2 de março de 2010

Eu até sei o verdadeiro nome do Miguel Torga

Se quiseres eu digo-te, ó PPM e amanhã fazes mais uma manchete na primeira página.
O jornali põe hoje na primeira página uma grande revelação (já me fugia a verve para a sarjeta onde anda muito jornalista a beber e ia escrever refelação, porque a coisa parece mesmo encomendada e o "jornalista" não se fez rogado) mercê de uma laboriosa investigação que o caso não é para menos. Um autor de blogue que frequento diariamente há alguns anos que a Judiciária e a Interpol já tinham desistido de encontrar é finalmente descoberto. Boa!
Em resumo, este Paulo do i veio dizer na primeira página do jornal (é jornal?) uma coisa que uma data de gente sabe e que não interessa à maioria, é despropositada porque foi notícia há quase dois anos e ainda por cima erra nos factos, lança insinuações obscuras e apesar de ter contactado o visado, não usa o contraditório. O jornali acolhe um verme destes e pode ser que o papel que vendeu hoje seja pago com juros nas futuras tiragens. A não ser que passe a revelar em cada dia quem esteve por detrás dos heterónimos de Fernando Pessoa, porque parece que ainda há uns quantos portugueses que não sabem.
A mim só me apetece gozar com esta canalhice, mas o assunto é sério porque surge dentro de um caldo de bufaria pidesca de que poucos na comunicação social escapam. Acham que vale tudo para quem tem o poder de colocar todo o tipo de informação na rua. Estamos na devassa completa ao serviço de um clima de golpe de estado. E ainda reclamam que há atropelos à liberdade de expressão! Isto não tem nada a ver com liberdade de expressão é pura infâmia, banditismo e falta de um pingo de vergonha na cara.
O Jumento é um pseudómino de alguém que optou por não expor o seu verdadeiro nome. Muita gente o tem feito e continua a fazer, não porque tenham medo de dar a cara ou se queiram esconder atrás de um anonimato para fazer o que nunca fariam de cara descoberta. O Jumento é claramente um caso destes e conseguiu um lugar de respeito na blogosfera portuguesa, o que não significa que não erre (às vezes o português não é do melhor e comete erros imperdoáveis), mas também já errar e depois assumir o erro e repor a verdade. Mesmo que não esteja de acordo com alguma das suas posições, aplaudo sem hesitações a coerência, o espírito crítico, a independência nos juízos que faz, a honestidade intelectual, características que gostaria de ver nos jornais escritos e falados que ainda por cima pago para ler e ouvir.

Acho verdadeiramente que ao i sai o tiro pela culatra e espero que "jornalistas" destes acabem a lavar escadas (exteriores, porque ninguém lhes confiará a chave para entrar em casa) e jornais assim que por opção (ou sobrevivência, sei lá...) passam à categoria de pasquim, nem para embrulhar castanhas. O Jumento nem sequer precisa dessa publicidade. Deve ser mais lido que o i.


Aqui só para nós PPM, já descobriste o verdadeiro nome do autor da Pedra Filosofal?
Se precisares de ajuda, já sabes...

25 de fevereiro de 2010

Mais um pastor tresmalhado




Aqueles que andam por aí pegados a vender virtudes e a querer impor aos outros os seus modelos de família e outras tolices deviam olhar mais para dentro do redil. Com pastores destes, não há rebanho que aguente.

Mas ao menos este parece que não abusava das crianças postas à sua guarda, Foi só do dinheiro dos paroquianos. Coitados.
E lembrarmo-nos de que há 25 anos quando estreou o filme de Jean-Luc Godart houve manifestações à porta dos cinemas e boicotes e uma verdadeira guerra santa a mobilizar os católicos. O vaticano reuniu-se em concílio e emitiu uma ordem que os governos de alguns países acataram. Não podendo proibir o filme, deveria ser publicitada a menção: "Atinge profundamente os sentimentos religiosos dos fiéis - Papa João Paulo II". E aquilo era só um flme e era preciso comprar bilhete para ver...

Achados por aí

Duas curiosidades religiosas encontradas em sites onde fui dar levado nas ondas.
A primeira contraria uma suposição minha. Apesar de não ser crente até acreditava que a fé salvava, que era tranquilizadora e que as pessoas com fé viveriam mais tranquilas. Parece que não é assim, pelo menos a fazer fé num estudo recente nos EUA: quanto mais religioso é um estado tanto maior o número de ocorrências relacionadas com comportamentos imorais, suicidários ou criminosos.




via Random Precision





A outra curiosidade é para mim mais óbvia.
Uma espécie de decálogo (palavra escorregadia para um disléxico) para um cristão inabalável.


This has been going around the Internet for a while, but is worth reading again. (Especially for you Christians.)
10- You vigorously deny the existence of thousands of gods claimed by other religions, but feel outraged when someone denies the existence of your god.
9- You feel insulted and ‘dehumanized’ when scientists say that people evolved from lesser life forms, but you have no problem with the Biblical claim that we were created from dirt.
8- You laugh at polytheists, but you have no problem believing in a Trinity god.
7- Your face turns purple when you hear of the ‘atrocities’ attributed to Allah, but you don’t even flinch when hearing about how God/Jehovah slaughtered all the babies of Egypt in ‘Exodus’ and ordered theelimination of entire ethnic groups in ‘Joshua’—including women, children, and animals!
6- You laugh at Hindu beliefs that deify humans, and Greek claims about god sleeping with women, but you have no problem believing that the Holy Spirit impregnated Mary, who then gave birth to a man-god whogot killed, came back to life and then ascended into the sky.
5- You are willing to spend your life looking for little loop-holes in the scientifically established age of the Earth (4.55 billion years), but you findnothing wrong with believing dates recorded by pre-historic tribesmen sitting in their tents and guessing that the Earth is a couple of generationsold!
4- You believe that the entire population of this planet wi th the exception of those who share your beliefs—though excluding those in all rivalsects—will spend Eternity in an infinite Hell of Suffering. And yet you consider your religion the most ‘tolerant’ and ‘loving’.
3- While modern science, history, geology, biology, and physics have failed to convince you otherwise, some idiot rolling around on the floor, speaking in ‘tongues,’ may be all the evidence you need.
2- You define 0.01% as a “high success rate” when it comes to answered prayers. You consider that to be evidence that prayer works. And you think that the remaining 99.99% FAILURE was simply the will of God.
1- You actually know a lot less than many Atheists and Agnostics do about the Bible, Christianity, and church history—but still call yourself a “Christian.”

Read more: http://attuworld.com/celebrity/what-do-you-think-top-ten-signs-that-you-are-an-unquestioning-christian.html#more-33024#ixzz0gVHAwShG


24 de fevereiro de 2010

Não tem de tudo mas quase


Ora aqui está uma coisa muito boa. Portuguesa, concerteza. E gratuita.
Pordata, tem dados que se farta!
Aplausos

21 de fevereiro de 2010

Ouvido há pouco no Câmara Clara.
A poesia é o antídoto da imbecilidade.
Às vezes, imbecilmente, esqueço-me disto.

Um contraste luminoso.


tudo no teu sorriso diz
que só te falta um pretexto
para seres feliz

uma querela talvez chegasse
ou um pequeno pastor que passasse
na estrada, com suas ovelhas
um riso, um pormenor
que no momento se pousasse
e o tornasse melhor

eu
vou pensando em coisas velhas-sem sombra de desdém!
-na vida
naquele lampejo fugace
que o teu sorriso já não tem
e que é do passado
porque a nossa grande sabedoria
não soube tratar ente tão delicado
e declina, o dia
o pequeno pastor já não vem

mário cesariny

posto isto...

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13 de fevereiro de 2010

Sob o signo do mar

O país está mesmo bom para esta imensa praia em forma de blogue.
Primeiro foi o cavaco, crustáceo muito apreciado que faz parte da ementa obrigatória de muitas paróquias. Um seu amigo dirá que quem nasce para cavaco nunca chega a lagosta.
O próprio cavaco criou uma ferreira que acabou por não resistir às grelhas da educação e ficou o caldo entornado, ou seja, leite derramado.
Depois passou por aqui um cherne, mas foi sol de pouca dura e foi para conserva enlatado com couves de bruxelas.
Agora temos polvo a todas as refeições e pelo andar das marés ainda vão correr muitos chocos com tinta.
Já uma certa jornalista que por aí se aloira lembra-me mais a taínha, ou a liça como também se diz por aqui. Sobrevive à babugem ali à saída dos esgotos da justiça.
E até eu às vezes gosto de me armar em carapau de corridas. Mas depois passa.
É um país abençoado por neptuno.

Pelo que tenho visto, há por aí muita gente a preparar uma nova ordem estupidológica em que tudo irá funcionar da melhor maneira.
Acabam-se finalmente as hesitações sobre a regionalização. O pais será dividido em três sadrapias, cada uma governada por uma SAD: a do Benfica, a do Sporting e a do FCP.
A justiça que toda a gente sabe que não funciona, tirando aquela parte de passar segredos aos jornais, vai ficar uma maravilha com meia dúzia de comarcas: a comarca TVI, a comarca SOL, a comarca Público, a comarca Expresso, e por i fora.
Ainda não confirmei esta informação, mas tudo indica que o presidente da república será substituído pela senhora de fátima, o parlamento pela conferência episcopal e o governo pelo coro infantil da santa casa da mesericórdia.
E cumprir-se-á Portugal com a graça de deus.

