que cobrem os passeios (agora completamente secos de acordo com a época estival), os cuidados com o pavimento com intervenções artísticas pós-modernas a fazer lembrar vagamente a paisagem lunar, o eficiente e cómodo sistema de recolha de resíduos sólidos, tudo isto a par de uma exposição permanente dos recibos de IMI, taxas variadas e outras habilidades municipais. Tudo isto tem estado guardado há anos apenas para gozo dos privilegiados moradores o que tem gerado uma legítima inveja de todos os outros munícipes e é, na verdade, uma grande injustiça para os poderes edílicos.
Mas não se ficam por aqui os benefícios desta medida em boa hora antecipada em um ano e um dia. Os moradores da Horta das Figuras podem agora ir a pé fazer compras ao Jumbo e trazer o carrinho do supermercado até à porta de casa. Beneficia o Jumbo e beneficiam os moradores. Aliás o Jumbo, num gesto de agradecimento ao corajoso Presidente da edilidade vai erguer uma estátua em sua homenagem, a colocar junto dos bonecos que deitam água na praça do Fórum, em que sua excelência se apresenta vestido de Manneken-pis e também deita água com fartura.
E aqueles que acusam de desNorte e exagero o comunicado da Câmara quando refere que
‘o espaço público é de todos e nesse sentido, importa zelar pela circulação livre, sem constrangimentos ou embaraços de qualquer natureza, o que manifestamente não estava assegurado até esta intervenção’ um dia terão que se render às evidências, porque há coisas que ficam para a História e esta não tem tempo a perder com fracotes e é nas grandes obras que se vêem os grandes homens. Um dia Faro iluminará em leds multicolores uma rotunda com a lapidar e sábia divisa: O espaço público é de todos e nesse sentido.

Faro, 9 de Julho de 2010, sexta-feira
Morador da Horta das Figuras recém-libertado


Na verdade, nem sei como não se lembraram disto há mais tempo. Um verdadeiro ovo de Colombo, de Cristóvão Colombo. Tanta congestão rodoviária na entrada da cidade e a solução tão fácil afinal.

12 de fevereiro de 2010

E se for mal?


Podia chamar-se Agilulfo* na sua armadura branca, sempre brilhante com duraglit, a correr de um lado para o outro, para proteger as donzelas em risco de violação do estado de direito.
Ainda hoje uma donzela moura se queixava de tanta censura que tem apanhado e um juíz que deve ser seu primo erguia com uma das mãos e agitava o interesse público enquanto com a outra, qual Camões salvando os Lusíadas, tentava manter-se à tona. O Miguel ainda lhe deu uns carolos, mas isso não o afectou muito.
Mas o Agilulfo range lá na ferrugem interior do elmo donde saem vaporosas teorias políticas como humores fantasmáticos. O estado de direito é apenas formal, diz ele. Mas podemos dormir descansados porque ele, desdizendo tudo o que tão convictamente afirmara, deixa todas as mordomias europeias para nos salvar. Ainda bem que é só isso e não se lembrou de se sacrificar, não na cruz, mas numa daquelas setas do PSD.
Pois o Agilulfo também é um ser formal. É-o na aparência. Assim por fora, parece mesmo um ser vivo, vagamente humano. Mas por dentro, completamente vazio.

Continuo a achar que anda por aí tudo doido. Ou sou eu?


*personagem do romance de Italo Calvino, O cavaleiro inexistente.

2 de fevereiro de 2010

Mar(io) enCresp(ad)o

Há coisas que me dão uma espécie de urticária (também lhe chamam brotoeja) e isto de um jornalista se tornar na principal notícia do dia diz muito sobre a ética comunicacional que é como quem diz se tocam no meu queijo eu faço-vos a folha.

Afinal o que é que se passou? Um amigo do Mário Crespo estava a almoçar no mesmo restaurante onde também almoçava o Sócrate e mais não-sei-quem e dois dos seus ministros. às tantas, e seguramente depois da terceira garrafa, da mesa do Sócrates e da do amigo do Crespo, as vozes, na primeira, começam a soltar-se e os ouvidos, na segunda, começam a apurar-se e é aí que o amigo do jornalista saca da caneta e regista ali, no próprio guardanapo entre duas manchas de Quinta do Cotto, para memória futura e, se necessário fazer prova em tribunal, o seguinte diálogo (ou monólogo, parece que foi só o Socrates a falar):
O almoço está porreiro, pá! Olha, e esta pomada também não é nada má... o que é isto?
Barca Velha, hum... pois. Se fosse o Portas pedia submarinos novos! Ah,ah, ah...
A propósito, vocês conhecem aquele jornalista que dava aulas lá na Independente? Aquele da SIC a quem tu telefonaste para te tratar por ministro e não te fazer perguntas difíceis. Sim, o Crespo. Esse tonto varrido e incapaz. Parece que tem umas coisas guardadas num armário que deixou lá na África do Sul. E escreve cá umas crónicas... Temos que arranjar uma solução para o gajo [faz o gesto de cortar o pescoço]. E mais não disse.

