28 de fevereiro de 2012

Cultivadas c'a fé












Se aquela que é Cristas e ministra assim de tão plural ministério sabe disto ainda me contrata para sacristão.


Ora, são...
(São, de Assunção se me é permitida a familiaridade e também de oração que é seu tão proclamado e profundo mister aplicado à política agrícola e também à dança da chuva)
São batatas, senhora!
Batatas doces em fevereiro?
Pois são assim os milagres... Na realidade, tinha lá plantado outra coisa para dar aos pobrezinhos. Para eles fumarem e esquecerem as suas angústias. Mas eis que chega a inspecção ministerial e místico-agrícola e o milagre veio mesmo a calhar.

Batatas doces (Ipomoea batatas) colhidas hoje no quintal da Horta.
Pertencem à Família das convolvuláceas, mas não me importo. Não devemos discriminar ninguém.

5 de janeiro de 2012

No rasto de outros poetas

.




Gunnar Harding nasceu na Suécia em 1940, foi músico de jazz , estudou pintura e aos 27 anos iniciou-se na escrita.
















Achei este poema traduzido em inglês porelo novaiorquino Roger Greenwald. Não vi o original em sueco e, mesmo que o visse, ficaria com a mesma dúvida e a mesma fantasia: o que acontece a um poema depois de passar por várias línguas e tradutores? como voltaria ele à língua em que foi escrito?




Eu gosto das palavras em várias línguas e gostaria de saber mais dessas línguas todas para ler a história que cada palavra conta na sua singularidade.












A cidade perfeita
(a partir da versão em inglês de Roger Greenwald)




Uma quarta-feira três voos para fevereiro
ela tinha feito a cama com lençóis limpos,
abertas as cortinas,
da janela donde não se vê o céu
mas um outro edifício.


Havia uma tempestade que passou.
Tanto sangue em movimento
através dos seus corpos.


Ela flutua nos seus cabelos em cascata.
A cidade lá fora está vazia,
perfeita e vazia.
No seu centro fica a sua casa,
tecendo silêncio pelas ruas.



A escuridão dos poços espera
ser içada, vir acima
em baldes silentes
mas a frieza do mármore não se pode apagar.


Estamos apenas no início da história.
Um dia o sangue fluirá a partir da brancura.





The Perfect City
Translated by Roger Greenwald



One Wednesday three flights up in February
she had made the bed with clean sheets,
drawn the curtains,
for the window did not face the sky
but another building.


There was a storm that passed through.
So much blood in motion
through their bodies.


She floats amid her cascading hair.
The city outside is empty,
perfect and empty.
At its center stands their house,
casting silence through the streets.


Darkness waits in wells
to be hauled up, hauled upin
silent buckets
but the coldness of marble cannot be quenched.


We are only at the beginning of the story.
One day blood will flow from the whiteness.


Gunnar Harding





3 de janeiro de 2012

De mim para ti




i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
i fear
no fate (for you are my fate, my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you



here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
i carry your heart(i carry it in my heart)






E. E. Cummings





trago comigo o teu coração (trago-o dentro do
meu coração) nunca estou sem ele (onde quer
que eu vá, tu vais, minha querida; e tudo que é feito
apenas por mim és tu que o fazes, minha querida)
não temo
nenhum destino (pois o meu destino és tu, doçura) não quero
nenhum mundo (para beleza és o meu mundo, minha verdade)
e és tu tudo o que uma lua sempre significou
e aquilo que um sol sempre cantará és tu



eis o mais profundo segredo que ninguém conhece
(eis a raiz da raiz e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida; que cresce
maior do que a alma pode esperar ou a mente pode esconder)
e esta é a maravilha que mantém as estrelas separadas
trago comigo o teu coração (trago-o dentro do meu coração)



(tradução minha)






Foi na hora

The hour é uma série a passar na Fox Life que desenrola uma trama de jogos de poder, espionagem, sedução e jornalismo no interior da BBC dos anos 50. Talvez a passasse em branco, não fora os nossos serões conjuntos em que o comando da televisão só trabalha para as séries da Fox Life e um ou outro telejornal, mas passei a seguir esta interessante série e até já sei o dia em que dá. A minha rapariga também me aconselha a que dá a seguir, mas isso já é muito para mim e enquanto essa corria, fui procurar um poema do Cummings que o Freddie diz à Bel, do qual retive o último verso: nobody, not even the rain, has such small hands.
O Google deu-me o que queria e mais uma tradução brasileira e uma versão musicada e cantada por Zeca Baleiro. Da tradução que encontrei que não gostei particularmente e resolvi meter-me a um atrevimento que ainda não tinha ousado. Assim, com ajuda do Oxford Advanced Learner's Dictionary e de algumas ferramentas electrónicas fui-me a ele.



