16 de dezembro de 2010

Prodígios do campus


Uma personagem levantou-se e disse. Isto é uma história.
E eu disse. Sim. É uma história.
Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos.
A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo.
E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento.
Mas será mais eloquente. Para os que crêm nas palavras.
Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar.
Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez.
O breve tempo de uma demonstração.

Lídia Jorge - O dia dos prodígios


Foi ontem. Ou foi há trinta anos. Acabado de chegar a esta terra já tinha percorrido uma boa procura das tradições. Dos falares e cantares que em alguns sítios parecem ser uma e a mesma coisa. Das pragas dos marítimos às rezas a santa bárbara para afastar trovoadas lá para onde nem cresça ramo verde ou alma cr'stã. Das toadas do 'leva' aos romance carolígeo. Da ti' Bi' Fitas aos Velhos da Torre. Da Pinha de Maios e 'abarcas' às charolas. Dos comeres da serra e do mar. Destas terras de gente marafada, afeleada nos seus afazeres, alvoreada com levantes, suestes, besaranhas e sirocos capazes de xaringar um pacato montanhero. Ah, punhão. Mundo. Mesmo que não se acredite em assombrações, encantamentos e se pense que esta ou aquela estória contada naquele falar de boca cheia de Monchique ou nas vogais dobradas do barlavento. Debe. Tem que haver aqui algo de mágico e prodigioso por estas terras e gentes que ainda resiste como mouras encantadas aí pelos poços e noras. Móce. Foi mesmo uma coisa desmarcada.


Lídia Jorge recebeu ontem o grau de doutor honoris causa na Universidade do Algarve. A laudatio pelo vice-reitor Pedro Ferré e o agradecimento da escritora foram no seu conjunto uma das mais emocionantes lições de literatura e ao mesmo tempo uma viagem à minha infância, aos livros e às searas. O meu barrocal era a charneca e o mar sempre foi o Tejo. E pelo Tejo vai-se para o mundo.

Ontem li todos os livros de Lídia Jorge, mesmo os que nunca abri. Talvez por um mero bom acaso, daqueles que nem uma equação diferencial estocástica (os meus amigos matemáticos vão adorar esta) pode admitir como hipótese prever, eu tenha assistido ao Dia dos prodígios em teatro, no Trindade e tenha ido procurar o livro da cobra voadora, com as páginas amarelecidas e tenha iniciado a sua releitura quase trinta anos depois e tenha tido o privilégio, o prodigioso privilégio de poder participar nesta festa que, apesar de todo o cerimonial académico cheio de rituais de liturgia paramentada, foi por largos momentos um largo terreiro de ouvir e contar histórias estórias.

wikilíricos

Todos os dias sabemos novidades publicadas no sítio WikiLeaks. As rádio e televisões abem as antenas para o debate público o cidadão acha que sim e mais também e antes pelo contrário, mas parece que isto não passa de um circo mediático como já vimos tantos.
Há quem acredite e espere sebastianosamente uma revelação importante - talvez, A revelação - capaz de fazer cair governos, acender a revolução, mudar o paradigma da governação mundial, acabar com as desigualdades, reduzir a pobreza a zero ou erradicar a fome. Mas, desenganem-se, muito antes do wikileaks já toda a gente soube que foi enganada por aqueles que democraticamente elegeu e que voltou a eleger os mesmos, mesmo depois de saber o que toda a gente sabe. Não precisámos de revelações secretas para sabermos todos que há partidos no governo (agora e antes) cujos ministros fizeram negócios ruinosos para o Estado com empresas para onde foram ser administradores quando deixaram de ser ministros e isso não os impediu de ganhar eleições e voltar ao governo e fazer o mesmo; para sabermos da qualidade moral de uma série de gente muito bem colocada e que pugna por bem colocar outra série de gente numa espécie de nova aristocracia dita democrática.
O wikileaks não nos fez saber mais do que sabíamos antes, embora isso não tivesse impedido que figurões como GW Bush, Berlusconi, Cavaco ou Jardim fossem eleitos.
Afinal o que é que se passa? O wikikoiso não diz?

