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12 de março de 2026

É tudo mais ou menos teatro e assim...

Com alguma frequência assalta-me a memória uma frase que dizia numa peça de teatro. Como os textos eram retalhos de outros textos misturados com textos nossos, não consigo identificar a autoria deste trecho que a seguir reproduzo:

Quando alguma coisa se parte cá dentro por causa de um gesto fóssil, por uns instantes breves abre-se um horizonte de potencialidades inéditas.

Quando trabalhei sobre esta fala, senti alguma dificuldade com a memória e com a sua expressão. Faltava-me um sentido claro e só o percebi alguns meses mais tarde. Realcei aqui alguma coisa que se parte cá dentro e o gesto fóssil. Acabei por estabelecer um sentido provisório e, ainda hoje, consigo reproduzir esta frase de cor. Ela visita-me sempre que o tema da peça - a fragilidade humana nas suas mais diversas circunstâncias - vem agarrado a algum acontecimento. São as singularidades plurais dos seres sensíveis onde um pequeno gesto pode desencadear um processo de angústia e tristeza.

Estamos sempre a viver o novo e o velho e, com isso, a aprender o caminho que estamos, simplesmente, a construir. Com o que trazemos e com o que acontece à nossa volta, dentro e fora de nós. Este novo pode ter alguma escolha, mas é basicamente  desconhecido. É com tudo isso que construímos o agora que, mais do que desconhecido, é inédito e único nas suas possibilidades assim acontecidas. Eventualmente, fará parte de um futuro "material velho" a reciclar mais à frente.

A ideia de algo que se parte não será determinista. A acontecer, só tem de irremediável o que acontece e só não tem atalhos se não soubermos ou não quisermos. É fácil dizer isto em termos de reflexão, mas não o será certamente em cima e por dentro do acontecimento. A racionalidade em causa própria tem os seus limites e as escolhas que fazemos podem ser ditadas por tantas coisas!

Passou muito tempo. Algum tempo, pelo menos, que isto do tempo é muito relativo e subjectivo. Avanços e recuos seria uma forma de descrever o processo se, na realidade soubéssemos para onde vamos, mas parece que na vida não existe um lugar para onde  irmos. Todo o caminho é inevitavelmente e sempre em frente. E o Régio, no seu Cântico, não tem a razão toda. "Sei que não vou por aí" é apenas uma forma de nos convencermos de que temos algum controlo sobre nós e os outros e o mundo que se acontece. Não sei bem se não vou muitas vezes por onde, repetidamente, afirmo que não irei. Não sei por onde nem para onde vou. E, também, não sei se não estarei a ir por aí.

18 de setembro de 2013

A Praia I

N minha terra não havia mar. Pelo menos para mim. Sabia do Carril e do Toco onde as mães iam lavar e isso era uma verdadeira praia com juncos e espadanas e peixinhos pequeninos à nossa volta. Ouvia falar da praia. Que tinha areia. E na minha imaginação aparecia um enorme monte de areia, muito maior do que aquele que uma camioneta tinha descarregado em frente da casa do Ti Paulino, para fazer obras, e onde eu me deliciava a brincar. Claro que isso me custou umas duas palmadas no rabo que a minha mãe era célere em questões de justiça que administrava logo ali à frente do queixoso de que eu tinha espalhado a areia toda. Alma danada, acrescentava o nosso vizinho com ar zangado. Hoje penso que fazia aquilo para que se parecesse mais com uma praia que eu nunca tinha visto. A minha tia, irmã do meu pai, casara-se com um pintor da construção civil que também era ciclista. Livre dos preparativos das vindimas e da venda dos melões e também por já ser um bocadinho rica, começou a ir todos os anos à praia. Juntava-se com uma amiga e iam as duas à Nazaré alugar uma casa para quinze dias, para as duas famílias. Nazaré era palavra que não se pronunciava por ser desnecessária. Toda a gente se entendia apenas com o nome Praia. A primeira vez que fui à praia teria pouco mais de três anos. Dizem que não temos memórias de antes dos quatro, mas não acreditem. Apanhava-se a camioneta dos Claras, isso soube mais tarde, e lembro-me do cheiro que exalava dos bancos e que me agoniava. Eu forte como era e com o entusiasmo de ir para a praia, aguentava, enquanto o Raimundo, a meu lado, já tinha vomitado pelo menos duas vezes para uma toalha. Aquilo cheirava quase tão mal como todo interior da camioneta, mas alguém abriu o vidro e a coisa melhorou. O Raimundo, mais velho que eu, um ano ou dois, olhava para mim, verde e quase a revirar os olhos. Empoleirado no banco conseguia saborear o ar na cara e o cheiro dos pinhais. Um ronco mais intenso do motor, uma subida, um ligeiro tombo no início de descida e uma explosão de vozes exclamativas. Parecia-me ouvir “o Mário… o Mário!”. Eu conhecia dois Mários. Um era o barbeiro onde o meu pai ia ler o jornal e outro era um vizinho que andava sempre de fato-macaco azul e sujo de óleo porque andava numa oficina a aprender o ofício. Bem rodava a cabeça, mas não consegui reconhecer em nenhuma das caras, um desses Mários. Pouco depois e sempre a descer entrámos casario dentro por ruas onde andava muita gente a pé e um cheiro esquisito no ar. Tínhamos chegado à Praia e eu nem sabia que havia mar.

