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6 de junho de 2011

Graffito criador de realidade

Amoreiras. Lisboa. Foto de Luiz Moreira

16 de dezembro de 2010

Prodígios do campus


Uma personagem levantou-se e disse. Isto é uma história.
E eu disse. Sim. É uma história.
Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos.
A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo.
E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento.
Mas será mais eloquente. Para os que crêm nas palavras.
Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar.
Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez.
O breve tempo de uma demonstração.

Lídia Jorge - O dia dos prodígios


Foi ontem. Ou foi há trinta anos. Acabado de chegar a esta terra já tinha percorrido uma boa procura das tradições. Dos falares e cantares que em alguns sítios parecem ser uma e a mesma coisa. Das pragas dos marítimos às rezas a santa bárbara para afastar trovoadas lá para onde nem cresça ramo verde ou alma cr'stã. Das toadas do 'leva' aos romance carolígeo. Da ti' Bi' Fitas aos Velhos da Torre. Da Pinha de Maios e 'abarcas' às charolas. Dos comeres da serra e do mar. Destas terras de gente marafada, afeleada nos seus afazeres, alvoreada com levantes, suestes, besaranhas e sirocos capazes de xaringar um pacato montanhero. Ah, punhão. Mundo. Mesmo que não se acredite em assombrações, encantamentos e se pense que esta ou aquela estória contada naquele falar de boca cheia de Monchique ou nas vogais dobradas do barlavento. Debe. Tem que haver aqui algo de mágico e prodigioso por estas terras e gentes que ainda resiste como mouras encantadas aí pelos poços e noras. Móce. Foi mesmo uma coisa desmarcada.


Lídia Jorge recebeu ontem o grau de doutor honoris causa na Universidade do Algarve. A laudatio pelo vice-reitor Pedro Ferré e o agradecimento da escritora foram no seu conjunto uma das mais emocionantes lições de literatura e ao mesmo tempo uma viagem à minha infância, aos livros e às searas. O meu barrocal era a charneca e o mar sempre foi o Tejo. E pelo Tejo vai-se para o mundo.

Ontem li todos os livros de Lídia Jorge, mesmo os que nunca abri. Talvez por um mero bom acaso, daqueles que nem uma equação diferencial estocástica (os meus amigos matemáticos vão adorar esta) pode admitir como hipótese prever, eu tenha assistido ao Dia dos prodígios em teatro, no Trindade e tenha ido procurar o livro da cobra voadora, com as páginas amarelecidas e tenha iniciado a sua releitura quase trinta anos depois e tenha tido o privilégio, o prodigioso privilégio de poder participar nesta festa que, apesar de todo o cerimonial académico cheio de rituais de liturgia paramentada, foi por largos momentos um largo terreiro de ouvir e contar histórias estórias.

29 de novembro de 2010

Austeridade viciosa

Eu não percebo nada de economia e, provavelmente muitos dos economistas que falam na televisão, escrevem nos jornais ou mandam bitaites partir do palácio de Belém, também não. Já aqui tinha perorado sobre esta ciência dever passar a chamar-se economância por, cada vez mais, em vez de basear as suas previsões em modelos científicos estar a socorrer-se de artes divinatórias e oráculos para tentar interpretar os misteriosos e insondáveis desígnios dos santos mercados. Pode ser. A alternativa não é muito melhor e também é bastante plausível. Haverá um exército de arautos a propagar todos mais ou menos as mesmas coisas, ainda que parecendo às vezes discordar, de forma a ocupar todo o espaço para que mais ninguém fale, apenas com o objectivo de nos entreter enquanto a «austeridade» se vai apurando? Ponho mesmo aqui um ponto de interrogação. Não tenho a certeza de que seja assim. Não percebo nada de economia, mas ao longo da vida fui aprendendo a ler alguns sinais e o que digo é por mera intuição. Afinal, não é assim tão diferente do que dizem os que estudaram para economistas.

Acho estranho que não apareçam nos meios "oficiais" da comunicação, vozes discordantes como esta. Ou então, alguém que defenda a verdade "oficial" com esta clareza.

