15 de junho de 2007

bat ota


Eis a grande solução E muito politicamente política
Construir o aeroporto da ota em alcochete

13 de junho de 2007

com ficção


O meu amigo chega ao pé de mim bastante triste e pergunto-lhe o que se passa Ele ainda hesita mas depois diz-me Tenho quase a certeza que a minha namorada tem um amante inglês Pergunto-lhe como é que ele soube E ele Quando estamos na cama ela chama-me pelo seu nome mattew e repete várias vezes e chama-o também pelo diminutivo oh matt mattew Queres mais evidência

Foi então que o aconselhei a responder-lhe também em inglês Diz-lhe assim Meu amor adoro fac Ela vai perceber logo que fac significa "fazer amor contigo"

12 de junho de 2007

Jogo de espelhos

Quando o meu telefone fixo toca é na maioria das vezes para publicitar qualquer coisa. Ou é a PT a querer vender-me chamadas de borla, ou a TVcabo a querer que eu adira ao funtastic life, ou então alguém a dizer-me que ganhei um prémio qualquer. Habitualmente dou alguma resposta aos operadores dizendo que estão a fazer muito bem o seu trabalho e que a única coisa que quero da PT é que saia da minha vida, que queria de volta o canal Arte da TVcabo, ou que façam o favor de me trazer o prémio a casa porque estou muito ocupado a pastar caracóis no quintal e a coisa fica por ali com um "muito obrigado" e "desculpe o incómodo, boa noite".


Ontem o telefone tocou e eu que ia preparado para mandar mais um recado à dona PT, surpreendi-me com a voz ali tão próxima, tão sentada ali em frente de mim. De repente percebi que tinha ganho um prémio funtastic life sem ter que pagar "assinatura" telefónica.





Não sei porque acontecem estas coincidências, mas a verdade é que com alguma frequência encontramos pessoas a pensar nas mesmas coisas sem aparentemente saberem que de alguma forma, se reflectem umas às outras. Se calhar sou apenas eu a estabelecer estas relações a partir de pequenas coisas...





Ontem comentei um post da ~CC~ e hoje fui ter por acaso a um mundo perfeito e leio sobre um menino e um fasco de veneno. E penso que nos últimos dias já fui várias vezes aos sítios da minha infância buscar tristezas e alegrias e que cada vez mais as conjugo com os verbos daqui.

11 de junho de 2007

portugal não leves a mal





A ~CC~ escreve muito e bem onde ninguém lê e comenta a visita do excelentíssimo à terra da beira do sado ou seja mais ou menos aquém deserto A maria das dores apesar de muito dorida com as finanças da municipais parece que não olhou a despesas para receber o senhor e o seu séquito militar e civil e mais quinhentos convidados para o faustoso almoço

Isto está tudo bem Afinal é dia de portugal e a pátria merece tudo Ou quase

Mas o melhor da festa parece que foi mesmo a leitura dos lusíadas assim naquele estilo relatório e contas que seguramente fará carreira na tendência estética neoliberal É verdade que segundo dizem aproveitou para fazer uma revisão em baixa substituindo "edificaram" por "identificaram" o que só lhe fica bem em tempos de contenção económica Edificar fica muito mais caro que identificar e é preciso pensar que temos que edificar o aeroporto da ota em alcochete e o comboio tgv numa linha qualquer das berlengas

Tenho pena que o excelentíssimo senhor não tivesse ficado ali a ler os cantos todos (quantos?) o que daria provavelmente para dois mandatos e a criar novas versões Gostaria de o ver chegar a esta parte



Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.


Imagino que soaria bem embora o manuel maria

Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu quando os cotejo!


e o sebastião
Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto


que ele também fez o favor de convidar se mijassem a rir se lá tivessem ido





Confesso que às vezes partilho do desalento do poeta luis vaz

Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Düa austera, apagada e vil tristeza.

Enfim Gentes de portugal no seu melhor


Imagens pescadas com o google algures na Lei do funil

5 de junho de 2007

Dia de feira

Já é uma tradição. Mais coisa menos coisa, os primeiros dias de Junho trazem calor e projectos de inserção profissional. É uma coisa que faço com muito gosto a pedido do meu amigo HFR ali no curso EIC. Vou lá e depois vêm tentar vender-me projectos naquele workshop de negociação. Hoje talvez compre dois ou três, mas o que eu precisava era de uns bróculos para o jantar... ou uns grelos de nabo e uma morcela de assar.

(Devia ter deixado esta parte final do post para ti, Gregório)

30 de maio de 2007

serviços mínimos




A deco andou aí pelos centros de saúde do país a ver como estava o acesso dos jovens a consultas de planeamento familiar Na maior parte dos casos nem passaram da recepção Ou seja Nicles Se quiserem saber como é vão ao centro de saúde da vossa terra e esperem por uma consulta



Pela amostra podemos fazer uma pequena ideia de como vai ser aplicada a lei sobre a interrupção voluntária da gravidez

O melhor mesmo é dirigirmo-nos todos ao santuário de fátima e mais a todas as capelinhas providas a ver se há consultas

29 de maio de 2007

nação caramela


Graças ao ministro otário atacado com o síndrome cerebeloso após o almoço que lhe provocou algumas miragens e outras tontices do género Graças ao marilino tive oportunidade que aprofundar o meu conhecimento sobre os povos do deserto Hoje e através de uns amigos beduínos Que escrevem nas areias que ninguém lê E em particular a princesa do deserto que me guiou pelo trilho Fiquei a saber mais um pouco sobre a grande nação caramela onde parece não viver ninguém para além do camelo do ministro também conhecido na região por màrinho das cunbersas parvas pelo menos para a flc
Queria tranquilizar também o sotor almeida que os activistas da flc não dinamitam pontes Pode ficar descansado nos seus santos delírios Eles é mais o arroto das minis Da sagres ou super boque Tanto faz

28 de maio de 2007

Flores da serra


Guardo na pele os cheiros da serra (e também algumas marcas das roseiras bravas a quem roubei botões para vários crepúsculos de chá) e penso, sem que a chuva me incomode, nos caminhos que havemos de descobrir e trilhar e abrir e inventar fora das estradas nacionais das rotinas do quotidiano.
Crescem-me como borbulhas de desejo, vontades convergentes de abandono dos mapas e achar a verdadeira beleza, perdendo-me no oceano, no deserto, na serra...
Da viagem trago um espólio de sentires partilhados, duas podas de roseira brava, três lírios selvagens e paz quanto satis.
As plantas já estão na terra e vou regá-las, juntamente com a paz, todos os dias.