31 de outubro de 2011

Dia D







Dê grande.
Grande Dê.
DÊ.

Drummondar é dar Drummond.
Dar ao mundo quem se deu ao mundo.
E não cedeu.

Porque o riso mesmo ácido
é sempre uma brincadeira do amor.




SEGREDO

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.


Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.


Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

Carlos Drummond de Andrade
(Itabira, 31 de Outubro de 1902 - Rio de Janeiro, 17 de Agosto de 1987)




11 de novembro de 2010

São Martinho

Não me lembro bem se tive uma colega de liceu chamada Conceição Martinho ou se a inventei assim chamada porque me dava jeito cantar-lhe uma canção. É claro que toda a gente a tratava por São Martinho. Só nos encontrávamos na aula de Ciências ou Biologia porque ela era de outra turma e já não sei porquê tinha aquela disciplina na minha. Nunca tivemos grande relação e terão sido raras as vezes que nos vimos fora das aulas, mas pelo menos nas duas vezes por semana que nos juntávamos na aula cruzámos um olhar cúmplice que transportava dizeres nunca verbalizados. Ficámos sempre nesse entendimento doce e mudo. O seu olhar era sempre triste e sereno apenas com um leve sinal na comissura dos lábios como que a dizer sei que me estás a ver. Um dia a professora advertiu-me e ainda fui a tempo de me ouvir a trautear a música. Para mim estaria apenas a cantar mentalmente enquanto recriava a letra em português:
São Martinho
Como a vida é fácil
Saltam peixes
Dos teus olhos de algodão
Tens um pai rico
E uma mãe bonita
Por isso, minha linda
Não chores não


Coisas dos 17 anos...
Durante algum tempo associei esta cantiguita às festas de S. Martinho pelas adegas dos pais dos meus amigos para depois me esquecer dela completamente.
Hoje, 11 de Novembro, tradicionalmente conhecido como dia de S. Martinho padroeiro das castanhas, água pé e jeropiga - que santíssima trindade!... - (sendo que na minha terra não há confusão nenhuma com a grafia de jeropiga: escreve-se mesmo vinho abafado), pois hoje dia de S. Martinho, enquanto caminhava de pasta na mão dei por mim a cantar isto e a visitar estas memórias. Só não tenho a certeza se apelido da São era verdadeiro ou inventado por mim.

6 de julho de 2010

O meu pai lê o Mirante

e diz que é um semanário de "grande circulação" em todo o Ribatejo (região que parece que já não existe) maior que os jornais nacionais que traz notícias de todas as terras e descobre muitas carecas autárquicas. Além disso não dispensa a leitura da "Voz" la da terra, um mensário da paróquia de que é assinante há mais de 40 anos.
E foi a folhear o Mirante que que me chamou a atenção do título Voto de pesar pela morte de José Saramago chumbado na Chamusca. Achei curioso porque me lembrava que a câmara deveria ser, no mínimo, do PS ou da CDU e fui ler. A proposta feita pelo único eleito do BE para a AM teve os votos contra (7) do PS e do PSD e (pasme-se!) 12 abstenções da CDU e mais 3 dos outros.
De repente reeditei na minha cabeça as inúmeras discussões e confrontos de há trinta e tal anos com a malta do PC para quem as propostas dos "esquerdistas" eram sempre para deitar abaixo, isolá-los como se tivessem peste e, se necessário dar-lhes um enxerto de porrada.

