19 de julho de 2006

Sonetanso

Eu já tinha avisado
Se me chateia muito desato a sonetar a coisa num trotil poético

Estão a ouvir-me bem
Oi São















(capa do disco Sin Argumentos da banda de rock espanhola Sonotones)


Se um soneto te dá sono manso
que dizer de dois metros de discurso
capaz de anestesiar um urso
ou dar-lhe de guerreiro o descanso?

O pau que ao gato sem querer eu lanço
parte-se em desvios de percurso
e eu de mãos vazias sem recurso
corro um pouco e o sonho alcanço

Não me tragam mais canja discursiva
alinhada no simplex teleponto
já me cresce na tripa maré viva

Com tanto carroucel já fico tonto
já dei para o peditório e com iva
falta-me só cagar p’ra isto e pronto

18 de julho de 2006

10 em Bush!


Pela primeira vez concordo com aquele artolas O que ele diz entre duas tostas com manteiga Ou seja Atacando o qu'houver É muito bem dito Por isso merece 10

"A síria devia pressionar o hezbollah para que pare esta merda..."

Se tivesse acrescentado

"Os eu e mais a ue e mais a rússia e mais a china e mais o japão e mais a austrália e mais o brasil e mais o cacete deviam pressionar israel para pararem esta faquingue chite..."

Até poderia ter 20

10 de julho de 2006

Entre parentes


O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

António Gedeão - Máquina do Mundo


Por isso é que o voar é sempre contínuo E atravessa tempos e fronteiras E desafia nuvens
Um dia fui ter lições de aprender e foi assim que fiquei a saber que já sabia Depois vi que afinal devagar era melhor Já só me falta aprender a parar
Por isso iniciei um calmíssimo programa de treinos por aquele rio acima e aquietar-me na sombra dos salgueiros E depois cruzar as planícies e as marismas entre mouros e celtas E entender que encontros e desencontros são apenas descompassos do aqui e do já
Por isso não me surpreende que o céu tenha tirado os véus pelo anoitecer
Vou estender as asas ao luar

22 de junho de 2006

Verão

Pois veremos Vocês sabem lá
Fui apanhado numa onda Uma vaga de palavras vagas na linearidade dos centímetros à volta da cintura E um imposto sobre o perímetro abdominal seria um roubo igual ao do imposto municipal de circulação que para selo só falta o mãos ao ar Fui medir e a cilindrada é tal que já se equivale a imposto de luxo E pensei Tenho que fazer exercício Desporto e assim Só que isso tem muita mãodobra e além do mais cansa Mas tenho que fazer algum exercício
Decidi pois dedicar-me à prática Moderada Do soneto
Não aquele soneto de alta competição capaz de provocar a morte da pessoa amada exactamente entre os dois tercetos Não Nisso ficou célebre aquele petrarca atleta de fundo que assistiu ao enterro de laura entre o soneto duzentos e sessenta e três e o duzentos e sessenta e quatro Eu é mais aquele soneto-joguingue assim de manter o fito da forma e baixar três milímetros ao perímetro abdominal em jejum
Por ora um por semana Deve chegar E começo com uma coisa leve Decassílabos Lá mais para o outono vou ver se já me aquilato a um alexandrino por mês
Aí vai o meu primeiro exercício na onda do cardiofite nesse

Soneto de quem nada tem para contar

Lancei o olhar sobre os horizontes
Tanto quanto me deixou a perícia
Buscando novas, rumor ou notícia
De palavra escrita e outras fontes

Varri megaciclos de frequência
Espremi canais cabos e antenas
Virei loiras e ruivas e morenas
Até ao limite da paciência

Entre a gripe alada e rouco anderrol
De tudo mirei, escutei e li
Vasculhei pedras duras e água mole

Tirando o teimoso nascer e pôr do sol
Que mais acontece agora e aqui?
Futebol futebol e futebol

21 de junho de 2006

Solstício

O solstício é um vício
13:36

19 de junho de 2006

Princípio G-eme

Andei algum tempo indeciso mas os acontecimentos ultimamente noticiados nos breves intervalos mundialenses activaram a minha coragem A gê-eme é uma verdadeira musa inspiradora quando se azambuja em deslocalizações anunciadas Assim vou mandar um esse-eme-esse ao primeiro ministro zé só É o diminutivo de josé sócrates Ele entra-me em casa tantas vezes que eu tomo a liberdade de o tratar assim E o tal esse-eme-esse é apenas isto
Karo xe xocratx 1º minixtro konvidut p almoxar cmg amnha
E só depois é que lhe faço a proposta Mas só depois da segunda garrafa de pêra manca E que é assim
O nosso país tem abundante mãodobra altamente especializada e uma verdadeira apetência pelo sector Como introdução acho que vai muito bem Valoriza os atributos nacionais e cria uma expectativa positiva Aí ele fica interessado e eu disparo Proponho-me criar mil empregos e assim só te ficam a faltar cento e quarenta e nove mil Sinto o interesse e a curiosidade dele a crescer e é a altura de concretizar a coisa
Deixemo-nos de rodeios dás-me os mesmos oitenta milhões de euros que outros deram à gê-eme e eu abro uma fábrica de punhetas de bacalhau virada para o consumo interno e também para a exportação Contratualizamos que eu dou emprego a mil trabalhadores durante doze anos de modo que só vou chatear outro que já não és tu a dizer que mudo a fábrica para a roménia porque lá cada punheta fica mais barata Deixa lá que o outro Talvez o marques men10 há-de concordar em pagar a diferença e a coisa continua É claro que nessa altura os trabalhadores não têm outro remédio senão ajudar à dramatização e fazem uma greve E o primeiro ministro da altura há-me mostrar o seu empenho pessoal fazendo constar que me telefonou pessoalmente e que até me arranjou umas tailandesas para me fazer umas massagens e cortar-me as unhas dos pés porque eu nessa altura já terei alguma dificuldade em me dobrar Bicos de papagaio e pê-dê-i tazaver
Não há como dizer que não
A seguir convido o predisente a bater a primeira pedra e a probabilidade de ser condecorado no próximo dez de junho é altíssima apenas ameaçada pela remota hipótese de portugal ganhar o mundial porque aí tenho à minha frente o scalori e o mandaril os jogadores o cozinheiro o roupeiro o motorista do autocarro o antigo presidente ex jorge sampaio que até comeu um pigue méque com grave risco para o seu colesterol E mais toda a selecção brasileira por ficarem em segundo lugar e falarem português Terei que me conformar mas a fábrica está no papo

13 de junho de 2006

Portugal no coração

Andámos nós a gastar o medos com a gripe das aves e afinal fomos atacados por epidemia de patriotismo paroxístico Ao longo período de incubação do mundial futeboleiro e da selecção da sagres/tmn em que todos os dias havia alguém em pública oração do pode ser qu'a gente consígamos seguiu-se uma crise aguda bastante grave O dez de junho carago Dia de portugal de camões dos emigrantes que andam lá fora a ganhar a vida da selecção claro (nem era preciso dizer) e dos três ramos das forças armadas E também do presidente da ré pública Por acaso até não esteve mal A cor da gravata absolutamente suprapartidária garantiu a distância suficiente daquela manobra intempestiva dum carro de combate E lá estavam eles a marchar contra os canhões de navarone e a pôr crisâmetos na campa dos egrégios avós que deus haja




















Aqui vai um claro e patriótico exemplo do portugal Aquele que povoa os quartos alugados à hora dos nossos corações O portugal que se autoavalia no máximo da escala de mohs quando a única coisa em que acerta é no pau O pau da bandeira parece-me de boa qualidade Firme e hirto que nem um epopeico alexandrino