26 de maio de 2007

berberes tuaregues e o nariz do pinóquio


Eu não sei responder à pergunta do ministro otário que parece agora muito interessado em saber quem são os donos do deserto Parece que a zona foi ocupada há muitos anos por várias tribos caramelas que são assim uma espécie de tuaregues e berberes da margem sul Para além das meninas da beira do sado Claro Pois fiquei a saber através de uma princesa das dunas Uma verdadeira rosa do deserto Que afinal existe por ali vida e coisas que mexem Para além de uma escola que está a ser construída pelos habitantes há um centro que monta principezinhos em cavalos de pau mostra o nariz do pinóquio a crescer nas ventas do marilino (16 junho) põe o mia couto a pregar na biblioteca do deserto do pinhal novo (11 junho)

Mas claro que isto de governar é assim uma coisa extraordinariamente difícil como dizia aquele poeta-dramaturgo Se assim não fosse qualquer um seria ministro mesmo que não soubesse jogar à bola Compreende assim que se queira construir um aeroporto sobre a megapólis da ota Em cima da prestigiada universidade de cheganças e do centro hospitalar da espiçandeira Ou onde já existe o poderoso complexo industrial do eixo paços-aldeia

Esperemos é que não se estenda muito porque para lá de casais das boiças fica alcoentre e acho que não é caso para tanto

21 de maio de 2007

é por imeile charrua

O professor charrua é um homem bem humorado como se prova pelo tempo que passou no hemiciclo E quis fazer graça com um assunto muito sério mas que na boca de um ex deputado não tem graça nenhuma porque vem absolutamente fora de tempo e já se vai perceber porquê O senhor professor e ex deputado charrua de sua graça quis ter graça mas ficou-se por uma desgraçada intenção e vai de lá a sua chefe margarida moreira que andava ali disfarçada de climex esfregona na mão e lenço na cabeça e ouve aquela piada sobre o doutoramento por fax Pronto A margarida tira o lenço larga o balde e a esfregona e Com que então por fax Isso é forma de um funcionário do estado se referir ao primeiro ministro Ele aind adisse Mas eu nem falei da licenciatura na dependente Isso não teria importância nenhuma Toda a gente já sabe da trapalhada que isso foi mas é coisa que não deslustra a governação Mas atacar assim com difamação o nosso primeiro josé de sousa carago (isto passa-se no norte e a margarida usa as vírgulas no sítio certo) não pode ser Toma lá com o estatuto disciplinar da função pública que é para aprenderes e vais para casa com um processo E vira as costas a vociferar corredor fora mas ainda se ouve Por fax Que desaforo Depois do choque tecnológico e do simplex É por imeile seu burro E na hora

18 de maio de 2007

sorri

O que tu precisas é de um sorriso
Um sorriso em forma de estrela
que levanta pó por dentro dos sonhos

Pode ser que venha aí com asas
Acolhe-o Cuida-o
Para que cresça e fique
E nunca se apague

17 de maio de 2007

Parabéns




Fez nove anos
e aprende a ser grande

E engrandece
o tempo que passamos juntos

10 de maio de 2007

sexo no santuário e milagres do plágio


Por acaso até acho bem esta associação entre o sexo e a fé Porque isto é como tudo Uns têm e outros não e vá-se lá saber porquê E também no sexo pode haver boa-fé ou má fé e isso fazer toda a diferença
Também fiquei a saber que o santuário de fátima deve ser um jogador de futebol porque fala na terceira pessoa e assim "o santuário sente-se triste e indignado com esta publicação e tomará as medidas necessárias para que não continue a ser distribuído"
Alguém fez um mapa que anuncia vibradores e pau de cabinda nos caminhos da fé e o santuário sentiu-se triste Tadinho E indignado Com toda a razão Pois

Agora o que é interessante é ver a mesma notícia escrita da mesma maneira em várias publicações Ora (pro nobis) mirem e observem também aqui e digitalmente em portugal

Lindo Quando for grande quero ser jornalista com a ajuda de nossa senhora

9 de maio de 2007

Balada dos dias úteis


... não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho
Alberto Caeiro - Guardador de rebanhos
Destreinei-me de guardar pensamentos talvez por os achar demasiado rebeldes. Deixei-os tresmalhar por campos e colinas e muitas vezes por searas alheias. Pensar não dá trabalho. Não. O que cansa e incomoda é guardar os pensamentos como quem gere um rebanho.
Eu bem gostaria às vezes de juntar todas as coisas que penso e sinto e mais aquelas que nem sei se são uma coisa e outra. E gostaria também de melhorar esta relação tormentosa com a memória que baralha as estórias, ata-as umas às outras vai por aí a correr como os papagaios de papel.
Se ao menos ouvisses os diálogos que mantenho sozinho...
Um dia destes vou contigo para o campo e convoco os pássaros e as flores de todos os matizes para contar-te do meu crescer. E vou até lembrar-me de nomes esquisitos de seres que povoaram a minha infância.
Mas agora o que eu quero mesmo é ir contigo para o mar. E dizer-te, como Hans, para vires comigo para o mar mesmo sabendo que haverá temporais e tsunamis.
Já sei que me dirás sempre: antes isso que marés mortas.

6 de maio de 2007

Sim, mãe


Nunca fui muito de dias disto e daquilo. E sempre vivi dias sim e dias não e outros assim assim sem que fosse o calendário a mandar nos afectos. Tenho para mim que a maior parte destes dias mundiais são produções do mercado e depois coladas assim a uma data, mas isso agora não é importante. Mas para além disso também vou descobrindo uma data de coisas por detrás destas datas.

O que eu quero hoje é deixar aqui um abraço às mães que foram importantes para mim, a começar pela minha. E lembrei-me de uma estória já antiga que se contava daquele grande pedagogo chamado João dos Santos. Uma jovem mãe preocupada com as suas competências para o exercício do seu papel foi pedir conselhos ao mestre João dos Santos. Este ouviu-a calmamente expor todas as suas ansiedades e depois de um momento de silêncio ter-lhe-á respondido: "Faça como lhe ditar o coração. Em todo o caso cometerá sempre alguns erros".

