
O zeca morreu fez hoje vinte anos
Alguém terá dito ou escrito na altura que a sua voz seria final e oficialmente calada numa placa toponímica numa qualquer rua secundária deste país E foi quase isso
Hoje ouvi-o na rádio
A rádio pública tocou vinte canções do zeca
Venha mais zeca
poeta andarilho do bairro negro à vila de olhão
soltou pombas brancas nas águas dum outono
cantou janeiras de embalar cavaleiro e anjo numa barquinha
cigano e maltês mendigo com tecto trouxe amigos donde o vento cortou amarras
pegou no arpão frente a vampiros e chacais eunucos e anjos na mortalha do canalha e com a foice duma ceifeira cairam todos num alguidar
por trás daquela janela fez um redondo vocábulo para um primo convexo e avisou a malta da presença das formigas e dos fantoches de kissinger
E não foram só canções e luta
A poesia não cantada do zeca está aí para ser descoberta
Eis um dos muitos poemas escolhido quase ao acaso
Ou talvez não
Sabia antigamente de palavrasE nelas eu diziaComo é forçoso estar vivoMas não é fácil relembrarde que espuma eram feitasas primeiras sortidas.alguma coisa do que sou e fuifoi em viagempela madrugada conformee nem por uma vezdeixou de repicar aos meus ouvidosa mesma toada miúda.
Tratei de novomotivar os diasRefazer a infânciaPousar ainda a calote sobre a tábuae espreitar;o velho passeando no dequeos pássaros na brancura conduziam a barcaE tu silêncio, sempre vinhas
(...)
Será que existe
lá para as margens do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?
Utopia. ura Fura 1978