Também não havia guardanapo para mais.
Claro que o Mário Crespo ficou chateado. Eu também ficava.
E vai daí toca de escrever uma crónica em defesa da honra e do ataque ao Sócrates, agora com um bom pretexto. O gajo falou de mim ao almoço, já vai ver como é que elas lhe mordem!
Só que o director do JN achou que não devia publicar e, ai jasus, que vem aí a censura a mando do governo. E despediu-se do jornal.
Lembrei-me de uma crónica que o Crespo (às vezes encrespado, outras encrispado) escreveu cheio de insinuações sobre o Sócrates que, na altura achei um verdadeiro vómito. Chamava-se a coisa Façamos de conta que... Queria citá-la, mas não encontro o original. Mas pode ser lida, em transcrição aqui, acho que na totalidade.
Entretanto encontrei este post no Jugular de há quase um ano que dá uns belos mimos ao Crespo.
Quem me conhece, sabe que nunca votei no Sócrates, nem no PS. Mas quando um tipo se compara com a Manuela Moura Guedes para atacar o Sócrates e a seguir vejo o Louçã solidário com ele e dizendo basicamente o que toda a direita já tinha dito, confesso que até fico com vontade de votar no gajo.

Enfim. Acho que os jornalistas e os políticos estão bem uns para os outros. Não merecem o vinho que bebem!

22 de outubro de 2009

A revelação

Ai Jesus que o Saramago, blasfemo e comunista, anda a dizer da bíblia o que o diabo nunca disse da cruz, pelo menos quanto se sabe, por uma leitura mais ou menos atravessada do sagrado e idolatrado livro dos livros na opinião dos cristãos, incluindo aqueles que dele nunca leram sequer uma linha, para não dizer um versículo que é a taxonomia usada em documentos tais, para designar parágrafos mais ou menos curtos onde, na maior parte das vezes nem sequer se exprime uma ideia completa, ai Jesus, vá de retro Saramago, que o povo ainda começa a ler a bíblia sem o auxílio dos tradutores oficiais e sem os explicadores de catequese e ainda descobre que a coisa é bem mais do que redutoramente diz o nobel, e bem mais do que nos contam os doutrinadores, porque também há lá muita poesia e muita loucura e se a gente lê aquilo com espírito aberto, também se arrisca a sair de lá mais rico de espírito e chegar à iluminada conclusão de que as escritas têm tanto de sagrado como o cancioneiro de Rodney Galop, e tal como este podem ser tocadas, retocadas, parodiadas e etc e tal e quem diz o contrário é soberba e divinamente parvo.

É por isto que admiro o Saramago. Tentei escrever um parágrafo à laia dele e fiquei cansado para uns bons dias. E depois dizem-me que eu escrevo pouco e mais não-sei-quê. Mas é por isso. Simplesmente. Se eu fosse a escrever o que quero e como gosto ficaria muito cansado. Só de pensar nisso já é o que é. Por isso é que escrevo pouco.

Mas esta parva polémica que tanto anima as sacristias e as televisões também me espevita a verve.
Para mim, o que está em causa não é o que Saramago diz e com o qual até posso não concordar. O que está em causa é poder dizê-lo. Poder dizê-lo com a mesma displicência ou arrogância com que muitos dos agora ofendidos dizem, referindo-se à sua obra, Saramago é uma merda. Já o ouvi várias vezes, sabendo que quem o diz, ao contrário do que Saramago faz em relação à bíblia, não leu nada dele. Mesmo assim, não se coibem de tecer considerações formais sobre a escrita, a pontuação, etc.