Sim, mães. Hoje é o vosso dia!
lírio roxo do campo, criado no quintal e florido em vaso durante a noite ontem


3 de maio de 2007

maios do sul

A ~CC~ sugeriu onde ninguém lê que explicasse o que era isso dos maios do sul Não sei muito bem assim explicar de explicação Posso é inventar uma meia estória sobre isso Há uma parte que é verdadeira só que não sei qual

Um dia vim para sul e chegou maio Eu que vivia o maio vermelho do trabalhador e da luta contra o capitalismo ouvi Então vamos atacar o maio Como que quer saber se estou mobilizado para a luta E eu Claro Vamos lutar por uma vida melhor para todos Vamos atacar o capital E passava-me um filme na cabeça de uma grande manif a descer a avenida até ao governo civil bandeiras vermelhas e punhos no ar Nada disso Disseram-me A gente aqui começa logo de manhã a atacar o maio com uns copázios de medronho à porta dos vizinhos e depois vamos para o campo comer uma caracolada e para resmoer vamos a umas abarcas Ou simplesmente vamos por aí a ver os maios à porta das casas e nas varandas ou assim nos valados à beira da estrada E eu ainda a pensar em cantigas do maio de ver a minha amada nos campos de salir a encorajar-me para a luta E que os maios poderiam ser activistas com boinas à che e um olhar impreciso porque sempre posto no futuro Mas nada disso Depois explicaram-me os maios são bonecos em tamanho natural feitos com roupas de homem e de mulher e cheios com trapos ou palha ou papel e que frequentemente procuram ridicularizar algum facto ou pessoa mais ou menos conhecida Dizem que é uma coisa muito antiga que assenta numa tradição pagã das festas da primavera
Eu gosto de inventar e já tenho uma teoria muito simples Os maios são espantalhos Acabadas as sementeiras é preciso evitar que a passarada coma o grão e para isso colocam-se bonecos nos campos para afastar as aves Alguém fez um dia um boneco que fazia lembrar um governante qualquer ou um cacique local e sabe-se lá porquê esse foi o espantalho mais eficaz da safra A partir daí todos quiseram fazer bonecos parecidos com alguém que detestavam e apareceram assim o presidente da junta o salazar o sargento da gnr o padre o merceeiro que já não fia o morgado das terras que carrega nas rendas e assim
O boneco mais glosado este ano parece que foi o zé sócrates engenheiro e espanta pardais



foto daqui e há mais


Aqui o baeta também conta coisas algarvias e até mostra maios figurantes e bem comportados





Há uma outra tradição de maios e maias no norte de origem
celta e pode ficar para outra espantação Explicação Digo

(O google que não distingue maios de maiôs e fornece imagens de manequins brasileiras em fato de banho)



2 de maio de 2007

Vamos a isso!

Com licença.
O meu primo Gregório convidou-me. Ele não é bem meu primo, é mais irmão e vizinho e também um puto de que às vezes tomo conta. Ou ele de mim.
Eu bem lhe disse que assim para começar só me poderia dar para a pantominice. Tinha que ser...
Assim sendo, é oficial, tenho o grato prazer de anunciar em primeira tecla que partir de hoje também alinho palavras aqui e, quem sabe, talvez aprenda a contar gaivotas.



Tentarei manter a mesma lógica dos marcadores iniciada pelo Gregório

24 de abril de 2007

abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia

Vamos por aí
Pelas portas que abril abriu
Pelo sonho aberto
Pela luz acesa na magia de um sorriso
Pela serenidade conquistada
Pela paz construída a mãos

A liberdade passa por aqui

Sempre


menina dos cravos (Amadeu de Sousa-Cardoso)

23 de abril de 2007

indomável arlete

Há redes incríveis
Fiquei a saber primeiro pelo respirar o mesmo ar
A seguir puxei uns fios e fui ter a este joão donde trouxe esta foto
É bem possível que nos tivéssemos todos cruzado um dia na casa em que até as paredes falavam
Fiquei a saber que a arlete morreu e continua viva porque se continua numa geração que soube beber da sua intuição do seu saber da sua coragem da sua generosidade do seu combate permanente
Morreu uma grande mulher
O seu corpo será cremado no dia vinte cinco de abril
A saudade fica em nós


rosa rosae rosae rosarum rosis




Há uma certa horta que dá rosas
Dá rosas mesmo
Assim
Toma lá uma rosa
E tem também couves decorativas e crescem alfarrobas na palma da mão
Milho verde com saudades de matilde vê crescer uma estalagem para tartarugas do campo

Depois recebe. Recebe um sorriso sem segredos a lembrar a carly simon E mais quem vier por bem

Um dia ainda conseguirei explicar como é que se mete tudo isto em cerca de vinte metros quadrados de sociologia da acção organizada.
Toma uma rosa
Aceito um crepúsculo com chá

livro é livre em frança

Parece que havia um hábito antigo de no dia de são jorge os cavalheiros oferecerem à mulher que amavam ou admiravam uma rosa Elas correspondendo ofereciam-lhes por sua vez um livro provavelmente com algumas pétalas de rosa ou um escrito encorajador entre as folhas
Terá sido por esta razão que a UNESCO consagrou o dia de hoje como Dia Mundial do Livro
Não sei se esta história é verdadeira mas isso não importa Conta de amores flores e livros e isso confere-lhe beleza Ouvi-a por aí ou sonhei-a ou li-a num livro

Há quem diga que este dia do livro está relacionado com uma tradição nórdica de venda de livros em bancas ao ar livre por estes dias de sol de primavera

Mas eu sei de uma história por contar que poderá ter começado num livro e continuar-se num cacho vermelho das primeiras rosas bravas e mais adiante com brincos de cereja e outras caminhadas num sítio chamado primavera Às vezes até nascem lilases no meio das páginas do livro que se vai escrevendo E fica-nos esse cheiro nos dedos

16 de abril de 2007

dias felizes

O crepúsculo matinal eleva das águas da lagoa uma delicada bruma de encanto
E o rio ali largo como a cumplicidade dos olhares todo a avançar-se para eles
Têm que partir porque lhes doem os ossos de tanto serem esmagados por esta beleza
São mar e rio e desaguam simultaneamente um no outro na magia das marés
São vale e arribas sendeiros planalto Gaivota que pedala e pede alma até o'neil
E sempre vigiadas de perto por um cão chamado bruno que ladra por dever de ofício mas que é mais dado a reflexões silenciosas
Acho que um dia destes o bruno vem aqui contar tudo como deve ser
Como deve ser
Digo eu

9 de abril de 2007

reforma ou revolução

Quando escolhi este ofício de contador não tinha bem a noção de que isto era uma actividade de desgaste rápido Contar gaivotas cansa Elas às vezes são inquietas e fazem-me voltar ao princípio como sísifo a escrever na areia
Pensei que devia meter os papeis para a reforma Já vi quem por menos serviço público acumule reformas
Depois pensei que podia fazer assim uma espécie de trespasse gracioso a quem prometesse cuidar bem da praia Terá que vir cá de vez em quando nem que seja só para cheirar a maresia e acenar às gaivotas Tenho a certeza que o resto virá por acréscimo
Mas acho que não vou fazer nada disso
Vou fazer uma revolução Edição de bolso Mas uma revolução a sério
Começo por tirar a roupa Só venho à praia completamente nu