Imagem daqui


somewhere i have never travelled,gladly beyond

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands


(E. E. Cummings)


algures, aonde nunca fui, para além do prazer
de qualquer experiência, os teus olhos revelam o silêncio:
no teu mais frágil gesto há coisas que me prendem
ou que não consigo tocar por estarem demasiado perto

o teu mais leve olhar liberta-me facilmente
apesar de me ter fechado como os dedos,
tu abres-me sempre pétala a pétala tal como Primavera abre
(tocando hábil, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se o teu desejo é fechar-me, eu e
a minha vida fechar-nos-emos em beleza, de repente,
tal como o coração desta flor imagina
a neve a descer cuidadosa em toda a parte;

nada do que podemos perceber neste mundo iguala
o poder da tua intensa fragilidade: cuja textura
me obriga com a cor dos seus países,
a trocar a morte e a eternidade em cada respiração.

(não sei o que há em ti que fecha
e abre; apenas algo em mim compreende
que a voz dos teus olhos é mais profunda do que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas


Isto não é nada fácil e, além do mais, não sei assim tanto inglês para me armar em tradutor, ainda por cima de poesia. Há algumas ideias de difícil apreensão no original e não tenho nada a certeza de ter encontrado o equivalente em português. Ainda assim, gosto do resultado e sobretudo da aprendizagem que é esta experiência de traduzir poesia.

2 de janeiro de 2012

Doze passas

Sou muito mau para rituais. Talvez por isso me sinta sempre do lado da subversão, até daqueles mais inocentes. Vale o tempo de encontro com famílias e amigos, o tempo que passamos à mesa, lugar de excelência para brotarem grandes ideias. Já tenho chamado a estas refeições "seminários" porque muitas vezes é o que verdadeiramente acontece pelo meio de comida tão interculturalmente variada que pode ir do caril de camarão à açorda de bacalhau, das rabanadas ao cheesecake, do vinho de Pias ao de Palmela, do CR&F ao Armagnac. Trocam-se saberes marinheiros, agricultores, literários por histórias de viagens e receitas de cozinha e outras.
O resto cumpre-se, por mim sem convicção nenhuma, porque dos rituais só acho graça mesmo é à sua coreografia.
A coreografia da passagem de ano é algo confusa e reveste-se de demasiada complexidade para que a aprenda, de modo que fico-me por uma versão mais simplificada apenas para celebrar a festa.
Celebro a entrada no novo ano com um abraço a cada um dos presentes com o desejo sincero de que tenham a saúde, a força e a inteligência para vencer os obstáculos (são tantos) e ainda lhes sobre o suficiente para ser felizes. Também toco os copos e como as passas, mas sem isso também passava.
Não me entendo muito bem com esse enredo de associar um desejo a cada passa. Não sei guardar desejos assim para um dia, ou uma noite, e lembrar-me deles todos em cerca de um minuto. Nunca consegui juntar doze desejos, de modo que sobram sempre passas.
É claro que tenho desejos, aspirações, votos, projectos, vontades... E desejo ser uma pessoa melhor, ser capaz de amar mais, ser mais generoso com os outros, saber mais, ter mais tempo para dedicar ao mundo... E isso é também coisa de todos os dias, tirando aqueles dias em que não me apetece nada, porque também os tenho.
Este ano, fingindo que acredito nessa energia concentrada que ajuda a realizar desejos, juntei as passas todas para o efeito ser mais forte, meti-as todas de uma vez na boca e engoli-as com meio copo de champanhe com uma ideia na cabeça:
"Que bom seria que este mundo mudasse e deixasse de ter lugar para os que nos têm vindo a empobrecer materialmente e, sobretudo, a matar-nos a esperança".