12 de fevereiro de 2010

Escutas

Volta Reich. Estás reabilitado.

Ver aqui link para texto integral.

Chamam-te “Zé Ninguém!” “Homem Comum” e, ao que dizem, começou a tua era, a “Era do Homem Comum”. Mas não és tu que o dizes, Zé Ninguém, são eles, os vice-presidentes das grandes nações, os importantes dirigentes do proletariado, os filhos da burguesia arrependidos, os homens de Estado e os filósofos. Dão-te o futuro, mas não te perguntam pelo passado.
Tu és herdeiro de um passado terrível. A tua herança queima-te as mãos, e sou eu que to digo. A verdade é que todo o médico, sapateiro, mecânico ou educador que queira trabalhar e ganhar o seu pão deve conhecer as suas limitações. Há algumas décadas, tu, Zé Ninguém, começaste a penetrar no governo da Terra. O futuro.da raça humana depende, à partir de agora, da maneira como pensas e ages. Porém, nem os teus mestres nem os teus senhores te dizem como realmente pensas e és, ninguém ousa dirigir-te a única crítica que te podia tornar apto a ser inabalável senhor dos teus destinos. És “livre” apenas num sentido: livre da educação que te permitiria conduzires a tua vida como te aprouvesse, acima da autocrítica.
Nunca te ouvi queixar: “Vocês promovem-me a futuro senhor de mim próprio e do meu mundo, mas não me dizem como fazê-lo e não me apontam erros no que penso e faço”.
Deixas que os homens no poder o assumam em teu nome. Mas tu mesmo nada dizes. Conferes aos homens que detêm o poder, quando não o conferes a importantes mal intencionados, mais poder ainda para te representarem. E só demasiado tarde reconheces que te enganaram uma vez mais.

(...)

Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo o grande homem foi outrora um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade: a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza no seu modo de pensar e agir. Através de qualquer tarefa que o apaixonasse, aprendeu a sentir cada vez melhor aquilo em que a sua pequenez e mediocridade ameaçavam a sua felicidade. O grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandeza alheias. Que se orgulha dos seus grandes generais, mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve, mas nunca as que teve. Que acredita mais arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar.
(...)


Os teus libertadores garantem-te que os teus opressores se chamam Guilherme, Nicolau, papa Gregório XXVIII, Morgan, Krupp e Ford. E que os teus libertadores se chamam Mussolini, Napoleão, Hitler e Stalin.
Mas eu afirmo: Só tu podes libertar-te.

(...)

Intelectualmente, sei que devo dizer a verdade a todo o custo. Mas o Zé Ninguém que se alberga em. mim adverte-me: estúpido, expores-te, entregares-te, ao Zé Ninguém. O Zé Ninguém não está interessado em ouvir a verdade acerca de si próprio. Não deseja assumir a grande responsabilidade que lhe cabe, quer queira quer não. Quer permanecer o que é ou, quando muito, tornar-se num desses grandes homens medíocres – ser rico, chefe de um partido, da Associação dos Veteranos de Guerra ou secretário da Sociedade de Promoção da Moral Pública. Mas assumir a responsabilidade do seu trabalho, alimentação, alojamento, Transportes, educação, investigação, administração pública, exploração mineira, isso nunca.
(...)


É por isso que eu tenho medo de ti, Zé Ninguém, um medo sem limites. Porque é de ti que depende o futuro da humanidade. E tenho medo de ti, porque não existe nada a que mais fujas do que a encarar-te a ti próprio.


E a declaração que hoje também me apetece fazer ao mundo:

Faço amor com a minha mulher porque a amo e a desejo e não porque tenha um certificado de casamento ou para satisfazer as minhas necessidades sexuais.

E se for mal?


Podia chamar-se Agilulfo* na sua armadura branca, sempre brilhante com duraglit, a correr de um lado para o outro, para proteger as donzelas em risco de violação do estado de direito.
Ainda hoje uma donzela moura se queixava de tanta censura que tem apanhado e um juíz que deve ser seu primo erguia com uma das mãos e agitava o interesse público enquanto com a outra, qual Camões salvando os Lusíadas, tentava manter-se à tona. O Miguel ainda lhe deu uns carolos, mas isso não o afectou muito.
Mas o Agilulfo range lá na ferrugem interior do elmo donde saem vaporosas teorias políticas como humores fantasmáticos. O estado de direito é apenas formal, diz ele. Mas podemos dormir descansados porque ele, desdizendo tudo o que tão convictamente afirmara, deixa todas as mordomias europeias para nos salvar. Ainda bem que é só isso e não se lembrou de se sacrificar, não na cruz, mas numa daquelas setas do PSD.
Pois o Agilulfo também é um ser formal. É-o na aparência. Assim por fora, parece mesmo um ser vivo, vagamente humano. Mas por dentro, completamente vazio.

Continuo a achar que anda por aí tudo doido. Ou sou eu?


*personagem do romance de Italo Calvino, O cavaleiro inexistente.

11 de fevereiro de 2010

Liberdade de expressão

É a expressão que mais tenho ouvido nos últimos dias. E isto, só por si prova que existe.
Houve tempos em que apenas para o referir era preciso olhar para os lados e baixar a voz;qualquer notícia, peça de teatro, canção, filme tinha que passar pelo crivo e pelo lápis da censura; as tipografias eram invadidas e os livros, ainda em impressão eram apreendidos e os seus autores presos; dois namorados podiam ser detidos para averiguações e depois multados por se beijarem num banco de jardim...
Quem se queixa hoje de falta de liberdade de expressão, tem toda a liberdade para o fazer, como profusamente se tem visto, mas não pode deixar de expor o ridículo de uma imensa estupidez. É que há coisas que, apesar de toda a liberdade, ficariam bem melhor não serem expressas.
E isto tudo porquê? Porque o primeiro ministro não gosta do que alguns jornalistas dizem dele. Eu que não gosto lá grande coisa do primeiro ministro, menos gosto ainda da perseguição cerrada que se lhe faz. Não votei no PS, porque não é a minha escolha, positiva, em termos de opções gerais de políticas para o país, mas foi este partido o mais escolhido, com Sócrates à cabeça e aceito que governe, até porque não reconheço alternativa credível na esquerda e nem por nada a desejo à direita. Não só aceito como espero e exijo que governe o país com o seu programa, dentro das regras democráticas, prestando contas ao parlamento. Sempre que isso não aconteça, o combate político deve fazer-se e, se a coisa for grave, há instrumentos para fazer cair o governo e substituí-lo por outro (igualmente mau, digo eu).
Mas parece que não é nada disto que está em causa. Toda a oposição, numa estranha convergência, une-se para impor ao governo o seu programa (!) e governar o país de acordo com o que se aprova na Assembleia da República. Isto não é aceitável para governo nenhum, por muito que eu não goste dele. Não é honesto e eu que ajudei a eleger (desta vez, sim) deputados da oposição, não me sinto nada representado por gente desonesta. Se querem governar, é fácil: moção de censura ao governo e coligação oficial PSD+CDS+BE+PCP+PEV (lindo!) e temos um governo estável. Só tenho pena de não poder retirar o meu voto... mas fica para a próxima.

A expressão "ameaças ao estado de direito" é outra das que entrou no repeat mode dos telejornais e outras formas de expressão eruptiva dos paladinos da liberdade.
O Sócrates começa por mentir sobre o conhecimento da intenção da PT comprar a TVI, sabendo MFLeite que ele sabia "de certeza absoluta" (agora sabemos como é que ela sabia que ele sabia), mas afinal a PT não comprou a TVI e o negócio era outro e as "vítimas" acabam a facturar.
Não deixa de ter piada. Políticos a acusarem outros de mentir!
A pressão sobre os órgãos de comunicação social é coisa que existe por aí e nunca vi ninguém dos que acordaram agora denunciar isso. Cabe aos media saber resistir as essa pressões como cabe a qualquer presidente ou vereador de município resistir às pressões dos construtores civis e às vezes não o fazem, não porque não possam, mas porque daí retiram vantagens. Alguém nega que os "critérios editorias" escondem muitas vezes uma forma interna de censura, que a simples insinuação de retirada de publicidade institucional a órgãos de imprensa regionais constitui um condicionamento muito maior da liberdade de expressão que os negócios da TVI, com ou sem conhecimento ou mesmo por indicação do primeiro ministro. Tenham juízo.
À conta deste ruído vai passando incólume aquilo que considero uma verdadeira ameaça ao estado de direito. A aliança entre alguns coronéis da magistratura e uns tanto(a)s besuntoso(a)s jornalistas capazes de novas modalidades de golpe de estado insidioso, assim como um veneno dado gota-a-gota. Esse é o verdadeiro perigo para a democracia e o estado de direito.
O que mais me custa é ver a esquerda, alguns em quem votei, alinhar com este tipo de estratégias, nem que seja por omissão.

De qual idade?


Joana Amaral Dias acaba de publicar um livro que me parece interessante, apesar do título.
Por razões várias é um livro que vou ler (e depois logo opino sobre o título). Esta espécie de autópsia psicológica é uma técnica muito usada, por exemplo, nos estudos sobre o suicídio e aguardo com expectativa a análise dos testemunhos de perturbação mental deixados por estas figuras mais ou menos conhecidas da nossa história.
Paralelamente, não posso deixar de pensar em algumas figuras vivas e outros figurões da nossa praça, e nos comportamentos que exibem. Que resultado daria a sua passagem pelos filtros da psicopatologia?
É verdade que de são e de louco todos temos um pouco e, também estou em crer que a maioria daqueles a quem mais frequentemente se cola o rótulo da loucura são os que menos mal fazem ao mundo.