8 de abril de 2007

agarrar a lua

Há coisas impossíveis de sonhar São só desejo nascido no horizonte quando apenas se contempla o rasto crepuscular Uma luz que faltava para dissolver o ritmo programado dos dias
Há coisas difíceis de agarrar Quando pensamos ter lá chegado parece que mudaram de sítio Chocamos com a sombra Ou com o reflexo que afogamos na água
Há coisas que não se repetem Inútil ficar à espera
É preciso nadar e salvar o poema

A propósito da Estória do gato e da lua E outras estórias inacabadas

http://www.youtube.com/watch?v=LrPKYf--Rmw
(agradeço à amiga helena o envio por mail)

26 de março de 2007

my fairy lady

Já tinha ouvido falar de milagres na ponte da feijoada guiness Mas isto de ouvir a gente ouve muita coisa e nem sempre podemos comprovar empiricamente e assim podemos dizer café é que nos salva muitas vezes É por isso que alguns esgravatam no iogurte para sugarem apenas os bífidos activos em que já se viciaram enquanto outros vão parar à urgência com uma overdose de l. casei immunitas Mas não é de nada disso que quero falar Escute-me bem my fairy lady Uma pequena gota Ou seja Mais ou menos um décimo de centímetro cúbico Dá para quatro pratos Dois copos Duas chávenas de café E ainda colheres e garfos e facas e ainda fica espuma para passar na placa do fogão
E tudo isto porquê Pergunto eu que sou curioso
Não é seguramente por causa dos quinze a trinta por cento de tensioactivos aniónicos Não senhora Nem dos cinco a quinze por cento de tensioactivos não iónicos Também não Muito menos será por causa dos perfumes citronellol e geraniol e linanool e limonene Ai não
Eu explico Na melhor das hipóteses a soma dos tensioactivos nunca ultrapassa os quarenta e cinco por cento Os perfumes são essências sintécticas concentradíssimas e não ultrapassarão seguramente os cinco por cento E o resto Os outros cinquenta por cento Perguntar-me-á
Pois my fairy lady A resposta é simples
Cada frasco traz cinquenta por cento de magia
Está explicado o milagre À luz da ciência positiva

Com os meus respeitosos cumprimentos

psr (post-scriptum redundantis) Pode vossa excelência comunicar esta análise a um tal grande português e nuno que a saberá apreciar certamente

grandes equívocos portugueses

Tinha ouvido falar e nunca levei muito a sério Afinal aquilo era mais um programa de televisão para preencher um espaço entre uns blocos de publicidade e pago por todos nós na conta da electricidade Ontem depois dos fedorentos (a coisa mais séria da televisão portuguesa) ficamos a saber que aquela figura tenebrosa tinha ganho o concurso do preço certo ou do malato mestre das moças giras Ou não era bem isso nem floribela com morangos nem o pito dourado da carolina Bem seja lá como for a salazarosa figura de combadão ganhou o euromilhões ou o totoloto da santa casa da erre-tê-pê
Logo alguém que não percebi se era concorrente ou simplesmente treinadora de um outro atleta que também corria ali Disse cobras e inconstitucionalidades daquilo e que não podia ser e tal.
Pois. Mas agora é tarde Devia ter-se demarcado daquela macacada em vez de a legitimar com a sua presença
Mas isto levantou-me outra questão Não haveria uma única portuguesa digna de figurar entre os dez Pergunto
Não sei se a padeira de aljubarrota realmente existiu Mas já conheci muitas grandes portuguesas que foram capazes de gerir um parco rendimento proveniente da sua força de trabalho e ainda amealhar algum para o caso de haver alguma fatalidade de saúde Criaram filhos sem creches nem amas nem licenças de maternidade e sempre a trabalhar E para isso não precisaram de mandar a pide torturar nem assassinar ninguém Nem precisaram de fazer uma guerra que estropiou uma geração aquém e além
Afinal o gajo foi grande em quê Pergunto

21 de março de 2007

diapoesia

Hoje é dia mundial da poesia
E isso bastava para meter lá dentro a primavera toda
E plantar árvores a florir no quotidiano

Hoje é também o dia internacional da eliminação da discriminação racial
E tanta coisa que me enche o coração e que também não cabe num só dia




(olha uma andorinha)


Um dia destes vou mesmo lá
À primavera


A Meu Favor

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer



A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
(Alexandre O'Neil)

16 de março de 2007

lágrima

A palavra não é triste não Tem uma agógica estranha que nos faz demorar o lá Demorar lá E fugir rapidamente de lá em duas átonas sílabas sem sal. O sal está lá No lá que se demora O lá de distância De ausência O lá de fora E também o lá de dentro Sobretudo o lá de dentro

Pensei isto tudo porque li no troll que me levou até à notícia do choroso estudo
Eu fui educado para não chorar Porque os homens não choram Mas cedo me revelei um verdadeiro caso de insucesso educativo E caiam-me gotas nas páginas dos livros e borrava a escrita a tinta nos cadernos No cinema era bom Ninguém via no escuro O pior era assim o intervalo inesperado
Na verdade levei muitos anos a aceitar este meu insucesso Agora choro quando a alma me pede Ou sempre que as emoções não cabem dentro das palavras Ou quando cabem tão bem que até apetece chorar
Enfim
Já vivi a experiência de chorar em vários sítios e confesso que gostava de poder experimentar em punta arenas ou em ilhas mais próximas e mornas ou na baía de luanda ou numa praia de goa



Se tudo isto coincidir com o que acontece exactamente com outro homem Pode não ser coincidência É que somos muito íntimos e às vezes vestimos a pele um do outro

Numa pesquisa no google sobre lágrimas o que mais aparece são mulheres a chorar



14 de março de 2007

pi ar

Hoje é dia de fantasias eróticas e outras experiências subjectivas verdadeiramente arrePIantes
DesPI-me na praia em cálculos infinitos que afinal são pedrinhas alinhadas a bordar o areal
Mas a ciência positiva é implacável e teima em estragar estes romantismos poéticos (poiéticos)
É objectivamente muito mais fácil ir ao fundo do mar que ao fundo do PI

12 de março de 2007

universário ou anos luz


Não sei se alguém reparou mas esta praia em que se contam gaivotas e assim foi inaugurada fez três anos E mais uma data de gente querida e ainda e também pois fez anos que nasceu Um verdadeiro universo em ponto pequeno Mas em franca expansão como o outro Aquele dos cientistas e do biguebengue E assim já são muitas as estrelas a florir em março E vamos todos à boleia até à primavera
Parabéns

