9 de abril de 2026

Mensagens na água que corre

 Há dois dias que remexo baús. A escolha do termo baú não surge por acaso para referir gigabites de arquivos digitais guardados na cloud, na memória do PC e em disco externo. O baú tem, diferentemente destes devices, um cheiro peculiar, sui generis. Cheira a antigo. Os ficheiros que encontro e abro e fico a ler não permitem, pelo odor, ser localizados no tempo. Muita coisa não tem data, a não ser a de gravação do ficheiro que na maior parte dos casos só nos permite dizer que foi escrito antes dessa data. Encontro escritos meus, às vezes pequenas notas de duas ou três linhas, palavras recebidas pelas vias electrónicas, citações entre aspas, mas sem referência ao autor... Acontece-me ter dúvidas sobre a minha provável autoria de alguns textos. Até já perguntei à IA se alguém teria escrito algo que parece uma dedicatória para alguém a quem teria oferecido um livro de que não me lembro e que guardei em 1995.

Encontrei um curioso texto com a referência de autoria atribuída a Mejmar de Isfahan, um poeta persa que terá morrido em 1811 (ou 1225, na hégira - o calendário islâmico). 

Tem o título de Enigma e reza assim:

Quem é o mensageiro abençoado quando chega, que nos torna felizes com a sua presença, que passeia noite e dia e não pára ao longo dos anos e dos meses? Na aba do seu trajo, traz almíscar, e âmbar cinzento no colarinho. Caminha sem pés nem cabeça; é um louco privado de espírito e de razão, um apaixonado errante, um vagabundo sem alimento nem sono. Ninguém sabe por amor de quem não pode parar; ninguém sabe qual a ausência que tanto o perturba. Como os corações dos apaixonados sob o efeito dos caracóis das belas mulheres, as ondas debaixo dele ora são como anéis, ora são curvas e revoltas. Ora a terra morre por causa dele, como as nossas faculdades morrem por causa da velhice; ora, pelo contrário, ele vivifica o mundo, como a juventude vivifica a natureza humana.

É bem mais do que um enigma. É uma corrente de metáforas, um rio de significados.

Impossível é não ir correr de memória em memória para as margens do rio da minha infância. O meu Tejo. O caminho sem fim para o mundo que continuava, eu sabia, mesmo quando me vinha embora. 

Ainda hoje sonho com água a correr.




12 de março de 2026

É tudo mais ou menos teatro e assim...

Com alguma frequência assalta-me a memória uma frase que dizia numa peça de teatro. Como os textos eram retalhos de outros textos misturados com textos nossos, não consigo identificar a autoria deste trecho que a seguir reproduzo:

Quando alguma coisa se parte cá dentro por causa de um gesto fóssil, por uns instantes breves abre-se um horizonte de potencialidades inéditas.

Quando trabalhei sobre esta fala, senti alguma dificuldade com a memória e com a sua expressão. Faltava-me um sentido claro e só o percebi alguns meses mais tarde. Realcei aqui alguma coisa que se parte cá dentro e o gesto fóssil. Acabei por estabelecer um sentido provisório e, ainda hoje, consigo reproduzir esta frase de cor. Ela visita-me sempre que o tema da peça - a fragilidade humana nas suas mais diversas circunstâncias - vem agarrado a algum acontecimento. São as singularidades plurais dos seres sensíveis onde um pequeno gesto pode desencadear um processo de angústia e tristeza.

Estamos sempre a viver o novo e o velho e, com isso, a aprender o caminho que estamos, simplesmente, a construir. Com o que trazemos e com o que acontece à nossa volta, dentro e fora de nós. Este novo pode ter alguma escolha, mas é basicamente  desconhecido. É com tudo isso que construímos o agora que, mais do que desconhecido, é inédito e único nas suas possibilidades assim acontecidas. Eventualmente, fará parte de um futuro "material velho" a reciclar mais à frente.

A ideia de algo que se parte não será determinista. A acontecer, só tem de irremediável o que acontece e só não tem atalhos se não soubermos ou não quisermos. É fácil dizer isto em termos de reflexão, mas não o será certamente em cima e por dentro do acontecimento. A racionalidade em causa própria tem os seus limites e as escolhas que fazemos podem ser ditadas por tantas coisas!

Passou muito tempo. Algum tempo, pelo menos, que isto do tempo é muito relativo e subjectivo. Avanços e recuos seria uma forma de descrever o processo se, na realidade soubéssemos para onde vamos, mas parece que na vida não existe um lugar para onde  irmos. Todo o caminho é inevitavelmente e sempre em frente. E o Régio, no seu Cântico, não tem a razão toda. "Sei que não vou por aí" é apenas uma forma de nos convencermos de que temos algum controlo sobre nós e os outros e o mundo que se acontece. Não sei bem se não vou muitas vezes por onde, repetidamente, afirmo que não irei. Não sei por onde nem para onde vou. E, também, não sei se não estarei a ir por aí.