Há quem opine que isto acontece porque o povo é um pouco estúpido... Não sei se esta informação é reservada, confidencial ou secreta, nem como foi obtida, mas parece que não consta do wikipois...

9 de dezembro de 2010

Segredo de justiça


Depois de tantas fugas de informação sobre questões em segredo de justiça e com as embaraçosas revelações do wikileaks, a Justiça (assim com um merecido jota xxl) portuguesa mostra que está muito à frente e numa jogada antecipatória, quando ainda nem se falava em wikileaks e já o portentoso sindicato dos magistrados tinha adquirido por ajuste directoà SLN (para os compensar das perdas, porque as coisas não têm corrido bem nos últimos anos) um sistema de codificação para ser usado por todo o povo judicial. Eles bem sabem que providências cautelares e caldos de galinha nunca fizeram mal e melhor é prevenir que chorar o leite derramado e melhor é o burro nas couves que o gato ir às filhoses e prontos.
É espantoso o que esse sistema faz. Torna ininteligível qualquer douta sentença, ou simples dilgência processual, ou até os actos compulsados dos apóstolos se for caso disso. Assim, mesmo que algum documento saia de debaixo da saia do segredo, não há problema, porque ninguém vai entender nada sem a ajuda do tal sistema, que tirando umas comissões para uns afilhados de uma certa pessoa que não convém nomear, até ficou bastante em conta.
Como prova disso, tenho aqui um documento secreto que por artes que não revelo me veio parar às mãos. Suponho que não seja nada de muito importante, mas se fosse?...
Alguém pode saber? Ora experimentem:



=CLS=


Nos presentes autos de acção especial para cumprimento de obrigações pecuniárias que a Empresa ----- intentou contra o Condomínio ------, sito na ----, em -------, pedindo a condenação deste a pagar-lhe a quantia de x.xxx,xx €, acrescida de juros de mora calculados à taxa de 4% desde a propositura da acção e até integral pagamento, juntaram A. e R., representada a primeira por mandatário com poderes especiais para o acto, a transacção que antecede, cujo teor se dá aqui por reproduzido.
Nos termos do art.º 300º, nº 3 do CPC, atenta a qualidade dos intervenientes e o objecto da transacção efectuada, que aqui se dá por reproduzido, julgo a mesma válida, homologando-a por sentença, condenando e absolvendo as partes em conformidade.
Custas conforme acordado – art.º 451º, nº 2 do Código de Processo Civil.
Fixo à acção o valor de xxxx,xx € - art.º 315º e art.º306º do Código de Processo Civil


Not. E reg.

Set.,d.s.
A Juiz de Direito
(Dr.ª ---------------)


Então agora, se alguém conseguir desencriptar a coisa, faça favor. Assim, sem dar muito nas vistas, pode deixar a tradução na caixa de comentários.

8 de dezembro de 2010

FMI




Vou, vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual.

José Mário Branco


Estás muito enganado. Não é um ou outro pormenor...
Depois de SCP já ninguém teme o FMI. Eu explico: Sócrates, Cavaco e Passos já garantem o pior cenário, e como são mais papistas que o FMI, o BCE e a CE juntos, nada a temer.
Agora são eles que cantam o FMI (dida didadi dadi dadi da didi) para nos entreter enquanto bancos e umas quantas empresas que se acolitam em negócios com o Estado, ou têm a sua actividade de quase monopólio protegidapelas leis do Estado acrescentam mais uns pontos percentuais ao crescimento dos lucros.
O resto (o resto é a Deolinda, António Pedro) nem sequer pode ser atribuído a estes entretainers SCP que não passam de uns palermas que os imbeceleitores elegem para cumprirem que aquilo que outros que ninguém elege decidem.
Desprezo este sistema. De alto abaixo.
Infelizmente, parece não haver uma alternativa credível dentro deste paradigma capitalista selvagem. A continuar assim, dirigimo-nos para um buraco negro, donde só escaparão os muito poderosos, guardados por verdadeiros exércitos, como já vimos todos em filmes de ficção futurista.
Parece-me inevitável a curto prazo uma convulsão generalizada com focos de violência nas ruas e outras situações indesejáveis que o sistema aproveitará para legitimar o endurecimento da repressão, da coacção e da violação da privacidade. Tudo em nome da segurança, da liberdade e da democracia.
Uma forma de gerar uma alternativa poderá estar naquilo a que já chamei de insurreição criativa. Não há um programa para isso, mas de vez em quando aparecem alguns sinais do que poderia ser essa insurreição, baseada em actos do dia a dia, não violentos, mas se globalmente participados podem pôr em causa muita coisa. Se é possível pôr quase toda a gente a sorrir uns para os outros na cidade de São Paulo, é possível muita coisa.