2 de março de 2007

olha pá


Tenho andado a evitar mas não passa de hoje Tenho que ter uma conversa a sério contigo De homem para homem Seja lá isso o que for
É que ando preocupado contigo Com a tua saúde
Já não tens propriamente vinte anos para ofereceres o peito assim às emoções Olha o coração pá Elas não matam Mas
Eu bem te vejo O mar em que às vezes ficam os olhos só de ler meia dúzia de palavras alinhadas Há quem simplesmente diga que os dicionários estão cheios delas Mas ambos sabemos que um texto pode ser como o açúcar Que é doce sem que nenhum dos componentes o seja Isto de encontrar beleza e poesia até na química orgânica tem naturalmente os seus custos Olha o outro que se emocionava até com uma expressão matemática Acabou a guardar rebanhos nos prados da metafísica


A ti ainda te vou encontrar na soleira daquela casa a regar canteiros de palavras e silêncios E a tomar chás ao crepúsculo com uma gaivota pousada no ombro.
Depois não digas que não te avisei











Joan Miró
Le crépuscule rose caresse les femmes et les oiseaux

28 de fevereiro de 2007

mas (que) turbação







O dn não diz mas toda a gente sabe que isto é o discurso oficial da bispança da conferência

Confesso que fiquei um pouco preocupado Comigo e com muitas pessoas que conheço E com tanta doença junta certamente que o serviço nacional de saúde rebenta pelas costuras
Fui investigar as fontes As sagradas claro Que são os que já mostraram saber destas coisas
Fiquei muito mais descansado quando li que

" Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?" (1.ª Coríntios 6.19)

Como isso só se aplica ao corpo do cristão até nem é muito mau para a saúde pública Os verdadeiros não praticam Por isso é que têm caras assim de bagão e guterres e matilde e tal e outros irmãos da caridade Depois há uma grande quantidade que diz que é mas não é O que se prova pelos os seus inúmeros pecados passarem impunes à lei divina e em vez de estarem com o cu a arder sentados num banco de pedra incandescente no inferno estão sentados em luxuosas poltronas aí pelos conselhos de administração de umas coisas que a gente sabe

Mas continuo a pesquisar sobre o tema e dou com um salomão que parece ser um gajo decente para cantar assim
Cântico dos Cânticos 1:2
Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o seu amor do que o vinho
Cânticos 4:1
Como és formosa, amada minha, eis que és formosa! os teus olhos são como pombas por detrás do teu véu; o teu cabelo é como o rebanho de cabras que descem pelas colinas de Gileade.

Cântico dos Cânticos 4:2
Os teus dentes são como o rebanho das ovelhas tosquiadas, que sobem do lavadouro, e das quais cada uma tem gêmeos, e nenhuma delas é desfilhada.

Cântico dos Cânticos 4:3
Os teus lábios são como um fio de escarlate, e a tua boca e formosa; as tuas faces são como as metades de uma roma por detrás do teu véu.

Cântico dos Cânticos 4:4
O teu pescoço é como a torre de Davi, edificada para sala de armas; no qual pendem mil broquéis, todos escudos de guerreiros valentes.

Cântico dos Cânticos 4:5
Os teus seios são como dois filhos gêmeos da gazela, que se apascentam entre os lírios.

Cântico dos Cânticos 4:11
Os teus lábios destilam o mel, noiva minha; mel e leite estão debaixo da tua língua, e o cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.

Cântico dos Cânticos 7:1
Quão formosos são os teus pés nas sandálias, ó filha de príncipe! Os contornos das tuas coxas são como jóias, obra das mãos de artista.

Cântico dos Cânticos 7:2
O teu umbigo como uma taça redonda, a que não falta bebida; o teu ventre como montão de trigo, cercado de lírios.


Ainda bem que não sou cristão Esta do umbigo pode levar a práticas verdadeiramente prejudiciais à saúde

23 de fevereiro de 2007

eh zeca afonso

O zeca morreu fez hoje vinte anos
Alguém terá dito ou escrito na altura que a sua voz seria final e oficialmente calada numa placa toponímica numa qualquer rua secundária deste país E foi quase isso
Hoje ouvi-o na rádio
A rádio pública tocou vinte canções do zeca
Venha mais zeca


poeta andarilho do bairro negro à vila de olhão
soltou pombas brancas nas águas dum outono
cantou janeiras de embalar cavaleiro e anjo numa barquinha
cigano e maltês mendigo com tecto trouxe amigos donde o vento cortou amarras
pegou no arpão frente a vampiros e chacais eunucos e anjos na mortalha do canalha e com a foice duma ceifeira cairam todos num alguidar
por trás daquela janela fez um redondo vocábulo para um primo convexo e avisou a malta da presença das formigas e dos fantoches de kissinger






E não foram só canções e luta
A poesia não cantada do zeca está aí para ser descoberta
Eis um dos muitos poemas escolhido quase ao acaso
Ou talvez não

Sabia antigamente de palavras
E nelas eu dizia
Como é forçoso estar vivo
Mas não é fácil relembrar
de que espuma eram feitas
as primeiras sortidas.
alguma coisa do que sou e fui
foi em viagem
pela madrugada conforme
e nem por uma vez
deixou de repicar aos meus ouvidos
a mesma toada miúda.

Tratei de novo
motivar os dias
Refazer a infância
Pousar ainda a calote sobre a tábua
e espreitar;
o velho passeando no deque
os pássaros na brancura conduziam a barca
E tu silêncio, sempre vinhas





(...)
Será que existe
lá para as margens do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?
Utopia. ura Fura 1978
Imagem colhida em www.domusvarius.pt

17 de fevereiro de 2007

boas práticas


Acho que cavaco
Aquele que quando perguntado sobre qualquer coisa responde invariavelmente na terceira pessoa do presidente (deve ser um outro cavaco que está lá postado em sossego infalível no altar da república) Aquele que cultiva mitos sobre si próprio (foi dar uma volta com a maria e acabou em promeiro ministro) e sobre a sua ascenção social vinda do nada (o filho do sô teodoro nunca foi um rapazinho pobre) Aquele mesmo que sem nunca ter expressado uma ideia clara sobre coisa nenhuma conseguiu ser eleito presidente da república e logo de todos os portugueses
devia deixar-se de merdas e seguir as boas práticas presidenciais e deixar o governo e o parlamento fazer a lei sem ingerências
Houve um referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez que respondeu claramente SIM à pergunta Os que querem que a lei carregue sobre as mulheres perderam e por muitos votos Se juridicamente o referendo não é vinculativo isso só quer dizer que não obriga O parlamento pode ou não alterar a actual lei Mas já tinha essa legitimidade antes do referendo
O que cavaco está a fazer é colocar-se ao lado dos partidários do NÃO e a forçar a lei a incluir uma verdadeira idiotice chamada "aconselhamento obrigatório" Só verdadeiros trogloditas intelectuais são capazes de defender tal aberração
O ps depois de chamar a si a grande vitória do SIM e acenar com alvará da exclusividade da produção da lei prepara-se para ceder em nome da tal "cooperação estratégica" e dum "alargado consenso nacional"
Não me lixem (para ser poupado nos impropérios) Isto é um verdadeiro golpe de estado