7 de dezembro de 2024

Corpus Anima Animacorpus

 

Contava gaivotas. A praia tem uma zona húmida onde à tardinha elas pousam. Não pousavam para ficar. Estão sempre em movimento e é difícil registar. Contou 16, mas passados uns segundos esse número já não estava certo.

Uma pequena distracção neste ofício permite-lhe ver que alguém se aproximava. Não era gaivota, mas tinha tudo de ave e foi com essa ave que voou na hora em que o sol se punha.

(exercício de escrita automática após a acção – SBA, 20Nov2024)

 

Esta alma não é uma crença ou aquilo que a crença dita. Essa destitui-nos e, em vez de essência, parece querer ocupar-nos o corpo. Uma espécie de colonização vinda de não se sabe onde, em nome de algo que nos é estranho. A alma é a essência, aquilo que um corpo é. Em latim, o termo para alma é anima. O corpo mexe-se; tem em si um movimento essencial que é visível, mesmo na mais conseguida imobilidade. Ao movimento chama-se, em latim, animatio.

É assim que os corpos falam quando se mexem e quando se detém parados.
Estáticos. Presença física, energia, emoções, intenções.
Extácticos. Experiência estética do corpo em movimento.

Diz-se que podem contar histórias. Talvez sejam apenas história. E por isso, impossíveis de traduzir em palavras.

O espaço enche-se de corpos que vão muito para além das suas dimensões, do seu peso. O movimento amplia e encolhe os corpos. O corpo em movimento abre razões oblíquas entre o espaço e o tempo.

 

E lembro palavras que me desenham formas justas:

We love the things we love for what they are. (Robert Frost)

Poetry is what gets lost in translation. (Robert Frost)

 

A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

Ana Hatherly (2003), Pavão Negro

25 de maio de 2024

media in via erat lacuna

 


Havia um buraco no meio do caminho. Uma lacuna. Não uma pedra, como no outro caminho. Um buraco pode ser mais difícil de ultrapassar que uma pedra, dependendo das respectivas magnitudes. Um seixo da praia pode ser uma montanha e um buraco pode ser um vale, um barranco ou um poço. Mas, se o caminho se faz a andar, por que raio faremos caminhos com pedras e buracos? Se calhar é mesmo da nossa natureza inventar obstáculos para colorir a vida e os caminhos. Deve ser a isso que chamamos paisagem, o conjunto de percepções que nos ajudam a dar sentido ao mundo. Vou ver ao dicionário de latim e encontro ´prospectus´ para paisagem. Significa a acção de olhar ao longe, vista, mas também, próximo de olhar para a frente, contemplar de longe, procurar, descobrir... Não consigo evitar a imagem de promontórios e abismos, porque também os fazemos. Por bem e por mal. A beleza e o medo, o êxtase e a perturbação podem ser simultâneos, como descreveu Stendhal. O promontório de Sagres já me deu algo semelhante e ainda não tinha ouvido falar da doutora Graziella. Tudo pode ser um abismo face ao tamanho com que nos vemos. A pedra do Drummond e o buraco no pavimento da minha rua que os serviços camarários tardam em reparar não chegam para nos esquecermos desse acontecimento que impressiona as nossas retinas fatigadas. Haverá sempre alguém que nos dirá vem por aqui que não há pedras nem buracos e o caminho é seguro. Alguém que já fez esse caminho e o fez assim, seguro. Pois, penso, um caminho sem paisagem não me serve. E digo, ou não digo e apenas penso, não sabes o que perdeste. E talvez, o buraco no meio do caminho, seja essa lacuna, essa perda. O vazio de um caminho sem paisagem.