Façamos destas tretas do FMI um outro FMI - Forte Motivo de Inspiração

29 de novembro de 2010

Austeridade viciosa

Eu não percebo nada de economia e, provavelmente muitos dos economistas que falam na televisão, escrevem nos jornais ou mandam bitaites partir do palácio de Belém, também não. Já aqui tinha perorado sobre esta ciência dever passar a chamar-se economância por, cada vez mais, em vez de basear as suas previsões em modelos científicos estar a socorrer-se de artes divinatórias e oráculos para tentar interpretar os misteriosos e insondáveis desígnios dos santos mercados. Pode ser. A alternativa não é muito melhor e também é bastante plausível. Haverá um exército de arautos a propagar todos mais ou menos as mesmas coisas, ainda que parecendo às vezes discordar, de forma a ocupar todo o espaço para que mais ninguém fale, apenas com o objectivo de nos entreter enquanto a «austeridade» se vai apurando? Ponho mesmo aqui um ponto de interrogação. Não tenho a certeza de que seja assim. Não percebo nada de economia, mas ao longo da vida fui aprendendo a ler alguns sinais e o que digo é por mera intuição. Afinal, não é assim tão diferente do que dizem os que estudaram para economistas.

Acho estranho que não apareçam nos meios "oficiais" da comunicação, vozes discordantes como esta. Ou então, alguém que defenda a verdade "oficial" com esta clareza.

Mark Blyth é professor de Economia Política Internacional na Brown University (Providence, EUA) e o seu currículo pode ser consultado aqui.

27 de novembro de 2010

Ciência rap



Fui lá por esta notícia e levei a filhota em tarde molhada mais ou menos a puxar para o sofá e televisão.
Este jovem autodesigna-se como science communicator e o que faz é falar de conceitos científicos de uma forma simples e eficaz, procurando sempre ir ao encontro dos códigos dos destinatários.
Começou por explicar o que faz utilizando apenas umas folhas A4 impressas e, apenas com isso, mostrou claramente que há várias formas de comunicar com uma plateia e que umas são mais eficazes que outras. Curiosa a forma como demonstrou que uma folha feita avião transporta a mensagem pelo ar num voo impreciso e mais ou menos aleatório e se for feita numa bola é atirada para mais longe e com maior precisão.
Depois cantou um rap a explicar o que acontece com a luz do sol: como chega à terra, o tempo que demora, a distância que percorre, os efeitos bons e maus, a importância para a vida na terra e para cada um de nós... Ele sabe que isto cantado em inglês rap é difícil de entender e repete, agora ao mesmo tempo que visualizamos um video com imagens , esquemas, animações sincronizadas com as palavras que canta. Já se percebe melhor, mas mesmo assim, inglês cantado em rap, custa mesmo a entender. Mas ouvindo as palavras, vendo as imagens e podendo ler as palavras que ele canta já se vais mais longe na compreensão. É o que ele faz: acrescenta legendas. Só faltou mesmo a tradução para português.
Num outro momento pediu que todos desenhassem o que julgavam ser um cientista. Depois de recolher as folhas pediu que levantasse o braço quem tinha desenhado com uma bata, com óculos, com barba... Muitos braços se levantaram para todas estas alternativas. Pergunta ainda quem desenhou um cientista velho, mulher, não europeu... Elucidadivo.