As idas à terra e à família são sempre uma viagem estranha. É bom vê-los, visitar os sítios da infância (e deixar que me conheças também por esses sítios), mas há sempre qualquer coisa de regressivo neste reencontro. Parece que estamos sempre a ser o que nos lembramos de ter sido numa espécie de ajustamento involuntário aquele modo particular de existir a que já só nos sentimos ligados pelo passado.

Ao fim de cerca de trinta anos sem nos vermos, estive com o meu amigo Rui. Foi meu companheiro de adolescência, cúmplice de aventuras e namoricos dos bailes de fora da terra e camarada "esquerdista". Interlocutor das mais variadas discussões em múltiplos desacordos sobre tudo e mais alguma coisa, mantivémo-nos amigos durante muitos anos.
Deixámos de ter contacto sem haver uma razão explícita, mas eu sempre pensei que os motivos talvez estivessem relacionados c om o facto de a minha deriva freak da altura e o seu conservadorismo essencial já não terem muita pachorra para se aturarem.

1 de maio de 2010

Viva o 1º de Maio

Acácias do meu bairro.

O 1º de Maio é dia do Trabalhador. Dia de luta e dia de festa. Também ligado a memórias tristes. Luto. Às vezes o sentido da vida parece pôr os ponteiros a rodar ao contrário e o que deveriam ser referências para o nosso viver colectivo perdem-se em residuais rituais folclóricos.
Quando vim para este sul, há trinta anos encontrei dois dias distintos e também misturados.
Dia de Maio: dia de "atacar o Maio" logo de manhã com um bom medronho; dia de ir para o campo comer panelões de caracóis a cheirar a orégãos; da "festa da pinha", das "abarcas", da entrada com archotes na aldeia de Estoi ao anoitecer, dos "maios" à beira da estrada...
O Primeiro de Maio: dia da festa sindical; dia das bandeiras vermelhas, dos discursos, das canções da memória revolucionária e de outras que se quiseram ligar a essa memória...
São festas populares. Já participei nas duas. A primeira acaba por ser a mais pagã mesmo que inclua missa na igreja matriz.
Dia de luta e dia de festa. Há muitas razões para lutar e a gente gosta mais de festa. Que fazer, Lenine?
Eu cá para mim era capaz de aderir a uma teoria absolutamente revolucionária, capaz de derrotar a actual deriva capitalista selvagem e louca.
Vamos vencê-los pela festa!

23 de abril de 2010

Um dispositivo tecnológico impressionante



Video sugerido por mail pelo meu amigo L. Moreira a quem deixo um abraço

Interessante peça de marketink que ilustra como as palavras não se deixam aprisionar.
Muito apropriado para este dia.

11 de abril de 2010

Quando falaste...

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Mas voámos todos um pouco e de repente toda a Serra era uma imensa escola verde e o Sado o recreio e a Pedra Anicha uma sala de aula frente ao Portinho ou era mesmo só a Pedra Anicha sobrevoada por gaivotas que éramos nós todos.
Por um tempo deixaste de ser a rapariga dos brincos de pérola e tornaste-te no poeta professor e toda aquela sala voou num caminho por ele fora sem tempo nem asas/almas encarceradas. Ficámos todos meninos a aprender e até o "Fosco" rabino desta vez ficou até ao fim.

Sessão comemorativa do nascimento de Sebastião da Gama, ontem em VN de Azeitão, no museu que tem o seu nome.

Melhor ainda é ler-te na primeira pessoa.
Singular.