queijadas de espírito santo


Encontrei uma foto antiga. Quero dizer, não muito antiga, talvez com alguns anos. Quatro, cinco, o que nos dias que correm já confere algum estatuto de antiguidade, ou seja, um posto. Ou um post, uma postagem, uma publicação, uma via de tornar público algo que apesar de uma manifesta falta de interesse se pode tornar interessante ou, mesmo, bastante interessante. Encontrei uma foto. Virei-a à procura de uma data ou algo escrito no verso. Gosto de ser rigoroso na informação. O verso estava em branco. Não como os versos brancos dos poemas sem rima; em branco, mesmo. Sem nada escrito. Logo ali vi a grande oportunidade de me tornar (quem sabe?) escritor. A verdade é que já gastei metade do espaço do verso da foto e começo a sentir-me bem comigo próprio e, até, com alguma vaidade. Páro de escrever e faço algo que não é meu hábito: leio o que escrevi desde o princípio. Corrigi duas gralhas e retirei uma vírgula. Neste momento voltei lá e achei que era melhor voltar a colocá-la no mesmo sítio. Fico um pouco a pensar na angústia dos escritores - os verdadeiros, os encartados , como se diz - perante uma vírgula, um mero sinal de pontuação que uma extinta Guidinha olimpicamente desprezava e, talvez por isso, nunca precisou de ansiolíticos. Mas escrever é mesmo assim e tem estas vicissitudes viciantes como as aliterações e outras funções da linguagem que habitualmente funcionam e quando disfuncionam ainda é mais literário e a escrita até se pode inscrever numa escola ou numa corrente de escrita sem precisar da vacina contra a tosse convulsa. E escrevi um longo período sem sequer uma vírgula. Até fiquei com falta de ar e assim esgotei todo o espaço que tinha para escrever, no verso da fotografia. Mas não o assunto. Por essa razão, a partir de aqui a escrita segue nas costas do talão do supermercado que era o que estava mais à mão. Volto à disfuncionalidade da escrita como estratégia de criação artística porque me parece ser uma boa maneira de ganhar a vida e orientar a luz do sol para a desimportância das coisas. Se assim não fosse, por que motivo investiríamos tanto na transubstanciação de rolinhos de fumo e de queijadas de espírito santo? Mistérios sem resposta, até ver, mas que numa hipótese bastante consistente, será apenas porque sim.



23 de junho de 2021

Gott ist tot

 Tu é que morreste, ó Nietzsche. E viva o Nietzsche a rir às gargalhadas no meio das tragédias gregas!

O Nietzsche enfiou os dedos nas chagas de cristo crucificado. Escarafunchou sadicamente e o gajo nem se mexeu. O cristo não estava vacinado e, sabe-se hoje, aquilo de pregos ferrugentos dá tétano e mata, mesmo sem os respectivos opistótonos que pela sua espectularidade  são sempre uma boa atracção. Foi, não tanto por isso que muita gente julgou tratar-se de deus, mas porque umas pessoas importantes e donos da comunicação social da altura disseram que estava-se mesmo a ver e que o algodão não engana. 

O Nietzsche escancarou a porta para o homem (obviamente, branco) matar o pai (também, obviamente, branco) todo poderoso e protector e salvador e atrever-se, enfim, a conceber-se livre da angústia associada à impossibilidade de pensamento autónomo.

Daí a espalhar que deus está morto ainda vai uma certa distância, mesmo que hoje esteja muito mitigada pelas super-mega autoestradas e cinco gês. Sempre são uns quantos terabites de metafísica!

Lembro-me de uma história que ouvi ou li, não sei a quem, nem quando, nem onde, e que falava de um homem a quem chamavam louco por andar de candeias acesas durante o dia. Dizia que procurava deus e toda a gente se ria. No entanto, entre os não crentes alguém disse: "não vemos deus nenhum; será que o perdemos?"; e, logo outro: "terá fugido como uma criança?"; "se calhar está para aí escondido...". Houve quem dissesse que poderia ter emigrado, embarcado nesses botes que atravessam o mediterrâneo... Depois fez-se um longo silêncio. Até que um gajo de cabelos e barbas já bastante brancas, envergando uma camisola da selecção muito debotada e com dois ou três buracos elevou a voz de modo a projectá-la bem e gritou: "deus, sabem onde está?; matámo-lo!, somos todos assassinos!". Posto isto, olhou à volta e estavam todos a dormir. Abriu uma lata de sardinhas e por ali ficou.


21 de junho de 2021

conta de gerência


dissoneto de quebrantos remendados
(versos quase-bárbaros e meio pasmados)
para o afonso e mais altas esferas

 atirava o pau ao gato sem rancor
quando em menino descalçava as botas
esbaforido pelas ondas de calor

 pouco sabendo de petiscos clandestinos
temperados em suspensão de sol maior
ensaiava danças de passos pequeninos 

no tide o ascensor social coxeava
bainhas ao viés por cima das ourelas
compunham-se de soslaios e a gente a vê-las
com palha d’aço de bigodes ir à fava
 

no bolso andava a fisga e a navalha
papel rasgado com besouros enrolados
filas de letras inclinadas dos recados
que eram ninhos no olhar que nunca falha
 

lídia era a outra margem do ribeiro
e o piquenique de burgueses no pinhal
do marquês da lagoalva era o principal
principiando a florir esse primeiro
 

beijo e pele para além da prescrição
da tal pestilenta indústria da fé
e tudo o que era longe ficou mais ao pé
das águas livres que um dia acharão
 

a noite abafava os passos na esquina
dobrados ouvidos e olhos delatores
às palavras de fogo-posto onde germina
 

o rumor abrindo a límpida madrugada
é já um fervilhar de veias e abraços
e uma canção na urgência de ser gritada