29 de novembro de 2011

Π Kant A matemática Picante
























Muitos são os dias que se me despertam com a crónica diária de Fernando Alves na TSF. Hoje, nos Sinais dava conta de uma iniciativa de uns jovens universitários cubanos a viver em Miami pelo que percebi com o intuito de facilitar a aprendizagem e compreensão da matemática, coisa tida como horrorosa por muita gente que não é capaz de "dar por isso" e encontrar-lhe uma beleza comparável à de Vénus de Milo. Enfim. É também típico do FA estabelecer ligações poéticas na intersecção dos planos ou na curva parabólica da memória. É assim que derivar para os "seios esferóides" de uma tal incógnita, objecto de desejo e paixão de um improvável quociente. Na verdade, feitas as contas, o que se multiplica é quase sempre a subtracção e quem de vinte cinco tira resulta menos ganho pelo que faz acrescido de menos feriados e mais horas de trabalho não remunerado. É só fazer as contas, diria um tal outro.
Fui procurar mais coisas sobre a Matemática Picante cujo projecto tem na realidade o nome americano de Spicy Math e fiquei um pouco desiludido. Trata-se de uma empresa de ensino da Matemática, eventualmente com métodos bastante criativos, com um bom marketing à americana, ou seja uma boa fórmula resolvente capaz de extrair dividendos com resto zero em poesia. Fica a ambiguidade do nome bem achado que tanto nos pode sugerir um certo tempero nos cálculos como as matrizes para percorrer todas as linhas sinusóides num raio igual à abcissa.

Ao ouvir isto, eu que trocadilho palavras e treino malabarismos com elas transformei logo o Pi cante em Π Kant e imaginei logo um círculo filosófico atravessado por dois raios de luz crítica. E aquele quociente apaixonado por uma incógnita estaria ali. Afinal "a paixão é o mundo a dividir por zero" como atestam "os infelizes cálculos da felicidade" onde um oito deitado chega ao infinito.
E...
Assim nestas poucas linhas
Fica uma estória banal
Com linhas e entrelinhas
E uma moral convergente:
O infinito afinal
Fica aqui ao pé da gente.
José Fanha

Imagens daqui e dali

21 de novembro de 2011

Vale

Um momento divertido do ensaio (foto de Annie Grieg)



Cresci no Vale.
Dizer que Vale é um espectáculo de dança contemporânea dirigido pela coreógrafa Madalena Victorino é dizer muito pouco desta viagem/seara, rebanho/rio, festa/mar de afectos que se constrói por dentro de uma semana inteira, mas que o público só vê cerca de uma hora e um quarto.
Participei no Vale.
Fui por mim e por ti, minha rapariga que me estimulaste. Reencontrei-me com tantas memórias e gentes e animais que por vezes até lhes sentia o cheiro.
A gente do Vale
é um grupo de cinquenta pessoas que não conhecia antes e que me deixa a sensação de ali termos nascido todos e crescido. No final partimos com um sorriso na despedida, como eu parti um dia. Provavelmente, algumas destas pessoas não voltarei a encontrar em breve ou se calhar nunca mais, mas isso também me aconteceu com amigos de infância e continuo a lembrar-me deles.
Valeu!

31 de outubro de 2011

Dia D







Dê grande.
Grande Dê.
DÊ.

Drummondar é dar Drummond.
Dar ao mundo quem se deu ao mundo.
E não cedeu.

Porque o riso mesmo ácido
é sempre uma brincadeira do amor.




SEGREDO

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.


Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.


Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

Carlos Drummond de Andrade
(Itabira, 31 de Outubro de 1902 - Rio de Janeiro, 17 de Agosto de 1987)




15 de outubro de 2011

Outubro ou nada

15Out MARCHA DA INDIGNAÇÃO






A cabeça da minife





Um protesto que diz respeito a quase todos



Animação e criatividade contagiante





Meninas estais à janela



A indignação também faz sede




E o povo até pode desejar um carro novo




Ou habitação condigna
E...


E também houve beijos e namoro. Manifestos (e many festas).