Toda a conversa sobre a legitimidade de uma eleição ou de um referendo é tão moralmente relativa como se vê
Alguém contestou a legitimidade do(s) outro(s) referendo(s) Pergunto
Ou da escassa margem com que cavaco foi eleito Pergunto também

Uma boa prática democrática era impichá-lo por subversão das regras democráticas Acho eu

12 de fevereiro de 2007

teologia do SIsMo ao sul

A minha tia do norte que ontem votou não porque o senhor padre mandou telefonou-me
Estava preocupada porque tinha havido um tremor de terra e que isso tinha acontecido por causa do referendo
É deus que está zangado por causa de terem votado sim Disse ela Mas está descansado que já rezei para que nada de mal vos aconteça
E eu Mas ó tia aqui no sul também houve muita gente a votar não e as suas casa tremeram igualmente
Ela Mas não cairam pois não
Não tia Disse eu
E ela Graças a deus

SIMplesmente asSIM

Os que querem que a interrupção da gravidez
até às dez semanas
por opção da mulher
em estabelecimento de saúde autorizado
deixe de ser crime
venceram o referendo
Não venceram tudo Há ainda muito para fazer para que em portugal se possa respirar dignidade
É preciso acabar com o discurso da hipocrisia que se apropria dos direitos das pessoas e os transforma em caridade É preciso continuar a exigir as condições mínimas de dignidade e segurança para que cada um possa ter os filhos que deseja e quando os deseja porque a isso tem direito É preciso que cada um possa contar que daqui a um dois ou dez anos tem trabalho e pode continuar a pagar a casa que comprou e tem com que pagar o infantário e o atl e a escola e o dentista e eventualmente o psicólogo dos filhos e mais os ansiolíticos e os antidepressivos porque com as perspectivas actuais não há quem aguente

Mas não é só isto que falta vencer
Ainda não pousou totalmente a poeira da festa do SIM e já os arautos da esperteza saloia põem os pausinhos ao sol e insistem em nos tratar de parvos
O referendo não foi vinculativo e portantes temos que gramar o luís finhinho que a gente não sabe onde estava no outro referendo

perante os resultados da participação neste segundo referendo sobre o aborto, a maioria de esquerda no Parlamento, capitaneada pelo PS e pelo PM, vai fazer de conta que esta consulta pública e directa aos eleitores não é para respeitar, na sua fórmula de vinculação?

E depois explica assim sabiamente Sabe-a toda

Vamos por partes: quando o PS e o PM partiram para este referendo sabiam as regras do jogo, que não podiam ser mais claras. Só era possível vincular a maioria se mais de metade do eleitorado votasse. E os eleitores, na sua soberana decisão, que tem de ser integralmente respeitada, decidiram não aparecer nas urnas, por todos os motivos, incluindo os que acham que a abstenção é uma forma de expressão legítima de não aceitação do referendo

Pois SIM Sabíamos todos as regras que alguns teimaram em torcer nos últimos dias Mas disso o senhor não fala Prefere passar por ignorante e distorcer o conceito de vincular A decisão dos eleitores só é soberana quando convém Pois é Por acaso a decisão dos eleitores até está soberanamente expressa na composição do parlamento tal como estava em 1998 E só por cobardia é que não fizeram a alteração do código penal que penaliza a interrupção voluntária da gravidez Posso até achar que os eleitores se enganam (ou são enganados) muitas vezes nas pessoas que elegem mas as regras são essas e respeito-as mesmo quando não concordo.


Sobre a censura ao programa de cinco minutos do júlio machado vaz só ouvi notícia da tsf
E depois não me venham dizer que em portugal não se conjuga tão bem o capitalismo de karaoke com fascismo de passerelle

7 de fevereiro de 2007

pois SIM



Se a pergunta no referendo fosse

Concorda que o ayatola gentil martins seja enxovalhado em público pelas idiotices que acabou de dizer na sic notícias

Aí Respondia não
E não era com o argumento de que a espécie humana médica e hipócrita (eles dizem hipocrática acho) está em vias de extinção como o lince da malcata
Ai o que lhe sai da tola
Depois de decretar o modelo de família cem por cento contra o aborto tal qual vem descrito no catecismo e nos manuais salazarentos eis que tira ai da cartola o argumento fatal
A espécie humana europeia e principalmente a portuguesa está em vias de extinção E isto porquê Porque se liberaliza o aborto É aí que a gente se atola
A actual lei já contribui para isso E ele médico só acha aceitável (e mesmo assim pensando muito bem) fazer um aborto para salvar a grávida a quem ele antecipatoriamente já chama mãe como a pescada
Pois com argumentos destes para que é que precisam de meter aqueles panfletos nas mochilas das crianças dos infantários ou distribuir dê-vê-dês escabrosos à porta das escolas

Sim


2 de fevereiro de 2007

o que deve mudar

No referendo do dia 11 a única coisa que vai a votos é o código penal

O que diz o Código Penal:

ARTIGO 140º
Aborto
1 Quem, por qualquer meio e sem consentimento da mulher grávida, a fizer abortar, é punido com pena de prisão de 2 a 8 anos.
2 Quem, por qualquer meio e com consentimento da mulher grávida, a fizer abortar, é punido com pena de prisão até 3 anos.
3 A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro, ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena de prisão até 3 anos