7 de fevereiro de 2010

Política de salários baixos

É o que dá esta política miserável de baixos salários:
A ETA vem montar fábricas de bombas em Portugal atraída pela mão-de-obra barata.

Princípio do chá

- Meu amor faz-me um príncipe.
-Sim, minha raínha.
- Estava a pensar num chá...

4 de fevereiro de 2010

Em favor dos pequenos e médios manifestantes


Hoje cruzei-me com uma manife. Eram os miúdos do básico e do secundário, para aí uns duzentos ou trezentos, de qualquer modo muito menos do que os que se costumam juntar nas sextas e sábados à noite na zona dos bares.
À cabeça da minife, um carro da polícia em marcha lenta. Os estudantes ocupavam ordeiramente uma das faixas de rodagem devidamente enquadrados por mais uns quantos polícias. Acho que se dirigiam para a Direcção Regional de Educação, mas seguramente seriam mais vistos pelos clientes e funcionários do Pingo Doce (é bem feito porque eles andam sempre a fazer publicidade a dizer: venha cá; e eles foram).
Pelo que ouvi nas notícias, manifestam-se contra as provas globais, o estatuto do aluno (não percebi bem o que está em causa) e exigem "aulas" de educação sexual. As razões até poderiam ser outras como "um ensino decente cá p'ra gente", ou mesmo "iPods à borla para todos", não é isso que interessa. O que interessa mesmo é uma manife a qualquer pretexto.
Entretanto li por aí nas notícias online e principalmente nos comentários que há quem ache que os miúdos nem sabem o que é que querem, que não querem é fazer nada, não ter exames e quais "aulas" de educação sexual se eles já sabem mais disso que os professores (as caixas de comentários são assim; quando as gente as abre tudo pode de lá sair) e se alguma coisa não está bem quem tem que se manifestar são os pais e não os filhos, porque são os pais que pagam e os sustentam.
Há também quem diga que a maior parte não sabe dizer o que está ali a fazer, o que me parece que é verdade. Mas também, ainda há pouco tempo quando os seus professores se andaram a manifestar porque não queriam avaliação, alguns entrevistados mostraram-se incapazes de expressar claramente o que pretendiam e o que ficou na imagem pública não terá sido muito abonatório.
Pois eu penso que fazem muito bem em manifestar-se, porque isso também faz parte da aprendizagem. Alguns vão esquecer-se disso depois, tal como fizeram muitos dos que ocupam hoje as cadeiras dos diferentes poderes, mas não faz mal. E, já agora, seria bom que a exigências fizessem algum sentido (é essa também uma das acusações que lhes fazem), mas até nisso estou com eles. Estão na idade em que faz todo o sentido fazerem coisas sem sentido, pelo menos para os adultos. O pessoal mais velho lembrar-se-á certamente da célebre palavra de ordem marcusiana Soyez réalistes, demandez l'impossible! (Sejam realistas, peçam o impossível!).
Estas manifestações não são isentas de risco, como, aliás, tudo na vida. É relativamente fácil transformar uma manife juvenil em carneiros de Panúrgio, mas até a evitar isso precisa de ser aprendido.
Adenda:
Lembrei-me de uma sugestão, uma ideia para novas lutas. Podem marcar já uma nova manifestação para uma luta que me parece justa e popular:
Substituir os exames nacionais por castings. Isso é que era sucesso escolar garantido.

2 de fevereiro de 2010

Memórias olfactivas

Azibo, 2009


Só de pensar


em ti



fica no ar


um intenso


cheiro


a moringa

Mar(io) enCresp(ad)o

Há coisas que me dão uma espécie de urticária (também lhe chamam brotoeja) e isto de um jornalista se tornar na principal notícia do dia diz muito sobre a ética comunicacional que é como quem diz se tocam no meu queijo eu faço-vos a folha.

Afinal o que é que se passou? Um amigo do Mário Crespo estava a almoçar no mesmo restaurante onde também almoçava o Sócrate e mais não-sei-quem e dois dos seus ministros. às tantas, e seguramente depois da terceira garrafa, da mesa do Sócrates e da do amigo do Crespo, as vozes, na primeira, começam a soltar-se e os ouvidos, na segunda, começam a apurar-se e é aí que o amigo do jornalista saca da caneta e regista ali, no próprio guardanapo entre duas manchas de Quinta do Cotto, para memória futura e, se necessário fazer prova em tribunal, o seguinte diálogo (ou monólogo, parece que foi só o Socrates a falar):
O almoço está porreiro, pá! Olha, e esta pomada também não é nada má... o que é isto?
Barca Velha, hum... pois. Se fosse o Portas pedia submarinos novos! Ah,ah, ah...
A propósito, vocês conhecem aquele jornalista que dava aulas lá na Independente? Aquele da SIC a quem tu telefonaste para te tratar por ministro e não te fazer perguntas difíceis. Sim, o Crespo. Esse tonto varrido e incapaz. Parece que tem umas coisas guardadas num armário que deixou lá na África do Sul. E escreve cá umas crónicas... Temos que arranjar uma solução para o gajo [faz o gesto de cortar o pescoço]. E mais não disse.

Também não havia guardanapo para mais.
Claro que o Mário Crespo ficou chateado. Eu também ficava.
E vai daí toca de escrever uma crónica em defesa da honra e do ataque ao Sócrates, agora com um bom pretexto. O gajo falou de mim ao almoço, já vai ver como é que elas lhe mordem!
Só que o director do JN achou que não devia publicar e, ai jasus, que vem aí a censura a mando do governo. E despediu-se do jornal.
Lembrei-me de uma crónica que o Crespo (às vezes encrespado, outras encrispado) escreveu cheio de insinuações sobre o Sócrates que, na altura achei um verdadeiro vómito. Chamava-se a coisa Façamos de conta que... Queria citá-la, mas não encontro o original. Mas pode ser lida, em transcrição aqui, acho que na totalidade.
Entretanto encontrei este post no Jugular de há quase um ano que dá uns belos mimos ao Crespo.
Quem me conhece, sabe que nunca votei no Sócrates, nem no PS. Mas quando um tipo se compara com a Manuela Moura Guedes para atacar o Sócrates e a seguir vejo o Louçã solidário com ele e dizendo basicamente o que toda a direita já tinha dito, confesso que até fico com vontade de votar no gajo.

Enfim. Acho que os jornalistas e os políticos estão bem uns para os outros. Não merecem o vinho que bebem!

Perder-lhes o conto, guardar-lhes o rasto


Delicioso ler-te assim na praia das gaivotas contadas a dois.

1 de fevereiro de 2010

Keep rolling


Ao ler esta notícia no i online não posso deixar de evocar toda uma era em que o excesso queria ser a regra. Uma boa parte daqueles que queria mudar o mundo acabaram calmamente assimilados. Outros, foram-se deixando apodrecer enquanto o capitalismo vencia em todas as frentes, a sociedade de consumo se estabelecia definitiva e pandémica e as guerras se multiplicavam. Pelo meio do sex, drugs and rock'n'roll passou uma verdadeira revolução musical ao longo dos últimos 50 anos (a par de muita pimbalhada magistralmente promovida pelo showbiz internacional, claro).

O título do i "É o fim do rock'n'roll. Keith Richards está sóbrio " é espantoso. Tem tanto de ironia como de iluminada provocação.

Não sei se é o fim do rock'n'roll, ou do que resta dele. E também não sei se acrescenta alguma coisa à música mais uma tournée mundial dos Stones. Mesmo que seja em versão clean.

Pois é. Nem sempre se pode ter o que se quer.

Mas podemos sempre fazer um esforço.


No, you can't always get what you want

You can't always get what you want

You can't always get what you want

And if you try sometime you find

You get what you need

Rolling Stones : You Can't Always Get What You Want Lyrics

Songwriters: Jagger, Mick; Richards, Keith;

16 de janeiro de 2010

Lima na trama

Nos tempos da Mata-Hari também havia escutas e consta que a famosa espia escutava para um lado e para o outro sem auxília de quaisquer MAE (meios auxiliares de escuta) como hoje tanto se usa. Constava ainda que a dita que parece que escutava deitada entre os lençóis e directamente enrolada nos escutados. Há quem afirme que a mulher usava uma faca na liga e que não hesitaria em usar se a coisa desse para o torto (não era bem essa coisa...), mas isso nunca ficou comprovado.
Pelo contrário, aquele que mora em Belém à espera de voltar a ser eleito Presidente da República para continuar a ser o personagem mais parecido com o Américo Thomás (com vantagem para este último que pouco falava e raramente aparecia) teima em mostrar a toda a gente que usa Lima na trama.
O que isto significa é:
O senhor Presidente manda dizer que ninguém fala por ele e, tal como eu, acha que o país devia preocupar-se (o presidente farta-se de fazer cara de preocupado, mas ninguém liga) com outras prioridades e não andar aqui com fé diveres, percebem seus fazedores de factos políticos?
Este Lima, quando sublima é sublime.
É tramado, não é?

sonhos sem legendas

Quando me namoras em inglês
só me lembro de
forever

13 de janeiro de 2010

Um horror

As imagens que nos chegam da tragédia do Haiti confrontam-nos com a precariedade da nossa existência. Não se imagina que isto possa acontecer, mesmo que a terra trema como há pouco tempo sucedeu aqui.
Depois, parece que são já os mais pobres os mais fustigados pelas catástrofes naturais.