Sebastião Artur Cardoso da Gama nasceu em Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal, em 10 de Abril de 1924, e faleceu em Lisboa em 1952


"Encarcerar a asa é encarcerar a alma. Isso sim. É que há muita asa que não pensa; asas que não sintam é que não.Mas eu não preciso do símbolo para ver os pássaros na gaiola. Basta-me ser fraterno. Para que vivemos no mundo há tanto tempo, se não sabemos ainda que os bichos são criaturas com alma?... Até os das fábulas, quando calha... Ora pensem lá um bocadinho no " Leão Moribundo"... É um leão mesmo, ou é principalmente um leão. Quantas vezes se esquecem os fabulistas de que era de homens que queriam falar!
Asa encarcerada não. Nem asa de pássaro nem asa de grilo. Uma fê-la o Senhor e disse-lhe: " Voa!" À outra: " Canta!" A nenhuma ( nem a nós deu a ordem, claro está) que se metesse numa gaiola. No entanto é a gaiola o domicílio habitual muito habitual do pássaro e do grilo. Ao grilo prendem-no as crianças, sob o sorriso dos pais. Ao pássaro os pais sob o sorriso dos filhos. Má escola esta. Principalmente porque se diz: "Que bem que canta!, Que bem que canta!". Nem se chega a aprender a diferença que vai do canto ao choro. Pois um pássaro encarcerado canta lá?!... Os pássaros cantam é nas linhas do telefone, nas árvores, nas beiras do telhado... Os grilos é na toca ou ao pé da serralha. Na gaiola choram. É o fado dos ferros."

Sebastião da Gama (1947). O segredo é amar



8 de março de 2010

Mulher


Para mim, são todos os dias.

12 de fevereiro de 2010

Escutas

Volta Reich. Estás reabilitado.

Ver aqui link para texto integral.

Chamam-te “Zé Ninguém!” “Homem Comum” e, ao que dizem, começou a tua era, a “Era do Homem Comum”. Mas não és tu que o dizes, Zé Ninguém, são eles, os vice-presidentes das grandes nações, os importantes dirigentes do proletariado, os filhos da burguesia arrependidos, os homens de Estado e os filósofos. Dão-te o futuro, mas não te perguntam pelo passado.
Tu és herdeiro de um passado terrível. A tua herança queima-te as mãos, e sou eu que to digo. A verdade é que todo o médico, sapateiro, mecânico ou educador que queira trabalhar e ganhar o seu pão deve conhecer as suas limitações. Há algumas décadas, tu, Zé Ninguém, começaste a penetrar no governo da Terra. O futuro.da raça humana depende, à partir de agora, da maneira como pensas e ages. Porém, nem os teus mestres nem os teus senhores te dizem como realmente pensas e és, ninguém ousa dirigir-te a única crítica que te podia tornar apto a ser inabalável senhor dos teus destinos. És “livre” apenas num sentido: livre da educação que te permitiria conduzires a tua vida como te aprouvesse, acima da autocrítica.
Nunca te ouvi queixar: “Vocês promovem-me a futuro senhor de mim próprio e do meu mundo, mas não me dizem como fazê-lo e não me apontam erros no que penso e faço”.
Deixas que os homens no poder o assumam em teu nome. Mas tu mesmo nada dizes. Conferes aos homens que detêm o poder, quando não o conferes a importantes mal intencionados, mais poder ainda para te representarem. E só demasiado tarde reconheces que te enganaram uma vez mais.

(...)

Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo o grande homem foi outrora um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade: a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza no seu modo de pensar e agir. Através de qualquer tarefa que o apaixonasse, aprendeu a sentir cada vez melhor aquilo em que a sua pequenez e mediocridade ameaçavam a sua felicidade. O grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandeza alheias. Que se orgulha dos seus grandes generais, mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve, mas nunca as que teve. Que acredita mais arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar.
(...)


Os teus libertadores garantem-te que os teus opressores se chamam Guilherme, Nicolau, papa Gregório XXVIII, Morgan, Krupp e Ford. E que os teus libertadores se chamam Mussolini, Napoleão, Hitler e Stalin.
Mas eu afirmo: Só tu podes libertar-te.

(...)