11 de setembro de 2011

Arte no passeio ribeirinho

Ali, junto a um dos primeiros braços da Ria Formosa, no tão proclamado e tão abandonado "Parque Ribeirinho" nasceram há tempos uns pilares de cimento com uma disposição ordenada, mas não de forma a sugerir algo inacabado. Já tinha imaginado que isto seria uma espécie de stonehenge pós-moderno ou até mesmo um objecto escultórico que um certo presidente teria mandado erigir em honra dos seus amigos construtores civis. Podia até, enigmaticamente, chamar-se IMItação. Mas não. Nenhuma placa de broze assinalava o facto e única actividade que por ali vi foram uns acampamentos de ciganos e a utilização dos pilares para pender os animais.



Eu passo por ali de bicicleta (a ecovia algarviana, está por ali assinalada) e ontem deparei-me com estas hemi-figuras pintadas e que se juntam à medida que nos deslocamos.


Uma criação muito interessante que as fotos não traduzem muito bem.



Não encontrei qualquer assinatura, mas este tipo de pintura não me é estranho. Julgo reconhecer a marca de um artista plástico farense e vou procurar confirmar.




Há agora mais um motivo para os farenses se deslocarem a este sítio e dar-lhe vida. Pode ser que isso faça com que os espaço se torne alvo de maiores cuidados.








As estórias que me contas dos livros que lês

Do tamanho da mão de uma criança, estriada de verde metálico, de negro brilhante, às vezes também de vermelho alaranjado, com, na traseira, um debrum branco, a urânia pode ser observada em diversas regiões do globo, do Pacífico a Madagáscar, da Índia à Amazónia. A espécie que prendeu mais particularmente a minha atenção é aquela que se conhece sob a designação de Urania ripheus, e que se encontra nomeadamente na América tropical.
Os sábios que se interessam por ela puderam observar um fenómeno surpreendente e espectacular: em certos dias do ano, essas urânias reúnem–se às dezenas de milhares nos locais onde a floresta confina com o oceano, depois levantam voo para a frente, percorrendo centenas de milhas marítimas, até que, não encontrando ilha para pousar, caem esgotadas e afogam–se.
Algumas fêmeas depositam os seus ovos na floresta antes da migração, o que assegura a sobrevivência da espécie; mas a maior parte levantam voo ainda grávidas, arrastando a sua progenitura no seu suicídio colectivo.
(...) Elas foram objecto de uma monografia que as circunstâncias não deram oportunidade de publicar e que se encontra ainda nas minhas gavetas. Exprimo aí a opinião de que o comportamento das urânias não resulta de uma perda do instinto de conservação, mas, pelo contrário, da sobrevivência de um reflexo ancestral que conduz ainda esses animalejos para um lugar onde se reproduziam outrora; talvez uma ilha que tivesse desaparecido; assim, o seu suicídio aparente, seria um acto involuntário causado por uma má adaptação do instinto de sobrevivência a realidades novas; estas ideias tinham seduzido os meus estudantes, mas certos colegas mostraram–se cépticos quanto à formulação.




Amin Maalouf


O século primeiro depois de Beatriz (1992)



Aqui fica transcrita a odisseia suicida das urânias. O livro completo está disponível online.

23 de julho de 2011

Lx - 20110715



Dizias-me há tanto tempo que não te leio e eu quase a penitenciar-me por não erguer aqui esculturas e fogos reais para o mundo saber da alegria e da festa.

Tu escolheste a árvore de folhas mil quase perenes. E não podia ser melhor porque a árvore é sabedoria e memória de um tempo largo.

Grande é o campo do saber. Dos saberes. Como o do amor que se deixa atravessar por um rio de paixão.

Esta foto é linda.

O Contador Gosta disto.

6 de junho de 2011

Graffito criador de realidade

Amoreiras. Lisboa. Foto de Luiz Moreira

alea jacta est

Por este edital se dá como registado nos autos a primeira entrega.
Depois de intenso fim de semana a arrumar quadros, tabelas e figuras cheias de actores...
Pronto, já está. Em prima forma.
Agora temos que ir ali respirar beijos e namoros.

