9 de abril de 2026

Mensagens na água que corre

 Há dois dias que remexo baús. A escolha do termo baú não surge por acaso para referir gigabites de arquivos digitais guardados na cloud, na memória do PC e em disco externo. O baú tem, diferentemente destes devices, um cheiro peculiar, sui generis. Cheira a antigo. Os ficheiros que encontro e abro e fico a ler não permitem, pelo odor, ser localizados no tempo. Muita coisa não tem data, a não ser a de gravação do ficheiro que na maior parte dos casos só nos permite dizer que foi escrito antes dessa data. Encontro escritos meus, às vezes pequenas notas de duas ou três linhas, palavras recebidas pelas vias electrónicas, citações entre aspas, mas sem referência ao autor... Acontece-me ter dúvidas sobre a minha provável autoria de alguns textos. Até já perguntei à IA se alguém teria escrito algo que parece uma dedicatória para alguém a quem teria oferecido um livro de que não me lembro e que guardei em 1995.

Encontrei um curioso texto com a referência de autoria atribuída a Mejmar de Isfahan, um poeta persa que terá morrido em 1811 (ou 1225, na hégira - o calendário islâmico). 

Tem o título de Enigma e reza assim:

Quem é o mensageiro abençoado quando chega, que nos torna felizes com a sua presença, que passeia noite e dia e não pára ao longo dos anos e dos meses? Na aba do seu trajo, traz almíscar, e âmbar cinzento no colarinho. Caminha sem pés nem cabeça; é um louco privado de espírito e de razão, um apaixonado errante, um vagabundo sem alimento nem sono. Ninguém sabe por amor de quem não pode parar; ninguém sabe qual a ausência que tanto o perturba. Como os corações dos apaixonados sob o efeito dos caracóis das belas mulheres, as ondas debaixo dele ora são como anéis, ora são curvas e revoltas. Ora a terra morre por causa dele, como as nossas faculdades morrem por causa da velhice; ora, pelo contrário, ele vivifica o mundo, como a juventude vivifica a natureza humana.

É bem mais do que um enigma. É uma corrente de metáforas, um rio de significados.

Impossível é não ir correr de memória em memória para as margens do rio da minha infância. O meu Tejo. O caminho sem fim para o mundo que continuava, eu sabia, mesmo quando me vinha embora. 

Ainda hoje sonho com água a correr.




12 de março de 2026

É tudo mais ou menos teatro e assim...

Com alguma frequência assalta-me a memória uma frase que dizia numa peça de teatro. Como os textos eram retalhos de outros textos misturados com textos nossos, não consigo identificar a autoria deste trecho que a seguir reproduzo:

Quando alguma coisa se parte cá dentro por causa de um gesto fóssil, por uns instantes breves abre-se um horizonte de potencialidades inéditas.

Quando trabalhei sobre esta fala, senti alguma dificuldade com a memória e com a sua expressão. Faltava-me um sentido claro e só o percebi alguns meses mais tarde. Realcei aqui alguma coisa que se parte cá dentro e o gesto fóssil. Acabei por estabelecer um sentido provisório e, ainda hoje, consigo reproduzir esta frase de cor. Ela visita-me sempre que o tema da peça - a fragilidade humana nas suas mais diversas circunstâncias - vem agarrado a algum acontecimento. São as singularidades plurais dos seres sensíveis onde um pequeno gesto pode desencadear um processo de angústia e tristeza.

Estamos sempre a viver o novo e o velho e, com isso, a aprender o caminho que estamos, simplesmente, a construir. Com o que trazemos e com o que acontece à nossa volta, dentro e fora de nós. Este novo pode ter alguma escolha, mas é basicamente  desconhecido. É com tudo isso que construímos o agora que, mais do que desconhecido, é inédito e único nas suas possibilidades assim acontecidas. Eventualmente, fará parte de um futuro "material velho" a reciclar mais à frente.

A ideia de algo que se parte não será determinista. A acontecer, só tem de irremediável o que acontece e só não tem atalhos se não soubermos ou não quisermos. É fácil dizer isto em termos de reflexão, mas não o será certamente em cima e por dentro do acontecimento. A racionalidade em causa própria tem os seus limites e as escolhas que fazemos podem ser ditadas por tantas coisas!

Passou muito tempo. Algum tempo, pelo menos, que isto do tempo é muito relativo e subjectivo. Avanços e recuos seria uma forma de descrever o processo se, na realidade soubéssemos para onde vamos, mas parece que na vida não existe um lugar para onde  irmos. Todo o caminho é inevitavelmente e sempre em frente. E o Régio, no seu Cântico, não tem a razão toda. "Sei que não vou por aí" é apenas uma forma de nos convencermos de que temos algum controlo sobre nós e os outros e o mundo que se acontece. Não sei bem se não vou muitas vezes por onde, repetidamente, afirmo que não irei. Não sei por onde nem para onde vou. E, também, não sei se não estarei a ir por aí.