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10 de março de 2009

Mar somos, mais que marinheiros


Só o mar das outras terras é que é belo.
Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca...
O marinheiro. F. Pessoa (*)

Sabes? Também eu um dia descobri que pelo Tejo se ia para o Mundo. Muito antes de descobrir este universo do Pessoa(s) já sonhava com este partir e ficar, esta divisão entre a aventura e a conformidade e uma eterna saudade do futuro. Um dia parti donde já tinha partido tantas vezes e fiz-me marinheiro, mas foram mais as vezes que fiquei em terra com medo das tempestades que dizem que há no mar do que aquelas em que verdadeiramente embarquei. E isso tornou-se hábito e rotina escrito nas cartas de marear e diários de bordo ficcionados. Muitas vezes me esqueci de mim, dos que me importam; esqueci-me da verdade, da justiça e até do amor...
Sabes? Há tempos comecei a recuperar a memória. Essa memória de mim. Voltei a achar belo o Tejo da minha aldeia, a forma como nos devolve a luz ao pôr do sol e o eco da passarada nos salgueiros...
Virá a maré e será boa a que escolher. Escuto as gaivotas.
Obrigado pelo abraço.
(*) A peça de teatro O Marinheiro vai estar de novo em cena dentro de dias em Loulé, pelo TAL (Teatro Análise de Loulé) numa encenação de José Teiga, velho companheiro de Laboratório

27 de fevereiro de 2009


Exmo Senhor Presidente da Caixa Geral de Depósitos

Há dois anos comprámos um T2 e contraímos um crédito à habitação na instituição bancária que V.Exa. superiormente dirige no valor de 100.000,00 euros para pagar ao longo de trinta anos. Após dois anos de pagamentos mensais verifico que a dívida praticamente não se mexeu. A minha mulher ficou desempregada o mês passado, logo agora que esperamos um segundo filho, de modo que o futuro mostra-se deveras preocupante.
Somos pessoas honestas e único rendimento que temos provém do nosso trabalho conta de outrem. Fizemos contas e prevemos que dentro em breve entraremos em situação de incumprimento relativamente às prestações da casa.
Antes que isso aconteça decidimos vir junto de V.Exa. propor uma negociação do empréstimo do qual a Vossa instituição é legitimamente credora.
Fizemos contas e achamos justo vender o apartamento à Caixa geral de Depósitos por 300.000,00, valor provavelmente muito abaixo do que valerá daqui a 30 anos.
Informei-me junto do construtor e ele garantiu-me que na construção só utilizou cimento da Cimpor o que só por si é uma verdadeira mais-valia.
Cordialmente
Manuel Finório

22 de outubro de 2008

O puto


Mano. Desculpa lá esta franqueza, mas às vezes não me lembro de ti. Penso que isso não é bom nem mau; é, talvez, apenas o resultado de não nos termos vivido e crescido como irmãos no seio de uma família com pouco espaço para a construção colectiva, sobretudo de experiências lúdicas. Quando nasceste eu já era crescido e tive que aprender a tomar conta de ti. Mas ainda era criança e queria brincar e tu metias-te por dentro das brincadeiras dos rapazes mais velhos e eles aborreciam-se comigo. Mesmo assim não me zangava porque tu era pequeno de mais para ter culpa e lá íamos os dois para casa. Depois foste para a escola e eu para a cidade estudar. E depois trabalhar para longe e de novo estudar até sair em direcção ao sul.Não me lembro de nada que tivéssemos feito juntos, depois dos teus dez anos.Um dia voltei a casa e percebi que tinha um irmão quase adulto e nunca soube muito bem consertar isso. Se calhar contigo acontece o mesmo. Mas eu sou o mais velho cabe-me a mim dar esse passo.
Fazes hoje quarenta e cinco anos e quase me esquecia. Lembrei-me de ti ontem e liguei-te para saber saber como estavas da nossa maleita comum - dores nas costas - e gostei que me tivesses convidado para almoçar, mesmo sabendo que eu não iria estar. Hoje quando liguei de propósito à hora do almoço para te dar os parabéns tinha consciência de que era também para me sentir aí. Em família.
Sabes, mano? Há algum tempo comecei a descobrir uma outra família que também, por sua vez, me foi descobrindo e adoptando. Entrei por dentro das relações de irmãs e das formas de afecto com que existem umas com as outras e, até quando às vezes quase se zangam, me fazem ter inveja. Eu que também tenho um irmão e não me lembro de alguma vez me ter zangado com ele.
Estou convencido, mano, que crescemos os dois filhos únicos.
Puto! Toma lá um abraço do mano velho!

19 de julho de 2008

Cuscuz

Foto daqui
O mais importante é a sêmola solta e no ponto!
Mais importante ainda é o peixe ser fresco e as postas sairem inteiras!
Então e os legumes bem estufados? Isso é que é!
Pode estar tudo muito bom, mas os pimentos!...


É este o segredo do cuscuz e talvez do mundo em que vivemos. O encontro dos diferentes ingredientes, ainda que com eles venham também alguns dramas e amargos de boca.

Ontem não te dei a mão no Charlot. Seguia-te pela strada 35 sem saber que te dirigias para Arezzo do Guido do solfejo. Também não sabia que aí tinha sido filmado "A vida é bela" quando pela manhã te escrevi buon giorno principessa. Há muitas coisas que eu não sei e depois penso que até parece que sabia.

Já penso noutro cuscuz doutras culturas. Papaia, sumo de manga, doce de tomate e um café acabado de fazer. Tudo à tua espera no quintal, debaixo do grande chapéu.

O segredo de um cuscuz /La graine et le mulet
Realizador: Abdellatif Kechiche
2007

(No filme há um barco chamado La Source. Não pude deixar de me lembrar da nossa Quinta da Fonte. Coincidências.)

26 de março de 2007

my fairy lady

Já tinha ouvido falar de milagres na ponte da feijoada guiness Mas isto de ouvir a gente ouve muita coisa e nem sempre podemos comprovar empiricamente e assim podemos dizer café é que nos salva muitas vezes É por isso que alguns esgravatam no iogurte para sugarem apenas os bífidos activos em que já se viciaram enquanto outros vão parar à urgência com uma overdose de l. casei immunitas Mas não é de nada disso que quero falar Escute-me bem my fairy lady Uma pequena gota Ou seja Mais ou menos um décimo de centímetro cúbico Dá para quatro pratos Dois copos Duas chávenas de café E ainda colheres e garfos e facas e ainda fica espuma para passar na placa do fogão
E tudo isto porquê Pergunto eu que sou curioso
Não é seguramente por causa dos quinze a trinta por cento de tensioactivos aniónicos Não senhora Nem dos cinco a quinze por cento de tensioactivos não iónicos Também não Muito menos será por causa dos perfumes citronellol e geraniol e linanool e limonene Ai não
Eu explico Na melhor das hipóteses a soma dos tensioactivos nunca ultrapassa os quarenta e cinco por cento Os perfumes são essências sintécticas concentradíssimas e não ultrapassarão seguramente os cinco por cento E o resto Os outros cinquenta por cento Perguntar-me-á
Pois my fairy lady A resposta é simples
Cada frasco traz cinquenta por cento de magia
Está explicado o milagre À luz da ciência positiva

Com os meus respeitosos cumprimentos

psr (post-scriptum redundantis) Pode vossa excelência comunicar esta análise a um tal grande português e nuno que a saberá apreciar certamente