Viveu os seus anos todos a misturar a sua vida com a terra e as searas e as vinhas e as oliveiras sem medo do sol do estio ou o rigor das geadas. Ria-se das agruras convencido de que tudo isso o "enrijava". Homem do campo, trabalhava até ver e à noite - durante alguns anos à luz do candeeiro a petróleo - lia esteiros e fangas e gaibéus em searas de vento. E também Gorki e Zola e Steinbeck e Amado. Pequeno, saltava-lhe para o colo e queria saber o que diziam os livros. Cedo levou-me à biblioteca da Sociedade Filarmónica e ainda hoje tenho na memória o cheiro dos livros e o fascínio das lombadas alinhadas. Fez apenas a instrução primária, mas deve ter lido muito mais do que a maioria dos licenciados de hoje. Brincávamos ao jogo de dizer as capitais de todos os países do mundo...
Um dia escreveu uma carta ao ministro da educação a pedir uma bolsa para que o filho pudesse estudar.
Ensinou-me tudo o que foi necessário para que pudesse continuar a aprender.
Misturou-se definitivamente com a terra na passada segunda-feira e no seu humor muito particular não teria deixado de fazer uma graça com o facto de ir para a terra com a alma encomendada aos céus.
Era o meu pai.
https://www.youtube.com/watch?v=PzeQwBTbOpw
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19 de março de 2015
23 de julho de 2011
Lx - 20110715
Dizias-me há tanto tempo que não te leio e eu quase a penitenciar-me por não erguer aqui esculturas e fogos reais para o mundo saber da alegria e da festa.
Tu escolheste a árvore de folhas mil quase perenes. E não podia ser melhor porque a árvore é sabedoria e memória de um tempo largo.
Grande é o campo do saber. Dos saberes. Como o do amor que se deixa atravessar por um rio de paixão.
Esta foto é linda.
O Contador Gosta disto.
16 de dezembro de 2010
Prodígios do campus

Uma personagem levantou-se e disse. Isto é uma história.
E eu disse. Sim. É uma história.
Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos.
A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo.
E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento.
Mas será mais eloquente. Para os que crêm nas palavras.
Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar.
Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez.
O breve tempo de uma demonstração.
E eu disse. Sim. É uma história.
Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos.
A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo.
E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento.
Mas será mais eloquente. Para os que crêm nas palavras.
Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar.
Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez.
O breve tempo de uma demonstração.
Lídia Jorge - O dia dos prodígios
Foi ontem. Ou foi há trinta anos. Acabado de chegar a esta terra já tinha percorrido uma boa procura das tradições. Dos falares e cantares que em alguns sítios parecem ser uma e a mesma coisa. Das pragas dos marítimos às rezas a santa bárbara para afastar trovoadas lá para onde nem cresça ramo verde ou alma cr'stã. Das toadas do 'leva' aos romance carolígeo. Da ti' Bi' Fitas aos Velhos da Torre. Da Pinha de Maios e 'abarcas' às charolas. Dos comeres da serra e do mar. Destas terras de gente marafada, afeleada nos seus afazeres, alvoreada com levantes, suestes, besaranhas e sirocos capazes de xaringar um pacato montanhero. Ah, punhão. Mundo. Mesmo que não se acredite em assombrações, encantamentos e se pense que esta ou aquela estória contada naquele falar de boca cheia de Monchique ou nas vogais dobradas do barlavento. Debe. Tem que haver aqui algo de mágico e prodigioso por estas terras e gentes que ainda resiste como mouras encantadas aí pelos poços e noras. Móce. Foi mesmo uma coisa desmarcada.
Lídia Jorge recebeu ontem o grau de doutor honoris causa na Universidade do Algarve. A laudatio pelo vice-reitor Pedro Ferré e o agradecimento da escritora foram no seu conjunto uma das mais emocionantes lições de literatura e ao mesmo tempo uma viagem à minha infância, aos livros e às searas. O meu barrocal era a charneca e o mar sempre foi o Tejo. E pelo Tejo vai-se para o mundo.