9 de janeiro de 2010

Aprender em Festa

Almoço dos 20 anos do GAF


É uma verdadeira festa. São homens e mulheres e algumas crianças já aqui nascidas. Fazem todos a festa onde misturam saberes e sabores com que põem ânimo em cada acção.
Um caso a estudar. Em estudo.
A minha rapariga traz-me para dentro destes sonhos e trazemos ambos abraços quentes de amigos.

O António, o dr. António é a figura tutelar de uma utopia daquelas que pensamos que já não há. E depois quer saber de todos o que fazer para fazer futuro.
Só conseguimos ter uma resposta: "fazer meninas e meninos" que sejam bons, saudáveis e que aprendam a festa que é fazer o futuro. Que o façam em festa!

Grupo Aprender em Festa
Gouveia

8 de janeiro de 2010

Bom ano!

2010 é um ano tão redondo!
Eu até diria que é um bom ano para lançar sementes, cultivar desejos, abraçar projectos...

Elas adoram as séries da FoxLife que a Zon dá no pacote básico. O Meo deve ter tido umas reclamações e há uns tempos começou a anunciar que em Janeiro o Meo já teria os canais Fox. E assim foi. No dia de ano novo foi uma grande felicidade a dissecar a Anatomia de Gray e a Clínica Privada, com os médicos a passar de uma série para a outra, enfim. Eu, talvez por já ter andado muito por dentro destas coisas da saúde incluindo serviços de urgências, não sou grande fã destas aventuras, fiquei também muito agradado com esta decisão do Meo de que sou cliente.
Afinal, a coisa não é bem assim. O Meo deu a FoxLife durante dois ou três dias e depois passou a um slide com a informação de compra do pacote dos canais Fox. Está mal. Eu desejoso de partilhar o sofá com elas e agora o Meo faz-me isto!


Foi hoje aprovada a lei que permite o casamento de pessoas do mesmo sexo.
Nunca compreendi porque é que gente de esquerda, revolucionária e comunista é tão apegada a uma instituição que ao longo dos séculos tem tido fundamentalmente como finalidade assumida o emparcelamento e transmissão da propriedade. Há pouco mais de um século a crescente predominância burguesa trouxe o amor para o casamento, mas não alterou muito o essencial da sua natureza. Mas, pronto, são convenções sociais e aprendemos a viver com elas.
As religiões que sempre tiveram o seu poder e uma forma que têm de o exercer é através de uma espécie uma legitimação das diferentes instituições, sendo que muitas vezes essa ligitimação é a mais poderosa, se não, a única e ex clusiva. Na nossa cultura, a igreja católica pode "abençoar" os casamentos que quiser, ou recusar essa bênção quando entende que não se reunem as condições exigidas. Tudo muito certo, desde que se respeite o princípio da separação entre a igreja e o estado.
Não consigo entender toda esta movimentação das sacristias para o referendo sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Acho até ofensivo para a democracia que a senhora Pegado, lá porque reuniu 90 mil assinaturas, queira que isso valha mais que o Parlamento. Tem assinaturas suficientes, penso eu, para formar um partido, ir a eleições e depois sim. A petição só obriga a Assembleia a discutir o assunto e esgota-se aí uma vez recusada a proposta de referendo.
A Assembleia decidiu e, quanto a mim bem, acabar com a discriminação. É um passo importante, mas este caminho está longe de ter terminado. Os homossexuais têm razão para festejar, mas falta ainda a promulgação da lei. É claro que o Cavaco vai vetar. E basta-lhe a invocação da inconstitucionalidade da norma que exclui a adopção. Nem precisa de se expor ao veto político que seguramete usará se necessário.
O PS fez mal. Isto faz-me duvidar da bondade das suas intenções. A questão da adopção não tem que ser para aqui chamada. Por um lado, a homens e mulheres homessexuais não está legalmente vedada a possibilidade de adoptar uma ou mais crianças, por outro, os mecanismos da adopção já, em princípio, protegem aquilo que é essencial que é o suprerior interesse da criança, independentemente dos interesses dos candidatos à adopção. Em princípio... escrevi ali atrás.
Portanto, ou eu não estou a perceber nada disto ou, o PS faz aprovar uma coisa justa e boa, mas armadilhada. Ou seja, a ser assim, uma boa maneira de sair de bem com deus e com o diabo.

Um bom e justo ano de blogandança

16 de dezembro de 2009

Os dias difíceis do mês...

... de Dezembro.
É todos os anos mais ou menos o mesmo. Uma espécie de síndroma pré-natalício.
O que me apetecia mesmo era hibernar. Ou melhor, veranear. Ir para um qualquer sítio, mais a sul. Mais azul.

27 de novembro de 2009

Sotaina oculta

As notícias trouxeram à luz o que já se sabia há vários anos. Os altos responsáveis da igreja católica da Irlanda ocultaram continuados abusos sexuais de padres a crianças de quem deviam cuidar. A recorrência com que esta gente "temente a deus" tem perpetrado impunemente estes crimes, dá que pensar. Serão os seminários verdadeiras escolas de pedofilia?
Mas o que me inquieta mais é a ocultação sistemática dos mais altos responsáveis da igreja católica, Vaticano incluído. Já aconteceu em larga escala há anos nos Estados Unidos e concluiu-se que havia relatórios retidos, desaparecidos e alterados, ao que parece com a própria conivência papal com um crime hediondo.
Se isto acontecesse numa outra organização qualquer não haveria dúvidas de que estávamos perante uma associação criminosa. Alguém ousa pensar isso da igreja católica?
Não me venham dizer que sou intolerante. Uma organização que pactua com a pedofilia e protege os predadores sexuais é que é intolerável.

15 de novembro de 2009

Teorias (II)


Há dias, no meio de um texto tropecei nuns gravetos de uma teoria com um nome intrigante. Assim, apenas pelo seu nome bootstrap theory pouco se fica a saber, e bem tentei capturar o significado da expressão e tentar arranjar uma equivalente em português. Em vão. Apenas consegui dar mais umas marteladas na autoestima e acrescentar mais uns quilómetros ao infinito da minha ignorância. Mas, pronto, isto tem sempre um lado positivo ( a gente tem que sobreviver de qualquer modo à depressão súbita) e tomei consciência de quão ignorante sou em matéria de física quântica, sistemas informáticos, estatística, filosofia, sociologia, economia, e até (vejam bem) em estratégias para vencer na vida.

Pelo que li e vi e pensei (sem ser necessariamente por esta ordem ou outra qualquer) o termo bootsrap presta-se às mais diversas metáforas. Bootstrap é (num dos muitos significados) o nome daquela espécie de argola em couro que algumas botas têm e que serve para enfiar o dedo, puxar e ajudar a calçar. Em português também tem um nome. Chama-se aselha, uma pequesa asa. Aselha é também o que na gíria se chama a um indivíduo parco de habilidades, enrascado, labrego, totó. Quanto à teoria, fazendo uma síntese de toda esta profícua investigação acho que ficaria bem, até do ponto vista cultural, como teoria do desenrasca.

Não sei. Talvez até seja bem mais aselha do que penso. Mas há-de haver alguma explicação para o facto de um taxista na Suíça ter contas bancárias milionárias e um negociante de sucata oferecer mercedes pelo natal aos amigos.





12 de novembro de 2009

Em Bragança não há gaivotas

Por acaso jantava uma alheira. A televisão ligada já tinha mostrado todas as faces mais ou menos ocultas dos corruptos aos magistrados e futeboleiros. Parece que há sempre algo oculto nas faces das notícias, mas às vezes também se descobrem faces iluminadas na sua simplicidade.
Na SIC, passava um conjunto de reportagens chamado "Histórias com gente dentro". Aí cruzavam-se vidas de pessoas simples como os turistas séniores que vão nas excursões por animadas por pezinhos de dança, ou como a mulher do carroussel de feira a quem já só faltava ir à lua. Quase não tinha ido à escola, mas tinha aprendido o suficiente para a sua vida de feiras. E também uma pastora transmontana que tratava as suas ovelhas pelo nome, Boneca, Galinha, Sineta... e elas vinham lamber-lhe as mãos como se fosse um cumprimento habitual. Esta pastora tem 29 anos e nunca tinha visto o mar, nem andado de comboio ou ido a Lisboa. O programa proporcionou-lhe essa viagem. No seu encontro com o mar, que só conhecia pela televisão, às tantas pergunta Aquilo é uma gaivota? Em Bragança não há gaivotas...
Pois, parece que não. Há águias e sonhos.


Fui à SIC Online e trago de lá um link para outras estórias de saltar muros. Se calhar vai dar à rua dos 90.