ARTIGO 142º
Interrupção da gravidez não punível
(*Ver Lei 90/97 Que Altera Este Artigo*)
1. Não é punível a interrupção da gravidez efectuada por médico, ou sob a sua direcção, em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido e com o consentimento da mulher grávida, quando, segundo o estado dos conhecimentos e da experiência da medicina:
a) Constituir o único meio de remover perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida;
b) Se mostrar indicada para evitar perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida, e for realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez;
c) Houver seguros motivos para prever que o nascituro virá a sofrer, de forma incurável, de grave doença ou malformação, e for realizada nas primeiras 16 semanas de gravidez; ou
d) Houver sérios indícios de que a gravidez resultou de crime contra a liberdade e autodeterminação sexual, e for realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez.
2. A verificação das circunstâncias que tornam não punível a interrupção da gravidez é certificada em atestado médico, escrito e assinado antes da intervenção por médico diferente daquele por quem, ou sob cuja direcção, a interrupção é realizada.
3. O consentimento é prestado:
a) Em documento assinado pela mulher grávida ou a seu rogo e, sempre que possível, com a antecedência mínima de 3 dias relativamente à data da intervenção; ou
b) No caso de a mulher grávida ser menor de 16 anos ou psiquicamente incapaz, respectiva e sucessivamente, conforme os casos, pelo representante legal, por ascendente ou descendente ou, na sua falta, por quaisquer parentes da linha colateral.
4. Se não for possível obter o consentimento nos termos do número anterior e a efectivação da interrupção da gravidez se revestir de urgência, o médico decide em consciência face à situação, socorrendo-se, sempre que possível, do parecer de outro ou outros médicos.

Parece que a única coisa que incomoda a padralhada e mais a cambada toda que anda a insultar a nossa inteligência é estar escarrapachado na pergunta do referendo a pedido da mulher De resto até se admite até às 12 semanas Se a pergunta fosse
Concorda que a mulher não seja presa depois de fazer um aborto com o parecer favorável da ordem dos médicos mais do concelho episcopal mais da comissão de ética da saúde mais da associação das famílias numerosas mais do treinador do benfica e da fadista cátia e das mães de bragança numa clínica do grupo mello com um empréstimo do bcp
A corja andava toda aí a defender o sim
O que é importante é que a mulher não tenha capacidade de decisão Quando muito dá-se-lhe a possibilidade de consentir

Mas não são só esses do não que me metem nojo Os ps que tendo uma maioria na assembleia a usam não para alterar a lei como lhes compete mas para impedir que ela seja alterada são os únicos responsáveis por ter dado voz a esta gente que vem repetir o mesmo palavreado de há oito anos e meter panfletos escabrosos nas mochilas das crinças dos infantários
Foram eles que deram tempo de antena ao bagão à zita (duvido que a zita seabra para alguém) à matilde à laurinda ao fernando e à bispada e padralhada podre para virem insultar a nossa inteligência e tratar os que acham que as mulheres que interrompem uma gravidez não devem ser presas como se fossem assassinos de crianças Esses são os mesmos que pactuam com a violência e os maus tratos nas instituições da igreja e toleram o abuso sexual de crianças pelos padres

E só mais uma coisa
Os meus impostos não deviam pagar o tempo de antena do marcelo na televisão pública
Rua

29 de janeiro de 2007

lição (ou li sim?) do fedorento profe

O meu amigo HFR chama a atenção para estas escolhas
O próprio não faria melhor de fedorento
Como se pode ver aqui
Verdadeiramente bolorentos marcelo e elisa juntos e ao vivo Ou seja Temos bonecos no largo da feira

As escolhas de gregório

~aCim Cim~

28 de janeiro de 2007

sim sim e sim e ainda sim


À vida pois claro E às suas circunstâncias.
Fica aqui o autocolante mais interessante da campanha E ali ao lado Para que se veja Para que se beije
~Cim~
~Cim~

11 de janeiro de 2007

ah são de graça



Inspirados pela devoção do dr macedo um grupo de empresários que por motivos óbvios não se quer identificar mas que obviamente todos sabem quem são mandou rezar uma missa de acção de graças pela protecção divina relativamente ao pagamento de impostos e ainda pelo milagre da caducidade das dívidas ao fisco

Agora deus que decida de que lado está

10 de janeiro de 2007

pela pele é que vemos....



Como num sonho, armo as estruturas de um diálogo que só se pode ter do outro lado do espelho. Aí, já a outra de mim vestiu essa pele que aceita as máscaras e olha-me nesse olhar cheio e manso e consentido ao espectacular privilégio da primeira espectadora de mim.

Escrito a outro despropósito legendário de uma foto de T.Veríssimo em 2002-11-07
Pintura de Pablo Picasso La Femme au miroir



Há coisas que serão feitas lentamente como o amadurecer das uvas Os bagos não amadurecem ao mesmo tempo Os mais precoces apuram-se enquanto esperam por algum mais serôdio Só depois se pode iniciar a vindima que como se sabe termina no dia da lavagem dos cestos se não chover antes
É assim também o diálogo do actor ao espelho enquanto despe o personagem A persona às vezes cola-se e é doloroso arrancá-la
Eu nunca contei gaivotas Elas é que me contam estórias e me fazem pensar As gaivotas As pessoas O vento As ondas As estrelas e tudo o que mexe e vive e fala e canta Conta
Vindimarei Vim de maré

3 de janeiro de 2007

crepúsculo vespertino


Eram vários especialistas Pareciam escanções do tempo
Mostravam um saber feito de olhar o céu e também as “várzeas da retentiva” Ditavam cartas de marear com terminologias estranhas a fazer lembrar adivinhações de outras cartas Contornavam os feitiços comuns sobre o sol e a lua e provavam cada pôr-do-sol como quem bebe um vinho raro



Apreciem a barra magenta magenta sobre a linha do horizonte Verdadeira púrpura veneziana
E estes nimbos alaranjados são pinceladas de fogo
E o cinabre da natália
E o violeta oblíquo do pessoa

Como vestiam todos fato e gravata fiquei ainda a saber outros detalhes técnicos da nomenklatura oficial É civil quando o centro do disco solar está seis graus abaixo da linha do horizonte É náutico quando atinge os doze E é astronómico aos dezoito
Depois
Bem
Depois todos os gatos são pardos

2 de janeiro de 2007

tlé quê?

