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20 de maio de 2011

E se mais houvera, lá chegariam...

O grande problema do nosso sistema democrático é que permite fazer coisas nada democráticas democraticamente.
José Saramago

O espectáculo está montado: no canto direito - gravata azul, 79 quilos, 34,8% das intenções de voto - o candidato a primeiro miniiiiiiistro! No canto esquerdo - gravata também azul, mas um pouco mais escuro, 80 quilos, 34,7% das intenções de voto - o outro candidato a primeiro miniiiiistro! Cumprimentem-se os adversários. O grande combate vai começar!
O árbitro adverte que não admite golpes baixos e que o KO está proibido, incluindo o KO técnico.
O resultado já se sabe: um monumental empate.
Esta gente empata o país e destrói o único capital que nos resta: a esperança.
Acho que só há uma pergunta que os dois debatentes deviam ser obrigados a responder.
O PS e o PSD alternaram no poder durante 35 anos e conduziram o país à desgraça em que está. Ainda que tivessem tido umas ajudas temporárias (mas profundas) do CDS, como é que conseguiram?
Já disseram tudo. Menos isso.
Mesmo sem o saber, 80% do povo eleitor está firmemente decidido a votar nos três partidos do arco da velha, perdão, do arco do poder, imaginem se soubessem!... Ainda se aproximavam dos 100 por cento. Sem dúvida.

24 de janeiro de 2011

O primeiro dia dos próximos cinco anos

Ou seja, encavacados e mal pagos.

O país votou. Segundo as regras da democracia, Cavaco ganou a sua reeleição à primeira volta e continua a ocupar o lugar de Presidente da República Portuguesa. Nada disto está em causa. É assim.
Outra coisa é saber se o homem, pelo seu passado na política portuguesa como primeiro ministro por um período que niguém teve, pela forma como se comportou no primeiro mandato e pelas coisas que entretanto se têm vindo a descobrir, incorpora essa grandeza de carácter que o torna merecedor de ser o representante de todos os portugueses.
Há quem não aceite que se ponha em causa o carácter, a honorabilidade, a honestidade, o valor da pessoa. Mas , ou eu andei muito distraído ou nenhum dos candidatos apresentou um programa político de candidatura ao cargo, que já de si está bastante pré-determinado pela constituição deixando a variabilidade para o estilo pessoal do seu exercício, para a marca de dignidade que não poderá envergonhar nenhum português. E isso está no carácter da pessoa.
Ideologicamente não me identifico com nenhum dos anteriores presidentes, mas não hesito em reconhecer-lhes o mérito de terem sabido exercer o cargo sem me envergonharem de ser português. Cavaco envergonha-me.
Ideologicamente representa o que há de mais conservador e tacanho que existe na mentalidade portuguesa. Um provincianismo de sacristia. O chico-espertismo dos que são capazes de ultrapassar todos pela faixa de socorro (pela direita) e meter-se lá mais à frente. O sempre senhor professor ou professor doutor mesmo quando há tantos outros com igual titularidade a quem não é dispensado esse trato. A safadeza cobarde de quando confrontado com as embrulhadas optar sobraceiramente pelo silêncio ou mesmo pela mentira (não percebo nada de acções com nomes em inglês, não me lembro, só passei os cheques). Isto talvez só seja a ideologia dos que não têm carácter, mas ainda assim ideologia, porque pode passar, ser modelo identificador para alguns.
Cavaco, em suma, vende o mesmo produto que Salazar. Mas faz melhor que este. Tem a vantagem de ter sempre a seu lado a sua "senhora" e o resto da família já devidamente abençoada pelo papa do Vaticano.
De resto, se o homem não se assume como político, o que é que lhe pode exigir politicamente? É uma espécie de inimputável, desse ponto de vista.
Há, pelos vistos, muita gente que gosta. Eu não. E não me coíbo de o proclamar com o mesmo direito (embora com incomparavelmente menor alcance) que é dado ao próprio e a quem se identifica com o modelo.
Não desanimemos. Faltam só 1825 dias.