29 de maio de 2011

22 de maio de 2011

Erros políticos

Escrevi o post anterior antes do debate Sócrates vs. Passos Coelho e teci alguns prognósticos pelos quais tenho que me penitenciar. Mesmo não tendo andado na escola stalinista da santificada autocrítica, confesso (credo!) que errei. Arroguei-me de uma jactância política que de facto não tenho. Errei. Pronto, admito o meu erro. Esforçar-me-ei por me corrigir e não voltar a falar do que não sei.
Comecei por errar na cor das gravatas. Eu anunciei que eram ambas azuis, embora uma mais clara que a outra, ou para ser mais exacto, uma ligeiramente mais escura que a outra. Nada mais errado. A cor, na gama do vermelho alaranjado ou, talvez, cinabre, era de facto uma mais ecura que a outra, mas não deixava dúvidas. Ainda tentei invocar a meu favor que numa televisão a preto e branco ninguém teria dado pela diferença, mas hoje, com ecrãs planos, ele-cê-dês, plasmas, agá-dês, meos e zons que param, andam para trás e para a frente... estas pequenas diferenças políticas não escapam ao olho crítico do povo eleitor.
Outro erro meu, de que obviamente me penitencio, foi o ter vaticinado um estrondoso empate. Nada mais falso. Ainda que tivesse empatado uma hora a ver os dois debatentes a empatarem-se um ao outro a ver se nenhum conseguia dizer algo essencial, a coisa ficou claramente resolvida, ainda antes de terem passado cinco minutos sobre o final do debate. Passos Coelho ganhou com duas voltas de avanço e o seu adversário Sócrates nem deu para aquecer.
Assim vale apena. Ou, melhor, nem valia a pena ter havido debate. Os comentadores resolviam isso muito melhor e sem qualquer dúvida. Eu sei que alguns comentadores, também são candidatos... Mas não poderiam ser todos? E já agora, pelo PSD, claro.

20 de maio de 2011

E se mais houvera, lá chegariam...

O grande problema do nosso sistema democrático é que permite fazer coisas nada democráticas democraticamente.
José Saramago

O espectáculo está montado: no canto direito - gravata azul, 79 quilos, 34,8% das intenções de voto - o candidato a primeiro miniiiiiiistro! No canto esquerdo - gravata também azul, mas um pouco mais escuro, 80 quilos, 34,7% das intenções de voto - o outro candidato a primeiro miniiiiistro! Cumprimentem-se os adversários. O grande combate vai começar!
O árbitro adverte que não admite golpes baixos e que o KO está proibido, incluindo o KO técnico.
O resultado já se sabe: um monumental empate.
Esta gente empata o país e destrói o único capital que nos resta: a esperança.
Acho que só há uma pergunta que os dois debatentes deviam ser obrigados a responder.
O PS e o PSD alternaram no poder durante 35 anos e conduziram o país à desgraça em que está. Ainda que tivessem tido umas ajudas temporárias (mas profundas) do CDS, como é que conseguiram?
Já disseram tudo. Menos isso.
Mesmo sem o saber, 80% do povo eleitor está firmemente decidido a votar nos três partidos do arco da velha, perdão, do arco do poder, imaginem se soubessem!... Ainda se aproximavam dos 100 por cento. Sem dúvida.

24 de abril de 2011

Do amor



Do amor diz-se tanta coisa. Que é cego e arde. E cura dói. Que é doce e aperta o coração. Que é doido e isso é paixão. Eu sei lá o que é o amor.
E assim sem teoremas. Numa visão incompleta e interesseira. (Não me peçam para ser imparcial no amor). O amor é um estado de necessidade.
É a falta que me fazes e a urgência de me teres.

Outro video aqui.

