25 de outubro de 2005

Semiótica do querçdzer...


Olha Jacques... melhor seria que viesses ver o meu país de marinheiros. Aprendias a atirar solilóquios sobre as ondas assim a saltar como se faz com as pedrinhas achatadas.
Não sei isto é uma indicação ou uma expressão. Pois talvez não lhe tenha posto Bedeutung suficiente para ser considerado como Ausdrücke als bedeutsame Zeichen.
Na palavra que ob-jecto ofereço a voz ao eco e vens tu agora falar-me da Nicht-Existenz palavra e mais não sei quê. Querçdzer...
Assim não dá Derrida.

24 de outubro de 2005

Crónica de um voo inacabado

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
Alexandre O'Neill

E contava-me ela que uma amiga e companheira de arribações plurais sucumbiu com o peso dos recados e logo se encheram as bancadas e os céus de relatos com transmissões directas muito para lá das incumbências.

Resultado: Agá 5 - Ene 1.

Mas acho que o árbito estava comprado.

23 de outubro de 2005

Hamlet sem ovos


Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.
Manuel Alegre

Desde que me treinei a escrever sem vírgulas tenho vindo a ser acometido de alguns pensamentos profundamente respirados sobre os silvos que cruzam o ar.
Fiz uma sondagem à boca do google sobre as intenções ocultas dos presidentidatos e os resultados são claros.
Manuel Alegre - 2.000.000 referências em 0,06 segundos
Mário Soares - 863.000 referências em 0,03 segundos
Cavaco Silva - 296.000 referências em 0,05 segundos
Jerónimo Sousa- 102.000 referências em 0,11 segundos
Francisco Louçã- 78.000 referências em 0,09 segundos
Verifica-se assim uma clara vantagem da poesia sobre o sono post-prandial apesar de tanto um como outro serem instituições a preservar e também que o Francisco Louçã é claramente prejudicado por ter um til no nome e se um til pode ser útil neste caso é absolutamente inútil.
Posto isto acho que devo aconselhar o Manuel Alegre a aceitar o cargo de presidente da rês pública desde que isso não acarrete prejuízo à poesia.



20 de outubro de 2005

Buganvília em Folha

(ou como os comentários podem ser comensais)

O contador afina pelo piar modal das gaivotas.
Percorre mais os fraseados menores da frígia dúvida existencial ao desconcerto lócrio da excentricidade.
É culpado de tudo menos da coerência. O soluçar das melopeias é mais um esculpir no vazio que nunca se saberá modal ou tonal.
Sentemo-nos. As sereias vão fazer a sua apresentação.

Elocução

Quando o chefe fala somos todos ovídeos.

18 de outubro de 2005

O orvalho aljofra
os bambús verdes.
Dir-se-iam lágrimas.
O vento dormente
perpassa no loto
fazendo tombar
uma pétala rósea.

Devagar a noite
estende o seu manto.
Pelo meu caminho
passam pirilampos.
Das bandas do leste
vem o canto suave
de uma flauta distante.

Huang Wan-Chiung (1712-1763)
China

Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville.

Verlaine


Quando se não dorme acaba-se sempre voando sobre qualquer coisa. E assim foi. Um voo sobre um grande amor ou um grande equívoco (porque a vida real é tão simplesmente aquilo que lhe quisermos chamar) num tapete de poesia.
É verdade que a poesia pode servir para tudo. Até para comer. E ser seta envenenada na aparência bucólica e contemplativa dum lago chinês no século XVIII... E há setas fatais. O curare mata porque paraliza os músculos que nos fazem respirar. Morre-se de asfixia... e sem se matar a saudade lembrada na música que chega sobre as águas...

Estaciono o meu tapete. A vida segue dentro de momentos.

14 de outubro de 2005

Aves: truz truz

Erguem-se barreiras nos céus às aladas arribações. Por causa da gripe. Dizem.
Sabemos de ciência escrita que se não puserem cá os ovos os filhos morrem à nascença.
As que não dão sinais de fome e pobreza seguem pela via verde.

10 de outubro de 2005

e lições?

Esta noite não se ouviram buzinões das caravanas automóveis a cantar vitorias.
Parece que foram substituídos por uma manifestação mais moderna e apropriada ao objecto do festejo e mais económica e mais ecológica. O povo será tão soberano e tão sábio quando vota como quando cospe para o chão e atira beatas pela janela do carro e leva os cães a cagar nos passeios.
Mas apitos dourados não se ouvem na minha praia.

25 de setembro de 2005

Pensamentos violentos

O que eu gostava mesmo era de ter uma kalashnikov de tinta permanente...

23 de setembro de 2005

Há anos assim... incomuns

Trissextos, talvez...
É assim mesmo! Faro Kapital da Çultura destaca-se pela inovação no plano cultural, no plano B, no plano inclinado, no aeroplano e... no melhor plano cai a nódoa.
E para quem se anda sempre a queixar que o tempo não lhe chega, aí vai um Setembro maior.


22 de setembro de 2005

«Ela é Deus na Terra»

Palavras de uma devota de Nossa Senhora de Fátima Felgueiras, em directo para a TVI.
Noutro canal corria uma verdadeira isaltação a uma coisa encarrilhada a que chamam satu...
Eles andem aí!