Eu já li uma boa parte dos livros que constituem a bíblia. Já li um quase tratado sobre a leitura da bíblia - A leitura infinita, do padre e poeta José Tolentino de Mendonça - e quanto mais leio, mais me interrogo sobre o fenómeno que constitui a crença religiosa. Interrogo-me se os crentes lerão o mesmo que eu. Só consigo ver ali um repositório de histórias, algumas interessantíssimas outras absolutamente imbecis, outras de uma extraordinária fantasia.
Gosto particularmente do Livro de Salomão, cântico de amor que me parece ser o arquétipo da poesia amorosa retomado ao longo dos tempos. Também me diverte o delírio fantasioso que é o Apocalipse, segundo S. João. Dizem os entendidos que apocalipse significa revelação. Vale a pena ler. É talvez o mais fiel testemunho de que já em tempos muito recuados havia quem se entregasse ao uso de determinadas substâncias alucinogénias. Consta que uma determinada espécie vegetal , cultivada há mais de quatro mil e quinhentos anos ali para o médio oriente teria um teor de THC especialmente elevado. A avaliar pela fama que há uns anos tinha o chamon libanês, talvez seja assim mesmo.

14 de outubro de 2009

Desgraça moura

Imagem daqui

Às vezes ainda me surpreendo por me surpreender.

Depois de ouvir isto, também sou de opinião que o inepto também devia ser impedido, assim por uma forma pouco recomendável, a escrever poesia, que por acaso é uma coisa que ele faz bem.
Devia ser proibido.
É que isso é incompatível com tanta imbecilidade, tanta labreguice e tanta desonestidade intelectual.

Para que não restem dúvidas, nem sequer votei em quem ganhou e vai formar governo, mas mandam as regras da democracia que se aceitem os resultados.

O povo votou e o partido mais votado constitui governo e vai ter que governar. Para seu e nosso castigo. O parlamento eleito é, talvez até hoje, aquele com mais potencialidades para controlar com eficácia o exercício do poder. O que eu espero é que cada uma das instâncias cumpra o seu papel.

O Vasco não. Quer derrubar já um governo que ainda não existe. Fica-lhe bem.

Pois eu só lhe desejo que um dia, se acontecer o seu PSD ganhar as eleições, ele seja convidado para exercer o cargo de ministro da educação, ou coisa parecida. Mas como não sou de querer assim tão mal a ninguém, deixemo-lo apenas com esta praga que em tempos ouvi a gentes de Alvor:

prouvera deuj lhe desse uma terçã tã forte nésse cu que 'tvesse quinze diaj sim cagar i q'onde cagosse, cagosse figues de pita enteroj

Merecia.

26 de junho de 2009

In dubio... pronúncia


O professor criticava, na ausência da própria, uma aluna em termos exageradamente sarcásticos, apenas porque tinha pronunciado Curriculum Vitae como "currículum vite" e não como "currículum vitái", como ele achava correcto. Eu não tenho idade suficiente para alguma vez ter ouvido falar latim pelos genuínos falantes, mas lembrava-me de ter lido algures sobre uma espécie de convenção dos latinistas sobre fonética do latim e sobre as diferenças entre o latim clássico e o latim restaurado, pelo que logo ali fiquei com imensas dúvidas sobre as certezas daquele professor. Parece que também cada língua adopta a sua fonética (por exemplo, o termo latino media dizia-se média em português e cada vez se adopta mais a pronúncia - e até a grafia - mídia, porque é assim que os ingleses lêem). Mas, como costumava ouvir a um amigo meu, milium primum pardalorum est, deixei-me ficar com o ninho atrás da orelha e, logo que pude, fui tentar esclarecer a coisa.
Pois até dizem que é uma espécie de despautério (termo que vem do latim e significa grande asneira ou verdadeiro disparate).

De acordo com a pronúncia tradicional, curriculum vitae pronuncia-se currículum víte, e é esta que deve preferir-se. Pretender impor a articulação vítai (ou mesmo wítai), de acordo com a pronúncia restaurada, parece-me um exagero ou mesmo um pretensiosismo tão grande como seria exigir que se pronunciasse etc. (et cetera) da mesma forma que os romanos do tempo de Cícero: et kétera…
Também é de evitar a prolação vitái, como às vezes se ouve por aí, pois essa nem é tradicional nem clássica. É apenas um despautério…



A minha amiga Xantipa que trata gregos e romanos por tu é que certamente sabe e ainda lhe hei-de perguntar das suas razões.
O latim é uma língua morta e não dará voltas no túmulo se a gente não a pronunciar bem. Portanto para mim estão empatados, ou seja, ex-aequo ( aquele prof dirá ,seguramente, egzaikuo) e tanto faz. Até estou em crer que os latinos nortenhos pronunciariam, de certeza, currículom bite, carago!


Desde que ouvi uma vez um jornalista dizer que um determinado acontecimento tinha sido adiado "sáine dáie", já acho que tudo é possível.