Ontem li todos os livros de Lídia Jorge, mesmo os que nunca abri. Talvez por um mero bom acaso, daqueles que nem uma equação diferencial estocástica (os meus amigos matemáticos vão adorar esta) pode admitir como hipótese prever, eu tenha assistido ao Dia dos prodígios em teatro, no Trindade e tenha ido procurar o livro da cobra voadora, com as páginas amarelecidas e tenha iniciado a sua releitura quase trinta anos depois e tenha tido o privilégio, o prodigioso privilégio de poder participar nesta festa que, apesar de todo o cerimonial académico cheio de rituais de liturgia paramentada, foi por largos momentos um largo terreiro de ouvir e contar histórias estórias.
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27 de novembro de 2010
Desassossego
Cinco ésses sinuosos na mesma palavra. Um livro cheio de desassossego. Um filme cheio de palavras e tantos filmes lá dentro. Foi ontem no grande auditório da UAlg onde entrei supranumerário e só consegui sentar-me nas escadas. Um verdadeiro desassossego. Tudo por culpa de João Botelho e do Cineclube de Faro.
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25 de setembro de 2010
Uma letrita capaz de mudar tudo...
Faltava-me ver e fui hoje. Acho que foi a primeira vez que me sentei sozinho numa sala de cinema e tirando um ou outro pormenor, o filme nem me deu tempo para pensar muito nisso.
Sabemos todos que o cinema tem esta magia de não nos mostrar apenas um filme. Enquanto vemos o que passa no ecran passam dentro de nós inúmeros filmes. Mas, até nisso O segredo dos teus olhos é um bom aliado e faz frequentemente isso com o espectador, não só nas narrativas sobrepostas como na forma. Também se reconhecem ali uma data de filmes (policial, acção, drama) e tão depressa parece cinema americano como europeu. Na realidade, este filme não inventa nada e também não é preciso para ser um grande filme que nos toca e agarra pelas nossas dúvidas íntimas.
Dos diálogos ficam-nos por vezes umas ideias bailarinas. A frase (cito de memória) pode mudar-se de tudo, menos de paixão é uma das emblemáticas, mas a que guardei foi a que diz se podes escolher as memórias que guardas fica com as boas.
O final é para mim impressionante. Numa espécie de paráfrase de cena final de filme policial revela-se, não o assassino que foi descoberto há muito, mas, numa síntese espectacular, como se pode mudar o medo em amor. Com a força de uma letrita corajosa o medo diz-se amor.
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12 de setembro de 2010
Serão. Seremos.
Ainda não tinha calhado ir aos serões do Convento apesar dos muitos convites do meu amigo. Fui hoje quando se comemorava o quarto aniversário desta iniciativa e fiquei com pena de ter faltado a quatro anos de encontros de gente com a cultura e a arte. Descubro que estou no meio de amigos, alguns já com décadas e sinto-lhes a alegria de fazer coisas e de se darem. Afinal, mais ou menos a mesma matéria com que se faz um poema na vida.O Daniel, artista de Alte, conta estórias e ainda se lembra da letra de uma cantiga de quando percorria o país nas recolhas da música tradicional e canta "bate padeirinha do meu coração". A Tânia, economista e actriz canta, como quem respira, versos de Florbela e Natália. O Paulo conduz Outras Vozes de impressionante harmonia. O Mário traz-nos um bolero e uma cançaõ da Guiné de protesto ao trabalho escravo infantil. O Beto, angolano, mago das percussões desassossega-nos com ritmos quentes e envolve-nos em coros de Mama Makudelé. O Francisco tira do coro Ideias do Levante pérolas de dedicação.
O meu amigo ganhou esta aposta que enche de muitos amigos e, no final, numa cúmplice concessão à brejeirice ainda comentamos "e muitos mais caberão".
Força companheiro.
10 de julho de 2010
Obrigado, Macário!