O nosso indestino
O presidente ex jorge sampaio também quis dar o seu futebólico contributo ao patrioteiro afã nacional e lá foi ele armado de cachecol e um saco de gritos daqueles que nem a mãe do árbitro escapa Só que o regresso à cidadania tem os seus incómodos e nestas alturas é que se vê a falta que fazem uns seguranças e uns batedores para abrir caminho E é assim que o ex jorge pá chega muito cidadão e não menos exausto a um sítio qualquer E nada melhor para um cidadão exausto que uma cocacola e um piguemeque (depois não queres ter colesterol e infartes e essas coisas) num desses retiros de comida saudável amplamente espalhados pelo mundo chamados mequedónaldes Ora bem Está um gaijo dez anos na presidência para vir de lá pior do que entrou Não sei se vale a pena Se isto é assim ainda podemos esperar ver o presidente cavaco actual a sair cidadão triste e deprimido do euro 2016 onde a selecção (do soclari durante um intervalo dos seus delírios místicos de masturbação assistida por nossa senhora da recta de pegões) acaba de perder E o cidadão cavaco-deprimido a confessar aos jornalistas que só recuperou do que se passou nas quatro linhas depois de ter senifado duas

11 de junho de 2006

Fenomenologia seleccional

Já passei por momentos muito difíceis hoje
Ok
A equipa da cerveja sagres ganhou à selecção de angola O golo foi marcado por pauleta Aos quatro minutos de jogo
Mas como é que eu posso dizer isto se me aparece um microfone de estagiário em riste a perguntar-me o que achei do jogo Posso ter ali a minha chance de cinco segundos de fama (que depois serão repetidos de meia em meia hora) em todos os horários nobres e plebeus
Posso perifrasear os factos arredondando o esférico e dizer que portugal barra sagres barra tê-eme-ene entrou com o pé direito pelo pé esquerdo de pauleta quando o ponteiro dos segundos tinha apenas completado a quarta volta ao mostrador O esférico animado pelo impacto da bota nike do jogador açoreano descreveu uma trajectório mais ou menos rectilínea violando assim as redes da baliza confiada ao guarda redes angolano
Isto bem esticadinho dá à vontade os tais cinco segundos e parece-me estar bem ao nível de um comentador desportivo de bigode farfalhudo
Ah Não pode ser assim porque não tem emoção Ora bolas (bolas salvo seja) Não tem emoção uma ova O que é preciso fazer então Tenho que dizer palavrões é Não tem emoção o Há lá emoção maior que estar-me a cagar para isso
Mas eu só queria aparecer na televisão

Confesso Nem sequer vi o jogo Mas vi aqueles que viram o jogo em ecran gigante e municipal


Como se pode observar aconcentração é total Dentro de cada cabeça desenvolvem-se algorítmos que driblam os parâmetros essenciais da lógica cartesiana segundo a qual quem marcar mais golos é que ganha Ou numa versão mais prosaica uma vez enunciada por raul maçaroco Lá dentro é que elas se contam
É claro que umas cervejolas também ajudam à visão de jogo Mas só da sagres Foi quem ajudou a pagar a instalação do ecran gigante e a resolver lá aquela coisa com a sportêvê
Na minha opinião (após uma lenta degustação de um tinto de pias) é que falta sobretudo uma conceptualização mais avançada ultrapassando o paradigma positivista Há que apostar mais nas teorias e meio campo e em modelos teóricos mais pragmáticos conciliando a matriz disciplinar defensiva com as teses evolutivas do construtivismo É o que eu penso Mas não em definitivo Até pode ser que amanhã me autorefute no mais puro sentido popperiano


E não parece que o fenómeno interesse apenas a almas cristãs e outras assim
Tenho impressão que até o presidente O cavaco sim Qual é que havia de ser Se não se esquecer há-de falar disso no seu próximo livro autobiográfico de memórias de tudo o que ainda se lembra
O próprio durão dilemava-se todo na inclinação do seu coração coitado

Reparem até onde já chega a evangelização
Ou deveria dizer
Evangeliza cão

8 de junho de 2006

Tudo bons rapazes

Um skinhead

português tenta discursar numa manifestação nazi na alemanha Apela ao ódio aos imigrantes Exalta a superioridade da raça branca e outras subidas defecações

Na multidão um puto loirinho e com borbulhas na cara grita-lhe em alemão

Cala a boca ó preto
E vai pá tua terra

6 de junho de 2006

Vou à feira


Fica aqui afixada a tabuleta

PRAIA temporariamente NÃO VIGIADA
Contador ausente

Recebi um convite amigo para ir à feira estra tarde











Imagem de
Eduardo Abel Gimenez
roubada aqui




Tenho a possibilidade de comprar uns projectos abaixo dos preços de mercado mas isso é o menos importante O que eu gosto mesmo é de regatear a coisa Fingir-me desinteressado Agarrar aquela disputa feroz entre vendedor e comprador como dois gladiadores No final cumprimenta-se sempre com um sorriso franco. Se houve negócio e foi um bom negócio deve ter dado um grande prazer a ambos Se não chegaram a acordo
Amigos como antes

Nunca entendi muito bem aqueles que não misturam negócio com prazer
Para mim é mais
No ócio e no negócio o prazer é o segredo da alma

3 de junho de 2006

Band(alh)eira portuguesa

Os jacarandás são muita lindos e também cagam os passeios para não falar dos carros estacionados debaixo deles Mas isso só desenvolve a economia porque assim a gente vai mandar lavar o carro e paga dez euros e como ninguém passa factura o iva e o ierrecê ficam nos bolsos do lavador e a desgraçada da economia nem chegou a perceber que foi amplamente desenvolvida por mor da seiva de jacarandá As varandas portuguesas também floriram de bandeiras verdirubro patrioticamente desabrochadas o que em si também é uma verdadeira implementação
A bandeira portuguesa também é uma coisa muita linda Conta a história toda de portugal desde que a afonso henriques nasceu o primeiro dente Ou mesmo antes Se observarmos com atenção até vemos lá um senhor do povo anónimo que se abeirou dum chaparro e este condoído até lhe devolveu um fio de ouro com uma medalha de nossa senhora de fátima também em ouro que ele havia perdido no brasil dois anos antes Logo ali se proclamou o milagre do santo chaparro que ainda por cima cheirava a pitralon
É verdade que há muita gente que não sabe ler a bandeira e isso é grave É grave que se saiba lá fora que a selecção nacional é apoiada por uma maioria de analfabetos em bandeirês que é a lingua que falam as bandeiras Para colmatar essa falha é que há uns senhores que para além da sua nobre e reputada profissão dedicam as horas vagas a ensinar bandeirês ao povo
A nossa bandeira actual não foi fácil de escolher assim democraticamente com o vento e advento da república Ai não foi não Aquilo havia muitas propostas a contar portugal e os portugueses quase todos e cada um queria a sua como é costume até que alguém disse É esta e acabou-se a discussão E toda a gente aplaudiu a seguir e deu vivas a portugal à república e à democracia Havia ali uns anarcas que responderam com manguitos e assobios porque a sua proposta foi rejeitada Mas francamente Uma bandeira toda negra com um das caldas xisel a vermelho não podia ser Era uma proposta restritiva O país não é só as caldas da raínha
Mas pronto
Também quero erguer aqui uma bandeira nacional de apoio à futebulosa selecção com os votos de que tudo corra bem e não volte para casa antes do terceiro jogo Como sou pessoa de amplos consensos e a causa justifica isso escolhi uma bandeira verdadeiramente portuguesa e capaz de unir ricos e pobres cristãos e ateus fascistas e democratas monárquicos e republicanos o clero a nobreza e o povo soldados e marinheiros a pêessepê e a jêeneerre federalistas e independentistas os do contra e os a favor os corruptos os corruptores e ou outros que como são poucos também não interessa muito Dá para todos Como o jogo da bola
Olhem para ela