Depois ainda hão-de vir dizer que a língua portuguesa é muito traiçoeira
O contador deve ser um nome contável Gaivota será um epiceno E assim entre senos e co-senos rebentam ondas sinusóides
Experimente a tlebs Um novo sabor na língua portuguesa
Ou então acabe com ela

Contado pelos dedos

bom ano bom

Os meus desejos são Um ano cheio de coisas boas e outras ainda melhores
Voltei a contar
Com tudo isso

7 de dezembro de 2006

viagens


Ando há dias em viagem
Viajo por dentro e por fora e toco paisagens onde nunca pus os olhos
Sorvo a genealogia do chá de rosas Aquele que transforma a tristeza em rouxinol
Depois teço um manto de assobios trinados e deito-me nele até que me acordes

27 de novembro de 2006

cesariny


Nem penses que me enganas Pá
Sei de cor essas manhas de poeta
Um surrealista não morre Brinca com o próprio cadáver delicioso e esquisito Fá-lo beber vinho novo da mesma forma que os cavalos bebem nuvens nas lagoas da esperança até à embriaguês das tempestades
E continua a viver da única maneira possível
Bêbado
Apaixonado
Poeta
Tu é que sabes cesariny





Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas, que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens, palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny de Vasconcelos
(9 de Agosto de 1923 - 26 de Novembro de 2006)

23 de novembro de 2006

flor-estrela na pele de um dia triste


As estrelas existem
sim
Às vezes não as vemos porque andamos entretidos a olhar para outras coisas
ou mesmo a procurá-las em sítios onde não estão


Não estão
mas podiam estar
Portanto
não nos resta outra alternativa se não ir colocando uma estrela onde não há
Ainda que a tenhamos que arrancar do fundo do mar

16 de novembro de 2006

mar rio e mários

Pongo estos seis versos en mi botella al mar
con el secreto designio de que algún día
llegue a una playa casi desierta
y un niño la encuentre y la destape
y en lugar de versos extraiga piedritas
y socorros y alertas y caracoles.

Na terra onde nasci não há mar onde deitar garrafas (coisa hoje ecologicamente muito condenável) Há um rio que se sabia chegar ao mar embora só mais tarde viesse a deslumbrar-me com esse estuário encontro
Alguém viu há pouco a minha infância a brincar nas margens e a lançar na corrente barcos de papel que afinal eram de esperança
Pouca gente sabe é que eu tinha um amigo também ele mário com quem baralhava ciência e poesia E um dia pusémo-nos a separar da água o naipe do oxigénio para um lado e o do hidrogénio para outro Isto é Para dentro dum balão
E o balão elevou-se no ar e foi levado pelo vento como as correntes do mar transportam mensagens em garrafas. Já não me lembro do que escrevemos na mensagem Mas hoje apetecía-me pendurar-me assim num balão bem grande E

Sorrio a quem me relembrou este poeta e estas tentações agora ouvidas aqui


MEDIOS DE COMUNICACIÓN

No es preciso que sea mensajera
la paloma sencilla en tu ventana
te informa que el dolor
empieza a columpiarse en el olvido

y llego desde mí para decirte
que están el río el girasol la estrella
rodando sin apuro
el futuro se acerca a conocerte

ya lo sabes sin tropos ni bengalas
la traducción mejor es boca a boca
en el beso bilingüe
van circulando dulces noticias

15 de novembro de 2006

lincame mucho

Hoje linquei-me à senhora sócrates E ao blogue que ninguém lê E ainda às bebedeiras de jazz
Não se pode dizer que me tenha corrido mal o dia


Se tu soubesses
que em todos os portos do mundo
há uma mão desconhecida
a acenar - adeus, adeus - quando se parte prò mar;
Se tu soubesses
que o mar não tem fronteiras nem distâncias
é sempre o mar;
se tu soubesses
a noite nas águas
onde os barcos são berços
e os marinheiros meninos a sonhar:
se tu soubesses
o desamor à vida
quando o vento grita temporais
e a morte vem abraçar os homens na espuma das vagas;
se tu soubesses
que em todos os portos do mundo
há um sorriso
para quem chega do mar;
se tu soubesses
vinhas comigo prò mar.
Vinhas comigo prò mar
embora as nuvens do céu
e os ventos que vêm do este e do oeste, do sul e do norte
digam ao mundo que vai haver o temporal maior que todos!

Manuel da Fonseca Canção de Hans o marinheiro

13 de novembro de 2006

anda luz

Soou assim no cantar dos caminhos
Um verbo animado de de paredes caiadas a espalhar ainda mais o sol
Do sul

E foi a luz
E correu na mágica velocidade dos cês quadrados capazes de buscar energia só de olhar o infinito

Então
Podemos cantar em coro com os poetas e outras aves
E cantar alto


Balada para los poetas andaluces de hoy

¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?

Cantan con voz de hombre, ¿pero donde están los hombres?
con ojos de hombre miran, ¿pero donde los hombres?
con pecho de hombre sienten, ¿pero donde los hombres?

Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parecen que están solos.

¿Es que ya Andalucia se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Qué en los mares y campos andaluces no hay nadie?

¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quién mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?

Cantad alto. Oireis que oyen otros oidos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabreis que palpita otra sangre.

No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo.
encerrado. su canto asciende a más profundocuando,
abierto en el aire, ya es de todos los hombres.

Autor: Rafael Alberti (In Memoriam)

10 de novembro de 2006

felizaniversário



Há dias ouvi um jovem guardador de rebanhos a sério dizer que enviava mails Escrevia em blogs Conversava com uma data de amigos Mesmo sendo o único jovem da sua aldeia


Há coisas extraordinárias
Pois há

Hoje mando um bouquet de fleurs e parabéns à cristina no dia dos seus anos
É minha amiga E ainda não a conheço

Ele há coisas extraordinárias mesmo

7 de novembro de 2006

ou tu bro

7 de novembro
Comemora-se o início da revolução de outubro
Pois
Não admira

abraços


Dou abraços

Pela paz
Pela liberdade
Pela amizade
Pelo amor




De graça



Vejam bem
Que não há só gaivotas para contar

http://www.youtube.com/watch?v=vr3x_RRJdd4

Recebi por mail da minha amiga Ginja
Tu levas um beijo

vou ver se chove



Gosto dos dias de chuva
Embaciam-se-me os óculos e permito-me ver outras coisas






(…)
Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
e vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...
(…)
Fernando Pessoa - Chuva Oblíqua (1914)

ri vegouche





Pelo tejo vai-se para o mundo
Mas quem está ao pé dele fica contente por estar só ao pé dele
Não foi nada disto que disse o outro guardador que escrevia coisas de pé em cima de uma cómoda Coisas sobre flores e montes e vales e possivelmente nem sujou os sapatos de lama quando brincava com o menino jesus a correr atrás das raparigas Porque era tudo a sonhar
Digo eu que
fui à terra com outros olhos E outro nariz E outros ouvidos E outra pele E eu também
O meu rio está gordo e alimenta-me memórias de cheias a sério que não eram notícia
O meu rio sempre me disse que por ali se ia para o mar E fui Fui muitas vezes antes de ter ido Quando me detinha ali na margem esquerda debaixo dos salgueiros a flutuar os olhos na corrente

Foto roubada ao Troll Urbano
a uma Isabel que deve ter andado por aqui