Depois de ler aqui e aqui a referência ao comunicado da Câmara Municipal de Faro sobre uma importante medida para a cidade e, porque o Contador é um espaço aberto à participação cidadã, publico aqui uma reacção de um feliz habitante da Horta das Figuras, recebido por e-mail:
Obrigado Macário
A Câmara Municipal de Faro veio informar os munícipes que a partir da próxima sexta feira, dia 8 de Julho irá finalmente libertar os moradores da Horta das Figuras do seu enclausuramento urbano, uma espécie de condomínio concentracionário a que têm sido obrigados pelas anteriores administrações autárquicas. Acontece que apesar de a próxima sexta feira dia 8 de Julho só se verificar daqui a um ano, registamos com agrado que a maldita vedação de rede ali colocada e mantida pelos torcionários de anteriores vereações, já tinha sido retirada há cerca de dois meses e hoje já se encontrava derrubado o intransponível lancil que impedia a circulação entre a cosmopolita rotunda do fórum e a ostracizada Horta das Figuras.
Esta medida, para além de descongestionar a entrada de Faro, a Nacional 125 e, quiçá, mesmo a Via do Infante vem abrir novas perspectivas ao desenvolvimento do bairro. Inspirados noutras experiências como o projecto “Sabura” da Cova da Moura, os moradores já pensam em lançar o projecto “Na m’xaringues”, projecto baseado no empreendedorismo turístico com o qual pretendem dar a conhecer aos visitantes os amplos espaços verdes que cobrem os passeios (agora completamente secos de acordo com a época estival), os cuidados com o pavimento com intervenções artísticas pós-modernas a fazer lembrar vagamente a paisagem lunar, o eficiente e cómodo sistema de recolha de resíduos sólidos, tudo isto a par de uma exposição permanente dos recibos de IMI, taxas variadas e outras habilidades municipais. Tudo isto tem estado guardado há anos apenas para gozo dos privilegiados moradores o que tem gerado uma legítima inveja de todos os outros munícipes e é, na verdade, uma grande injustiça para os poderes edílicos.
Mas não se ficam por aqui os benefícios desta medida em boa hora antecipada em um ano e um dia. Os moradores da Horta das Figuras podem agora ir a pé fazer compras ao Jumbo e trazer o carrinho do supermercado até à porta de casa. Beneficia o Jumbo e beneficiam os moradores. Aliás o Jumbo, num gesto de agradecimento ao corajoso Presidente da edilidade vai erguer uma estátua em sua homenagem, a colocar junto dos bonecos que deitam água na praça do Fórum, em que sua excelência se apresenta vestido de Manneken-pis e também deita água com fartura.
E aqueles que acusam de desNorte e exagero o comunicado da Câmara quando refere que
‘o espaço público é de todos e nesse sentido, importa zelar pela circulação livre, sem constrangimentos ou embaraços de qualquer natureza, o que manifestamente não estava assegurado até esta intervenção’ um dia terão que se render às evidências, porque há coisas que ficam para a História e esta não tem tempo a perder com fracotes e é nas grandes obras que se vêem os grandes homens. Um dia Faro iluminará em leds multicolores uma rotunda com a lapidar e sábia divisa: O espaço público é de todos e nesse sentido.
Faro, 9 de Julho de 2010, sexta-feira
Morador da Horta das Figuras recém-libertado
Na verdade, nem sei como não se lembraram disto há mais tempo. Um verdadeiro ovo de Colombo, de Cristóvão Colombo. Tanta congestão rodoviária na entrada da cidade e a solução tão fácil afinal.
Obrigado Macário
A Câmara Municipal de Faro veio informar os munícipes que a partir da próxima sexta feira, dia 8 de Julho irá finalmente libertar os moradores da Horta das Figuras do seu enclausuramento urbano, uma espécie de condomínio concentracionário a que têm sido obrigados pelas anteriores administrações autárquicas. Acontece que apesar de a próxima sexta feira dia 8 de Julho só se verificar daqui a um ano, registamos com agrado que a maldita vedação de rede ali colocada e mantida pelos torcionários de anteriores vereações, já tinha sido retirada há cerca de dois meses e hoje já se encontrava derrubado o intransponível lancil que impedia a circulação entre a cosmopolita rotunda do fórum e a ostracizada Horta das Figuras.