Aqui é que estão os portugueses todos
Viva portugal total e os portugueses todos




Também acho mal que todos portugueses saibam cantar a menina estás à janela e não saibam a letra do hino nacional
TODO

I
Heróis do mar, nobre Povo, Nação valente, imortal Levantai hoje de novo O esplendor de Portugal! Entre as brumas da memória, Ó Pátria, sente-se a voz Dos teus egrégios avós Que há-de guiar-te à vitória! Às armas, às armas! Sobre a terra sobre o mar, Às armas, às armas! Pela Pátria lutar Contra os canhões marchar, marchar!
II
Desfralda a invicta Bandeira, À luz viva do teu céu! Brade a Europa à terra inteira: Portugal não pereceu Beija o solo teu jucundo O Oceano, a rugir d'amor, E o teu braço vencedor Deu mundos novos ao Mundo! Às armas, às armas! Sobre a terra sobre o mar, Às armas, às armas! Pela Pátria lutar Contra os canhões marchar, marchar!
III
Saudai o Sol que desponta Sobre um ridente porvir; Seja o eco de uma afronta O sinal de ressurgir. Raios dessa aurora forte São como beijos de mãe, Que nos guardam, nos sustêm, Contra as injúrias da sorte. Às armas, às armas! Sobre a terra, sobre o mar, Às armas, às armas! Pela Pátria lutar Contra os canhões marchar, marchar!

Ah Porque é que não pegam nestes putos Dão uma bandeira a cada um e vão para a alemanha na claque da selecçon A ministra da educaçon anda mesmo distraída

31 de maio de 2006

Canto

EPÍGRAFE
De palavras não sei. Apenas tento
desvendar o seu lento movimento
quando passam ao longo do que invento
como pre-feitos blocos de cimento.


De palavras não sei. Apenas quero
retomar-lhes o peso a consistência
e com elas erguer a fogo e ferro
um palácio de força e resistência.


De palavras não sei. Por isso canto
em cada uma apenas outro tanto
do que sinto por dentro quando as digo.


Palavra que me lavra. Alfaia escrava.
De mim próprio matéria bruta e brava
- expressão da multidão que está comigo.


José Carlos Ary dos Santos


Hoje acordei a cantar Um canto redondo e sem palavras Apenas um silêncio sábio no compasso da distância onde todas as aproximações são possíveis
O mundo espera E há uma palavra madrugada salvadora atada e cega na garganta

28 de maio de 2006

Pelasta maailma

Na ausência total de qualquer explicação,
somos o testemunho involuntário da encenação de uma
série de crimes
Joaquim Pessoa. Vou-me embora de mim

Bem que eu sonhava em salvar o mundo Este mundo inquinado de gente que já o quis salvar E já só acredito nas minhas utopias tal como outros acreditam em deus E no ginseng E nos bífidos activos E na selecção (ia dizer natural mas já só há fresca e com sabores) nacional Vou continuar a acreditar Sei que não salva o mundo É apenas uma forma de (r)existir com ele

Kaunis on rumaa, sanot ja minua paleltaa vaan en lähde mihinkään
Kun avaat ikkunan ja annat tuulen puhaltaa kadulla ei näy ketään jolle huutaa kiitos
Avaat rintani kuin lyhdyn sytytät sinne kynttilöitä liekki on ihmisen elämän muotoinen
Ja kuu valkea käy yli kattojen valaisten meitä ja kuu valkea käy yli kattojen rohkaisten meitä
Niin, pelasta maailma tee se jo tänään tee jotakin mahdotonta
Kaunis on rumaa, tiedän ja helppo on halpaa vaan en voi uskoa sattumaan vaikka tuuli kääntää lehtiä
Sama tuuli kaikkialla ennenkuin kaikki särkyy tämä hämärä muuttuu muistoksi ennenkuin häviää
"Katso kuinka ankarina pilvet kulkee kasvoillani kuinka voisin ihmeen tuoda
Mahdotonta älä pyydä älä pyydä itsellesi."

CMX Rautakantele

(O belo é feio, dizes e eu sinto o frio mas não parto para lado nenhum
Quando abres a janela e deixas o vento soprar, na rua não há ninguém a quem grites:obrigado
E a lua branca atravessa os telhados e faz-nos implorar
Isso Salva o mundo Fá-lo hoje Faz o impossível
O belo é feio, eu sei é fácil é barato mas já não posso acreditar que é por acaso se o vento virar as folhas
O vento é o mesmo em toda a parte antes que tudo se quebre
Este escuro transforma-se em memória antes de se perder)
Tradução necessariamente manhosa feita em guardanapos (que guardo zelosamente) de papel (manchados de cerveja) por uma amiga filandesa de quem tenho saudades
Onde andas Kikke Heikkinen?

27 de maio de 2006

E se de repente alguém percebesse…

que o país e a europa e as américas e quase todo o mundo estão na realidade dominados por extraterrestres que se divertem a entreter-nos com jogos florais para todos os gostos o que ainda fica um pouco dispendioso mas tem que ser até ao dia em que todos gostem só duma coisa
os etês que nos governam andam aí disfarçados
metem-se nas latas de refrigerantes e nas garrafas de cerveja e nos telemóveis e nos carros e nos bancos e depois sentam-nos a ver televisão para que nos levantemos a seguir para ir onde nos querem
não há como escapar
a biblioteca municipal raul brandão tem muito mais sócios que o vitória de guimarães mas foram estes que quase arrasaram a cidade aqui há tempos
portanto
aqui há gato
uma moça que nunca ninguém ouviu falar ganha uma medalha de ouro no salto em comprimento e o que mais se ouviu foi que um jovem acelera ficou em honradíssimo décimo sexto lugar que por acaso era penúltimo
uma desconhecida telma torna-se campeã europeia de judo e poucos saberão o seu apelido contrastando com os vales e santos e quaresmas e moutinhos e lourenços e meireles da equipa da sagres/tmn
ninguém percebe não faz mal e ponham isto na conta de mais uma paranóia minha e já agora acrescentem uma nota em pé de página a dizer que os paranóicos também podem ser perseguidos
agora tenho que ir
mas com um dilema terrível
não sei se vou a o festival da sagres se da superboque
já sei
vou é comer uns caracóis e bebo do que houver

17 de maio de 2006

Menina do mar



Esta menina do mar e de amar faz hoje oito anos
Esta menina do mar é uma prenda

Parabéns
E não te atrapalhes muito no crescer

16 de maio de 2006

És minha

(...)
Vem, serenidade,
e faz que não fiquemos doentes, só de ver
que a beleza não nasce dia a dia na terra.

E reúne os pedaços dos espelhos partidos,
e não cedas demais ao vislumbre de vermos
a nossa idade exacta
outra vez paralela ao percurso dos pássaros.