A menina parece que conseguiu entender muita coisa, treinou o ouvido para o inglês e gostou.
E eu também. Gostei de ir e de ir com ela. De fazermos isto juntos.

Desassossego

Cinco ésses sinuosos na mesma palavra. Um livro cheio de desassossego. Um filme cheio de palavras e tantos filmes lá dentro. Foi ontem no grande auditório da UAlg onde entrei supranumerário e só consegui sentar-me nas escadas. Um verdadeiro desassossego. Tudo por culpa de João Botelho e do Cineclube de Faro.

24 de novembro de 2010

Há filmes para ver de mão dada


A rapariga que me dá a mão e beijos no cinema sabe habitualmente ao que vai. E está sempre a levar-me para a sala escura. Desta vez foi na cidade da outra ria onde tinha que ir congressar e onde, por mero acaso estreou o fime-documentário José e Pilar. E digo por acaso, e não é por acaso, porque das 7 cidades onde o filme se exibe, todas são a norte do Tejo. Sobre filmes eu não sei escrever. Sobre o filme e as emoções ela já escreveu e muito bem, como sempre faz. E fiquei també a saber que outros o fizeram e faço eco do apelo para que se veja este fime. E para quem queira ter uma visão privilegiada como eu que o faça, se puder, de mão dada.



Como era de esperar de quem habitualmente troca os nomes às coisas e aos lugares, o filme passa a ser Pilar e José. Não é por distracção. É mesmo por feminismo imparavelmente ímpar.

Saímos do filme mais ou menos a concordar que seremos assim como uma espécie de palavra de ordem para escrever por aí nos muros: mais ateu que saramago e mais feminista que pilar. De mãos dadas.

23 de novembro de 2010

De como estes deuses modernos andam ainda mais loucos que os outros


Não se fala de outra coisa. Uma febre. Um delírio. Algo capaz de arrebatar as consciências e impor-lhe humildade, resignação e obediência. Todas as homilias em toda a parte e a toda a hora (apenas um parêntesis para assinalar um pequeno intervalo futebolístico em que Portugal derrotou a Espanha, mas aquilo era a caramelos de Badajoz e, por isso, não teve a jactância habitual - ou então estamos mesmo em crise), na televisão, nos jornais, em quilómetros de rádio. Só se fala dos mercados. Uns deuses modernos de quem ninguém conhece a cara que têm os seus caprichos, às vezes acordam nervosos e tal como os deuses tradicionais acabam sempre a descarregar as suas iras sobres os mais fracos. Ninguém sabe, ou ninguém explica, bem o que são os mercados, o que fazem, onde moram - deve haver quem creia que habitam os céus da economia global - e poucos se atrevem a nomear os seus verdadeiros bispos, apesar dos muitos sacerdotes conhecidos não se cansarem de profetizar sobre as vontades dos deuses. Ainda há dias o oráculo de Belém iluminou Obama sobre os destinos da economia portuguesa e o homem lá foi tranquilo. Resta saber se a taróloga Maya o o professor Mambo usando outras abordagens da trancendência não fariam exactamente o mesmo (uma situação para a ciência estudar). É
que com este PSEC (processo de sacralização em curso) a economia enquanto disciplina do saber ficaria melhor com o nome de Economância.
Na antiguidade as pessoas acreditavam em inúmeros deuses e alimentavam o poder dos seus sacerdotes com oferendas e obediência. Depois os múltiplos deuses foram perdendo a sua importância e a maior parte do mundo ficou dominada por três ou quatro religiões, uma espécie de grupo económico de um só deus. Estas religiões ainda têm muito poder sobre as pessoas no mundo, mas muito menos do que tinham e, tirando aquelas regiões em que o poder religioso se confunde com o poder do estado, já pouco condicionam a vida dos cidadãos. E isto porque já há muita gente que não é crente e já percebeu toda a patranha em que assentam todas as religiões. O papa pode falar contra o uso do preservativo. Os movimentos civis continuaram a combatê-lo e o coitado não teve outro remédio a não ser capitular e já acabou a admitir que em certas circunstâncias vá lá então... (quanto às circunstâncias, ainda não disse, mas lá chegará, que o uso do preservativo embora tolerado é uma espécie de via verde para o inferno, mas isso é cada um que escolhe porque deus nos concedeu esse dom na sua imensa bondade) o que só demonstra que a força destas forças está apenas na importância que lhes damos.
Com os ditos mercados é mais ou menos o mesmo. A sua força vem do medo que causam. No dia em que toda a gente se estiver nas tintas para a liturgia que nos entra pelos dias dentro sob a forma de notícias, análises, comentários, debates, os deuses começam a cair. Afinal, têm todos pés de barro.
ps: Acabei de ouvir que a Brisa com as portagens de autopagamento já despediu uma data de funcionários e se prepara para mais acordos de despedimento. Era o que se previa. Já passei por uma dessas e apeteceu-me avariar a máquina. Ainda por cima, em algumas portagens só há uma ou duas saídas e rapidamente se forma uma fila. São os automobilistas que se pressionam uns aos outros. A Brisa deve ter estudado estes comportamentos e não precisa de fazer nada. A alternativa é "aderir" à via verde, ou seja, poupar ainda mais a intervenção humana porque tudo se processa automaticamente.