Intelectualmente, sei que devo dizer a verdade a todo o custo. Mas o Zé Ninguém que se alberga em. mim adverte-me: estúpido, expores-te, entregares-te, ao Zé Ninguém. O Zé Ninguém não está interessado em ouvir a verdade acerca de si próprio. Não deseja assumir a grande responsabilidade que lhe cabe, quer queira quer não. Quer permanecer o que é ou, quando muito, tornar-se num desses grandes homens medíocres – ser rico, chefe de um partido, da Associação dos Veteranos de Guerra ou secretário da Sociedade de Promoção da Moral Pública. Mas assumir a responsabilidade do seu trabalho, alimentação, alojamento, Transportes, educação, investigação, administração pública, exploração mineira, isso nunca.
(...)


É por isso que eu tenho medo de ti, Zé Ninguém, um medo sem limites. Porque é de ti que depende o futuro da humanidade. E tenho medo de ti, porque não existe nada a que mais fujas do que a encarar-te a ti próprio.


E a declaração que hoje também me apetece fazer ao mundo:

Faço amor com a minha mulher porque a amo e a desejo e não porque tenha um certificado de casamento ou para satisfazer as minhas necessidades sexuais.

18 de maio de 2009

Bendito Mário!

Morrer é nada. Uma basfémia diletante de um procuro e não te encontro. Frente ao mar. Sempre frente ao mar a escrever estratégias na areia burocrática. Uma mulher despida no escuro ou um vice versa pequeno-burguês.
Aprenderei a dizer-te bem. O melhor que puder.

Mário Benedetti, poeta uruguaio "desexilado", faleceu ontem em Montevideo

Si Dios fuera una mujer
¿y si Dios fuera una mujer?
-Juan Gelman

¿Y si Dios fuera mujer?
pregunta Juan sin inmutarse,
vaya, vaya si Dios fuera mujer
es posible que agnósticos y ateos
no dijéramos no con la cabeza
y dijéramos sí con las entrañas.

Tal vez nos acercáramos a su divina desnudez
para besar sus pies no de bronce,
su pubis no de piedra,
sus pechos no de mármol,
sus labios no de yeso.

Si Dios fuera mujer la abrazaríamos
para arrancarla de su lontananza
y no habría que jurar
hasta que la muerte nos separe
ya que sería inmortal por antonomasia
y en vez de transmitirnos SIDA o pánico
nos contagiaría su inmortalidad.

Si Dios fuera mujer no se instalaría
lejana en el reino de los cielos,
sino que nos aguardaría en el zaguán del infierno,
con sus brazos no cerrados,
su rosa no de plástico
y su amor no de ángeles.

Ay Dios mío, Dios mío
si hasta siempre y desde siempre
fueras una mujer
qué lindo escándalo sería,
qué venturosa, espléndida, imposible,
prodigiosa blasfemia.

24 de abril de 2009

abril a brilhar


Sei onde estava no 25 de abril.

Liguei o rádio quando acordei, como fazia todos os dias e, em vez das notícias que ia ouvindo enquanto me despachava para ir para o liceu, só transmitiam marchas militares. Tinha na memória de uns anos antes a rádio também se ter calado e só transmitia música sacra; foi quando morreu o Salazar. A ideia imediata foi deve ter morrido algum gajo militar importante, talvez o Thomaz e continuei pelo pequeno almoço à pressa e a saída a correr porque a carreira do Manel Neto não esperava por atrasados.

O rádio do autocarro continuava a debitar músicas que lembravam filmes de marines e pontes do rio Kuai até que se ouve uma voz de alguém que não era seguramente locutor conhecido da rádio: aqui posto de comando do movimento das forças armadas... e tudo o mais que se conhece. Golpe militar, pensei. E pensei o pior. Pensei nas informações que corriam sobre uma certa oposição de extrema direita ao Marcello Caetano, ao que constava, liderado por Alpoim Galvão. Mas também pensei que se fossem esses, não se davam ao trabalho de recomendar calma à população e prometer que seríamos informados logo que a situação se normalizasse.

Quando entrei na aula já a professora Lília dançava a valsa com Heideggar ou Kant e eu a perguntar se alguém sabia o que se passava e ela a querer expulsar-me e eu a perguntar-lhe se ela não tinha nenhuma ideia melhor no momento em que estava em curso um golpe de estado em Portugal. A aula acabou logo ali e fomos todos, muitos, para a frente da Escola Prática de Cavalaria. Ninguém sabia que tinha sido precisamente dali que tinha saído a coluna militar comandada por Salgueiro Maia.