Mark Blyth é professor de Economia Política Internacional na Brown University (Providence, EUA) e o seu currículo pode ser consultado aqui.

10 de julho de 2010

Obrigado, Macário!

Depois de ler aqui e aqui a referência ao comunicado da Câmara Municipal de Faro sobre uma importante medida para a cidade e, porque o Contador é um espaço aberto à participação cidadã, publico aqui uma reacção de um feliz habitante da Horta das Figuras, recebido por e-mail:

Obrigado Macário
A Câmara Municipal de Faro veio informar os munícipes que a partir da próxima sexta feira, dia 8 de Julho irá finalmente libertar os moradores da Horta das Figuras do seu enclausuramento urbano, uma espécie de condomínio concentracionário a que têm sido obrigados pelas anteriores administrações autárquicas. Acontece que apesar de a próxima sexta feira dia 8 de Julho só se verificar daqui a um ano, registamos com agrado que a maldita vedação de rede ali colocada e mantida pelos torcionários de anteriores vereações, já tinha sido retirada há cerca de dois meses e hoje já se encontrava derrubado o intransponível lancil que impedia a circulação entre a cosmopolita rotunda do fórum e a ostracizada Horta das Figuras.
Esta medida, para além de descongestionar a entrada de Faro, a Nacional 125 e, quiçá, mesmo a Via do Infante vem abrir novas perspectivas ao desenvolvimento do bairro. Inspirados noutras experiências como o projecto “Sabura” da Cova da Moura, os moradores já pensam em lançar o projecto “Na m’xaringues”, projecto baseado no empreendedorismo turístico com o qual pretendem dar a conhecer aos visitantes os amplos espaços verdes que cobrem os passeios (agora completamente secos de acordo com a época estival), os cuidados com o pavimento com intervenções artísticas pós-modernas a fazer lembrar vagamente a paisagem lunar, o eficiente e cómodo sistema de recolha de resíduos sólidos, tudo isto a par de uma exposição permanente dos recibos de IMI, taxas variadas e outras habilidades municipais. Tudo isto tem estado guardado há anos apenas para gozo dos privilegiados moradores o que tem gerado uma legítima inveja de todos os outros munícipes e é, na verdade, uma grande injustiça para os poderes edílicos.
Mas não se ficam por aqui os benefícios desta medida em boa hora antecipada em um ano e um dia. Os moradores da Horta das Figuras podem agora ir a pé fazer compras ao Jumbo e trazer o carrinho do supermercado até à porta de casa. Beneficia o Jumbo e beneficiam os moradores. Aliás o Jumbo, num gesto de agradecimento ao corajoso Presidente da edilidade vai erguer uma estátua em sua homenagem, a colocar junto dos bonecos que deitam água na praça do Fórum, em que sua excelência se apresenta vestido de Manneken-pis e também deita água com fartura.
E aqueles que acusam de desNorte e exagero o comunicado da Câmara quando refere que
o espaço público é de todos e nesse sentido, importa zelar pela circulação livre, sem constrangimentos ou embaraços de qualquer natureza, o que manifestamente não estava assegurado até esta intervenção’ um dia terão que se render às evidências, porque há coisas que ficam para a História e esta não tem tempo a perder com fracotes e é nas grandes obras que se vêem os grandes homens. Um dia Faro iluminará em leds multicolores uma rotunda com a lapidar e sábia divisa: O espaço público é de todos e nesse sentido.

Faro, 9 de Julho de 2010, sexta-feira
Morador da Horta das Figuras recém-libertado


Na verdade, nem sei como não se lembraram disto há mais tempo. Um verdadeiro ovo de Colombo, de Cristóvão Colombo. Tanta congestão rodoviária na entrada da cidade e a solução tão fácil afinal.

23 de abril de 2010

Um dispositivo tecnológico impressionante



Video sugerido por mail pelo meu amigo L. Moreira a quem deixo um abraço

Interessante peça de marketink que ilustra como as palavras não se deixam aprisionar.
Muito apropriado para este dia.

12 de fevereiro de 2010

Escutas

Volta Reich. Estás reabilitado.