 

e o que mais houver se acrescentará 

08.06.2021

Voltar

 A chave perdida já vai em sete camadas de ferrugem. Difícil foi encontrá-la no meio de tantos palheiros mais ou menos digitais onde a virtualidade se torna bem mais densa que a bruma da memória.

Venho Gregório e sabe-se lá com que inconsequente missão.


31 de maio de 2018

Um protocolo chamado desejo


Tenho duas pessoas à minha frente na caixa do supermercado. O jovem operador de cerca de 20 anos, cabelo muito aparadinho crescendo muito pouco para o alto da cabeça, vai debitando as frases mecanicamente, tem cartão Jumbo?vai desejar saco?e número de contribuinte na factura, vai desejar?... A certa altura, enquanto a cliente despachada metia as compras no saco, dedilha o telefone fixo uma primeira vez, desliga e depois uma segunda. Já um novo cliente está à sua frente e com a costumeira eficiência repete as frases no tempo certo sobre o cartão e os sacos seguido de um olá gata!... e depois de uma troca melosa de mimos com quem estava do outro lado da linha, pergunta, em simultâneo com os pipiis da leitura dos preços, se a Ritinha está aí ao teu lado... ok, passa-lhe!...Chegou o momento do cliente pagar, mas introduz mal o cartão ou carregou no botão errado e já estamos todos a perceber que a Ritinha é namorada ou está em vias disso. Por meio da apaixonada conversa que inclui horas de saída e onde vamos a seguir, vai dando instruções ao cliente, sem se esquecer de inquirir se vai desejar factura com número de contribuinte e a boa tarde de despedida e o obrigado pela preferência, tudo sem tirar o telefone do ouvido e intercalando os dois registos sem qualquer dificuldade. Atrás de mim, uma senhora suspira e invoca nossa senhora; trocámos um olhar solidário, mas não comentámos mais nada. Entretanto o rapaz já se tinha acertado para mais logo com a rapariga e mais um beijo et al. e tinha pousado o telefone. Sem olhar para mim diz boa tarde e o inevitável vai desejar saco?. Foi aqui que lhe respondi. Não vou precisar. Trago aqui um. De qualquer modo, acho difícil alguém ter desejos por um saco de plástico, mas pode ser… Desta vez olhou para mim e explicou sabe, nós temos de cumprir um protocolo… E continuou a passar as minhas poucas compras e o pagamento, enquanto eu revia mentalmente as referências ao desejo… Lembre-me das máquinas desejantes que poderemos ser de acordo com Guatari e Deleuse… Introduzo o cartão, faço o pagamento e enquanto meto as compras no saco, pergunto-lhe então e esse protocolo inclui namorar enquanto atende os clientes? O rapaz da caixa 26 abriu muito os olhos, sorriu e disse ah, isso não. Respondi-lhe: então, esse protocolo não presta! Ainda lhe vi o sorriso cair para amarelo e de imediato passar ao mecânico normal para a cliente seguinte. Boa tarde, tem cartão Jumbo? E vai desejar saco