5 de novembro de 2009

Cruzes

Daqui a nada também vão querer eliminar o sinal "+" em Matemática, porque é uma cruz que pode ofender os das religiões que não têm cruz nenhuma.
Ironia (fica-lhe bem) do porta-voz da Conferência Episcopal- Manuel Marujão

Ainda mal assentou a poeira da bíblia segundo Saramago e já outra maior se alevanta: a reacção dos funcionários do Vaticano à ordem de retirada dos símbolos religiosos das salas de aula nas escolas públicas.
Devo dizer que andei numa escola pública que tinha um crucifixo entre uma fotografia de Oliveira Salazar e outra de Américo Thomaz e tinha a visita semanal do padre Octávio que vinha dar Moral e Religião, disciplina obrigatória, com livro próprio e tudo, vendido pelo próprio padre.
Deu no que deu. Para além de começar desde cedo a trocadilhar o nome à disciplina para ReligiãoImoral, recusar-me a comprar o livro (e apanhar depois uns chapadões de deixar a cara a arder durante meia hora quando a minha mãe foi chamada à escola), acabou por fazer de mim ateu, praticante e anticlerical.
Acho graça ao discurso dos padres quando se lhes toca no que julgam ser os seus domínios, mas que na realidade são domínios públicos num estado de direito, não confessional. Não me conformo com a arrogância com que tratam "as ovelhas tresmalhadas" como se os não crentes sofressem de qualquer deficiência. Não aceito a invocação da liberdade religiosa da parte de quem sempre abusou de toda a liberdade cívica para impor a toda uma sociedade os seus princípios, geralmente restritivos da liberdade e da autodeterminação.
Também não deixa de ser interessante, para uma organização que não se deixa questionar sobre práticas criminosas com as quais convive e muito pactua (os inúmeros casos de abuso sexual de menores por parte de membros da igreja) venha agora a correr dizer que é preciso discutir mais e amplamente a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. É preciso explicar a esses senhores que não é para obrigar ninguém a fazê-lo; é só uma pequena alteração na lei de modo a permitir a quem o queira que o faça.
Outra originalidade do argmento da "liberdade religiosa" destes senhores é que "uma minoria" (os não católicos ou os não crentes) não pode dizer à "maioria" como é que é. Ficamos esclarecidos sobre tolerância e liberdade.
Quero deixar claro que as minhas posições não são ditadas por intolerância religiosa. Respeito que cada um possa acreditar ou não acreditar que existe um deus ou mais. Até sou capaz de usar ideias mais ou menos místicas, do ponto de vista simbólico ou poético. O que eu não consigo tolerar é a intolerância e, sem generalizações abusivas, há, não raramente da parte de membros da igreja católica traços de intolerância que, para mim estão ao mesmo nível do racismo, da xenofobia, do fascismo. Causam-me a mesma repulsa.

Mas não quero deixar de responder à ironia de Manuel Marujão, mas desta vez em relação aos argumentos culturais e das tradições. É que Portugal é, também um país de grandes tradições de uma cultura popular (às vezes bastante brejeira) e até nos podemos pôr todos de acordo. A igreja pode ter os crucifixos nas escolas e até se pode pôr ao lado o emblema do benfica e, em contrapartida as igrejas passam a ostentar em lugar de destaque uma figura do Zé Povinho do Bordalo e, se não for pedir muito, um daqueles objectos decorativos da cerâmica tradicional das Caldas. Isso sim, é que era liberdade e tolerância religiosa.

4 de novembro de 2009

Teorias (I)

É sabido que as principais doenças dos nossos tempos, as que mais matam e mais incapacitam, seriam de certo modo evitáveis, ou sofreriam uma grande diminuição se estivéssemos dispostos a alterar os nossos hábitos em várias áreas da nossa vida. São chamadas doenças «da civilização» e também «do comportamento». Todos os anos são gastos rios de dinheiro em campanhas de efeito duvidoso para que as pessoas alterem os seus comportamentos. Faça exercício físico. Mantenha a actividade intelectual. Coma fruta. Na hora da refeição, desligue a televisão. Reduza a carne na alimentação. Atravesse na passadeira. Reduza, reutilize, recicle. Vigie a sua tensão arterial. Não fume, não beba e perca peso. Tudo prescrições sem graça nenhuma e sem qualquer interesse motivador imediato, excepção feita ao slogan do meu amigo Dinis uma por dia e nem sabes o bem que te fazia.
Mas parece que alguém se lembrou já de arranjar formas divertidas para promover alterações nos seus comportamentos. Chamam a isto Fun Theory.
Vejam este exemplo e comecem já a pensar noutros. Também aqui, imaginação é poder.

2 de novembro de 2009

Cinéma



Fui ver os dois últimos filmes da festa do cinema francês. Dois, assim de seguida.
Mas não é a mesma coisa...
Sempre gostei do cinema francês que infelizmente passa pouco no circuito comercial das pipocas. Aprendi a ver cinema em francês. Como gosto da língua, habituei-me a quase não ler as legendas e ver muito mais filme.
Mais ce n'est pas comme d'habitude...
Um bom filme é muito melhor de mão dada e, mesmo quando somos capazes de perder uma ou outra cena do ecran, se calhar ganhamos a melhor parte do filme.
É que... um filme é quase sempre feito de vários filmes e parte-se em partes e apura-se em remakes.
Mas isso é mais quando estamos acompanhados no escuro, de mãos dadas e sentimos as vibrações um do outro e os olhos molhados quando calha.
Sozinho, é mesmo outra coisa.
Saudades, é o que é.

22 de outubro de 2009

A revelação

Ai Jesus que o Saramago, blasfemo e comunista, anda a dizer da bíblia o que o diabo nunca disse da cruz, pelo menos quanto se sabe, por uma leitura mais ou menos atravessada do sagrado e idolatrado livro dos livros na opinião dos cristãos, incluindo aqueles que dele nunca leram sequer uma linha, para não dizer um versículo que é a taxonomia usada em documentos tais, para designar parágrafos mais ou menos curtos onde, na maior parte das vezes nem sequer se exprime uma ideia completa, ai Jesus, vá de retro Saramago, que o povo ainda começa a ler a bíblia sem o auxílio dos tradutores oficiais e sem os explicadores de catequese e ainda descobre que a coisa é bem mais do que redutoramente diz o nobel, e bem mais do que nos contam os doutrinadores, porque também há lá muita poesia e muita loucura e se a gente lê aquilo com espírito aberto, também se arrisca a sair de lá mais rico de espírito e chegar à iluminada conclusão de que as escritas têm tanto de sagrado como o cancioneiro de Rodney Galop, e tal como este podem ser tocadas, retocadas, parodiadas e etc e tal e quem diz o contrário é soberba e divinamente parvo.

É por isto que admiro o Saramago. Tentei escrever um parágrafo à laia dele e fiquei cansado para uns bons dias. E depois dizem-me que eu escrevo pouco e mais não-sei-quê. Mas é por isso. Simplesmente. Se eu fosse a escrever o que quero e como gosto ficaria muito cansado. Só de pensar nisso já é o que é. Por isso é que escrevo pouco.

Mas esta parva polémica que tanto anima as sacristias e as televisões também me espevita a verve.
Para mim, o que está em causa não é o que Saramago diz e com o qual até posso não concordar. O que está em causa é poder dizê-lo. Poder dizê-lo com a mesma displicência ou arrogância com que muitos dos agora ofendidos dizem, referindo-se à sua obra, Saramago é uma merda. Já o ouvi várias vezes, sabendo que quem o diz, ao contrário do que Saramago faz em relação à bíblia, não leu nada dele. Mesmo assim, não se coibem de tecer considerações formais sobre a escrita, a pontuação, etc.

Eu já li uma boa parte dos livros que constituem a bíblia. Já li um quase tratado sobre a leitura da bíblia - A leitura infinita, do padre e poeta José Tolentino de Mendonça - e quanto mais leio, mais me interrogo sobre o fenómeno que constitui a crença religiosa. Interrogo-me se os crentes lerão o mesmo que eu. Só consigo ver ali um repositório de histórias, algumas interessantíssimas outras absolutamente imbecis, outras de uma extraordinária fantasia.
Gosto particularmente do Livro de Salomão, cântico de amor que me parece ser o arquétipo da poesia amorosa retomado ao longo dos tempos. Também me diverte o delírio fantasioso que é o Apocalipse, segundo S. João. Dizem os entendidos que apocalipse significa revelação. Vale a pena ler. É talvez o mais fiel testemunho de que já em tempos muito recuados havia quem se entregasse ao uso de determinadas substâncias alucinogénias. Consta que uma determinada espécie vegetal , cultivada há mais de quatro mil e quinhentos anos ali para o médio oriente teria um teor de THC especialmente elevado. A avaliar pela fama que há uns anos tinha o chamon libanês, talvez seja assim mesmo.

21 de outubro de 2009

Novo governo

Podemos ficar descansados.
Até ao fim da semana vai haver novo governo.
José Sócrates está a esforçar-se para apresentar os novos ministros antes do fim do Gato Fedorento

14 de outubro de 2009

Desgraça moura

Imagem daqui

Às vezes ainda me surpreendo por me surpreender.

Depois de ouvir isto, também sou de opinião que o inepto também devia ser impedido, assim por uma forma pouco recomendável, a escrever poesia, que por acaso é uma coisa que ele faz bem.
Devia ser proibido.
É que isso é incompatível com tanta imbecilidade, tanta labreguice e tanta desonestidade intelectual.

Para que não restem dúvidas, nem sequer votei em quem ganhou e vai formar governo, mas mandam as regras da democracia que se aceitem os resultados.

O povo votou e o partido mais votado constitui governo e vai ter que governar. Para seu e nosso castigo. O parlamento eleito é, talvez até hoje, aquele com mais potencialidades para controlar com eficácia o exercício do poder. O que eu espero é que cada uma das instâncias cumpra o seu papel.

O Vasco não. Quer derrubar já um governo que ainda não existe. Fica-lhe bem.