14 de novembro de 2010

Cimeira danato

Imagem laboriosamente roubada e publicada sem autorização daqui.

Na próxima semana os Natívos reúnem-se em Lisboa, mais propriamente, no Parque das Nações num sítio que ainda não percebi bem onde era porque andam a guardar segredo, mas alguns dizem que é na sumit, outros na cumbre, mas pelo que percebi é mais na parte cimeira. Na ciumeira. Ou se quiserem, em inglês, na see you, meira... se é que estão a perceber.
E o que é que eles vão fazer de facto? Na realidade ninguém sabe. Está em segredo de justiça. Por isso podemos afirmar, sem qualquer margem para erro, que vêm disputar o campeonato mundial de paintball, uma modalidade em pleno desenvolvimento no âmbito da estratégia político-militar/religiosa a nível global.
Na imagem, gentilmente cedida pelos serviços mais-que-secretos (de porco preto), podem ver-se já devidamente equipados Sócrates e Sarkozy, este último facilmente reconhecível na foto por estar em bicos de pés.
No final da prova parece que há frangos assados para todos e distribuição de gravatas de cortiça aos capitães de cada equipa.

11 de novembro de 2010

São Martinho

Não me lembro bem se tive uma colega de liceu chamada Conceição Martinho ou se a inventei assim chamada porque me dava jeito cantar-lhe uma canção. É claro que toda a gente a tratava por São Martinho. Só nos encontrávamos na aula de Ciências ou Biologia porque ela era de outra turma e já não sei porquê tinha aquela disciplina na minha. Nunca tivemos grande relação e terão sido raras as vezes que nos vimos fora das aulas, mas pelo menos nas duas vezes por semana que nos juntávamos na aula cruzámos um olhar cúmplice que transportava dizeres nunca verbalizados. Ficámos sempre nesse entendimento doce e mudo. O seu olhar era sempre triste e sereno apenas com um leve sinal na comissura dos lábios como que a dizer sei que me estás a ver. Um dia a professora advertiu-me e ainda fui a tempo de me ouvir a trautear a música. Para mim estaria apenas a cantar mentalmente enquanto recriava a letra em português:
São Martinho
Como a vida é fácil
Saltam peixes
Dos teus olhos de algodão
Tens um pai rico
E uma mãe bonita
Por isso, minha linda
Não chores não


Coisas dos 17 anos...
Durante algum tempo associei esta cantiguita às festas de S. Martinho pelas adegas dos pais dos meus amigos para depois me esquecer dela completamente.
Hoje, 11 de Novembro, tradicionalmente conhecido como dia de S. Martinho padroeiro das castanhas, água pé e jeropiga - que santíssima trindade!... - (sendo que na minha terra não há confusão nenhuma com a grafia de jeropiga: escreve-se mesmo vinho abafado), pois hoje dia de S. Martinho, enquanto caminhava de pasta na mão dei por mim a cantar isto e a visitar estas memórias. Só não tenho a certeza se apelido da São era verdadeiro ou inventado por mim.

