16 de agosto de 2005

10 abafos


(um) Há sempre duas estradas na mesma, ainda que tenham um só nome. Sim. Têm nomes de família e também nome próprio. A familia IP, a IC e família mais rica chamada A. Ah, pois... e há ainda uma velha família que ainda detém um título assim para o nobre, mas na maior parte dos casos já está completamente arruinada. Refiro-me às saudosas EN.(dois) E dizia eu que as estradas são sempre duas: uma para ir e outra para voltar; uma que aproxima e outra que afasta; uma que junta e outra que separa...(três) É por isso que os pensamentos têm direcções e os sentires riscam sentidos assim como setinhas nos mapas emocionais.(quatro) E não se pense apenas no prosaico "vamos para a festa!" - "vimos da festa..." porque a festa tem muitos sentidos e vir da festa pode ser mesmo ir para uma autêntica festa!(cinco) Pois eu já percorri muitas estradas e fui a muitos sítios.(seis) Também já quis fugir de mim e então ia e vinha por caminhos diferentes para estar sempre só a ir. Mas isso era no tempo em que ainda não me tinha apercebido que cada estrada era duas e que aquele de quem eu fugia ia ali sempre comigo também a fugir do mesmo.(sete) Agora é diferente. Vamos juntos e conversamos e até descobrimos que somos mais.(oito) E mais. Frequentemente trazemos outros e dramatizamos ali coisas que acontecem e que não acontecem.(nove) Fica para outras viagens o saber se isto serve para alguma coisa ou se é só para entreter quilómetros.(dez) Em todo o caso vou colocar um autocolante atrás a dizer: "miúdos a bordo".

(Piações de uma gaivota em terra)

3 de agosto de 2005

Micro-ondas...


Entre conversas e piações lidas também aqui e ali, decidi juntar-me à causa e fazer também uma ondita das minhas, assim, a capela, sem outro acompanhamento que não seja o da reverberação do bater de asas de algumas aves (dizem alguns que isso é capaz de provocar um furacão ou um tsunami) e o do eco das falésias indomadas.
No grasnar irónico de uma gaivota minha conhecida, temo um governo de Otários e um povo a ver passar os comboios (de alta velocidade).

O barrete oficial será distribuído gratuitamente a quem voluntariamente declarar aceitar um novo aumento de impostos para a realização da obra.

2 de agosto de 2005

Janelas para a terra


Farto de voar
Pouso as palavras no chão
Entro no mar
Sinto o sal de mão em mão
Tenho um barco na vida espetado
Só suspenso por fios dum lado
E do outro a cair
a cair
no arpão
no arpão
Levo a dormir
Sonhos que andei para trás
Ergo o porvir
Trago nos bolsos a paz
Tenho um corpo na morte espetado
Só suspenso por balas de um lado
E do outro a escapar
a escapar
de raspão
de raspão



Ponho a girar
Cantos que ninguém encerra
De par em par
Abro as janelas para a terra
Tenho um quarto na fome espetado
Só suspenso por água de um lado
E de outro a cair
a cair
no alçapão
no alçapão
Farto de voar
Pouso as palavras no chão
Entro no mar
Sinto o sal de mão em mão
Tenho um barco na vida espetado
Só suspenso por fios dum lado
E do outro a cair
a cair
no arpão
no arpão

Sérgio Godinho, in "os sobreviventes"

Por acaso até fiz umas curvas no destino. Logo de pequinino.
E aprendi a nadar e a amar e a sobreviver a todas as estradas e romances.
A liberdade continua a passar por aqui (por muito que lhe queiram cobrar portagens).

Sérgio Godinho hoje à noite no Forum Algarve




1 de agosto de 2005

Astrid entre Dalí e Rivera




Antes de aqui chegar só conhecia o mar dos teus olhos e a música do teu nome, Helena, sem as metamorfoses das guerras de colorir livros de história antiga.


Mas isto foi antes, muito antes do eclodir dos pirilampos nas cascatas do teu cabelo.


Já só me falta morrer nas punhaladas de um tango bendito em esquinas maiores.


As cinzas, já sabem, são para espalhar pelos oceanos.

27 de julho de 2005

日を累ね月を積む-武生



Equizenar-te?
「地蔵院」で毎月開講している松野宗純禅師(PHP全国友の会会長他)の人間学講座を、禅の智慧を経営に生かしたいと発心して聴講している一中小企業経営者のつたないノート。テキストは国民教育の父と称される森信三 著「修身教授録」を輪読。又、松野先生ファンの方へ先生の近況をお伝え出来ればと考えています。宮本武蔵「独行道」21箇条Tシャツ 吉川 壽一

Às vezes oiço vozes. Não, não dessas de que fala a DSM-IV. São vozes emergentes das cascatas sonoras dos dias e das noites. E também das vozes vozes que são dizeres e que depois se cruzam com o compasso dos motores, o apito do comboio, o drum 'n' bass laboral ou, ainda, o zurzir do vento e o fragor do mar...
E assim nascem palavras transgénicas.