16 de setembro de 2005

Vim di mar


E fui esgalhar o arinto o olho de lebre o boal de alicante a malvasia o fernão pires e sei lá que mais porque o meu mister não é bem chamá-las pelo nome...
Quando o sol mais teimava em lamber-me as espáduas e a sede se acendia na garganta parei na sombra para a saciar (o que dantes era um cântaro de barro agora são garrafas de plástico cheias de água fresca porque devidamente acondicionadas dentro da mala térmica).
Não sei se foi do sol se de me ter baixado e levantado de repente tive um almareio e senti-me como se nadasse por aqueles vinhedos... e senti-me assim camões a furar correntes da maré verde e folhosa com o poema na mão como se isso fosse salvar a humanidade de qualquer coisa assim como por exemplo do buraco da camada de ozono ou seca noticiosa.
Não resisti. Lavei as mão e tirei o caderninho do bornal (não não é um moleskine...) e ali com as mãos a peganhar lavrei o verso com que se tapa o percurso dos anos duma ruralidade adormecida (acho que foi mesmo só para disfarçar...):



Havias de querer beber-me agora
doce mosto
a meias com o meu suor salgado

15 de setembro de 2005

Contador de Gaivotas

voltei daquilo que alguns chamam férias
para mim, é mais arribações
voar por outras paragens e andagens
outros rios
outros mares
depois conto
em piações mais vagarosas

26 de agosto de 2005

arbeit macht frei


o grito não precisa de calçadeira e as hierarquias capitais abstergem até os suspiros
improváveis dias na marcial formatura investem na aprovação da calenda imobiliária
nada como espetar um prego na fachada espasmódica do engodo matutino inútil
quando se exorta à emundação das incertas e passífloras decisões


afinal
quantos anjos se podem pôr a dançar em cima da cabeça de um alfinete?

25 de agosto de 2005

Parabéns madame!


No ano de 2005 a coreógrafa Olga Roriz comemora 3 marcantes aniversários: 30 anos de carreira, 10 anos da sua Companhia e 50 anos de idade que não podem passar impunes nem ignorados.
(...) Para não esquecer que a morte existe é preciso festejar a vida.


Acho que já ninguém se lembra, mas há cerca de três mil anos aportou aqui um barco fenício. Descarregaram as ânforas e ficaram três dias na praia a cumprirem as celebrações do sal. Diz-se que se movimentavam no areal segundo a vontade dos deuses expressa nos sons da harpa eólica. Ao pôr do sol tudo parava. O vento calava-se.
E tudo recomeçava no dia seguinte até ao último que era o da partida. Aqueles movimentos repetiam iguais porque era a alma que levava o corpo com ela. Mais tarde chamaram a isto dança. Talvez porque derive de dansal.


FELICITAÇÕES MADAME – PARTE II:
dias 26, 27 e 28 de Agosto, às 18h30
Local: Ilha do Farol - Faro

Duração: 60 minutos
Para todas as idades
Entrada Livre

22 de agosto de 2005

"Cacha"

PINHAL ESCAPA AOS INCÊNDIOS
por falta de jornalistas disponíveis para cobrir o acontecimento

19 de agosto de 2005

Clair de lune



When the Moon is in the Seventh House,
and Jupiter aligns with Mars
Then peace shall guide the planets,
and love will steer the stars
This is the dawning of the Age of Aquarius ....

Harmony and understanding

Sympathy and trust abounding
No more forces of derision
Golden living dreams of visions
Mystic crystal revelations
And the mind's true liberation
(Aquarius, Hair, 1968, Broadway)


Consultei o calendário astronómico e fiquei a saber que a lua está completamente cheia. Eu já sabia porque tenho andado a mirá-la desde que apareceu assim baixinha, no céu, para os lados do poente, na forma de uma barquinha que vai crescendo... E esta tem o brilho mítico da lua de Agosto. Diz-me ainda o dito calendário que ela está em Aquário, mas isso nem discuto.
Cresci a vê-la aparecer sobre a crista dos pinheiros. Hoje vejo-a espelhar-se no mar. Não sei se é a mesma lua. Eu já não sou seguramente o mesmo rapazinho que fazia um esforço para não apontar para a lua, porque alguém tinha dito que isso fazia nascer cravos nas mãos.
Uns anos mais tarde nasceram cravos nas mãos de muitas pessoas, mas isso foi em Abril e já não parece haver assim tanta gente a lembra-se do brilho dessas noites.


("Clair de Lune" - DigitalArt por Corine Baron)

18 de agosto de 2005

Liga-me

Sentes o calor dos dias grandes?
É a vontade de sair por aí com muito pouca coisa na bagagem. Penetrar a geografia e suar pelos atalhos com a nostalgia das cascatas límpidas.

16 de agosto de 2005

Poema, ou faz-de-conta, e dedicatória também, mais ou menos a roçar o principalmente









(aos minutos surreais)




E tropeçaram pois
num sentimento em forma de assim
(diz ele)
a revolver os dias de manufacturas
inquietações.

Os amantes sabem pouco de profecias
e, por isso, entretêm-se
a olhara lua, o mar
(e a ponta dos dedos)
à espera de se acontecerem.

E, a conto,
tecem com as mesmas palavras
cortinas e vontades
sem saberem dos avessos
de silêncios impermeáveis.


(escrito [de en] contra a Poesia Completa de O'Neil, só para destrabalhar as coisas em concreto, a nove de agosto de dois mil e cinco)