1 de novembro de 2016

Balanceio

Há mais de um ano que não escrevo aqui. Preguiça. Não sei se é saudades de um tempo em que escrevia compulsiva e abruptamente sobre qualquer coisa, mas às vezes ainda tenho ganas. Mesmo sabendo que já pouca gente lê blogues... Por preguiça, também, acho. Que eu também quase parei a leitura dos meus blogues de estimação e optei pela facilidade de acesso (e de outras coisas de que também quereria falar) do Facebook onde nos encontramos quase todos como as prostitutas de Amesterdão. Oh, p'ra nós aqui na montra!...
Hoje vim aqui disposto a fazer uma espécie de balanço e depois de uma trabalheira que foi entrar porque o mail que dá acesso tinha tido uma tentativa de intrusão (se calhar fui eu!) e pediram-me para alterar a password e mais não-sei-quê... Depois desta trabalheira toda, chego aqui e tenho uma página em branco e ando às voltas para não me cruzar de frente com os meus medos. Mas eu estou convencido de que sou mesmo bom é a rir-me disto tudo. Só não consigo rir da dor.
Estes últimos meses foram marcados por várias peregrinações clínicas, liturgias médicas, eucaristias diagnósticas (e a carestia disto tudo!) em duas pessoas que se amam e acompanham. Diagnósticos para dois deviam ter descontos. Valha-nos por isso a santa ADSE que penitentemente pagamos há tantos anos! Temos "tristeza das células", como escreveu Jayme Ovalle, puxado por Vinicius para o seu poema Sob o Trópico de Câncer, em 1969. Mas deixemo-nos de evasivas. O que temos é um fascista de um cancro a apropriar-se das nossas células. Uma germinação burguesa e capitalista que nos acompanha dentro de nós da mesma forma que habita as sociedades. À mais pequena oportunidade, descuido, permissividade, sei lá! salta para a rua ou lança focos de sabotagem em vários pontos das cidades ou dos corpos. É preciso estar vigilantes. camaradas! Pegá-lo logo pelos colarinhos e gritar-lhes 'No passarán!'. Isto resulta melhor se nunca perdermos a nossa capacidade de rir. Se um dia formos vencidos (coisa que não estou disposto a conceder) e tivermos de morrer, que seja a rir!
Eu, a minha rapariga e uma amiga chegada estamos em luta contra esta cambada fascista. É também uma aprendizagem e uma experiência. Não estamos a morrer. Estamos a viver de forma disferente e a lutar. Unidos Venceremos! E... A luta continua!

Balanceio

Há mais de um ano que não escrevo aqui. Preguiça. Não sei se é saudades de um tempo em que escrevia compulsiva e abruptamente sobre qualquer coisa, mas às vezes ainda tenho ganas. Mesmo sabendo que já pouca gente lê blogues... Por preguiça, também, acho. Que eu também quase parei a leitura dos meus blogues de estimação e optei pela facilidade de acesso (e de outras coisas de que também quereria falar) do Facebook onde nos encontramos quase todos como as prostitutas de Amesterdão. Oh, p'ra nós aqui na montra!...
Hoje vim aqui disposto a fazer uma espécie de balanço e depois de uma trabalheira que foi entrar porque o mail que dá acesso tinha tido uma tentativa de intrusão (se calhar fui eu!) e pediram-me para alterar a password e mais não-sei-quê... Depois desta trabalheira toda, chego aqui e tenho uma página em branco e ando às voltas para não me cruzar de frente com os meus medos. Mas eu estou convencido de que sou mesmo bom é a rir-me disto tudo. Só não consigo rir da dor.
Estes últimos meses foram marcados por várias perigrenações clínicas, liturgias médicas, eucaristias diagnósticas (e a carestia disto tudo!) em duas pessoas que se amam e acompanham. Diagnósticos para dois deviam ter descontos. Valha-nos por isso a santa ADSE que penitentemente pagamos há tantos anos! Temos "tristeza das células", como escreveu Jayme Ovalle, puxado por Vinicius para o seu poema Sob o Trópico de Câncer, em 1969. Mas deixemo-nos de evasivas. O que temos é um fascista de um cancro a apropriar-se das nossas células. Uma germinação burguesa e capitalista que nos acompanha dentro de nós da mesma forma que habita as sociedades. À mais pequena oportunidade, descuido, permissividade, sei lá! salta para a rua ou lança focos de sabotagem em vários pontos das cidades ou dos corpos. É preciso estar vigilantes. camaradas! Pegá-lo logo pelos colarinhos e gritar-lhes 'No passarán!'. Isto resulta melhor se nunca perdermos a nossa capacidade de rir. Se um dia formos vencidos (coisa que não estou disposto a conceder) e tivermos de morrer, que seja a rir!
Eu, a minha rapariga e uma amiga chegada estamos em luta contra esta cambada fascista. É também uma aprendizagem e uma experiência. Não estamos a morrer. Estamos a viver de forma disferente e a lutar. Unidos Venceremos! E... A luta continua!

10 de setembro de 2015

No rasto dos poetas:A gentileza dos cegos

Um dia dei com um poema que me chamou a atenção pelo que nele há de paradoxal e, para além das reflexões que fiz sobre as coisas que fazemos no dia-a-dia e não reparamos, pensei logo levá-lo para as aulas de comunicação e relação. Faz-me pensar em tudo o que fazemos sem ter em conta a situação particular do outro, mas, pior, como se o outro visse e pensasse o mundo como cada um de nós o vive e pensa. É um poema de uma poetiza polaca já falecida e que foi prémio Nobel em 1996. Chama-se Wislawa Szymborka (1923-2012).
Há uma tradução brasileira, mas fiz uma nova a partir da versão em inglês traduzida do polaco por J. Kostkowska.
A gentileza dos cegos