Depois começaram a chegar notícias e a gente a encher as ruas de riso e abraços e a gritar liberdade. E foi sempre isto que eu achei que era a revolução.


Páro aqui. Vou abraçar abril e o futuro.

4 de março de 2009

Um lustro



O Contador de Gaivotas foi criado em 4 de Março de 2004, por Gregório Salvaterra que após um virtual trespasse deste espaço foi contar pinguins para a Patagónia.


Cinco anos é mais ou menos uma idade de cão para um blogue. O que vale é que não vive todos os dias.

12 de fevereiro de 2009

Revolução

O Google comemora assim o 200º aniversário de Charles Darwin.
E, pensar que ainda hoje, há quem decrete o criacionismo como doutrina oficial a ser ensinada nas escolas.
A teoria da evolução das espécies é uma verdadeira revolução na sua época. A sua obra conhecida como A Origem das Espécies é publicada em Novembro de 1859, com o título completo de On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. Esgotou rapidamente e como não podia deixar de ser desencadeou logo grande oposição da igreja católica que ainda persiste hoje.

13 de janeiro de 2009

Resiste

Eram outras lutas e outras as formas de lutar. Lembro-me da audição clandestina, mas ao mesmo tempo capaz de puxar o som ao máximo, num desafio adolescente. Era sentido como uma forma de resistência e luta. Causava-nos um arrepio e uma vertigem como se o regime e a guerra fosse acabar já a seguir.
Ontem, como hoje, resistir é já vencer.




Resiste, meu Amor, resiste,
Nas grades do país-prisão,
Não mostres esse ar triste,
Não mostres desolação.

Não, meu Amor,
Não penses que te deixei,
Eu tenho milhões de irmãos
E como eles te salvarei.

De vermelho a nova aurora,
De vermelho vai chegar,
Sorrirá quem chora agora
Quando eu cantar novo cantar
.


Luís Cília
Pode ouvir-se aqui.

17 de setembro de 2008

Radex e coisas assim mais ou menos mágicas


A Marlene era uma adolescente dos seus quinze ou dezasseis anos, loira oxigenada e brilhava nas festas das vindimas a dançar ié-ié com o Fialho no palco da Mesericórdia. Eu era dos poucos que sabiam que ela passava os seus dias fechada num escritório a lançar facturas e a dactilografar ofícios.
Aos onze anos, fui trabalhar para a loja que tinha tudo o que havia para vender. Atendia os fregueses ao balcão que pediam desde parafusos com cabeça de embeber dum tamanho que era uma esquisita fracção de polegada (do tipo 6/38) a uma mão de papel almaço.
De vez em quando lá ia ao pé da Marlene que me tinha quase adoptado e até me queria arranjar uma namorada que era uma amiga sua chamada Teresa e que trabalhava no escritório de um armazém de vinhos ali ao pé. Um dia, estava a escrever à máquina e enganou-se. Soltou umas pragas e raios te partam, mas não parecia muito chateada com o sucedido. Vi-a abrir a gaveta da secretária e tirar uma espécie de selo rectangular e dizer-me que aquilo era mágico. E a seguir premiu duas ou três vezes a tecla de retrocesso, colocou o selo sobre o papel, voltou a bater as mesmas letras com muita precisão e, magia!, onde estava um erro ficou o papel em branco e podia escrever-se de novo.
O selo de papel que utilizou tinha escrito de um dos lados várias vezes a palavra RADEX.
Aprendi aquela palavra mágica e voltei a lembrar-me dela anos mais tarde quando dactilografava os primeiros trabalhos académicos. Hoje nas arrumações caiu-me de entre papeis velhos um pequeno envelope com meia dúzia de selos correctores mágicos RADEX. É um produto da marca KORES, diz que "elimina erros dactilográficos" e duvido que alguém ainda consiga comprar.
Nunca mais vi a Marlene. Acho que voltou para a França que a viu nascer e onde tinha os pais emigrados. Provavelmente, hoje escreve num computador, mas tenho a certeza que não será mulher para utilizar corrector no ecrã como já ouvi numa anedota.