29 de novembro de 2010

Austeridade viciosa

Eu não percebo nada de economia e, provavelmente muitos dos economistas que falam na televisão, escrevem nos jornais ou mandam bitaites partir do palácio de Belém, também não. Já aqui tinha perorado sobre esta ciência dever passar a chamar-se economância por, cada vez mais, em vez de basear as suas previsões em modelos científicos estar a socorrer-se de artes divinatórias e oráculos para tentar interpretar os misteriosos e insondáveis desígnios dos santos mercados. Pode ser. A alternativa não é muito melhor e também é bastante plausível. Haverá um exército de arautos a propagar todos mais ou menos as mesmas coisas, ainda que parecendo às vezes discordar, de forma a ocupar todo o espaço para que mais ninguém fale, apenas com o objectivo de nos entreter enquanto a «austeridade» se vai apurando? Ponho mesmo aqui um ponto de interrogação. Não tenho a certeza de que seja assim. Não percebo nada de economia, mas ao longo da vida fui aprendendo a ler alguns sinais e o que digo é por mera intuição. Afinal, não é assim tão diferente do que dizem os que estudaram para economistas.

Acho estranho que não apareçam nos meios "oficiais" da comunicação, vozes discordantes como esta. Ou então, alguém que defenda a verdade "oficial" com esta clareza.

Mark Blyth é professor de Economia Política Internacional na Brown University (Providence, EUA) e o seu currículo pode ser consultado aqui.

23 de novembro de 2010

De como estes deuses modernos andam ainda mais loucos que os outros


Não se fala de outra coisa. Uma febre. Um delírio. Algo capaz de arrebatar as consciências e impor-lhe humildade, resignação e obediência. Todas as homilias em toda a parte e a toda a hora (apenas um parêntesis para assinalar um pequeno intervalo futebolístico em que Portugal derrotou a Espanha, mas aquilo era a caramelos de Badajoz e, por isso, não teve a jactância habitual - ou então estamos mesmo em crise), na televisão, nos jornais, em quilómetros de rádio. Só se fala dos mercados. Uns deuses modernos de quem ninguém conhece a cara que têm os seus caprichos, às vezes acordam nervosos e tal como os deuses tradicionais acabam sempre a descarregar as suas iras sobres os mais fracos. Ninguém sabe, ou ninguém explica, bem o que são os mercados, o que fazem, onde moram - deve haver quem creia que habitam os céus da economia global - e poucos se atrevem a nomear os seus verdadeiros bispos, apesar dos muitos sacerdotes conhecidos não se cansarem de profetizar sobre as vontades dos deuses. Ainda há dias o oráculo de Belém iluminou Obama sobre os destinos da economia portuguesa e o homem lá foi tranquilo. Resta saber se a taróloga Maya o o professor Mambo usando outras abordagens da trancendência não fariam exactamente o mesmo (uma situação para a ciência estudar). É
que com este PSEC (processo de sacralização em curso) a economia enquanto disciplina do saber ficaria melhor com o nome de Economância.
Na antiguidade as pessoas acreditavam em inúmeros deuses e alimentavam o poder dos seus sacerdotes com oferendas e obediência. Depois os múltiplos deuses foram perdendo a sua importância e a maior parte do mundo ficou dominada por três ou quatro religiões, uma espécie de grupo económico de um só deus. Estas religiões ainda têm muito poder sobre as pessoas no mundo, mas muito menos do que tinham e, tirando aquelas regiões em que o poder religioso se confunde com o poder do estado, já pouco condicionam a vida dos cidadãos. E isto porque já há muita gente que não é crente e já percebeu toda a patranha em que assentam todas as religiões. O papa pode falar contra o uso do preservativo. Os movimentos civis continuaram a combatê-lo e o coitado não teve outro remédio a não ser capitular e já acabou a admitir que em certas circunstâncias vá lá então... (quanto às circunstâncias, ainda não disse, mas lá chegará, que o uso do preservativo embora tolerado é uma espécie de via verde para o inferno, mas isso é cada um que escolhe porque deus nos concedeu esse dom na sua imensa bondade) o que só demonstra que a força destas forças está apenas na importância que lhes damos.
Com os ditos mercados é mais ou menos o mesmo. A sua força vem do medo que causam. No dia em que toda a gente se estiver nas tintas para a liturgia que nos entra pelos dias dentro sob a forma de notícias, análises, comentários, debates, os deuses começam a cair. Afinal, têm todos pés de barro.
ps: Acabei de ouvir que a Brisa com as portagens de autopagamento já despediu uma data de funcionários e se prepara para mais acordos de despedimento. Era o que se previa. Já passei por uma dessas e apeteceu-me avariar a máquina. Ainda por cima, em algumas portagens só há uma ou duas saídas e rapidamente se forma uma fila. São os automobilistas que se pressionam uns aos outros. A Brisa deve ter estudado estes comportamentos e não precisa de fazer nada. A alternativa é "aderir" à via verde, ou seja, poupar ainda mais a intervenção humana porque tudo se processa automaticamente.