9 de novembro de 2010

Os dias de outono...

Este outono meridional escava nostalgias nas horas. O cinza de nuvens carregadas alterna com o brilho do sol e soltam-se da terra todos os cheiros da chuva. O Mezzo vai-me dando a banda sonora a esta verde e breve paisagem. Dia de trabalhar em casa.

8 de outubro de 2010

Imaginemos...

John Lennon faria hoje setenta anos e o google assinala aasim:
Imagine all the people...
A atirar pudins molotov contra as repartições de finanças!

"Repartições" é um nome algo duvidoso. Será que repartem os imposto? Com quem?

Bandidos!


EPÍGRAFE PARA A ARTE DE FURTAR

Roubam-me Deus,
outros o Diabo
- quem cantarei?

roubam-me a Pátria;
e a Humanidade
outros ma roubam
- quem cantarei?

sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
- quem cantarei?
roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo- aqui del-rei!

Jorge de Sena
Consulte aqui a tabela do roubo para tapar a administração criminosa das últimas décadas pelos governos que tivemos e as oposições complacentes. Já agora, por que é que a tabela pára nos 4200 euros? Tão criteriosos que são a estabelecer escalões entre os 1500 e os 4200... e daí para cima?
Não há dúvida que andamos a ser governados por uma corja de bandidos cuja finalidade é enriquecer os amigos com quem organizam os grandes negócios que lhes garantem a seguir o devido retorno.
Só há um caminho: insurreição criativa!
Sugiro que façamos um ataque com pudins molotov quando esta gente aparecer.

25 de setembro de 2010

Uma letrita capaz de mudar tudo...



Faltava-me ver e fui hoje. Acho que foi a primeira vez que me sentei sozinho numa sala de cinema e tirando um ou outro pormenor, o filme nem me deu tempo para pensar muito nisso.
Sabemos todos que o cinema tem esta magia de não nos mostrar apenas um filme. Enquanto vemos o que passa no ecran passam dentro de nós inúmeros filmes. Mas, até nisso O segredo dos teus olhos é um bom aliado e faz frequentemente isso com o espectador, não só nas narrativas sobrepostas como na forma. Também se reconhecem ali uma data de filmes (policial, acção, drama) e tão depressa parece cinema americano como europeu. Na realidade, este filme não inventa nada e também não é preciso para ser um grande filme que nos toca e agarra pelas nossas dúvidas íntimas.
Dos diálogos ficam-nos por vezes umas ideias bailarinas. A frase (cito de memória) pode mudar-se de tudo, menos de paixão é uma das emblemáticas, mas a que guardei foi a que diz se podes escolher as memórias que guardas fica com as boas.
O final é para mim impressionante. Numa espécie de paráfrase de cena final de filme policial revela-se, não o assassino que foi descoberto há muito, mas, numa síntese espectacular, como se pode mudar o medo em amor. Com a força de uma letrita corajosa o medo diz-se amor.