Ver aqui link para texto integral.

Chamam-te “Zé Ninguém!” “Homem Comum” e, ao que dizem, começou a tua era, a “Era do Homem Comum”. Mas não és tu que o dizes, Zé Ninguém, são eles, os vice-presidentes das grandes nações, os importantes dirigentes do proletariado, os filhos da burguesia arrependidos, os homens de Estado e os filósofos. Dão-te o futuro, mas não te perguntam pelo passado.
Tu és herdeiro de um passado terrível. A tua herança queima-te as mãos, e sou eu que to digo. A verdade é que todo o médico, sapateiro, mecânico ou educador que queira trabalhar e ganhar o seu pão deve conhecer as suas limitações. Há algumas décadas, tu, Zé Ninguém, começaste a penetrar no governo da Terra. O futuro.da raça humana depende, à partir de agora, da maneira como pensas e ages. Porém, nem os teus mestres nem os teus senhores te dizem como realmente pensas e és, ninguém ousa dirigir-te a única crítica que te podia tornar apto a ser inabalável senhor dos teus destinos. És “livre” apenas num sentido: livre da educação que te permitiria conduzires a tua vida como te aprouvesse, acima da autocrítica.
Nunca te ouvi queixar: “Vocês promovem-me a futuro senhor de mim próprio e do meu mundo, mas não me dizem como fazê-lo e não me apontam erros no que penso e faço”.
Deixas que os homens no poder o assumam em teu nome. Mas tu mesmo nada dizes. Conferes aos homens que detêm o poder, quando não o conferes a importantes mal intencionados, mais poder ainda para te representarem. E só demasiado tarde reconheces que te enganaram uma vez mais.

(...)

Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo o grande homem foi outrora um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade: a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza no seu modo de pensar e agir. Através de qualquer tarefa que o apaixonasse, aprendeu a sentir cada vez melhor aquilo em que a sua pequenez e mediocridade ameaçavam a sua felicidade. O grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandeza alheias. Que se orgulha dos seus grandes generais, mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve, mas nunca as que teve. Que acredita mais arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar.
(...)


Os teus libertadores garantem-te que os teus opressores se chamam Guilherme, Nicolau, papa Gregório XXVIII, Morgan, Krupp e Ford. E que os teus libertadores se chamam Mussolini, Napoleão, Hitler e Stalin.
Mas eu afirmo: Só tu podes libertar-te.

(...)

Intelectualmente, sei que devo dizer a verdade a todo o custo. Mas o Zé Ninguém que se alberga em. mim adverte-me: estúpido, expores-te, entregares-te, ao Zé Ninguém. O Zé Ninguém não está interessado em ouvir a verdade acerca de si próprio. Não deseja assumir a grande responsabilidade que lhe cabe, quer queira quer não. Quer permanecer o que é ou, quando muito, tornar-se num desses grandes homens medíocres – ser rico, chefe de um partido, da Associação dos Veteranos de Guerra ou secretário da Sociedade de Promoção da Moral Pública. Mas assumir a responsabilidade do seu trabalho, alimentação, alojamento, Transportes, educação, investigação, administração pública, exploração mineira, isso nunca.
(...)


É por isso que eu tenho medo de ti, Zé Ninguém, um medo sem limites. Porque é de ti que depende o futuro da humanidade. E tenho medo de ti, porque não existe nada a que mais fujas do que a encarar-te a ti próprio.


E a declaração que hoje também me apetece fazer ao mundo:

Faço amor com a minha mulher porque a amo e a desejo e não porque tenha um certificado de casamento ou para satisfazer as minhas necessidades sexuais.