8 de outubro de 2010

Bandidos!


EPÍGRAFE PARA A ARTE DE FURTAR

Roubam-me Deus,
outros o Diabo
- quem cantarei?

roubam-me a Pátria;
e a Humanidade
outros ma roubam
- quem cantarei?

sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
- quem cantarei?
roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo- aqui del-rei!

Jorge de Sena
Consulte aqui a tabela do roubo para tapar a administração criminosa das últimas décadas pelos governos que tivemos e as oposições complacentes. Já agora, por que é que a tabela pára nos 4200 euros? Tão criteriosos que são a estabelecer escalões entre os 1500 e os 4200... e daí para cima?
Não há dúvida que andamos a ser governados por uma corja de bandidos cuja finalidade é enriquecer os amigos com quem organizam os grandes negócios que lhes garantem a seguir o devido retorno.
Só há um caminho: insurreição criativa!
Sugiro que façamos um ataque com pudins molotov quando esta gente aparecer.

13 de julho de 2010

Finalmente, a grande obra


Compare-se com o que consta de alguns planos de pormenor (propostas) patentes no site da CMF

Isto merecia uma inauguração com foguetes e banda a tocar e justificava o regresso de Cavaco ao local (onde viria pela primeira vez depois do último 10 de Junho).
Foi esta obra que motivou um comunicado da Câmara, e comentários incendiários em alguns blogs contra os "privilégios" dos moradores da Horta das Figuras. E tudo isto porque, uns quantos cidadãos farenses, entre os quais, também, meia dúzia de residentes nesta zona da cidade, acham que o que se está a preparar para esta entrada de Faro é aumentar a carga comercial, densificar o tráfego automóvel e desfigurar uma área onde existe um importante equipamento cultural, o Teatro Municipal e mais três ou quatro edifícios classificados. E porque estes cidadãos se acham no direito de discutir os destinos da cidade em que vivem, têm voz e capacidade de se fazerem ouvir, o que faz a Câmara e o seu presidente? Em vez de darem a cara pelos seus projectos fogem à discussão pública com o de que o assunto está nos tribunais (é parcialmente verdade, mas o que está na justiça não constitui a substância da discussão e tem a ver com decisões anteriores a esta Câmara), lança a ideia absurda de que os moradores desta zona querem um condomínio fechado e um parque verde para seu usufruto. Com isso convocam ódios antigos relacionados com a contestação da decisão da Câmara/Assembleia Municipal de desanexação de uma parcela de terreno do domínio público municipal para o domínio privado com o fim de o ceder ao SCF para aí instalar um posto de combustíveis. Criado o "bode expiatório" Horta das Figuras e anunciando acção imediata sobre a casta de "ricos" fica o caminho aberto para mais um atentado à racionalidade urbanística, à estética e funcionalidade de uma entrada (a principal) da cidade e sabe-se lá ( a suspeita é mais do que legítima) a que negócios pouco transparentes.
Estes procedimentos até poderão ser legais (do que duvido), mas abrem duas grandes feridas no estado de direito, na democracia e na cidadania:
Por um lado, há claramente uma apropriação daquilo que foi consig nado como património público para o colocar nas mãos e ao serviço de interesses privados, por outro, não promover uma discussão aberta sobre uma matéria tão importante para a cidade atenta contra o viver e o conviver cidadão e contra um exercício básico da participação democrática.

10 de julho de 2010

Obrigado, Macário!