24 de setembro de 2010

Trabraço e bicicleta

De vez em quando tenho uns ataques de espirros. Durante cerca de dez minutos espirro exuberantemente uma média de catorze espirros (sim, até já fiz uma estatística) e há sempre alguém entendido por perto que assegura que é alergia, ou então se for mesmo especalista diagnostica logo uma rinite alérgica. Eu, logo que posso, aproveito uma pausa entre dois espirros e respondo que não é nada alergia e que a única alergia que tenho é a trabalho. Por acaso é uma grande mentira, apesar de me assumir como preguiçoso militante e ainda assim mais militante que preguiçoso se é que alguém vai entender isto.
Pois eu que tanto peroro a favor da preguiça ando agora tão abraçado ao que geralmente se chama trabalho. E o mais grave é que estou a gostar apesar do cansaço desta primeira semana com aulas.
Rememoreei este sabor das aulas, do desafio ali frente aqueles jovens, a tentar contagiá-los com o entusiasmo necessário para que as aprendizagens se tornem fáceis. A resposta é boa sobretudo nos do segundo ano, com quem já tive duas sessões e até parece que já interagimos há mais tempo. Os do primeiro chegaram agora e só tive uma sessão no início da semana.
Ontem até já dizia a um aluno que me interpelou no final da aula que o bom disto não é "dar aulas", é criar encontros onde todos possamos aprender algo. É isso que eu tento e gostaria de conseguir. Às vezes fico com a sensação de chegar lá.
Ah. E outra sensação da semana de quem esteve bastante tempo afastado desta actividade. è como andar de bicicleta.

16 de setembro de 2010

Manifesto



(...) Para lá da janela atinjo a linha azul do horizonte que se desvanece na tarde. Não, não penso: procuro. Outra vez, outra vez. Não, não quero «saber», sei já há tanto tempo… Mas nenhum saber conserva a força que estala no que é aparição. Porque o escrevo de novo? A verdade é que nada mais me importa. E, todavia, um estranho absurdo me ameaça: quero saber, ter e uma aparição não se tem, porque não seria aparecer, seria estar, seria petrificar-se. Queria que a evidência me ficasse fulminante, aguda, com a sua sufocação, e aí, na angústia, eu criasse a minha vida, a reformasse. Mas uma reforma, uma regulamentação é já do lado de fora. Quem é fiel a uma certeza e a pode ver quando lhe apetece? A fidelidade é então só teimosia ou cedência à parte convencional da «nobreza de carácter», da «honradez». Não é isso, não é isso que eu quero. Em que iluminação eu acredito quando falo em nome dela e a imponho (….) aos outros? Falo de cor – a iluminação é então a minha noite de secura. Por isso, quando ela volta eu me abro à sua devassa, à acidez da sua presença. Por isso eu a recebo ainda agora e falo dela e me aqueço e me queimo ao seu lume. Não escrevo para ninguém, talvez, talvez: e escreverei sequer para mim? O que me arrasta ao longo destas noites, que, tal como esse outrora de que falo, se aquietam já deserto, o que me excita a escrever é o desejo de me esclarecer na posse disto que conto, o desejo de perseguir o alarme que me violentou e ver-me através dele e vê-lo de novo em mim, revelá-lo na própria posse, que é recuperá-lo pela evidência da arte. Escrevo para ser, escrevo para segurar nas minhas mãos inábeis o que fulgurou e morreu.
(...) E, como tantas outras vezes, de novo me assalta a presença obcecante de mim próprio, esta terrível presença, esta coisa, isto que mora comigo, que é brutalmente vivo, independente, que desaparece, que volta, num jogo de reflexos em que me vejo, me perscruto, me sinto «eu», e breve me foge e está apenas sendo o mundo em roda, estas paredes, estes livros. Fixar bem, apanhar em flagrante esta realidade medonha que emerge de mim, me estonteia, se me some. Fixá-la a essa luz subtil, não a esquecer, mergulhar até onde sou, para que nada de mim se perca no que hei-de decidir, sentir, ser no mundo, para que eu saiba bem o que há a salvar, o que está condenado, para que a construção que vier brote desde as raízes. Canso-me, insisto, canso-me. Um acto de presença não se define, não cabe nas palavras. SOU. Jacto de mim próprio, intimidade comigo, eu, pessoa que é em mim, absurda necessidade de ser, intensidade absoluta no limiar da minha aparição em mim, esta coisa, esta coisa que sou eu, esta individualidade que não quero apenas ver de fora como num espelho mas sentir, ver no seu próprio estar sendo, este irredutível e necessário absurdo clarão que sou eu iluminando e iluminando-me, esta categórica afirmação de ser que não consegue imaginar o ter nascido, porque o que eu sou não tem limites no puro acto de estar sendo, esta evidência que me aterra quando um raio da sua luz emerge da espessura que me cobre. E estas mãos, estes pés que são meus e não são meus, porque eu sou-os a eles, mas também estou neles, porque eu vivo-os, são a minha pessoa e todavia vejo-os também de cima, de fora, como a caneta com que vou escrevendo…
Vergílio Ferreira (1959). Aparição