Pois eu só lhe desejo que um dia, se acontecer o seu PSD ganhar as eleições, ele seja convidado para exercer o cargo de ministro da educação, ou coisa parecida. Mas como não sou de querer assim tão mal a ninguém, deixemo-lo apenas com esta praga que em tempos ouvi a gentes de Alvor:

prouvera deuj lhe desse uma terçã tã forte nésse cu que 'tvesse quinze diaj sim cagar i q'onde cagosse, cagosse figues de pita enteroj

Merecia.

7 de outubro de 2009

Três vezes mais


Hoje é o dia internacional de gosto tanto de te beijar na praia.

29 de setembro de 2009

Vulner(in)abilidades

O meu sistema tem também de facto algumas vulnerabilidades.
Não se aguenta com a vergonha de ter tal espécie em presidente do meu país.

Tição

Um cavaco queimado é um tição. E tição é coisa perigosa: pode incendiar tudo.

Cavaco falou e como eu previa não clarificou nada do que se estava à espera. Não se percebe o que é que ele pretende com tanta asneira, com tanta irresponsabilidade. Veio trazer mais uma acha (cavaco) para a fogueira.

O Daniel Oliveira escreve no Arrastão:
Das duas uma: ou Cavaco Silva está a ser sincero em toda esta novela e então o seu grau de paranóia é bem superior ao que se julgava; ou está a tentar manipular opinião pública num assunto de uma enorme gravidade e teremos de concluir que o país colocou em Belém um homem perigoso.

Pode ser. Mas também pode ser que esteja a criar o caldo de cultura para indigitar a Manuela para formar governo com o CDS. As declarações destes dois partidos não deixam muitas dúvidas de que se estão a pôr a jeito.
Se assim for, é um verdadeiro golpe de estado e devemos vir todos para a rua correr com essa corja.
À pedrada, se necessário.

28 de setembro de 2009

Afinal ganharam todos

É costume, na noite eleitoral, cada partido fazer os mais variados contorcionismos e vir dizer-se vencedor em qualquer coisa. Para além dos que realmente ganham, porque têm mais votos, mais deputados e por aí, todos nos habituaram a proclamar alguma espécie de vitória, porque, mesmo perdendo ficaram à frente do outro, elegeram um deputado no distrito X, ainda que perdendo dois ou três no distrito Y, Z ou W.
Mas desta vez foi mesmo a sério. Ganharam todos.
O PS ganhou as eleições por ser o que obteve mais votos e mais mandatos.
O BE ultrapassou os 500 mil votos e duplicou a sua votação.
O CDS passou a terceiro e chegou aos dois dígitos.
A CDU aumentou a votação e ganhou um deputado.
O PSD que todos pensam que perdeu, na realidade, também ganhou. Ganhou a grande oportunidade de se livrar da Manuela e enterrar de vez o cavaquismo serôdio, com o alto patrocínio do próprio Cavaco.

Ruído do Roído


imagem daqui
Dizem que é uma espécie de surdez sórdida ensaiada sob telhados de vidro e rabos de palha. O esposo da prima donna que está temporariamente a fazer as vezes de presidente da república portuguesa dos maracujás faz lembrar a anedota de um tipo que numa visita a uma fábrica de cerveja caiu dentro de um tanque da dita e, antes de se afogar veio três vezes à superfície para pedir tremoços. Este vem quebrar o silêncio para dizer que se vai manter em absoluto silêncio. E assim será até se afogar no seu próprio emunctório.
Há uns anos disse a alguém bastante devoto de sua excelência que ainda estariam por fazer as contas dos prejuízos que Cavaco já tinha provocado ao país e à democracia. Quando foi eleito para Presidente da República, senti vergonha e vontade de pedir a demissão de português. Sempre soube que o homem não tem nível nenhum e não votaria nele nem para a administração do condomínio.
Com tudo o que tem acontecido está tudo à espera que Cavaco fale. Que explique os imbróglios em que se tem metido e os que tem encomendado. Para já não falar na sua proximidade ao Bando Português de Negócios manhosos donde retirou lucros mais avultados do que o alegado suborno do Freeport dividido por todos os suspeitos (familiares também incluídos). Está tudo à espera que o senhor fale, eu não. O escândalo é tão óbvio que não são necessárias escutas, nem óculos para 3D, nem nariz de longo alcance. A coisa é tão ruidosa; tão claramente visível; cheira tão mal... que o melhor é mesmo não mexer.
A única coisa que poderia dizer ao país era pedir desculpa aos que o elegeram e ainda acreditam nele e resignar ao cargo.

Não sei o que é que a nossa constituição prevê em termos da destituição do cargo de Presidente da República; se há em Portugal alguma espécie de impeachment, ou como se traduz em português este processo.
Cavaco já ofendeu tanto o cargo que ocupa que se arrisca a provar que qualquer galo de barcelos acompanhado de um chalavar de caranguejos desempenharia melhor aquele papel e as instituições funcionariam regularmente, mais veto menos veto, ao sabor dos ventos e das marés na sua ordem natural.
Na minha modesta opinião devia ser destituído através de um processo de impeachment.
Fica-me apenas uma dúvida de tradução: não sei se devia ser "empessegado" se "empichado".

Pausa de semibreve.

26 de setembro de 2009

De votos

Ainda estás indeciso e não sabes em quem votar?




Don't worry

BE

happy

2 de setembro de 2009

Prova de vida




Vim só dizer que...






... qualquer notícia sobre o eventual desaparecimento ou morte do Contador


é, obviamente, muito exagerada.


Fotos (de telemóvel) obtidas no concerto de Emir Kusturika + No Smoking Orchestra, no passado sábado, na marina de Albufeira. Uma verdadeira loucura onde o Kusturika, seriamente, finge que toca.

15 de julho de 2009

Méquecoisa...

O senhor de suspensórios e boné à lavrador avançava à minha frente na caixa do supermercado ao ritmo do tapete rolante. Nenhum de nós se preocupou em separa o monte de meia dúzia compras com aquela barra "cliente seguinte" de modo que elas lá iam avançando. O senhor, aproximadamente com a idade do meu pai, porte muito direito, fez várias rotações de quase 180 graus, varrendo o horizonte como se fosse um farol. Já a senhora da caixa debitava o maquinal "tem cartão jumbo?" quando ele se vira para mim o que isto mudou em vinte anos! Era tão evidente que se dirigia a mim e respondi-lhe com cordialidade sim, sim... mudou muito. E ele insiste Faro mudou muito, isto aqui era tudo campo. Há cinquenta anos... a senhora da caixa anuncia o valor a pagar e ele entrega-lhe o cartão, marca o código sem nunca parar de falar. Sabe, eu andei muitos anos lá pelas américas e a coisa que mais gostava de admirar eram os grandes centros comerciais. Ele parecia procurar sinais do meu interesse pelo assunto, ao que eu moderadamente ia correspondendo. Por cá não havia nada parecido. Eu lá ia concordando, que sim, enquanto as minhas compras iam passando com apitos no leitor do código de barras. Mas agora quero-lhe dizer uma coisa, continuou, vir aqui e não comer um Biguemque é como ir a Roma e não ver o papa. E lá seguiu com os seus dois sacos na mão.
Enquanto aguardava a saída do talão ainda pensei que o devia ter convidado era para um xarém com irozes fritas e pedir-lhe para acabar a história que tinha começado, sobre o indivíduo que era o dono daqueles terrenos que iam dali até ao Alto de Rhodes e que era construtor de carroças e um dos homens mais ricos das redondezas.
Talvez tivéssemos perdido os dois uma bela oportunidade de fazer o gosto à conversa. E é já tão raro acontecer conversa. Mas, um Biguemeque...

14 de julho de 2009

Googlando a minha rua



Confesso. Sou um verdadeiro googlómano.


Sempre gostei de saber coisas. Todas as coisas, mesmo as mais inúteis.


Tenho uma curiosidade quase doentia por palavras, o seu significado, a sua origem. Igual curiosidade por saber onde ficam os lugares, como são as paisagens, como se vai para lá.


Dantes consultava dicionários, enciclopédias, mapas. Agora, num clique, o google dá-nos quase tudo.


O Google maps já tem para muitas cidades uma opção "vista de rua". Ontem tive oportunidade de ver como isso se faz. Chamou-me a a atenção uma viatura com um zingarelho às costas a andar de um lado para o outro. Só quando passou por mim é que reparei no autocolante na porta.


Daqui a uns tempos até sou capaz de aparecer, na minha rua de máquina fotográfica apontada.
Afinal há um número incontável e maior do que todas as coisas contáveis que existem.
Chama-se googol, nome inventado por um puto de nove anos para designar o número 1 seguido de 100 zeros.