Depois de ler aqui e aqui a referência ao comunicado da Câmara Municipal de Faro sobre uma importante medida para a cidade e, porque o Contador é um espaço aberto à participação cidadã, publico aqui uma reacção de um feliz habitante da Horta das Figuras, recebido por e-mail:

Obrigado Macário
A Câmara Municipal de Faro veio informar os munícipes que a partir da próxima sexta feira, dia 8 de Julho irá finalmente libertar os moradores da Horta das Figuras do seu enclausuramento urbano, uma espécie de condomínio concentracionário a que têm sido obrigados pelas anteriores administrações autárquicas. Acontece que apesar de a próxima sexta feira dia 8 de Julho só se verificar daqui a um ano, registamos com agrado que a maldita vedação de rede ali colocada e mantida pelos torcionários de anteriores vereações, já tinha sido retirada há cerca de dois meses e hoje já se encontrava derrubado o intransponível lancil que impedia a circulação entre a cosmopolita rotunda do fórum e a ostracizada Horta das Figuras.
Esta medida, para além de descongestionar a entrada de Faro, a Nacional 125 e, quiçá, mesmo a Via do Infante vem abrir novas perspectivas ao desenvolvimento do bairro. Inspirados noutras experiências como o projecto “Sabura” da Cova da Moura, os moradores já pensam em lançar o projecto “Na m’xaringues”, projecto baseado no empreendedorismo turístico com o qual pretendem dar a conhecer aos visitantes os amplos espaços verdes que cobrem os passeios (agora completamente secos de acordo com a época estival), os cuidados com o pavimento com intervenções artísticas pós-modernas a fazer lembrar vagamente a paisagem lunar, o eficiente e cómodo sistema de recolha de resíduos sólidos, tudo isto a par de uma exposição permanente dos recibos de IMI, taxas variadas e outras habilidades municipais. Tudo isto tem estado guardado há anos apenas para gozo dos privilegiados moradores o que tem gerado uma legítima inveja de todos os outros munícipes e é, na verdade, uma grande injustiça para os poderes edílicos.
Mas não se ficam por aqui os benefícios desta medida em boa hora antecipada em um ano e um dia. Os moradores da Horta das Figuras podem agora ir a pé fazer compras ao Jumbo e trazer o carrinho do supermercado até à porta de casa. Beneficia o Jumbo e beneficiam os moradores. Aliás o Jumbo, num gesto de agradecimento ao corajoso Presidente da edilidade vai erguer uma estátua em sua homenagem, a colocar junto dos bonecos que deitam água na praça do Fórum, em que sua excelência se apresenta vestido de Manneken-pis e também deita água com fartura.
E aqueles que acusam de desNorte e exagero o comunicado da Câmara quando refere que
‘o espaço público é de todos e nesse sentido, importa zelar pela circulação livre, sem constrangimentos ou embaraços de qualquer natureza, o que manifestamente não estava assegurado até esta intervenção’ um dia terão que se render às evidências, porque há coisas que ficam para a História e esta não tem tempo a perder com fracotes e é nas grandes obras que se vêem os grandes homens. Um dia Faro iluminará em leds multicolores uma rotunda com a lapidar e sábia divisa: O espaço público é de todos e nesse sentido.

Faro, 9 de Julho de 2010, sexta-feira
Morador da Horta das Figuras recém-libertado


Na verdade, nem sei como não se lembraram disto há mais tempo. Um verdadeiro ovo de Colombo, de Cristóvão Colombo. Tanta congestão rodoviária na entrada da cidade e a solução tão fácil afinal.

19 de junho de 2010

Um bando de inúteis

A coisa chama-se assim:
Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar à relação do Estado com a Comunicação Social e, nomeadamente, à actuação do Governo na compra da TVI

Ralizou 31 reuniões a tentar provar uma tese, a de que o primeiro ministro mentiu ao parlamento, claramente fora do âmbito enunciado na designação (outros detalhes estão omissos na página da AR) e nem isso conseguiram.
Não se sabe quanto custou ao país esta Comissão a secção Plano de Actividades e Orçamento aparece vazia o que por si revela uma falta de transparência dos órgãos de soberania. Podemos pensar que aquilo foi gastar à Lagardère.
Estes senhores prestaram um muito mau serviço ao país e o facto de terem sido eleitos e terem legitimidade democrática, não a têm para fazzer o que bem lhes apetece e mal. Se tivessem vergonha demitiam-se por manifesta inutilidade.
A lista é esta. Vejam em quem votam nas próximas eleições.