Esta medida, para além de descongestionar a entrada de Faro, a Nacional 125 e, quiçá, mesmo a Via do Infante vem abrir novas perspectivas ao desenvolvimento do bairro. Inspirados noutras experiências como o projecto “Sabura” da Cova da Moura, os moradores já pensam em lançar o projecto “Na m’xaringues”, projecto baseado no empreendedorismo turístico com o qual pretendem dar a conhecer aos visitantes os amplos espaços verdes que cobrem os passeios (agora completamente secos de acordo com a época estival), os cuidados com o pavimento com intervenções artísticas pós-modernas a fazer lembrar vagamente a paisagem lunar, o eficiente e cómodo sistema de recolha de resíduos sólidos, tudo isto a par de uma exposição permanente dos recibos de IMI, taxas variadas e outras habilidades municipais. Tudo isto tem estado guardado há anos apenas para gozo dos privilegiados moradores o que tem gerado uma legítima inveja de todos os outros munícipes e é, na verdade, uma grande injustiça para os poderes edílicos.
Mas não se ficam por aqui os benefícios desta medida em boa hora antecipada em um ano e um dia. Os moradores da Horta das Figuras podem agora ir a pé fazer compras ao Jumbo e trazer o carrinho do supermercado até à porta de casa. Beneficia o Jumbo e beneficiam os moradores. Aliás o Jumbo, num gesto de agradecimento ao corajoso Presidente da edilidade vai erguer uma estátua em sua homenagem, a colocar junto dos bonecos que deitam água na praça do Fórum, em que sua excelência se apresenta vestido de Manneken-pis e também deita água com fartura.
E aqueles que acusam de desNorte e exagero o comunicado da Câmara quando refere que
‘o espaço público é de todos e nesse sentido, importa zelar pela circulação livre, sem constrangimentos ou embaraços de qualquer natureza, o que manifestamente não estava assegurado até esta intervenção’ um dia terão que se render às evidências, porque há coisas que ficam para a História e esta não tem tempo a perder com fracotes e é nas grandes obras que se vêem os grandes homens. Um dia Faro iluminará em leds multicolores uma rotunda com a lapidar e sábia divisa: O espaço público é de todos e nesse sentido.
Faro, 9 de Julho de 2010, sexta-feira
Morador da Horta das Figuras recém-libertado
Na verdade, nem sei como não se lembraram disto há mais tempo. Um verdadeiro ovo de Colombo, de Cristóvão Colombo. Tanta congestão rodoviária na entrada da cidade e a solução tão fácil afinal.
29 de junho de 2010
O jogo mundial da bola
A minha rapariga
embora não pareça
também vê o mundial
E até há já quem diga
que adora golos de cabeça
por ser uma intelectual.
Retrato subtil de uma rapariga que pára a escrita da tese quando ouve gritar golo.
18 de junho de 2010
O meu nome é Mago. Saramago
José Saramago morreu hoje e deixou-nos mais pobres.
A magia com que levantava as palavras deixou em mim, leitor, um rasto de lucidez para todas as leituras.
Sempre chegaremos ao lugar onde nos esperam. Escreveu um dia.
Ainda tenho umas coisas para ler...
Hoje é o ano da morte de Saramago.
Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.
José Saramago Os Poemas Possíveis
7 de outubro de 2009
4 de janeiro de 2009
Deleituras
Eu que me vejo ateu já devo ter lido mais da Bíblia que muitos dos que se afirmam crentes (ou querentes que exista um deus) e com genuíno interesse em entender o significado daqueles escritos, conjugando-os com o que sei da história da antiguidade e também com as estórias que fui ouvindo da tradição popular. Quando, do Saramago, li O Evangelho segundo Jesus Cristo, tentei encontrar no Novo Testamento a correspondência daquelas narrativas que li em simultâneo. Entre duas ficções, a do Saramago tem, para mim uma qualidade literária incomparável. No entanto, e de acordo com a minha visão não religiosa dos escritos, ditos, "sagrados" é possível, a partir deles, talvez entender o entendimento que os crentes mais fanáticos têm do mundo.