3 de julho de 2009

Arenas epistémicas *

Resisto à republicação aqui da célebre imagem do ministro Pinho . Ela vale mais que as mil palavras que eu pudesse escrever sobre o assunto. Ainda, tentarei escrever algumas em jeito de contrapeso.
O ministro Pinho diz de si próprio que não é um político profissional e isso a gente já sabia. Falta-lhe aquele jeitinho especial para insultar os seus pares dentro das regras protocolares e a seguir vamos almoçar todos juntos e não se fala mais nisso. Políticos profissionais não se expõem assim e, mesmo quando o fazem há sempre uma cobertura desculpabilizante ou atenuante. Cavaco pode defender o gangue da banca, Manuela pode proferir as maiores tangas sobre a PT, o Citigroup, Jardim pode insulatar todo o "contenente", para só falar de alguns, que isso não fará mossa política. Dois deputados, em plena sessão, podem desafiar-se para resolverem as coisas "lá fora" (entenda-se, à porrada) e continuarem como se nada fosse e a fazerem parte de novo das listas porque as brumas da memória são verdadeiras muralhas de aço e já ninguém se lembrará. Santana fez a figura que fez na Câmara de Lisboa e como primeiro ministro e aí está de novo candidato à mesma autarquia numa espécie de virgindade recauchutada.
A imagem do ministro ontem no parlamento ficará gravada na memória e sempre que ele aparecer na política ela será reeditada. Dificilmente será chamado ao desempenho de um cargo político relevante.
Fiquei a pensar que se fosse assim para todos, se houvesse uma imagem tão forte como a do Pinho de indicadores espetados, ou da anedota do alumínio do Borrego, muitos dos políticos que por aí andam, e que muito mais mal já fizeram à coisa pública do que estes infelizes que foram obrigados a demitir-se, já estariam a fazer outra coisa ou simplesmente a viver dos rendimentos.
Paulo Portas daria seguramente um bom técnico de reprografia depois das 60 mil fotocópias à saída de ministro da defesa; Cavaco devia ter continuado a multiplicar as suas poupanças enquanto os amigos estavam todos no BPN/SLN e isso dava-lhe para uma vida desafogada sem essa maçada de ser PR e correr o risco de cada vez que abre a boca ter que evitar que entre mosca; Ferreira Leite fazia uma joint venture com o Citigroup e a taróloga Maya e abria uma tenda de consultoria financeira, quirologia, curas milagrosas e previsão meteorológica que são actividades nas quais se pode dizer o que vem à cabeça sem que se possa comprovar que se mentiu. E aceito sugestões para empregar condignamente mais uns quantos.

O ministro da economia, provavelmente não tinha muitos indicadores económicos para mostrar. Mas o seu gesto releva de um profundidade e dum saber imenso. Sem discursos sobre a política da verdade, ele é, e traduz, a verdade da política.
Ele mostra os indicadores do real estado da nação: uma verdadeira tourada!

Notícias de última hora dão conta de que a Associação Animal já convocou uma manif de protesto contra as touradas na Assembleia da República e a empresa Unilever (grupo Jerónimo Martins), em reconhecimento pelo extraordinário aumento de vendas de farinha Maizena motivado por Pinho, atribui-lhe um lugar de membro honorário no Conselho de Marketing e Publicidade Disfarçada


*Este título não tem nada a ver com as teorias com esse nome desenvolvidas por Knorr-Cetina... ou talvez tenha; há mais ciência política num simples gesto que em muitas horas de discussão par(a)lamentar.

26 de junho de 2009

In dubio... pronúncia


O professor criticava, na ausência da própria, uma aluna em termos exageradamente sarcásticos, apenas porque tinha pronunciado Curriculum Vitae como "currículum vite" e não como "currículum vitái", como ele achava correcto. Eu não tenho idade suficiente para alguma vez ter ouvido falar latim pelos genuínos falantes, mas lembrava-me de ter lido algures sobre uma espécie de convenção dos latinistas sobre fonética do latim e sobre as diferenças entre o latim clássico e o latim restaurado, pelo que logo ali fiquei com imensas dúvidas sobre as certezas daquele professor. Parece que também cada língua adopta a sua fonética (por exemplo, o termo latino media dizia-se média em português e cada vez se adopta mais a pronúncia - e até a grafia - mídia, porque é assim que os ingleses lêem). Mas, como costumava ouvir a um amigo meu, milium primum pardalorum est, deixei-me ficar com o ninho atrás da orelha e, logo que pude, fui tentar esclarecer a coisa.
Pois até dizem que é uma espécie de despautério (termo que vem do latim e significa grande asneira ou verdadeiro disparate).

De acordo com a pronúncia tradicional, curriculum vitae pronuncia-se currículum víte, e é esta que deve preferir-se. Pretender impor a articulação vítai (ou mesmo wítai), de acordo com a pronúncia restaurada, parece-me um exagero ou mesmo um pretensiosismo tão grande como seria exigir que se pronunciasse etc. (et cetera) da mesma forma que os romanos do tempo de Cícero: et kétera…
Também é de evitar a prolação vitái, como às vezes se ouve por aí, pois essa nem é tradicional nem clássica. É apenas um despautério…



A minha amiga Xantipa que trata gregos e romanos por tu é que certamente sabe e ainda lhe hei-de perguntar das suas razões.
O latim é uma língua morta e não dará voltas no túmulo se a gente não a pronunciar bem. Portanto para mim estão empatados, ou seja, ex-aequo ( aquele prof dirá ,seguramente, egzaikuo) e tanto faz. Até estou em crer que os latinos nortenhos pronunciariam, de certeza, currículom bite, carago!


Desde que ouvi uma vez um jornalista dizer que um determinado acontecimento tinha sido adiado "sáine dáie", já acho que tudo é possível.

23 de junho de 2009

Pedalanço






Andar de bicicleta na ponte é uma experiência extraordinária. Poder parar, olhar o Tejo, admirar a cidade, as duas margens, observar os mariscadores, as aves... Beijar a meio do tabuleiro da ponte faria o Vasco da Gama arregalar os olhos e cofiar a longa barba. Esta experiência vale os 60 euros e o levantar cedo.


O resto, não. A qualidade das bicicletas (talvez porque montadas à pressa e mal afinadas), a ausência de mais apoio técnico ao longo do percurso, quando as bicicletas se começam a desconjuntar, a intoxicação publicitária e o inenarrável speaker.


A iniciativa é interessante, tem o apoio do IDT, cuja mensagem se perde completamente. É pena que não prevaleça uma associação mais forte a uma ideia de vida saúdável, de respeito pela natureza, de sustentabilidade ambiental.


O que vale é que a gente com quem me cruzei nesta manhã parece não ligar patavina às marcas patrocinadoras e lá vai bem disposta e partilhando o prazer desta aventura. A mochila diz galp, mas a gente a seguir vai é abastecer ao jumbo e pronto.

Ai, um beijo na ponte...

Pedala que ped'alma (desculpa lá esta O'Neil)

20 de junho de 2009

Solestício

Previsões para amanhã:
Onda de calor na Amareleja e Bike Tour na ponte.

10 de junho de 2009

Ainda as europeias

Estive para titular este post como O ovo da serpente, o célebre filme de Bergam de 1977, sobre os sinais promonitórios do nazismo na Alemanha do pós-I Guerra Mundial. Só não o fiz porque ao pesquisar sobre o filme o Google devolveu-me, entre imensas outras alusões e títulos, um do Miguel Portas, muito recente e um outro mais antigo do "abominável César das Neves" e perdi a vontade a essa metáfora.
Ainda assim, e porque isto anda tudo ligado, mesmo que às vezes não entenda muito bem a cosa.
Ah, hoje era sobre as eleições para o parlamento europeu que decorreram no domingo. Decorreram bem, sim senhor, porque o presidente Cavaco em boa hora veio uns dias antes lembrar os portugueses que deveria estar bom tempo (ao contrário do que anunciava a meteorologia) e que na semana a seguir havia dois feriados seguidos e, embora não tivesse sugerido propriamente que dois ou três dias por conta do período de férias teriam um efeito multiplicador, os portugueses entenderam muito bem e aproveitaram a dica. O resto também ajudou. Europa? Ainda se fosse o europeu de futebol!...
Mas o que eu queria aqui deixar registado era outra coisa. Na noite eleitoral, já depois de se saber que o PSD tinha mais votos e o lipidinoso Rangel destilava vingança misturada com o que aprecia ser um programa político para o país, pondo-se em bicos de pés como se tivesse vencido as legislativas, impressionou-me a moldura juvenil que o cercava. De repente tive a sensação de já ter visto aquilo. As mesmas caras de parvo, as mesmas camisas às riscas metidas em calcinha bege de algodão... Estes jovens betinhos são os filhos dos betinhos da AD dos anos 80! Só têm de diferente aquelas lenga-lengas que caracterizam os (outros) hooligans da bola.
Quem viveu esse tempo reconhece os sinais.

2 de junho de 2009

As bestas, novamente

Imagem apanhada aqui


Há dias ouvi por aí nas notícias que alguém da igreja do vaticano teria dito algo como: o aborto é muito mais grave que os abusos sexuais de menores. Não tinha percebido bem o contexto em que tão absurda declaração era emitida, mas fiquei, até hoje, com a pulga atrás da orelha e fui procurar. Estes vermes de sotaina não fazem por menos: em meia dúzia de palavras querem branquear décadas de pedofilia nos colégios católicos irlandeses e combater o projecto de lei do governo espanhol sobre o aborto.


A besta chama-se António Cañizares Llovera e é cardeal. Mas podia ser qualquer um das centenas que ao longo dos anos abusaram de crianças que era suposto proteger, barraram investigações, sonegaram informação, queimaram relatórios, esconderam criminosos, durante muitos anos e em diversos países do mundo.
Daqui a muitos anos há-de vir aí um papa qualquer coisa XXVII pedir perdão ao mundo sobre estes pecados, mas isso não muda a vida das vítimas de abuso que continuam expostos a estes predadores.
É preciso dizer-lhes na cara que o abuso pedófilo é crime. E que, nas circunstâncias em que é perpetrado pelos membros da igreja católica, devia ser considerado crime contra a humanidade. As vítimas são frequentemente crianças já em estado de necessidade, ou aquelas cujas famílias as confiam a uma instituição que respeitam para lhes proporcionar o que julgam ser uma melhor educação.