21 de abril de 2011

A carroça



A nossa comunicação social adora o repet mode. Diria até que veneram o lugar comum e a frase feita e a formulação discursiva automática. E oca. Não sei em donde isto vem, mas admito que poderá ser influência de alguma liturgia à mistura com futebolês. A cada dois minutos de notícias pode sair, sete vezes repetido, o vocábulo troika. Escrevo assim com k, embora a grafia portuguesa acordada consigne a forma troica, para manter a proximidade ao seu significado original. A palavra em russo significa trenó grande puxado por três cavalos. Cá não se usa disso. Os veículos de tracção animal (devo estar a citar o João Catatau das lições de código) por cá têm rodas que é um dispositivo redondo inventado muito antes do FMI e são puxados geralmente por seres chamados bestas. Há também os carros puxados por uma junta de bois, mas esses são muito lentos e fazem uma bucólica chiadeira. Depois há, carroças, galeras com fueiros e sem fueiros. Nas versões urbanas, e sempre puxadas por cavalos, podemos recordar o barouche, a caleche, a biga (em italiano biga mia), a charrete, a carruagem, o coche e por aí fora. Havia quem andasse na berlinda e a coisa com nome mais longíquo que por cá apareceu terá sido a britzka e uma coisa que não sei o nome mas que foi logo baptizado de carro americano que andava sobre carris puxado por cavalos e antecedeu os carros eléctricos.
A história não reza, mas é possível que ainda antes da haver Portugal tenha cá vindo uma delegação de Roma cobrar impostos a este povo que, diziam, nem se governava , nem deixava governar. Nessa altura, os arautos iam de terra em terra e deviam anunciar a vinda da quadriga, que era o carro muito na moda em toda a Roma antiga. Agora temos troika, não rola, desliza, mas precisa de neve.
Como é possível mandar uma troika para Portugal onde praticamente não neva e muito menos no Terreiro do Paço?
As notícias não dizem, mas vê-se pela cara deles quando são filmados à saída do ministério das finanças, que os senhores estão muito angustiados e parece que até já pediram apoio psicológico. O contacto com a situação portuguesa não é fácil, mesmo para pessoas habituadas a lidar com a frieza dos números. Quando viram o valor real dos salários mais baixos e das pensões miseráveis e o compararam com os rendimentos mais elevados começaram a ficar agastados. Quando os diligentes técnicos do ministério lhes disseram que a ideia era dar mais uns cortes, sentaram-se e pediram um copo de água. Parece que estiveram quase a chamar o INEM, mas contiveram-se para que eles não julgassem que vivemos no luxo.
Até tinha a sua graça. A troika ia de padiola.

11 de abril de 2011

Da lógica da batata à coerência da salsicha


Devo começar por dizer que não gosto nada do que vou fazer. Acho de muito mau gosto trocadilhar assim com o nome das pessoas, mas às vezes não resisto. A coisa até nem é muito grave, porque apesar de tudo o nome em questão até parece fornecer alguma blindagem que não sei se o nomeado merece. Aos críticos destas brincadeiras, peço alguma tolerância, pois. Também, caramba, não venho aqui pedir que a Zita Seabra...

Vamos então ao que interessa.

Nas últimas presidenciais estive bastante à rasca e se não fosse o facilitar a percentagem ao Cavaco, nem me teria dado ao trabalho de votar por falta de candidato. No final lá me decidi a votar no único candidato sério que apareceu. Aquele que assumiu a pantominice e a descontrução deste processo. O Coelho da Madeira, qual bicho carpinteiro, não construindo propriamente uma alternativa, talvez tivesse mostrado as fragilidades e o verdadeiro caruncho do pau de que é feita toda esta santidade política.

O Nobre apresentou-se como representante da "sociedade civil" e isso em princípio seria um valor. Aparentemente. Porque na sua órbita deixavam-se ver algumas personalidades que, sem qualquer menosprezo pelo trabalho social que fazem, se orientam por uma lógica de dependência do Estado e de alguma chafurdice política pelos gabinetes ministeriais, sejam eles tutelados por quem for. É, de certa forma, esta a "sociedade civil" organizada em lobby e carente de um representante a que mais se galvanizou para apoiar Nobre à presidência. E muita gente, que se não revê nos partidos e nos candidatos partidários "independentes" acreditou que, finalmente havia alguém suficientemente reconhecido capaz de incarnar essa alternativa e fazer disso um projecto ganhador. De ganhar aos partidos, para ver se eles aprendem a ser melhores. A ideia não é má, mas a mim bastou-me um dia ver na televisão a sua comunicação sem som, para ter o sentimento de que havia ali algo que me fazia desconfiar. Acho que não votei nele por isso.

Agora sabemos que aceitou ser candidato do PSD. E que se o PSD ganhar (o que ainda não é líquido) Nobre será presidente da AR, segunda figura do Estado.

Por mim, até pode ser. Mas não deixo de me interrogar sobre a natureza das coisas com que se faz a política. Se os portugueses elegem figuras destas para seus representantes, de que é que se queixam?


A ascensão política é uma máquina com um processamento interno muito complexo e frequentemente inacessível, mas no essencial é muito simples: por um lado entram porcos inteiros e, pelo outro, saem salsichas prontas a consumir.