Mota Amaral (PSD, Efectivo, Presidente )
Osvaldo de Castro (PS, Efectivo, Vice-Presidente )
João Pinho de Almeida (CDS-PP, Efectivo, Vice-Presidente)
Ana Catarina Mendonça Mendes (PS, Efectivo)
Manuel Seabra (PS, Efectivo)
Miguel Laranjeiro (PS, Efectivo)
Ricardo Rodrigues (PS, Efectivo)
Sónia Fertuzinhos (PS, Efectivo)
Vitalino Canas (PS, Efectivo)
Agostinho Branquinho (PSD, Efectivo)
Carla Rodrigues (PSD, Efectivo)
Francisca Almeida (PSD, Efectivo)
Pacheco Pereira (PSD, Efectivo)
Pedro Duarte (PSD, Efectivo)
Cecília Meireles (CDS-PP, Efectivo)
João Semedo (BE, Efectivo)
João Oliveira (PCP, Efectivo)
Maria José Gamboa (PS, Suplente )
Fernando Negrão (PSD , Suplente )
Nuno Encarnação (PSD , Suplente )
Pedro Mota Soares (CDS-PP , Suplente )
José Manuel Pureza (BE , Suplente )
Bernardino Soares (PCP , Suplente )

3 de abril de 2010

Reflexão PazCalma

Não perceberam que não podiam exigir que a lei contemple a prisão das mulheres que abortam ao mesmo tempo que os seus crimes se resolviam com meia dúzia de ave-marias e uma oportuna mudança de paróquia. (in Jumento)

Ora aqui o esencial da questão. A igreja católica não é má porque alguns dos seus membros são maus e cometem crimes. É má quando protege os criminosos e permite que persistam nos seus crimes noutro local. Impunemente. É socialmente iníqua quando é uma força de pressão organizada sobre a regulamentação da sociedade laica e depois se furta ela própria às leis dessa sociedade.
Neste tempo de festas católicas (na verdade roubadas ao calendário de tradições pagãs) a igreja tem tido um tempo de antena gratuito que só rivaliza com os grandes clubes de futebol. Neste tempo em que continuam a vir à luz mais notícias sobre os abusos sexuais cometidos por padres, que têm feito os mais destacados membros desta organização? Contrição? Penitência? Arrependimento? Pedir desculpa às vítimas? Entregar os acusados à justiça? Nada disso. Antes, salvo raras excepções, têm sido unânimes na desculpabilização, no silêncio e até, pasme-se, na vitimização de uma campanha semelhante à anti-semita (não percebi se à dos nazis com quem pactuaram durante décadas se à sua própria perseguição e matança de judeus que sempre acusaram da morte de um alegado Jesus). Considero isto é um verdadeiro insulto à humanidade, incluindo os crentes cristãos.

Também por estes dias, e ainda nos domínios da fé religiosa, horrorizamos com os atentados de Moscovo e sabemos que pelo menos uma jovem de 17 anos se fez explodir espalhando a morte à sua volta. São as chamadas "viúvas negras" instrumentalizadas por um qualquer líder político-espiritual. Não se compreende como em nome da fé se pode causar a morte e o sofrimento de inocentes, mas a história das religiões, está cheia de episódios destes.

Um libanês muçulmano vai em perigrinação a Meca (obrigação religiosa islâmica para todos fazerem pelo menos uma vez na vida) é preso, acusado de bruxaria, julgado e condenado à morte por decapitação em público. Isto na Arábia Saudita, país que integra a Organização das Nações Unidas desde 1945.

Eu que me concebo como ateu, atinente a uma enorme curiosidade transdisciplinar, iconoclasta dos quatro costados, não consigo parar de me interrogar e inquietar sobre estes acontecimentos. Espanta-me que toda a gente inteligente não o faça. Como é possível que em nome de uma convicção íntima num suposto deus que apelidam de bom, de amor ao próximo, que pode tudo e mais alguma coisa e ainda lhe sobra tempo porque é infinito e por aí fora, se espalhe tanta morte e sofrimento no mundo?
Devem ser mesmo os mistérios da fé...