Revolta-me que esta gente untuosa ande por aí impune e ainda tenha o desplante de vomitar estas baboseiras. Ao menos calem-se. Se quiserem, rezem. De preferência baixinho.

31 de maio de 2009

Nós, europeus. Nós cegos. Noz moscada

As eleições para o parlamento europeu poderão não reforçar a influência de Portugal em Bruxelas e Estrasburgo ou em Quelque-Chose-sur-Mer, mas já trouxeram um enriquecimento súbito (ai, o enriquecimento súbito!...) se não ao português, pelo menos ao politiquês de Portugal.
O candidato que já ganhou foi sem dúvida o Vital. E não me refiro apenas ao uso, com toda a propriedade, aliás, do termo "roubalheira", cujo significado transcende o normal - e parece que bem tolerado - roubo, mas faço. "Roubalheira" é uma verdadeira especialidade portuguesa e nem sei se há equivalente noutras línguas (assim como "saudade"). "Roubalheira" não é roubo, nem furto, nem apropriação do alheio porque isso é crime e, embora também se faça muito, procura-se que ninguém saiba. "Roubalheira" é roubar às claras, com manifesto sentido de impunidade. Num sentido mais popular, será roubar com "as costas quentes" ou ainda, roubar sem "ficar encavacado" que o mesmo é dizer, sem pinga de vergonha.
Mas este enriquecimento súbito (ai, outra vez o enriquecimento súbito...) não se fica por aqui, assim "chirleamente" ou "pedestremente". O verdadeiro euromilhões, o jé-que-pote de toda a campanha, o tempero que faltava ao charco de água chirla do discurso político é mesmo o uso do termo "tranquibérnias".
Outros países, estados membros da União terão as suas traquibérnias, mas duvido que até aqui algum deputado europeu as soubesse designar correctamente.
Acertastes-lhes no nó vital. Quase dez, a bem dizer...

tranquibérnia
s. f.
1. Mixórdia feita aos líquidos de venda para lhes aumentar a quantidade.
2. Negócio de má-fé.
3. Trapalhada; trampolinice; falcatrua; fraude; burla.

18 de maio de 2009

Bendito Mário!

Morrer é nada. Uma basfémia diletante de um procuro e não te encontro. Frente ao mar. Sempre frente ao mar a escrever estratégias na areia burocrática. Uma mulher despida no escuro ou um vice versa pequeno-burguês.
Aprenderei a dizer-te bem. O melhor que puder.

Mário Benedetti, poeta uruguaio "desexilado", faleceu ontem em Montevideo

Si Dios fuera una mujer
¿y si Dios fuera una mujer?
-Juan Gelman

¿Y si Dios fuera mujer?
pregunta Juan sin inmutarse,
vaya, vaya si Dios fuera mujer
es posible que agnósticos y ateos
no dijéramos no con la cabeza
y dijéramos sí con las entrañas.

Tal vez nos acercáramos a su divina desnudez
para besar sus pies no de bronce,
su pubis no de piedra,
sus pechos no de mármol,
sus labios no de yeso.

Si Dios fuera mujer la abrazaríamos
para arrancarla de su lontananza
y no habría que jurar
hasta que la muerte nos separe
ya que sería inmortal por antonomasia
y en vez de transmitirnos SIDA o pánico
nos contagiaría su inmortalidad.

Si Dios fuera mujer no se instalaría
lejana en el reino de los cielos,
sino que nos aguardaría en el zaguán del infierno,
con sus brazos no cerrados,
su rosa no de plástico
y su amor no de ángeles.

Ay Dios mío, Dios mío
si hasta siempre y desde siempre
fueras una mujer
qué lindo escándalo sería,
qué venturosa, espléndida, imposible,
prodigiosa blasfemia.

17 de maio de 2009

Brincar café

A senhora de Fátima encontrou-se com o Cristo Rei. Foram fazer pastorinhos.

O Cristiano Ronaldo em cima de um andor também enchia o Terreiro do Paço.

13 de maio de 2009

Os meninos (escravos) da bola

Foto captada no que parece ser o site oficial da família Gonçalves

Acabei de ver na RTP1 uma reportagem perturbadora. Imagino que muita gente terá visto e entre eles, especialistas de saúde mental infantil, juristas, magistrados, membros das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens e, no meu imaginar, amanhã alguma destas pessoas terá abordado estes pais no sentido de salvar estes gémeos de sete anos e, eventualmente, a mãe.
Há momentos impressionantes nesta reportagem, e dois que persistem a atormentar-me a memória. À pergunta sobre o que gostava de fazer para além do futebol, um dos miúdos procura aflito com o olhar no vazio, no chão, uma resposta que não tem. Ainda pede um bocadinho para pensar e, depois de um penoso silêncio acaba por dizer: jogar à baliza, fazer fintas, marcar cantos... O outro momento é o olhar da mãe no seu silêncio obediente. É um olhar inerte. Tanto pode revelar uma angústia recalcada todos os dias como a distracção de um pensamento fútil, do género se calhar devia ter escolhido outra roupa para aparecer na televisão... ou o meu cabelo estará bem?
Um pai que se traveste de mister e manda os filhos encher quando falham um lance ou perdem o domínio da bola, precisa, no mínimo, que alguém com autoridade lhe diga que o que está a fazer pode considerar-se como sevícias e maus tratos e negação do pleno desenvolvimento a que todas as crianças têm direito. O que se passa aqui não difere muito do trabalho infantil de Padre padrone (1977) num remake dos tempos modernos.
Há psicopatas que disfarçam melhor.





12 de maio de 2009

Pressões de ar (*)

Afinal, parece que os magistrados são pressionáveis. E o mais curioso é serem eles próprios a dizê-lo. Não sei bem de que pressão se trata, se é atmosférica e anticiclónica ou se, sendo baixa é como a dos pneus. Agora temos o caso (chamado) Freeport na pneumologia depois de ter passado pela terapia da fala por causa daquele "t" que às vezes emudece.
Agora é oficial. Houve mesmo pressões. Ouvi nas notícias. Não sei bem como foi (o meu acesso às fugas de informação é muito limitado, apesar do Meo me oferecer o canal do Benfica em sinal aberto), mas arrisco um cenário bastante plausível.
Para aí a três quartos do almoço, naquele momento em que a segunda garrafa de Pera Manca se encontra naquela ambiguidade jurídica de estar meia cheia e meia vazia, o magistrado pressionador diz assim para o magistrado pressionado:
- sabes como isto está, não é?... a crise, e tal.... ouvi dizer que há contratos que não vão ser renovados, sabes como é?...
- já percebi, pá... é para arquivar aquilo, não é?
Deve ter sido assim. Não estou a ver como poderia ter sido de outra maneira. A não ser... ná, não acredito...
- ou arquivas aquela trampa, ou fica toda a gente a saber que a Cláudia Cardinali do parque eduardo VII és tu.
- ok. ok. manda lá vir outra garrafa e não se fala mais nisso...

Talvez até nem tenha sido nenhuma destas pressões, mas elas são impressionantes.

Agora o que eu acho é que devia haver uma grande pressão, sim senhor, para que a justiça funcione e seja célere. Se olharmos para os casos mais emblemáticos dos últimos anos, vemos que é uma desgraça total de embrulhadas, erros processuais, fugas de informação cirúrgicas... Tudo isto na completa impunidade. Ninguém avalia estes senhores.
Agoram brincam às pressões com o seu estatuto de impressionáveis.
Impressionante!



(*)Pressões de ar: são pequenas armas de recreio, utilizadas para tiro ao alvo ou para caçar pássaros. Eram também muito comuns nas feiras, nas famosas "barracas de tiro", onde por vinte cinco tostões se podia, com cinco tiros, tentar acertar num alvo que abria a porta de uma caixa donde saltava um boneco preso por um elástico. O prémio era era uma ginginha falsificada, mas não seria isso que levava lá os homens e os rapazes da minha idade. Eram as meninas de lábios pintados de vermelho que não se cansavam de lançar o famoso (na época) pregão "ó simpático, vai um tirinho?"

6 de maio de 2009

maio, maduro maio

Azibo, 3 de Maio

Terras de Trás-os-Montes: quilómetros de prazer (*).

As viagens são sempre descobertas. Talvez porque sejam sobretudo viagens por dentro de nós.
Encontramo-nos com gente tão igual e tão diferente de outra gente e as conversas misturam-se em tempos diferentes da nossa vida.

Foi bom sentir o olhar no mesmo sentido. Por cima e para lá de todas as serranias. E encontrá-lo lá naquele sítio de insondável bruma a que chamamos infinito.


(*) Off posting:
Eu sei. Este slogan já foi usado e, os mais velhos lembrar-se-ão, por uma marca de cigarros. A publicidade procurava então associar o acto de fumar à condução de um automóvel, dois traços inegáveis de status, classe e distinção que ainda perduram, às vezes criminosamente. Continuo a ver muita gente que conduz e fuma e joga a beata à estrada. Uns quilómetros à frente, poderão ouvir na rádio a notícia de mais um fogo florestal, "provavelmente de origem criminosa", carregar no acelerador e suspirar de alívio: ainda bem que não é na nossa casa...