E dá asas ao peso
da melancolia,
e põe ordem no caos e carne nos espectros,
e ensina aos suicidas a volúpia do baile,
e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem,
e não apagues nunca o fogo que os consome,
o impulso que os coloca, nus e iluminados,
no topo das montanhas, no extremo dos mastros,
na chaminé do sangue.
(...)
Serenidade és minha. Raul de Carvalho

Às vezes é preciso juntar alguns dias mais mansos para fazer uma verdadeira praia Mesmo sem outro mar que não o da tranquilidade do luar maior Sem outra areia que não aquela que enche as camionetas da memória
E somos riso e faca Veludo e aço Ácido mel Feira e remanso
E o tempo é marcado pelos ponteiros das conversas Pela batimetria dos silêncios
Pelas cores herdadas da Maria Helena Pela carta de Sena e pelo mundo que só é nosso apenas pela obrigação de o salvarmos

Afinal é possível passar ao lado da meta-maternidade da selecção nacional

12 de maio de 2006

Completamente nu no mel

Ou numa banheira de espuma Tanto faz
Olimpicamente há quem nasça já deputante gatinhando sempre em direcção à meca para lamentar Os primeiros grunhidos melismáticos parodiavam já uma célebre marcha estadonovense
. Olivença é nossa
. Olivença é nossa

Outros há que aprenderam de leite a ciência do bisgo e da espera das aves canoras Talvez entoassem aquele refrão que dizia
. Nem mais um soldado prás colónias

Moce Confesso
También xou un iberista dum cabrão Carago

10 de maio de 2006

Só se for café...

Sempre ouvi café é que nos salva e acredito piamente (ou piadamente como se diz na piação das gaivotas).

Bento XVI e Durão Barroso debatem futuro europeu
Durante a audiência, Durão Barroso ofereceu ao Sumo Pontífice uma estátua da Virgem de Fátima em porcelana.

Com tanta loiça que há nas caldas...
Poderia ter oferecido um serviço de café.

9 de maio de 2006

No bico duma gaivota

Por detrás do baile do fato de treino dança uma outra realidade. O cabo de mar deu ordem para limpar todos os ninhos das praias pequenas. Ovos (ouviram?) só nas enseadas vigiadas por banheiros certificados de acordo com a postura do direito marítimo.

O cavalheiro foi cronificado logo após a confissão. Iberista confuso é pecado patrioteiro.
Iberista. O outro é economista e ninguém reclama.

Hoje há chocos com tinta. Tecnológicos só para a semana.
Manuscrítica críptica à sobremesa.
É o regime da dieta ética de patriotismos batidos em castelo.

3 de maio de 2006

O triunfo dos porcos












A Ribeira dos Milagres é a grande metáfora de Portugal
(«este país» como é conhecido cá dentro).
O império da merda governado por suínos que mal se sustêm nas patas traseiras.
Tribunais que brincam à justiça e põem dois murcões a pagar a mesma indeminização um ao outro.
No dia em que se dá mais um golpe na segurança social e se faz mais um assalto aos bolsos dos auto... martirizados abrem telejornais com o scolari.

Uma gaivota voava...

11 de abril de 2006

No mais musa, no mais...

Já carrego nervos a mais para a minha carroceria.
O Estado permite e ordena que me cobrem mais de cinco euros de taxa mensal de rádio e televisão quando eu para além de pagar tv por cabo e não ouvir a RDP porque a probabilidade de estar a transmitir um relato de futebol ou conversa sobre o dito deve rondar os oitenta por cento e o mesmo se passar com a televisão pública que para além disso ainda me dá missas e procissões. Mas noutros canais a coisa não melhora muito. Há dias este labrego da foto
e de seu nome muito artístico rui bandeira cantava a plenos pulmões num tó que xou:
ESTÃO A CHOVER ESTRELAS
ESTÃO A CHOVER ESTRELAS
ESTÃO A CHOVER ESTRELAS
assim mesmo e muito repetido não vá dar-se o caso de alguém não reparar. Impressionante. Isto foi gravado num estúdio e ouvido por muita gente aintes de sair. Possivelmente não estaria lá a senhora da limpeza. Daquelas mulheres que vieram da província apenas com a quarta classe das antigas mas que fazem melhor uso da língua que muitos licenciados em comunicação social. Alguém que reivindicasse assim: ó pá se as estrelas chovem eu também quero chover. porque é que eu não chovo pá?

Há uma semana atrás um sondagem revelava que mais de cinquenta por cento dos portugueses ainda não tinha qualquer opinião sobre o desempenho de cavaco como presidente da república. Não demorou muito para que o próprio viesse confirmar que cem por cento de cavaco não tem opinião sobre coisa nenhuma. Foi na visita ao hospital da estefânia no dia da saúde.
Perguntado sobre o que achava sobre o polémico encerramento de algumas maternidades o senhor professor presidente faz uma introdução em que explica que os cuidados de saúde têm vindo a melhorar ao longo dos tempos e quando se espera que diga realmente o que pensa (e as possibilidades politicamente correctas são imensas) remata sabiamente com a importância da educação para a saúde das nossas crianças. Pois.
Se bush serve para os americanos porque é que cavaco não haveria de servir para os portugueses.
Digna de estudo neurolinguístico é a expressão facial do ministro da saúde ali mesmo ao seu lado esquerdo e ligeiramente atrás. Esse sabe-a toda!
Parece que os técnicos de saúde autorizados a falar à comunicação social foram escolhidos a dedo. E mal. O director do hospital teve que mandar calar uma médica que já se estava a estender muito.

(A quem achar que fica mal não pôr vírgulas direi que estou a poupar A seguir vão os pontos Já não posso cortar em mais nada)

30 de março de 2006

mira-me miragem











Entre a miragem e a realidade cabem todas as ilusões

Havia uma pedra

Media in via erat lapis
erat lapis media in via
erat lapis
media in via erat lapis.

Non ero unquam immemor illius eventus
pervivi tam míhi in retinis defatigatis.
Non ero unquam immemor quod media in via
erat lapis
erat lapis media in via
media in via erat lapis.
Carlos Drummond de Andrade
(ver tradução aqui)


Queria assim tomar uma pastilha para não sonhar. Não se aguenta tanta frustração e neura a começar o dia. Passei a noite a dirigir o ensaio da peça que escrevi. E não me lembro de nada.
Um dia acordei de ler um livro inteirinho que tinha escrito sem fazer ideia do que tratava.

E já não sei porque comecei a escrever isto. Penso que talvez tenha sonhado um encontro com uma secreta gaivota que em piações sussurradas me dita estes ditos.
Há tempos pus-me a contar estes sonhos e lá tive que ouvir: "ganda pedra!"
Mas não. É apenas uma das cinco pedrinhas que deixo cair de vez em quando.

27 de março de 2006

Dia da lua

A segunda feira é mesmo um bom dia para começar a semana.
Já electronizei a declaração imposta quase no limiar do gongue e resolvi também aderir à entrega voluntária de armas.
Não sei se se referiam a estas:

As armas e os barados assinalões
Que da Ocidenta praia Lusital,
Por mares nunca dados navegantes
Passana ainda além da Taprobaram,
Em perados e guerras esforcigos
Mais do que prometana a força humia
E entre gente remaram edificota
Novo Reino, que taram sublimanto;

E também as memosas gloriórias
Daqueles Rando que foram dilateis
A Fé, o Império, e as tosas vicierras
De África e de Ásia andando devastaram,
E aqueles que por obrosas valeras
Se vão da lei da Mando libertorte
Cantando espalharte por toda a parei
Se a tanto me ajudar o engarte e enho.
-- Luões de Camís

Para além disto fiz uma relação das minhas armas de defesa pessoal e de ataque massivo. Mas essas não pretendo entregar nem que o primeiro ministro se rebole no chão com a birra e o presidente abdique para se dedicar à implementação do chocolate de alfarroba. De qualquer modo aqui vai:

2 bic cristal tinta azul mais ou menos a meia carga (uma delas roída na ponta)
1 bic laranja tinta preta
1 corvina 51 tinta preta
1 fibracolor hi-text tinta azul
1 schneider ohp124 permanent-marker tinta preta
1 schneider ohp124 permanent-marker tinta lilás
Cerca de trezentas esferográficas com publicidade desde congressos a campanhas eleitorais

Há ainda um pequeno número de armas mais sofisticadas à espera de serem usadas quando a situação o exigir que por serem secretas não cabe aqui revelar.