Um poeta lê para os cegos.
Ele não suspeitava de como era tão difícil.
A sua voz falha. As suas mãos tremem.
Ele sente que aqui cada frase
fica sujeita à prova da escuridão.
Ela terá de valer por si própria
sem luzes ou cores.
Uma aventura perigosa para as estrelas do seu poema,
para o amanhecer, para o arco-íris, para as nuvens, para os néons, para a lua,
para o peixe, até agora tão prateado, dentro de água,
e para o gavião tão silenciosamente alto no céu.
O poeta lê – já é demasiado tarde para parar –
sobre um menino de casaco amarelo no verdejante prado,
os telhados rubros que salpicam o vale,
os movimentados números nas camisolas dos jogadores
e a desconhecida nua na porta entreaberta.
Ele gostaria de não mencionar – embora já não possa –
todos aqueles santos no tecto da catedral,
aquela onda de adeus na janela do comboio
a lente do microscópio, o raio de luz na pedra preciosa
o ecrã do cinema, e os espelhos, e os álbuns de fotos.
Ainda assim é grande a gentileza dos cegos,
grande a sua compaixão e generosidade.
Eles escutam, sorriem e aplaudem.
Um deles até se aproxima
com um livro de cabeça para baixo
a pedir um autógrafo invisível.

A poet is reading to the blind. He did not suspect it was so hard. His voice is breaking. His hands are shaking. He feels that here each sentence is put to the test of the dark. It will have to fend for itself without the lights or colors. A perilous adventure for the stars in his poems, for the dawn, the rainbow, the clouds, neon lights, the moon, for the fish until now so silver under water, and the hawk so silently high in the sky. He is reading - for it is too late to stop - of a boy in a jacket yellow in the green meadow, of red rooftops easy to spot in the valley, the restless numbers on the players' shirts, and a nude stranger in the door cracked open. He would like to pass over - though it's not an option - all those saints on the cathedral's ceiling, that farewell wave from the train window, the microscope lens, ray of light in the gem, video screens, and mirrors, and the album with faces. Yet great is the kindness of the blind, great their compassion and generosity. They listen, smile, and clap. One of them even approaches with a book held topsy-turvy to ask for an invisible autograph.

22 de abril de 2015

Coisas do meu quintal

No meu quintal há um cágado responsável pelo inventário e pelo registo de presenças do melro e da passarada namoradeira. Fora isso é tudo horta poética. Horto-gráfica no desenho dos canteiros metafísicos e cronofágicos. Na vertical, o meu quintal é infinito e por isso, ele é maior do que o mundo.

Segui uma pista. Um sinal dos sinais da manhã do Fernando Alves e fui dar ao poeta Manoel de Barros, poeta esquecido de quem pouco mais conhecia do que o nome através do elogio de outro dos meus poetas - Carlos Drummond de Andrade.
Fiquei com a impressão de que o Manoel de Barros também visita o meu quintal. Vou reparar melhor.

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel Wenceslau Leite de Barros  (1916-2014), poeta da chamada Geração de 45 e formalmente enquadrado no pós-modernismo brasileiro (Wikipédia).

19 de março de 2015

Um homem da terra

Viveu os seus anos todos a misturar a sua vida com a terra e as searas e as vinhas e as oliveiras sem medo do sol do estio ou o rigor das geadas. Ria-se das agruras convencido de que tudo isso o "enrijava". Homem do campo, trabalhava até ver e à noite - durante alguns anos à luz do candeeiro a petróleo - lia esteiros e fangas e gaibéus em searas de vento. E também Gorki e Zola e Steinbeck e Amado. Pequeno, saltava-lhe para o colo e queria saber o que diziam os livros. Cedo levou-me à biblioteca da Sociedade Filarmónica e ainda hoje tenho na memória o cheiro dos livros e o fascínio das lombadas alinhadas. Fez apenas a instrução primária, mas deve ter lido muito mais do que a maioria dos licenciados de hoje. Brincávamos ao jogo de dizer as capitais de todos os países do mundo...
Um dia escreveu uma carta ao ministro da educação a pedir uma bolsa para que o filho pudesse estudar.
Ensinou-me tudo o que foi necessário para que pudesse continuar a aprender.
Misturou-se definitivamente com a terra na passada segunda-feira e no seu humor muito particular não teria deixado de fazer uma graça com o facto de ir para a terra com a alma encomendada aos céus.
Era o meu pai.