10 de junho de 2009

Ainda as europeias

Estive para titular este post como O ovo da serpente, o célebre filme de Bergam de 1977, sobre os sinais promonitórios do nazismo na Alemanha do pós-I Guerra Mundial. Só não o fiz porque ao pesquisar sobre o filme o Google devolveu-me, entre imensas outras alusões e títulos, um do Miguel Portas, muito recente e um outro mais antigo do "abominável César das Neves" e perdi a vontade a essa metáfora.
Ainda assim, e porque isto anda tudo ligado, mesmo que às vezes não entenda muito bem a cosa.
Ah, hoje era sobre as eleições para o parlamento europeu que decorreram no domingo. Decorreram bem, sim senhor, porque o presidente Cavaco em boa hora veio uns dias antes lembrar os portugueses que deveria estar bom tempo (ao contrário do que anunciava a meteorologia) e que na semana a seguir havia dois feriados seguidos e, embora não tivesse sugerido propriamente que dois ou três dias por conta do período de férias teriam um efeito multiplicador, os portugueses entenderam muito bem e aproveitaram a dica. O resto também ajudou. Europa? Ainda se fosse o europeu de futebol!...
Mas o que eu queria aqui deixar registado era outra coisa. Na noite eleitoral, já depois de se saber que o PSD tinha mais votos e o lipidinoso Rangel destilava vingança misturada com o que aprecia ser um programa político para o país, pondo-se em bicos de pés como se tivesse vencido as legislativas, impressionou-me a moldura juvenil que o cercava. De repente tive a sensação de já ter visto aquilo. As mesmas caras de parvo, as mesmas camisas às riscas metidas em calcinha bege de algodão... Estes jovens betinhos são os filhos dos betinhos da AD dos anos 80! Só têm de diferente aquelas lenga-lengas que caracterizam os (outros) hooligans da bola.
Quem viveu esse tempo reconhece os sinais.

2 de junho de 2009

As bestas, novamente

Imagem apanhada aqui


Há dias ouvi por aí nas notícias que alguém da igreja do vaticano teria dito algo como: o aborto é muito mais grave que os abusos sexuais de menores. Não tinha percebido bem o contexto em que tão absurda declaração era emitida, mas fiquei, até hoje, com a pulga atrás da orelha e fui procurar. Estes vermes de sotaina não fazem por menos: em meia dúzia de palavras querem branquear décadas de pedofilia nos colégios católicos irlandeses e combater o projecto de lei do governo espanhol sobre o aborto.


A besta chama-se António Cañizares Llovera e é cardeal. Mas podia ser qualquer um das centenas que ao longo dos anos abusaram de crianças que era suposto proteger, barraram investigações, sonegaram informação, queimaram relatórios, esconderam criminosos, durante muitos anos e em diversos países do mundo.
Daqui a muitos anos há-de vir aí um papa qualquer coisa XXVII pedir perdão ao mundo sobre estes pecados, mas isso não muda a vida das vítimas de abuso que continuam expostos a estes predadores.
É preciso dizer-lhes na cara que o abuso pedófilo é crime. E que, nas circunstâncias em que é perpetrado pelos membros da igreja católica, devia ser considerado crime contra a humanidade. As vítimas são frequentemente crianças já em estado de necessidade, ou aquelas cujas famílias as confiam a uma instituição que respeitam para lhes proporcionar o que julgam ser uma melhor educação.

Revolta-me que esta gente untuosa ande por aí impune e ainda tenha o desplante de vomitar estas baboseiras. Ao menos calem-se. Se quiserem, rezem. De preferência baixinho.