5 de setembro de 2008

Vindima

Vão a caminho dos oitenta e repetem os mesmos gestos rurais todos os anos.
Repetem também os discursos com umas pequenas alterações, como se fosse uma matriz de dados que se preenche todos os anos: daqui do Valdaque já tirámos três mil e quinhentos quilos de uvas este ano; o Casalinho está um pouco melhor, mas tem menos grau, é da rega; na Guarita estragou-se muito, foram as geadas...
De muitas décadas de volta das vinhas sobra-lhes a angústia de não saber o que vai acontecer quando não conseguirem cuidar delas. Sei que para eles ver as terras por amanhar os fará morrer mais depressa. O rendimento que dali tiram não paga o trabalho e isso torna a exploração agrícola praticamente inviável. Isso é o que pensará qualquer agricultor, ou engenheiro ou qualquer pessoa. Mas não estamos a falar de uma exploração agrícola; é um modo de vida. Vivem do trabalho, do amor à terra e não do seu rendimento. Subsistem com uma parca reforma donde ainda tiram para comprar uns adubos ou gasóleo para o tractor.
Foi daqui que nasci e me criei. Comecei menino a fazer vindimas de sol a sol, um dia inteiro de mãos pegajosas do mosto, dores nas costas e algumas picadas de abelhas. Devia lá estar agora para o rancho ser maior.



28 de agosto de 2008

Sobre a ardósia

Declarações ao sol:
A sombra só se vê quando há luz e se está atento e de olhos abertos.
Aldeia de Pena, S. Pedro do Sul, Agosto 2008

21 de julho de 2008

Dar de Vaia -1984

De vez em quando vêm-me parar às mãos coisas que não resisto a partilhar. Estas fotos forma-me trazidas por um amigo de há muitos anos e parece que andaram esquecidas e perdidas até há umas semanas atrás. Um encontro ocasional trouxe a recordação e a promessa das fotos.
Aqui ficam duas. Duas histórias entre outras que talvez um dia conte ou reinvente.



Foi há tanto tempo!
Dois projectos diferentes em cima do mesmo palco. Uns, profissionais desde Sagres de 1976. Outros, amadores com música amada e profissionais de outros ofícios.
Trovante e Dar de Vaia, em Julho ou Agosto de 1984, na então Esplanada de S. Luís, em Faro.
Ambos os grupos já terminaram e o recinto polivalente rapidamente deu lugar a prédios altos e ao condomínio da Praça d'Alandra.
Assim. Sem mais cantigas.
Fotos digitalizadas a partir dos originais cedidos pelo autor Luís Costa, a quem agradeço.
Um abraço

5 de junho de 2008

Teatro de roda

Parece que foi ontem. Começa assim o post do meu amigo HFR que sem ele saber me conduziu a uma viagem para trás e para a frente e a encontrar-me com amigos que fui mantendo desde aí e com outros que por motivos vários lhes fui perdendo a presença , mas não a memória.

Também eu passei pelo Teatro Laboratório de Faro. Tinha feito o primeiro curso logo em 1981/82 e era, simultaneamente "actor estagiário" na companhia. Percorremos o Algarve a fazer a "Alice no país das maravilhas" com cenários e adereços às costas desde Aljezur a Vila Real de Santo António, passando pela ilha da Culatra (muito antes de ter sido descoberta pela Olga Roriz). E quando digo, às costas, não é figura de estilo. Era mesmo a carregar. E a Isabel Pereira já tão grávida naquele verão tão quente. Depois foi o "Pic Nic" do Arrabal onde fui substituir o Zé Ananias e fazia de soldado acompanhado pelo "inimigo" Pedro Rosado visitado pelos pais Zé Louro e Isabel Pereira na frente de combate. O desempenho era seguramente melhor nos happenings que na peça, mas pronto.

No meio disto tudo lembrei-me da Veva que foi para a Comuna e depois disso só a vi uma ou duas vezes em faro e em Lisboa, assim por acaso. Lembrei-me dela, há dias também por outras conversas com a minha rapariga, sobre a Comuna e sabia que tinha feito uns coros com o José Mário Branco.
Descobri, numa rápida pesquisa que a moça anda aí com imensos projectos para crianças e não só.



Associo-me também aos parabéns pelos 25 anos do Teatro Análise da Casa da Cultura de Loulé.

Um forte abraço.