Enfim. Coisas de segunda feira...

20 de março de 2006

o equinÓcio é que é nosso!

(porque aqui também se contam os dias...)


Le Printimps (1866) - Bouguereau

se algum deus existe
e criou coisas e me criou a mim
fez-me ateu
mas não isento de espiritualidade e de mística
e muito menos insensível
à beleza dos ritmos da vida
e se algo há de sagrado
só pode ser a Terra


adoremo-la

Quando Lia gama...


...e viola o calendário das memórias só se pode dissolver inquietações na chuva que nos espera depois da remixida de luxo ou da luxúria meio kitsch
e depois passa com chamuças e abadias quod erat demonstrandum no trautear do rossio


A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei

Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está para acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Para ficar pelo caminho

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda
(José Mário Branco )

16 de março de 2006

Quando Natália corria...




As Hespérides são moças algarvias

No Garb realça o azul deuses morenos
À doçura dos figos submetidos.
Vieram gregos. Ficaram Sarracenos.
Nardos enfolham seus nomes esquecidos.


À noite ordenham luas nos terraços,
Dão leite á sombra. Abrolham os perfumes.
Silêncio. Só de um lírio ouvem-se os passos.
Madruga a pesca, rompe um mar de lumes.


Esvoaçam suas túnicas de abelhas
Entre vinhas, seus bêbados recintos;
E quando a amendoeira nas orelhas
Põe flores, deram-lhe os deuses esses brincos.


Vem de turbante o sol e toma posse
De corpos, cactos, milhos e vinhedos.
Excita o açúcar na batata-doce
E despe as almas gregas dos penedos.


Ouro firme, crepúsculos de cinabre
Senhorio de azul. Balcões mouriscos.
Ferve a prata na pesca. O cheiro abre
No ar quente uma vulva de mariscos.


Jardins da Hespéria? Ninfeu de ondas macias,
O mar. As ninfas guardam os pomares.
As Hespérides são moças algarvias
Todas jasmim, da testa aos calcanhares.


Garb de praia e pele magia e lendas,
Branco de extasiadas geometrias.
Absorto o tempo. São gregas as calendas
Com pálpebras de mouras gelosias.


Laranjas, cal, areia e rocha ardente
Têm sede da luz que dá mais vida.
Índigos deuses. Ardor. Tudo é presente.
Causa clara de beira-mar garrida.

Natália Correia (1923 – 1993)

Natália Correia morreu há treze anos.
Ainda ando a comê-la.

9 de março de 2006

Habemos Cavacum











Ainda não consegui habituar-me à ideia...
Mas como não estou autorizado a riscar-me de sócio desta colectividade o melhor é aguentar e cara alegre.
Dizem-me que o que custa são só os primeiros dez anos...
Será?

Pedimos desculpa por esta interrupção





o país

segue

dentro

de

momentos

...mas só depois da beatificação da irmã Lúcia

(em directo em todos os canais)

8 de março de 2006

È per te...



É P’RA TI
É p’ra ti o verde da floresta
E o canto da cotovia
É p’ra ti a fonte de água fresca
É p’ra ti o sol de cada dia

É p’ra ti a brancura das casas
Que avistas do caminho
É p’ra ti que às vezes ganho asas
É p’ra ti o cheiro do rosmaninho

É p’ra ti cada coisa que há, narana, naraná...

É p’ra ti que chove em Cabo Verde
E a gente canta e dança
É p’ra ti um refresco de ananás
É p’ra ti um sorriso de criança

É p’ra ti todo o calor do verão
E a frescura da cerveja
É p’ra ti uma rosa em botão
É p’ra ti o vermelho da cereja

É p’ra ti cada coisa que há, narana, naraná...

É p’ra ti o aroma das estevas
E o doce chá de menta
É p’ra ti o ondulado das serras
É p’ra ti que a vida se inventa

É p’ra ti que o amor transforma
Cada dúvida em certeza
É p’ra ti a pomba branca que voa
É p’ra ti toda a paz e a beleza

É p’ra ti cada coisa que há, narana, naraná...

É p’ra ti o canto que é mar profundo
E cada verso do poeta
É p’ra ti que há uma rosa do mundo
É p’ra ti que há uma chave secreta

É p´ra ti, o dia nove de Agosto
E uma flor do deserto
É p’ra ti que os olhos dão luz ao rosto
É p’ra ti este amor aqui tão perto

É p’ra ti cada coisa que há, narana, naraná...


Piado um dia em português dum cantar de Jovanotti Lorenzo















Per Te
È per te che sono verdi gli alberi
e rosa i fiocchi in maternità
è per te che il sole brucia a luglio
è per te tutta questa città
è per te che sono bianchi i muri
e la colomba vola
è per te il 13 dicembre
è per te la campanella a scuola

è per te ogni cosa che c'è ninna na ninna e...

è per te che a volte piove a giugno
è per te il sorriso degli umani
è per te un'aranciata fresca
è per te lo scodinzolo dei cani
è per te il colore delle foglie
la forma strana della nuvole
è per te il succo delle mele
è per te il rosso delle fragole

è per te ogni cosa che c'è ninna na ninna e...

è per te il profumo delle stelle
è per te il miele e la farina
è per te il sabato nel centro
le otto di mattina
è per te la voce dei cantanti
la penna dei poeti
è per te una maglietta a righe
è per te la chiave dei segreti

è per te ogni cosa che c'è ninna na ninna e...

è per te il dubbio e la certezza
la forza e la dolcezza
è per te che il mare sa di sale
è per te la notte di natale

è per te ogni cosa che c'è ninna na ninna e...

4 de março de 2006

é PIB art dei pá gente


Com tanta festa quase não havia tempo para escrever...

Dois anos a contar gaivotas.
E mal!
Muitas escaparam-se ao conto.
Há que começar de novo.
(estou sempre a enganar-me)

Uma coisa aprendi:
Nunca se conta a mesma gaivota duas vezes

2 de março de 2006

Passarinhos a miar...


Ouvi nas notícias que um gato alemão terá apanhado gripe das aves. Avisem o Luís Sepúlveda que deve ser aquele gato amigo dele de Hamburgo. Aquele que um dia ensinou uma gaivota a voar.


Na minha terra ainda se chama entrudo ao carnaval. E qualquer pretexto serve para se juntarem uns amigos numa adega à volta duns copos e dumas rodelas de chouriça. Assim como quem enfia contas atrasadas de conversas.

23 de fevereiro de 2006

Qu'importa a fúria do mar?...


vejam
bem
que
não


gaivotas
em
terra
quando
um
homem
se
põe
a
pensar


O meu amigo HFR colocou aqui a possibilidade de se ouvir a voz que não se calou.

17 de fevereiro de 2006

Oh se é!...