26 de junho de 2009

In dubio... pronúncia


O professor criticava, na ausência da própria, uma aluna em termos exageradamente sarcásticos, apenas porque tinha pronunciado Curriculum Vitae como "currículum vite" e não como "currículum vitái", como ele achava correcto. Eu não tenho idade suficiente para alguma vez ter ouvido falar latim pelos genuínos falantes, mas lembrava-me de ter lido algures sobre uma espécie de convenção dos latinistas sobre fonética do latim e sobre as diferenças entre o latim clássico e o latim restaurado, pelo que logo ali fiquei com imensas dúvidas sobre as certezas daquele professor. Parece que também cada língua adopta a sua fonética (por exemplo, o termo latino media dizia-se média em português e cada vez se adopta mais a pronúncia - e até a grafia - mídia, porque é assim que os ingleses lêem). Mas, como costumava ouvir a um amigo meu, milium primum pardalorum est, deixei-me ficar com o ninho atrás da orelha e, logo que pude, fui tentar esclarecer a coisa.
Pois até dizem que é uma espécie de despautério (termo que vem do latim e significa grande asneira ou verdadeiro disparate).

De acordo com a pronúncia tradicional, curriculum vitae pronuncia-se currículum víte, e é esta que deve preferir-se. Pretender impor a articulação vítai (ou mesmo wítai), de acordo com a pronúncia restaurada, parece-me um exagero ou mesmo um pretensiosismo tão grande como seria exigir que se pronunciasse etc. (et cetera) da mesma forma que os romanos do tempo de Cícero: et kétera…
Também é de evitar a prolação vitái, como às vezes se ouve por aí, pois essa nem é tradicional nem clássica. É apenas um despautério…



A minha amiga Xantipa que trata gregos e romanos por tu é que certamente sabe e ainda lhe hei-de perguntar das suas razões.
O latim é uma língua morta e não dará voltas no túmulo se a gente não a pronunciar bem. Portanto para mim estão empatados, ou seja, ex-aequo ( aquele prof dirá ,seguramente, egzaikuo) e tanto faz. Até estou em crer que os latinos nortenhos pronunciariam, de certeza, currículom bite, carago!


Desde que ouvi uma vez um jornalista dizer que um determinado acontecimento tinha sido adiado "sáine dáie", já acho que tudo é possível.

31 de maio de 2009

Nós, europeus. Nós cegos. Noz moscada

As eleições para o parlamento europeu poderão não reforçar a influência de Portugal em Bruxelas e Estrasburgo ou em Quelque-Chose-sur-Mer, mas já trouxeram um enriquecimento súbito (ai, o enriquecimento súbito!...) se não ao português, pelo menos ao politiquês de Portugal.
O candidato que já ganhou foi sem dúvida o Vital. E não me refiro apenas ao uso, com toda a propriedade, aliás, do termo "roubalheira", cujo significado transcende o normal - e parece que bem tolerado - roubo, mas faço. "Roubalheira" é uma verdadeira especialidade portuguesa e nem sei se há equivalente noutras línguas (assim como "saudade"). "Roubalheira" não é roubo, nem furto, nem apropriação do alheio porque isso é crime e, embora também se faça muito, procura-se que ninguém saiba. "Roubalheira" é roubar às claras, com manifesto sentido de impunidade. Num sentido mais popular, será roubar com "as costas quentes" ou ainda, roubar sem "ficar encavacado" que o mesmo é dizer, sem pinga de vergonha.
Mas este enriquecimento súbito (ai, outra vez o enriquecimento súbito...) não se fica por aqui, assim "chirleamente" ou "pedestremente". O verdadeiro euromilhões, o jé-que-pote de toda a campanha, o tempero que faltava ao charco de água chirla do discurso político é mesmo o uso do termo "tranquibérnias".
Outros países, estados membros da União terão as suas traquibérnias, mas duvido que até aqui algum deputado europeu as soubesse designar correctamente.
Acertastes-lhes no nó vital. Quase dez, a bem dizer...

tranquibérnia
s. f.
1. Mixórdia feita aos líquidos de venda para lhes aumentar a quantidade.
2. Negócio de má-fé.
3. Trapalhada; trampolinice; falcatrua; fraude; burla.

10 de setembro de 2008

Projectos

Quando for grande quero ser adulto.
Disse há dias G., filho de um colega meu e que ainda não fez 4 anos.

7 de setembro de 2008

Sal picos



Salinas do Ludo, Faro. Esta manhã
(Foto de telemóvel)