13 de maio de 2009

Os meninos (escravos) da bola

Foto captada no que parece ser o site oficial da família Gonçalves

Acabei de ver na RTP1 uma reportagem perturbadora. Imagino que muita gente terá visto e entre eles, especialistas de saúde mental infantil, juristas, magistrados, membros das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens e, no meu imaginar, amanhã alguma destas pessoas terá abordado estes pais no sentido de salvar estes gémeos de sete anos e, eventualmente, a mãe.
Há momentos impressionantes nesta reportagem, e dois que persistem a atormentar-me a memória. À pergunta sobre o que gostava de fazer para além do futebol, um dos miúdos procura aflito com o olhar no vazio, no chão, uma resposta que não tem. Ainda pede um bocadinho para pensar e, depois de um penoso silêncio acaba por dizer: jogar à baliza, fazer fintas, marcar cantos... O outro momento é o olhar da mãe no seu silêncio obediente. É um olhar inerte. Tanto pode revelar uma angústia recalcada todos os dias como a distracção de um pensamento fútil, do género se calhar devia ter escolhido outra roupa para aparecer na televisão... ou o meu cabelo estará bem?
Um pai que se traveste de mister e manda os filhos encher quando falham um lance ou perdem o domínio da bola, precisa, no mínimo, que alguém com autoridade lhe diga que o que está a fazer pode considerar-se como sevícias e maus tratos e negação do pleno desenvolvimento a que todas as crianças têm direito. O que se passa aqui não difere muito do trabalho infantil de Padre padrone (1977) num remake dos tempos modernos.
Há psicopatas que disfarçam melhor.





19 de janeiro de 2009

DesemBUSHemos, pois

E se de repente... assim de um dia para o outro... o mundo ficasse melhor?
Eu sei que as coisas não são assim, mas sou capaz de acreditar na possibilidade de uma esperança colectiva. Um dia acordamos com vontade de viver em paz e somos capazes de nos contagiar uns aos outros e esse querer propaga-se como uma doença. Boa.
O mundo sobreviveu à era Bush. Bush vai-se embora. Desembuche.


Tom Zé e Jarbas Mariz cantam "Companheiro Bush"

Então e o Cavaco? Nunca mais acaba?
Aceitam-se contributos para: "Uma canção para cavaco".
Mas com estilo.

Imagem apanhada no calçadão

13 de junho de 2008

Porra Pá


O tratado de lisboa foi assim assim mal tratado na irlanda Mas também não admira Aquela gente tirando os u2 e a guiness e o guliver parece que não tem mais nada de jeito É verdade que em menos de vinte anos atingiram um nível de desenvolvimento invejável mas isso é por serem muito católicos e serem contra o aborto Foram assim cobertos de graças divinas a que já se chama o milagre irlandês E depois parece que a maior parte não se conseguiu levantar antes das dez da noite para ir votar e mais uns quantos que levaram o dia a treinar sapateado e a beber black bush Só foram mesmo os que sairam de casa para ir à missa Para irem maltratar o tratado bem podiam ter ido antes beber uns pints Dizem eles que não iam votar uma coisa que não entendem tal como ninguém assina um documento sem o ler antes Estes irlandeses são muito tolos Se percebessem alguma coisa de política já tinha entendido que isso é o que faz a maior parte dos deputados que são porreiros votam sim sem hesitar Assim é que se trata bem o tratado

Agora dizem que está morto

26 de março de 2007

grandes equívocos portugueses

Tinha ouvido falar e nunca levei muito a sério Afinal aquilo era mais um programa de televisão para preencher um espaço entre uns blocos de publicidade e pago por todos nós na conta da electricidade Ontem depois dos fedorentos (a coisa mais séria da televisão portuguesa) ficamos a saber que aquela figura tenebrosa tinha ganho o concurso do preço certo ou do malato mestre das moças giras Ou não era bem isso nem floribela com morangos nem o pito dourado da carolina Bem seja lá como for a salazarosa figura de combadão ganhou o euromilhões ou o totoloto da santa casa da erre-tê-pê
Logo alguém que não percebi se era concorrente ou simplesmente treinadora de um outro atleta que também corria ali Disse cobras e inconstitucionalidades daquilo e que não podia ser e tal.
Pois. Mas agora é tarde Devia ter-se demarcado daquela macacada em vez de a legitimar com a sua presença
Mas isto levantou-me outra questão Não haveria uma única portuguesa digna de figurar entre os dez Pergunto
Não sei se a padeira de aljubarrota realmente existiu Mas já conheci muitas grandes portuguesas que foram capazes de gerir um parco rendimento proveniente da sua força de trabalho e ainda amealhar algum para o caso de haver alguma fatalidade de saúde Criaram filhos sem creches nem amas nem licenças de maternidade e sempre a trabalhar E para isso não precisaram de mandar a pide torturar nem assassinar ninguém Nem precisaram de fazer uma guerra que estropiou uma geração aquém e além
Afinal o gajo foi grande em quê Pergunto