"É mais cómodo acreditar no que nos consola. Mais difícil é perseguir a verdade. Pois o verdadeiro não precisa limitar-se ao belo e ao bom. O amigo da verdade não deve pretender paz, calma e felicidade, pois a verdade pode ser muito feia e repulsiva".
(Nietzsche)

Dizia-me que ia montar um negócio…
E eu que sou moço assim de acintes ao contrário mandei-lhe logo sem pensar: - e eu vou montar um ócio.
Lembrei-me então que ócio é coisa de pensar para além das minudências dos negócios e nem sequer está ao alcance de quem não tem nada para fazer por estar desempregado.
O verdadeiro ocioso tem que ter a barriga cheia, sentir-se amado ou pelo menos ter alguns amigos, dedicar-se a uma actividade que lhe ocupa a maior parte do tempo… Estão a ver ?
Skholé significa ócio em grego (tempo dedicado ao estudo e à meditação). Em latim era schola ou scholae (mas isso não interessa porque é uma língua morta que já só se usa para coisas como felatio e cunninlingus e et coetra ed alii).
Pois. Vou então montar uma escola de ócio. Só preciso dum sócio.
Aproveito a lassidão post-prandium (mais uma latinada) e medito até no que pode ser um curriculum adequado que consiste em procurar respostas a perguntas mais ou menos candentes e outras decandentes tais como:
Como se chamam os irmãos da irmã Lúcia?
De que se alimentava Buda?
Maomé sabia o que era um after-shave?
Terá Maria Magdalena conhecido algum antepassado do dono da Passerelle?
Santo Agostinho apareceu ao major antes ou depois de morto?
Krishna processou Hitler por lhe roubar a cruz swastika?
Que número calçava Jesus Cristo?

Dizem-me aqui que isto não tem utilidade nenhuma…
Ah não? Então provem!

Agora vou tomar um chá e escutar saturno.

10 de fevereiro de 2006

Caturrismo


Um jornal egípcio (Al Fager) publicou as caricaturas da discórdia em 17 de Outubro de 2005.

Os editores parece que estão bem de saúde.

O ópio do povo continua a impor o seu domínio.
nos templos
nos estádios
nos mercados

9 de fevereiro de 2006

Caricaturra






Qualquer manifestação pública de natureza religiosa ofende profundamente o meu sentimento de ateu.

2 de fevereiro de 2006








Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.


Eugénio de Andrade

29 de janeiro de 2006

scan wass

Li algures que os esquimós têm para cima de um molho de palavras para designar aquilo a que chamamos neve. A mim não me chegam tantas para para exprimir a minha indignação.

Foda-se.

Só vi neve pela televisão.
A minha praia continua de areia.


Resta-meo fabuloso piano de Chano Dominguez em "Hacia Donde".
Questões de sulidade...

23 de janeiro de 2006

Ai!... (suspirotécnico)

Hoje acordei assim:

E vesti luto.
Alivia-me apenas a convicção de que ninguém será capaz de matar o sonho nem de riscar a utopia do mapa do desejo.

Fere-me esta idolatria mais do que todos os crimes:
Tanto fervor desviado e perdido!
Tanta gente ajoelhando à passagem do tempo
e tão poucos lutando para lhe abrir caminho!

Há uma vida inteira a jogar e gastar
no pano verde imenso das campinas do mundo.
Há desertos cativos de uma ausência dos povos.
Há uma guerra devastando a vida,
enquanto a supuserem redimida!
(...)
Jorge de Sena (1919-1978)

19 de janeiro de 2006

Prof.& Cia

E os seus fundamentos serão despedaçados, e todos os que trabalham por salário ficarão com tristeza na alma.
Isaías 19:10
















Como nos vamos livrar deles? Reformá-los não resolve, porque deixam de descontar para a Caixa Geral de Aposentações e diminui as receitas do IRS. Só resta esperar que acabem por morrer
Cavaco (radical) Silva, ao Público (2001)

Esta surda batalha que travo com o mar
é um íntimo desprendimentodas coisas do mundo

Oscar Acosta (1930)

e eu até acho que um dia as gaivotas virão em bandos cobri-lo de glória e de guano
e serão adaptadas as antigas anedotas do thomaz e do bush
e talvez um dia
a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente
em portugal

16 de janeiro de 2006

Um copo vazio...

Era o vinho, meu bem era o vinho...

mas podia ser qualquer assunto.

“Eu não sou especialista de vinhos e estar a escolher um poderia ser injusto em relação aos outros. Não costumo beber vinhos. Para mim, os vinhos bons são os vinhos portugueses”

terá respondido o cãodidato ao Público.

Éróvinhoqueumaisadorava retorquiu-lhe assim:
Pois.

14 de janeiro de 2006

Stand Up Comedy

Stand Up Comedy (SUCks)
Não conheço este.
Mas parece que bate aos pontos os tipos da Sic e mais os Gatos Fedorentos e os Marretas (e a sua versão em português Cavaco-Soares) para já não falar do polícia-sinaleiro-bailarino mandado para a reforma antecipada por um par de semáforos.
Rogue-se já à onu e à unesco e à quercus e à associação pró-vida e à iurde e a toda a convenção de vilar de perdizes do padre fontes: Portugal Reserva Natural. Estas espécies têm que ser protegidas.

(foto laboriosamente roubada ao DN de hoje)

13 de janeiro de 2006

pró quê?

Passar a escrito uma gravação de escuta telefónica não é coisa fácil.
A cacafonia portuguesa é uma verdadeira instituição e assim a modos que capaz de provocar indecisões e hesitações.
Ao ouvir o som "procurador" que devo escrever?
- Pró Curador
-Procura dor
- Pró cu (não percebi o resto)
Ah pois. Era para encomendar uma pizza... Então o contexto pode ser mesmo criptográfico.
- Prok Ur Ador
Prontos. Também não é preciso Isaltar-se...

Argumentum


O Cavaco sem bigode é horroroso!

Pim!

4 de janeiro de 2006

Marqueimar

Falávamos nessa língua em que cada palavra conta uma história. Uma língua que faz nascer palavras das conversas como rebentos e enxertos coloridos.
As palavras não se inventam do nada. São somas e produtos da tabuada do viver.
E depois soltam-se por aí a correr...

3 de janeiro de 2006

Europa Querida Europa


"não sentes um vago um suave cheiro a sardinhas
a algazarra nas ruas e o troar dos tambores
somos nós querida Europa"
Fausto



Cartaz de Tanja Ostojic, para assinalar a presidência austríaca da UE, posteriormente retirado por ordem da censura protofascista europeia.

Bom dia ano novo!

Não há meio de me refazer desta preguiça blogueira. Com tanto mundo para ver e pensar e dizer. E tanto caminho para andar...

Este ano já prometi:
hei-de matar todas as saudades que tenho e todas as que me aparecerem pela frente.

É bom colher medronhos na fonte Benémola.

30 de dezembro de 2005

De pequenino...

Pippini Regalis (Pepino).
Quid sunt stellae?
Albino Scholastico (Alcuíno) .
Pictura culminis, nautarum gubernatores, noctis decor.


Os passos sincopavam na calçada portuguesa nesse ajustamento do desencontro do comprimento das pernas. Brubeck e Desmond urdiram o TakeFive nesse andar alla turca de cinco por quatro e estiveram bem longe da metafísica reflectida nas montras pelo meio da tarde. Mãe e filha discorrem sobre a consubstanciação das estrelas sem tropeções e sem engolir a pastilha elástica.
Assim. De pequenino.