https://www.youtube.com/watch?v=PzeQwBTbOpw

17 de maio de 2014

O teatro do aborrecimento mortal

"O Teatro do Aborrecimento Mortal reconhece-se à primeira vista, pois é sinónimo de mau teatro. Sendo esta a forma de teatro mais frequente, e aquela que se encontra mais associada ao teatro comercial, alvo de desprezo e de ataques constantes, poderá parecer uma perda de tempo insistir em criticá-lo. Contudo, só teremos consciência da real dimensão do problema se percebermos que as coisas aborrecidas são enganadoras e que podem surgir em qualquer momento".
(Peter Brook, O Espaço Vazio)

Acabado de vir do comício do Bloco de Esquerda, em Faro, onde fui ver se me convencia a ir votar no próximo dia 25, nas eleições para o Parlamento Europeu.
A única coisa que me animou foi a reivindicação da "reestruturação da dívida" que o BE continua patetalegremente a proclamar como sendo uma coisa de esquerda e que reclamará como uma grande vitória no dia em que a direita tomar isso como um feito seu. Inevitavelmente.
Sobre a Europa não ouvi uma ideia. Apenas que existem alternativas e que há outros com quem estão unidos no PE. Enfim, o discurso político do "aborrecimento mortal". Na forma não se distingue muito dos outros. E aqui, a forma é também conteúdo. Mortal. Uma esquerda a tornar-se mortal para si própria.

18 de setembro de 2013

A Praia I

N minha terra não havia mar. Pelo menos para mim. Sabia do Carril e do Toco onde as mães iam lavar e isso era uma verdadeira praia com juncos e espadanas e peixinhos pequeninos à nossa volta. Ouvia falar da praia. Que tinha areia. E na minha imaginação aparecia um enorme monte de areia, muito maior do que aquele que uma camioneta tinha descarregado em frente da casa do Ti Paulino, para fazer obras, e onde eu me deliciava a brincar. Claro que isso me custou umas duas palmadas no rabo que a minha mãe era célere em questões de justiça que administrava logo ali à frente do queixoso de que eu tinha espalhado a areia toda. Alma danada, acrescentava o nosso vizinho com ar zangado. Hoje penso que fazia aquilo para que se parecesse mais com uma praia que eu nunca tinha visto. A minha tia, irmã do meu pai, casara-se com um pintor da construção civil que também era ciclista. Livre dos preparativos das vindimas e da venda dos melões e também por já ser um bocadinho rica, começou a ir todos os anos à praia. Juntava-se com uma amiga e iam as duas à Nazaré alugar uma casa para quinze dias, para as duas famílias. Nazaré era palavra que não se pronunciava por ser desnecessária. Toda a gente se entendia apenas com o nome Praia. A primeira vez que fui à praia teria pouco mais de três anos. Dizem que não temos memórias de antes dos quatro, mas não acreditem. Apanhava-se a camioneta dos Claras, isso soube mais tarde, e lembro-me do cheiro que exalava dos bancos e que me agoniava. Eu forte como era e com o entusiasmo de ir para a praia, aguentava, enquanto o Raimundo, a meu lado, já tinha vomitado pelo menos duas vezes para uma toalha. Aquilo cheirava quase tão mal como todo interior da camioneta, mas alguém abriu o vidro e a coisa melhorou. O Raimundo, mais velho que eu, um ano ou dois, olhava para mim, verde e quase a revirar os olhos. Empoleirado no banco conseguia saborear o ar na cara e o cheiro dos pinhais. Um ronco mais intenso do motor, uma subida, um ligeiro tombo no início de descida e uma explosão de vozes exclamativas. Parecia-me ouvir “o Mário… o Mário!”. Eu conhecia dois Mários. Um era o barbeiro onde o meu pai ia ler o jornal e outro era um vizinho que andava sempre de fato-macaco azul e sujo de óleo porque andava numa oficina a aprender o ofício. Bem rodava a cabeça, mas não consegui reconhecer em nenhuma das caras, um desses Mários. Pouco depois e sempre a descer entrámos casario dentro por ruas onde andava muita gente a pé e um cheiro esquisito no ar. Tínhamos chegado à Praia e eu nem sabia que havia mar.

4 de abril de 2013

A monção de Sençura

Apreceu um tal miguel de mão dada com outro de igual nome com um discurso a lembrar salazarentos aforismos do tipo Eu não percebo nada de política A minha política é o trabalho
Todos sabemos é bom haver chuva no nabal e que ainda é cedo para o sol na eira e cestos de vindima E tem chovido bem e tanto nesta monção primaveril que só falta mesmo uma delibração de santa bárbara para um despacho trovejante Já não há gaivotas em assembleia apesar dos temporais Os corvos negros tornaram-se intemporais e nem mesmo uma ave de arribação é capaz de trazer um rasgo de primavera
Há um país cativo numa espécie de síndroma de estocolmo que aguenta aguenta de estocada em estocada até á sangria final
E a política E a esquerda E a oposição
Ainda não vi ninguém preso Por isso não existem
É primavera pá Continua a chover