Tantas vezes em tantos anos voltei a este trecho. Tantas que já o sinto como meu. Tê-lo-ei roubado ao autor e tornado meu por usucapião. Agora gostaria de aprender a dizê-lo de cor. Percorrê-lo par coeur, ou seja, pelo coração.

13 de setembro de 2010

Uma pessoa educada...

"prezo-me de ser uma pessoa educada..." (por favor não reparem no meu ar de varina ofendida que ponho sempre que me fazem uma crítica) "...e gosto de respeitar os outros" (e deixem-se lá de invejas façam lá as vossas campanhas que eu ando a fazer a minha)

O homem até pode ser educado, mas não anda aqui como mestre sala. A função que desgraçadamente ocupa é política e está sujeita a escrutínio e a crítica e não me lembro deste sujeito alguma vez ter respondido directamente a alguma questão que lhe foi colocada. Nem sobre economia de que tanto saber apregoa.

O pior é que não sei ainda em quem votar para evitar que isto volte a ocupar o lugar de representação dos portugueses.

12 de setembro de 2010

Serão. Seremos.

Ainda não tinha calhado ir aos serões do Convento apesar dos muitos convites do meu amigo. Fui hoje quando se comemorava o quarto aniversário desta iniciativa e fiquei com pena de ter faltado a quatro anos de encontros de gente com a cultura e a arte. Descubro que estou no meio de amigos, alguns já com décadas e sinto-lhes a alegria de fazer coisas e de se darem. Afinal, mais ou menos a mesma matéria com que se faz um poema na vida.
O Daniel, artista de Alte, conta estórias e ainda se lembra da letra de uma cantiga de quando percorria o país nas recolhas da música tradicional e canta "bate padeirinha do meu coração". A Tânia, economista e actriz canta, como quem respira, versos de Florbela e Natália. O Paulo conduz Outras Vozes de impressionante harmonia. O Mário traz-nos um bolero e uma cançaõ da Guiné de protesto ao trabalho escravo infantil. O Beto, angolano, mago das percussões desassossega-nos com ritmos quentes e envolve-nos em coros de Mama Makudelé. O Francisco tira do coro Ideias do Levante pérolas de dedicação.
O meu amigo ganhou esta aposta que enche de muitos amigos e, no final, numa cúmplice concessão à brejeirice ainda comentamos "e muitos mais caberão".
Força companheiro.

11 de setembro de 2010

j'Aziza


Descobri-a numa pequena loja de discos onde apareciam umas preciosidades, há cerca de dez anos. Agarrou-me pelas sonoridades do piano e da voz numa fusão de muitas latitudes dançando num terreiro a que habitualmente chamamos jazz. Ao longo de vários anos fui ouvindo e mostrando aos amigos. Esta noite fui ouvê-la no auditório municipal de Olhão.

A solo com piano. Mais piano que voz. Andou comigo em viagens sucessivas, como num vento encantatório, entre o médio oriente e os ocidentes juntando povos que tanto choram as suas mágoas como gritam a sua felicidade. É a música ao serviço da alma, para ela num sentido espiritual místico, para mim metáfora de todos os sentires das belezas do mundo e da humanidade.

Acompanhou-me o desejo de partilhar este concerto com todas as pessoas de quem gosto. Estive acompanhado por três e senti a falta de ti e de ti e de ti e de ti...