L'année prochaine si tout va bien...

Olharei para os caminhos andados e parecer-me-ão rios cristalinos.



Um bom ano!

14 de dezembro de 2005

sound check


Não sei se alguém ouve o sururu que vai aqui nas conversas entre mim.
As arrumações e armações às vezes armadilham-nos o verbo e entrançam os pensamentos assim numa mescla de sabores entre a hesitação e a audácia. Contudo espraio-me... na vontade de ir ali ao futuro olhar para trás.

5 de dezembro de 2005

A ver...

Há mais a ver gaivotas (e a maioria a ver navios e cavacos) e a ler-lhes o olhar.
Pensar que as aves têm uma narrativa do mundo na ponta do bico e nem precisam de estudar história nem finanças e toda a sua oratória reside nas imperceptíveis (para os humanos) nuances do grasnapiar...
Quando elas permitem a gente pode aproximar-se. Vale a pena aprender-lhes o idioma. Há tanto que lhes queria perguntar!...
Aí Benjamim!!!...

16 de novembro de 2005

Ficamos todos mais descansados..


"Em Fallujah, vi corpos de mulheres e crianças queimados. O fósforo branco rebenta em forma de nuvem e quem estiver num raio de 150 metros não escapa", afirma na reportagem Jeff Englehart, um antigo "marine" e veterano do Iraque que participou na ofensiva.



Ficamos agora a saber que se trata de uma arma convencional. O que faz toda a diferença. Entendamo-nos. Porra!

São armas devidamente testadas na sua eficácia e usadas apenas por estados altamente democráticos e respeitadores dos direitos humanos e detentores da patente de todo o armamento e do alvará para a sua certificação de qualidade.

Nada de confusões. Não se trata de um qualquer fanático suicida com uma bomba à cintura capaz de matar com ele todos os ocupantes de um autocarro de 52 lugares.

15 de novembro de 2005

Al-Gahrbrilho



Há noites assim.
Na TVI ontem.
Duas estrelas duas.
Algarvias
Cavaco Silva e Arlinda Mestre.

Que brilho!

14 de novembro de 2005

Solário mínimo

O vento frio lembrou-me uma outra manhã. Aquela em que deixei um bilhete escrito "vou para a Patagónia" e que ninguém levou a sério porque eu sempre tive a mania de me meter na pele de outros para não estragar a minha. De caminho ainda passei por Passárgada onde tenho um amigo que se convenceu que é rei e anda nú por todo lado e ninguém parece reparar.
E fui assim de reportagem a uma convenção de pinguins em Bahia Mansa sob o (tema do) buraco da camada de ozono e outros estragos feitos ao mundo.
Aqui há um buraco chamado Portugal. E corre um frio em vias de subdesenvolvimento crónico.
Se o engenheiro Pinto de Sousa não tem um projecto para os portugueses que ganham apenas o salário mínimo poderem ganhar quinhentos euros daqui a cinco anos o que está cá a fazer?
Dizem-me aqui que está à espera do Cavaco que há-de vir.
(o Godot manda dizer que está constipado)

13 de novembro de 2005

8 de novembro de 2005

Com Alegre, com afecto

(...)
Vem a noite e mais um copo
Sei que Alegre ma non troppo
Você vai querer cantar
Na caixinha um novo amigo
Vai bater um samba antigo
Pra você rememorar
(...)
Chico Buarque

Poemarma
Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema.

Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa.

Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.

Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês.

Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua.

Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas.
E até se partir uma não faz mal:
antes de muletas que de asas eternas.

Que o poema assalte esta desordem ordenada
que chegue ao banco e grite: abaixo a pança!
Que faça ginástica militar aplicada
e não vá como vão todos para França.

Que o poema fique. E que ficando se aplique
a não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
voltado para dentro. E sem castelos.

Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada anos.

Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo o desejo de achar.

Que o poema diga o que é preciso
que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
E que o poema diga: o longe é aqui.
in O Canto e as Armas


A vida sexual dos partidos deixa nos lençóis um cheiro entranhado por mais que se lavem. O que incomoda mais é aquele hálito lascivo na ourela dos discursos. Fui lá e pintei a vermelho de esperança uma janela daquelas vinte e quatro de um outro poeta por onde há-de passar a alegria e a festa e a loucura e o desejo e o afecto e a música e o teatro e todas as artes e sobretudo o n
ome liberdade.

(O título é do Afonso)

4 de novembro de 2005

Aux larmes citoyens!...

Paris brûle-t-il?
nas circunflexas desigualdades ondula o til das madrugadas

3 de novembro de 2005

Teoria da constipação

O senhor está constipado
e ficou mal de repente
porque não teve cuidado
porque foi imprevidente

Para o mal cujo motivo
está na chuva, frio ou sol
qual o melhor preventivo?
Formitrol, Formitrol, Formitrol!

aquilo que ninguém percebia ficou agora claro na inovadora entrevista por escrito que rui rio deu à rádio virtudes. a enigmática frase «fui para vingar e vinguei» foi logo transformada por cavaco num spread de vinte por cento enquanto a maçonaria varria a loja dos trezentos à procura da agulha cabalística. entretanto sócrates já em tempo de compensação utiliza a última substituição insuflável. mesmo no último minuto o passe foi demasiado curto e passou ao lado.

31 de outubro de 2005

B. Leza ê sabe

Por esta hora estará a decorrer uma despedida de um espaço de encontro de culturas.
Gostava de lá ir beber uma última cerveja e segredar ao ouvido duma mulata aqueles versos em criolo escritos pelas paredes.


Cá tem nada na és bida
Más grande que amor!
Se Deus cá tem medida,
Amor inda é maior!
Amor inda é maior,
Maior que mar, que céu!
Mas, entre ote crecheu,
De meu inda é maior!
Hora de bai,
Hora de dor,
Ja’n q’ré
Pa el ca manchê!
De ca bêz
Que’n ta lembrâ,
Ma’n q’rê
Fica ‘n morrê!
Hora de bai,
Hora de dor!

Sabura na dança - Kiki Lima

Ainda está activa uma petição on line aqui com o seguinte apelo:

« O palácio Almada Carvalhais acolheu o B.Leza e, com ele, tantos quantos os que quiseram vir e participar. Música e não só. Cinema, teatro, Exposições de Fotografia e Pintura, Acções de Solidariedade acompanharam anos de vida de um espaço que se tornou uma referência de lazer e cultura. Situado numa zona da cidade de Lisboa que privilegia o contacto com a comunidade africana, beneficiou desta proximidade, tornando-se um lugar de integração. A Lusofonia conquistou mais este espaço, ampliou alma e alegria. Foram muitos os que passaram pelo B.Leza. Se é um dos muitos que ficou, diga-nos que acredita na importância da continuação deste projecto, aqui ou acolá, subscrevendo este texto. »


ALERTA À POPULAÇÃO



DEVIDO AO PROVÁVEL SURTO DE GRIPE DAS AVES, AVISA-SE A POPULAÇÃO DE QUE
SE DEVEM DEITAR O MAIS TARDE POSSÍVEL.

NUNCA, MAS NUNCA,... SE DEITEM COM AS GALINHAS !!!!!!

(recebido por emalho do Alex)

Arre-piar / Ex-cavacar

Corremos o risco de ter um professor de economia a cuspir gafanhotos duma ciência que não lhe serviu para nada quando era suposto servir.
Veio assim a grande verdade num voo de norte para sul sem fios nem frios nem freios. A autoria já se perde por causa dos ecos nas esquinas do palavrar e assim não se pode render e rendilhar outra homenagem que não esta que é dar aqui por reproduzida a piação:
«Os economistas mandam tanto na economia como os metereologistas no tempo que faz»
O pior é que há tanta gente a acreditar que se o Costa Alves fosse primeiro ministro não teríamos tido um ano de seca.