31 de agosto de 2012

Blue moon e outras teorias

Há poéticas espalhadas nas notícias a cruzar a ciência do espaço com outras órbitas e trajectórias do amor. Achei-me já tantas vezes a navegar por algumas dessas distintas poéticas incluindo as mais óbvias e não desdenho nada de quem, mão na mão tece promessas de amor feliz com a lua por testemunha.
Aprendi de miúdo a reconhecer e a quase venerar o luar de Agosto, aquele que nos permitia brincar na rua até altas horas e jogar com as sombras. Saberá disto quem cresceu no campo e brincava em terreiros desprovidos de iluminaçao pública. Na escola aprendi coisas mágicas e saberes deliciosos sobre a lua. Compreender as fases da lua, a sua eclíptica e tudo o que envolve o que é aparente e inaparente neste satélite, abriu-me um largo campo de metáforas que vão muito para além dos sortilégios e juras de amor.
Hoje está na noite o que se chama uma "blue moon" (foi tema de uma canção que também ouvia na rádio - não sabia o que dizia a letra, mas era sempre anunciada como "lua azul") e quase que a vi nascer. Apanhei-a assim, a partir do cais de Faro, a subir entre Olhão e a ilha do Farol.
Assim sendo, se hoje alguém se sentir personagem de um romance, estrofe de um poema, parte de uma sinfonia, movimento de um bailado... devem ser mesmo os famosos efeitos da lua.

O crepúsculo de hoje no cais.

19 de junho de 2012

Questões de tempo

Illiers-Combray                                                                                               Imagem daqui

À la recherche du temps perdu é um longo romance de Marcel Proust que nunca li e não sei se conseguirei ler alguma vez. Apesar de a tentação ser grande, estou mais capaz de seguir aquilo que julgo ser a própria sugestão proustiana: não me apetece perder tempo com tanta literatura.
Tudo isto porque venho de ler o livro de Alain de Botton, Como Proust pode mudar a sua vida, onde aquela obra é profusamente citada e comentada.
Um aspecto comentado por Botton relacionado com alguns sintomas de "leitor excessivamente reverente e dependente" é a atracção por visitar Illiers-Combray. Illiers era uma pequena povoação de pouco mais de três mil habitantes onde Proust passava férias de verão em criança e também algumas vezes na adolescência e que utilizou  como cenário ficcional no seu romance chamando-lhe Combray. Desde 1971 (centenário do nascimento de Proust), a cidadezinha chama-se oficialmente Illiers-Combray e tem adoptado uma espécie de folclore com elementos retirados do romance. Assim, é possível ver à porta da pâtisserie-confisserie, uma placa indicando "a casa onde a tia Léonie [personagem do romance] costumava comprar as suas madalenas". É claro que isto é bom para o negócio e os leitores-turistas não deixam de trazer uma embalagem das celebrizadas madalenas literárias.
Há dias, ouvi falar de um "efeito boomerang" a propósito de algumas tradições (neste caso as marchas populares de Lisboa) que parecem ter nascido ali, mas que na realidade vieram de um outro sítio ou foram criadas por alguém em determinado momento e com um propósito determinado e com o passar do tempo tornam-se ícones culturais de uma população. O exemplo talvez mais eloquente em Portugal é o que se passa com os chamados "ranchos folclóricos". Mais ou menos "desenhados" pelos ideólogos do Estado Novo e depois expontaneamente replicados, incorporando temas criados para o cinema ou para o teatro de revista, tornam-se verdadeiros representantes dos vários tipos de portugueses de acordo com a sua região: o vira é do Minho, o fandango do Ribatejo e o corridinho do Algarve, mesmo que seja aquele chamado 'bailo pulado' para mostrar os culottes da moda francesa do cabaret e do vaudeville.

19 de março de 2012

Gaivotas no palco

Atenção banhistas surfistas maristas praístas... E outros artistas Eu Espectador imaginário da praia Eu Também Não sei o que é o algarve E sei Ou parece-me Que ninguém saberá o que é o algarve Mas qual algarve mô O da vila de ameijoas O das mouras encantadas O do mar feito num cão Eu não sei o que é o algarve É por isso que o posso inventar pelos cheiros dos orégãos no molho dos caracóis de maio Pelos olhos dos poetas de cá e outros que vieram cá para se deixarem encantar pelo branco da cal Ou por uma noturna maré de plâncton
Vou continuar à procura desse algarve Por esses palcos fora Mesmo que a primavera anuncie a maior das tempestades e terramotos