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10 de setembro de 2015

No rasto dos poetas:A gentileza dos cegos

Um dia dei com um poema que me chamou a atenção pelo que nele há de paradoxal e, para além das reflexões que fiz sobre as coisas que fazemos no dia-a-dia e não reparamos, pensei logo levá-lo para as aulas de comunicação e relação. Faz-me pensar em tudo o que fazemos sem ter em conta a situação particular do outro, mas, pior, como se o outro visse e pensasse o mundo como cada um de nós o vive e pensa. É um poema de uma poetiza polaca já falecida e que foi prémio Nobel em 1996. Chama-se Wislawa Szymborka (1923-2012).
Há uma tradução brasileira, mas fiz uma nova a partir da versão em inglês traduzida do polaco por J. Kostkowska.
A gentileza dos cegos

Um poeta lê para os cegos.
Ele não suspeitava de como era tão difícil.
A sua voz falha. As suas mãos tremem.
Ele sente que aqui cada frase
fica sujeita à prova da escuridão.
Ela terá de valer por si própria
sem luzes ou cores.
Uma aventura perigosa para as estrelas do seu poema,
para o amanhecer, para o arco-íris, para as nuvens, para os néons, para a lua,
para o peixe, até agora tão prateado, dentro de água,
e para o gavião tão silenciosamente alto no céu.
O poeta lê – já é demasiado tarde para parar –
sobre um menino de casaco amarelo no verdejante prado,
os telhados rubros que salpicam o vale,
os movimentados números nas camisolas dos jogadores
e a desconhecida nua na porta entreaberta.
Ele gostaria de não mencionar – embora já não possa –
todos aqueles santos no tecto da catedral,
aquela onda de adeus na janela do comboio
a lente do microscópio, o raio de luz na pedra preciosa
o ecrã do cinema, e os espelhos, e os álbuns de fotos.
Ainda assim é grande a gentileza dos cegos,
grande a sua compaixão e generosidade.
Eles escutam, sorriem e aplaudem.
Um deles até se aproxima
com um livro de cabeça para baixo
a pedir um autógrafo invisível.

A poet is reading to the blind. He did not suspect it was so hard. His voice is breaking. His hands are shaking. He feels that here each sentence is put to the test of the dark. It will have to fend for itself without the lights or colors. A perilous adventure for the stars in his poems, for the dawn, the rainbow, the clouds, neon lights, the moon, for the fish until now so silver under water, and the hawk so silently high in the sky. He is reading - for it is too late to stop - of a boy in a jacket yellow in the green meadow, of red rooftops easy to spot in the valley, the restless numbers on the players' shirts, and a nude stranger in the door cracked open. He would like to pass over - though it's not an option - all those saints on the cathedral's ceiling, that farewell wave from the train window, the microscope lens, ray of light in the gem, video screens, and mirrors, and the album with faces. Yet great is the kindness of the blind, great their compassion and generosity. They listen, smile, and clap. One of them even approaches with a book held topsy-turvy to ask for an invisible autograph.

3 de janeiro de 2012

De mim para ti




i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
i fear
no fate (for you are my fate, my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you



here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
i carry your heart(i carry it in my heart)






E. E. Cummings





trago comigo o teu coração (trago-o dentro do
meu coração) nunca estou sem ele (onde quer
que eu vá, tu vais, minha querida; e tudo que é feito
apenas por mim és tu que o fazes, minha querida)
não temo
nenhum destino (pois o meu destino és tu, doçura) não quero
nenhum mundo (para beleza és o meu mundo, minha verdade)
e és tu tudo o que uma lua sempre significou
e aquilo que um sol sempre cantará és tu



eis o mais profundo segredo que ninguém conhece
(eis a raiz da raiz e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida; que cresce
maior do que a alma pode esperar ou a mente pode esconder)
e esta é a maravilha que mantém as estrelas separadas
trago comigo o teu coração (trago-o dentro do meu coração)



(tradução minha)






Foi na hora

The hour é uma série a passar na Fox Life que desenrola uma trama de jogos de poder, espionagem, sedução e jornalismo no interior da BBC dos anos 50. Talvez a passasse em branco, não fora os nossos serões conjuntos em que o comando da televisão só trabalha para as séries da Fox Life e um ou outro telejornal, mas passei a seguir esta interessante série e até já sei o dia em que dá. A minha rapariga também me aconselha a que dá a seguir, mas isso já é muito para mim e enquanto essa corria, fui procurar um poema do Cummings que o Freddie diz à Bel, do qual retive o último verso: nobody, not even the rain, has such small hands.
O Google deu-me o que queria e mais uma tradução brasileira e uma versão musicada e cantada por Zeca Baleiro. Da tradução que encontrei que não gostei particularmente e resolvi meter-me a um atrevimento que ainda não tinha ousado. Assim, com ajuda do Oxford Advanced Learner's Dictionary e de algumas ferramentas electrónicas fui-me a ele.



Imagem daqui


somewhere i have never travelled,gladly beyond

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands


(E. E. Cummings)


algures, aonde nunca fui, para além do prazer
de qualquer experiência, os teus olhos revelam o silêncio:
no teu mais frágil gesto há coisas que me prendem
ou que não consigo tocar por estarem demasiado perto

o teu mais leve olhar liberta-me facilmente
apesar de me ter fechado como os dedos,
tu abres-me sempre pétala a pétala tal como Primavera abre
(tocando hábil, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se o teu desejo é fechar-me, eu e
a minha vida fechar-nos-emos em beleza, de repente,
tal como o coração desta flor imagina
a neve a descer cuidadosa em toda a parte;

nada do que podemos perceber neste mundo iguala
o poder da tua intensa fragilidade: cuja textura
me obriga com a cor dos seus países,
a trocar a morte e a eternidade em cada respiração.

(não sei o que há em ti que fecha
e abre; apenas algo em mim compreende
que a voz dos teus olhos é mais profunda do que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas


Isto não é nada fácil e, além do mais, não sei assim tanto inglês para me armar em tradutor, ainda por cima de poesia. Há algumas ideias de difícil apreensão no original e não tenho nada a certeza de ter encontrado o equivalente em português. Ainda assim, gosto do resultado e sobretudo da aprendizagem que é esta experiência de traduzir poesia.

15 de outubro de 2011

Outubro ou nada

15Out MARCHA DA INDIGNAÇÃO






A cabeça da minife





Um protesto que diz respeito a quase todos



Animação e criatividade contagiante





Meninas estais à janela



A indignação também faz sede




E o povo até pode desejar um carro novo




Ou habitação condigna
E...


E também houve beijos e namoro. Manifestos (e many festas).




2 de fevereiro de 2011

A canção de protesto


Que parvos que somos!...
E se a moda pega e nasce um novo movimento de canção de protesto e a ele se associam outros movimentos que por aí andam, mais ou menos latentes?
Parece que entrámos numa qualquer era de revoluções. Ninguém estará interessado em pegar em armas e já não estamos em tempo disso. As armas hoje são outras e serão muito mais eficazes do que as dos exércitos e polícias que protegem ditadores e outros sistemas injustos. Há armas capazes de disparar em cada computador em qualquer parte do mundo, em cada telemóvel e, inevitavelmente produzir notícia replicada em todos os canais de televisão.
Ao ouvir esta canção dos Deolinda, não pude deixar de pensar em alguns jovens amigos que fazem parte do movimento "Maldita Arquitectura" e outros, que noutras áreas se sujeitam a trabalho quasi-escravo.
O caminho é pela IC. Insurreição Criativa.