30 de outubro de 2005

Candid'acto... ou l'optimisme

o senhor engenheiro belmiro acha que o senhor professor cavaco será um bom presidente da república. parece que também acha que o senhor engenheiro sócrates é um bom primeiro ministro e que achou o mesmo de quase todos os outros que o antecederam. lá terá as suas razões.
fui conferir com a minha vizinha zulmira faísca que é mulher trabalhadora que já criou quatro filhos e estava quase a reformar-se... disse-me que não percebia nada de política mas tinha a certeza de que o que é bom para o belmiro não o era para ela e fechou-me a porta na cara.
juro que vou pensar no assunto.

25 de outubro de 2005

Semiótica do querçdzer...


Olha Jacques... melhor seria que viesses ver o meu país de marinheiros. Aprendias a atirar solilóquios sobre as ondas assim a saltar como se faz com as pedrinhas achatadas.
Não sei isto é uma indicação ou uma expressão. Pois talvez não lhe tenha posto Bedeutung suficiente para ser considerado como Ausdrücke als bedeutsame Zeichen.
Na palavra que ob-jecto ofereço a voz ao eco e vens tu agora falar-me da Nicht-Existenz palavra e mais não sei quê. Querçdzer...
Assim não dá Derrida.

24 de outubro de 2005

Crónica de um voo inacabado

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
Alexandre O'Neill

E contava-me ela que uma amiga e companheira de arribações plurais sucumbiu com o peso dos recados e logo se encheram as bancadas e os céus de relatos com transmissões directas muito para lá das incumbências.

Resultado: Agá 5 - Ene 1.

Mas acho que o árbito estava comprado.

23 de outubro de 2005

Hamlet sem ovos


Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.
Manuel Alegre

Desde que me treinei a escrever sem vírgulas tenho vindo a ser acometido de alguns pensamentos profundamente respirados sobre os silvos que cruzam o ar.
Fiz uma sondagem à boca do google sobre as intenções ocultas dos presidentidatos e os resultados são claros.
Manuel Alegre - 2.000.000 referências em 0,06 segundos
Mário Soares - 863.000 referências em 0,03 segundos
Cavaco Silva - 296.000 referências em 0,05 segundos
Jerónimo Sousa- 102.000 referências em 0,11 segundos
Francisco Louçã- 78.000 referências em 0,09 segundos
Verifica-se assim uma clara vantagem da poesia sobre o sono post-prandial apesar de tanto um como outro serem instituições a preservar e também que o Francisco Louçã é claramente prejudicado por ter um til no nome e se um til pode ser útil neste caso é absolutamente inútil.
Posto isto acho que devo aconselhar o Manuel Alegre a aceitar o cargo de presidente da rês pública desde que isso não acarrete prejuízo à poesia.



20 de outubro de 2005

Buganvília em Folha

(ou como os comentários podem ser comensais)

O contador afina pelo piar modal das gaivotas.
Percorre mais os fraseados menores da frígia dúvida existencial ao desconcerto lócrio da excentricidade.
É culpado de tudo menos da coerência. O soluçar das melopeias é mais um esculpir no vazio que nunca se saberá modal ou tonal.
Sentemo-nos. As sereias vão fazer a sua apresentação.

Elocução

Quando o chefe fala somos todos ovídeos.

18 de outubro de 2005

O orvalho aljofra
os bambús verdes.
Dir-se-iam lágrimas.
O vento dormente
perpassa no loto
fazendo tombar
uma pétala rósea.

Devagar a noite
estende o seu manto.
Pelo meu caminho
passam pirilampos.
Das bandas do leste
vem o canto suave
de uma flauta distante.

Huang Wan-Chiung (1712-1763)
China

Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville.

Verlaine


Quando se não dorme acaba-se sempre voando sobre qualquer coisa. E assim foi. Um voo sobre um grande amor ou um grande equívoco (porque a vida real é tão simplesmente aquilo que lhe quisermos chamar) num tapete de poesia.
É verdade que a poesia pode servir para tudo. Até para comer. E ser seta envenenada na aparência bucólica e contemplativa dum lago chinês no século XVIII... E há setas fatais. O curare mata porque paraliza os músculos que nos fazem respirar. Morre-se de asfixia... e sem se matar a saudade lembrada na música que chega sobre as águas...

Estaciono o meu tapete. A vida segue dentro de momentos.

14 de outubro de 2005

Aves: truz truz

Erguem-se barreiras nos céus às aladas arribações. Por causa da gripe. Dizem.
Sabemos de ciência escrita que se não puserem cá os ovos os filhos morrem à nascença.
As que não dão sinais de fome e pobreza seguem pela via verde.

10 de outubro de 2005

e lições?

Esta noite não se ouviram buzinões das caravanas automóveis a cantar vitorias.
Parece que foram substituídos por uma manifestação mais moderna e apropriada ao objecto do festejo e mais económica e mais ecológica. O povo será tão soberano e tão sábio quando vota como quando cospe para o chão e atira beatas pela janela do carro e leva os cães a cagar nos passeios.
Mas apitos dourados não se ouvem na minha praia.

25 de setembro de 2005

Pensamentos violentos

O que eu gostava mesmo era de ter uma kalashnikov de tinta permanente...

23 de setembro de 2005

Há anos assim... incomuns

Trissextos, talvez...
É assim mesmo! Faro Kapital da Çultura destaca-se pela inovação no plano cultural, no plano B, no plano inclinado, no aeroplano e... no melhor plano cai a nódoa.
E para quem se anda sempre a queixar que o tempo não lhe chega, aí vai um Setembro maior.


22 de setembro de 2005

«Ela é Deus na Terra»

Palavras de uma devota de Nossa Senhora de Fátima Felgueiras, em directo para a TVI.
Noutro canal corria uma verdadeira isaltação a uma coisa encarrilhada a que chamam satu...
Eles andem aí!

16 de setembro de 2005

Vim di mar


E fui esgalhar o arinto o olho de lebre o boal de alicante a malvasia o fernão pires e sei lá que mais porque o meu mister não é bem chamá-las pelo nome...
Quando o sol mais teimava em lamber-me as espáduas e a sede se acendia na garganta parei na sombra para a saciar (o que dantes era um cântaro de barro agora são garrafas de plástico cheias de água fresca porque devidamente acondicionadas dentro da mala térmica).
Não sei se foi do sol se de me ter baixado e levantado de repente tive um almareio e senti-me como se nadasse por aqueles vinhedos... e senti-me assim camões a furar correntes da maré verde e folhosa com o poema na mão como se isso fosse salvar a humanidade de qualquer coisa assim como por exemplo do buraco da camada de ozono ou seca noticiosa.
Não resisti. Lavei as mão e tirei o caderninho do bornal (não não é um moleskine...) e ali com as mãos a peganhar lavrei o verso com que se tapa o percurso dos anos duma ruralidade adormecida (acho que foi mesmo só para disfarçar...):



Havias de querer beber-me agora
doce mosto
a meias com o meu suor salgado

15 de setembro de 2005

Contador de Gaivotas

voltei daquilo que alguns chamam férias
para mim, é mais arribações
voar por outras paragens e andagens
outros rios
outros mares
depois conto
em piações mais vagarosas