O mundo está em guerra. Muita desta guerra é mais ou menos religiosa.
A mulher que eu amo e que diz amar em mim a "infinita curiosidade" ofereceu-me pelo natal um livro delicioso de José Tolentino Mendonça, de quem já conhecia vagamente alguma poesia, chamado A leitura infinita: Bíblia e interpretação. O título não engana ninguém. A gente sabe logo ao que vem.
A páginas 58, reza (!) assim:
«O estatuto do texto sagrado confirma-o como geneticamente plural: ele junta o elemento histórico com a intencionalidade ampla e descontínua que é necessário perscutar. O sujeito desta perscutação é o leitor, elemento requerido, suposto e esperado pelo próprio texto. O acto da leitura é uma espécie de pacto selado entre ambos. Por um lado, o leitor (não um qualquer, mas aquele dotado de competência) activa a mecânica textual, preenchendo os espaços vazios e indeterminados que vão depois permitir compreender o texto. Há uma história do texto que o leitor é chamado a explorar com o auxílio de instrumentos diversificados e complementares. Ele não pode ignorar a proveniência, a cultura, a linguagem, a composição ou a finalidade do texto. Sem esse levantamento dificilmente pode chegar-se à compreensão» (*)
Eu diria que isto vale para toda a literatura. Mas, pronto. Lá fui eu, de novo, mergulhar na Bíblia, assim ao acaso e encontro:
Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e os fins da terra por tua possessão.
Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro.
(Salmos 2: 8,9)
Não posso deixar de pensar que anda aí muita gente a seguir isto à letra.
(*)José Tolentino Mendonça. A leitura infinita: Bíblia e interpretação. Lisboa. Assírio & Alvim. 2008.
O mundo está em guerra. Muita desta guerra é mais ou menos religiosa.
A mulher que eu amo e que diz amar em mim a "infinita curiosidade" ofereceu-me pelo natal um livro delicioso de José Tolentino Mendonça, de quem já conhecia vagamente alguma poesia, chamado A leitura infinita: Bíblia e interpretação. O título não engana ninguém. A gente sabe logo ao que vem.
A páginas 58, reza (!) assim:
«O estatuto do texto sagrado confirma-o como geneticamente plural: ele junta o elemento histórico com a intencionalidade ampla e descontínua que é necessário perscutar. O sujeito desta perscutação é o leitor, elemento requerido, suposto e esperado pelo próprio texto. O acto da leitura é uma espécie de pacto selado entre ambos. Por um lado, o leitor (não um qualquer, mas aquele dotado de competência) activa a mecânica textual, preenchendo os espaços vazios e indeterminados que vão depois permitir compreender o texto. Há uma história do texto que o leitor é chamado a explorar com o auxílio de instrumentos diversificados e complementares. Ele não pode ignorar a proveniência, a cultura, a linguagem, a composição ou a finalidade do texto. Sem esse levantamento dificilmente pode chegar-se à compreensão» (*)
Eu diria que isto vale para toda a literatura. Mas, pronto. Lá fui eu, de novo, mergulhar na Bíblia, assim ao acaso e encontro:
Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e os fins da terra por tua possessão.
Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro.
(Salmos 2: 8,9)
Não posso deixar de pensar que anda aí muita gente a seguir isto à letra.
(*)José Tolentino Mendonça. A leitura infinita: Bíblia e interpretação. Lisboa. Assírio & Alvim. 2008.
5 de setembro de 2008
Vindima
Vão a caminho dos oitenta e repetem os mesmos gestos rurais todos os anos.Repetem também os discursos com umas pequenas alterações, como se fosse uma matriz de dados que se preenche todos os anos: daqui do Valdaque já tirámos três mil e quinhentos quilos de uvas este ano; o Casalinho está um pouco melhor, mas tem menos grau, é da rega; na Guarita estragou-se muito, foram as geadas...
De muitas décadas de volta das vinhas sobra-lhes a angústia de não saber o que vai acontecer quando não conseguirem cuidar delas. Sei que para eles ver as terras por amanhar os fará morrer mais depressa. O rendimento que dali tiram não paga o trabalho e isso torna a exploração agrícola praticamente inviável. Isso é o que pensará qualquer agricultor, ou engenheiro ou qualquer pessoa. Mas não estamos a falar de uma exploração agrícola; é um modo de vida. Vivem do trabalho, do amor à terra e não do seu rendimento. Subsistem com uma parca reforma donde ainda tiram para comprar uns adubos ou gasóleo para o tractor.
Foi daqui que nasci e me criei. Comecei menino a fazer vindimas de sol a sol, um dia inteiro de mãos pegajosas do mosto, dores nas costas e algumas picadas de abelhas. Devia lá estar agora para o rancho ser maior.
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23 de janeiro de 2008
Haikai

(Desenho de um bom moço que eu vi crescer)
hototogisu
naki naki tobu
zo isogashiki
Olhe para o cuco
Que só canta, canta e voa —
Que vida ocupada!
Bashô
nagaki
hi o saezuri
taranu hibari kana
À cotovia,
Que canta sem cessar,
O dia inteiro não basta.
Matsuô Bashô (1644-1694)
25 de setembro de 2007
sui genericídios
Através de blogamigos tomei conhecimento da morte do actor pedro alpiarça que se defenestrou do quinto andar do hospital de santa marta provavelmente em desespero com a falta de respostas do serviço nacional de saúde Hoje soube que o filósofo andré gorz e a sua mulher Dorine se suicidaram em casa como quem escreve la dernière lettre d'amour Amor e morte Desespero e morte Há quem diga que são escolhas Não sei
O próprio gorz disse um dia
On ne fait jamais ce qu'on veut et on ne veut jamais ce qu'on fait.[...] Et pourtant, on fait ce que l'on juge devoir faire parce qu'on se sent et donc se rend capable de le faire
Tento compreender este querer não querer de quem escolhe em determinado momento fazer o que julga nesse momento fazer O drama é que não há forma de saber que consequências teve essa escolha
O próprio gorz disse um dia
On ne fait jamais ce qu'on veut et on ne veut jamais ce qu'on fait.[...] Et pourtant, on fait ce que l'on juge devoir faire parce qu'on se sent et donc se rend capable de le faire
Tento compreender este querer não querer de quem escolhe em determinado momento fazer o que julga nesse momento fazer O drama é que não há forma de saber que consequências teve essa escolha
6 de setembro de 2007
Aqui ficas, Clara
Aqui ficas, melodia
Que nunca encontrei
Por mais que a buscasse
Nas bocas, por lei,
Cosidas na face…
Aqui ficas, minha sombra,
Na terra deitada
À espera, sozinha
Da noite da espada
Fora da bainha.
Aqui ficas, minha raiva,
A sonhar que furas
Os olhos das rãs
Com estas mãos puras
De tecer manhãs.
Aqui ficas, meu sonho,
Para um dia pores
Todo o sol que queiras
Nas cristas das flores,
E inventar bandeiras.
Aqui ficas, morte,
Que a morte é assim,
Este dar ao mundo
O que ao mundo em mim
Gela num segundo.
Que nunca encontrei
Por mais que a buscasse
Nas bocas, por lei,
Cosidas na face…
Aqui ficas, minha sombra,
Na terra deitada
À espera, sozinha
Da noite da espada
Fora da bainha.
Aqui ficas, minha raiva,
A sonhar que furas
Os olhos das rãs
Com estas mãos puras
De tecer manhãs.
Aqui ficas, meu sonho,
Para um dia pores
Todo o sol que queiras
Nas cristas das flores,
E inventar bandeiras.
Aqui ficas, morte,
Que a morte é assim,
Este dar ao mundo
O que ao mundo em mim
Gela num segundo.
(...)
José Gomes Ferreira
Pensei que chegava ao pé de ti e dizia:
A luta continua!
Não me deste tempo.
Foste...
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