22 de julho de 2005

Cânticos da lua cheia
















Formosa és, amada minha, como Tirza, aprazível como Jerusalém, imponente como um exército com bandeiras.

Desvia de mim os teus olhos, porque eles me perturbam. O teu cabelo é como o rebanho de cabras que descem pelas colinas de Gileade.

Os teus dentes são como o rebanho de ovelhas que sobem do lavadouro, e das quais cada uma tem gêmeos, e nenhuma delas é desfilhada.

As tuas faces são como as metades de uma romã, por detrás do teu véu.

Há sessenta rainhas, oitenta concubinas, e virgens sem número.

Mas uma só é a minha pomba, a minha imaculada; ela e a única de sua mãe, a escolhida da que a deu à luz. As filhas viram-na e lhe chamaram bem-aventurada; viram-na as rainhas e as concubinas, e louvaram-na.

Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, imponente como um exército com bandeiras?

Desci ao jardim das nogueiras, para ver os renovos do vale, para ver se floresciam as vides e se as romanzeiras estavam em flor.
Cântico dos Cânticos 6:5 a 6:11
Ontem corri atrás da lua espelhada no mar.
Encantei-me na Tavira Moura com a música das palavras e outras delícias.

20 de julho de 2005

Margens, j'arrive!...



De que noite demorada
Ou de que breve manhã
Vieste tu, feiticeira
De nuvens deslumbrada
De que sonho feito mar
Ou de que mar não sonhado
Vieste tu, feiticeira
Aninhar-te ao meu lado
De que fogo renascido
Ou de que lume apagado
Vieste tu, feiticeira
Segredar-me ao ouvido

De que fontes de que águas
De que chão de que horizonte
De que neves de que fráguas
De que sedes de que montes
De que norte de que lida
De que deserto de morte
Vieste tu feiticeira
Inundar-me de vida.
(Letra: Francisco Viana/Música: Luís Represas)

A noite quente soltava os corpos ao brilho da lua quase magna.
Tenho a certeza que à mesma hora estava a nevar sobre a marginal.
Dessa neve que não espera, na ânsia do derreter.
A água tem destas coisas...
E depois enrolo-me no feitiço que eu cá não sou de empatar feiticeiras.

19 de julho de 2005

Anepígrafo

Se uma árvore cair na floresta e não estiver lá ninguém para ouvir, será que produziu som?
A esta hora já deixei de sentir as dores do mundo, embora ele se doa e ao mesmo tempo se anestesie para não sentir. E já me quer parecer que a ruptura de um contrato pode doer mais que uma ruptura muscular e que um morto em Nova Yorque, Madrid ou Londres tem uma morte mais dolorosa que em Bagdad.
Vou acrescentar mais umas gotas e anestesiar todos os meus pedaços.
Despedaço-me, pois.
Mas sem dor.

12 de julho de 2005

Época balnear


Ribeira dos Milagres

A presença dos corpos perturba as conversas junto ao mar. Perturba em todos os sentidos. Perturba os sentidos.
Vou procurar outras falas.


Procurei numa agência de viagens o destino de férias Ribeira dos Milagres. Disseram-me que não existe. Mas é pena. Uma invasão de veraneantes este ano talvez mudasse aquilo que não se resolve há muitos anos. Que nenhum governo quer resolver. Nem nossa senhora de Fátima, nem o bispo de Leiria, nem o movimento pró-vida, nem o padre Borga, nem a Lili Caneças, nem o Quim Barreiros, nem o Luís Figo...
Não custa nada. À Ribeira dos Milagres vai-se pelo cheiro e pelo roncar de quatrocentos mil porcos e meia dúzia de mercedes dos reis do gado.
Boas férias.

7 de julho de 2005

G-Eight / G-Hate

Ma'qu'jeite!...
Levantaram-se em bandos com o estrondo, as gaivotas, ainda mal refeitas da noite mal dormida. Dizem-me que sentiram a terra tremer. Um pequeno sismo, assim como um suspiro de desalento do planeta a cismar sobre as poderosas conspirações.
E ainda há quem perca tempo em olímpicas disputas sobre qual das cidades merece o título de Capital da caca de cão!...

Se não houvesse gente a morrer à fome, a coisa até tinha piada...
Mas hoje já morreram bem mais do que cinquenta... e daqui a uns anos pouca gente se lembrará onde fica Quioto.

Olhá bolacha americana torraaaaaaaaaaada!...


6 de julho de 2005

30 anos

Ontem acho que não choveu naqueles dez granzin di terra.
A festa foi outra.
30 anos de independência com que de bom e de mau isso tem.
Pela noite dentro, ainda vi o meu amigo Djurumani a tentar fintar o destino e a lembrar-me o canto (tude drêto, ermon?).


Um abraço aos amigos de Cabo Verde.

E no cantar da Cesária:

La na ceu bo é uma estrela
Ki cata brilha
Li na mar bô ê uma areia
Ki cata mojá
Espaiote nesse monde fora

Sô rotcha e mar
Terra pobre chei di amor
Tem morna tem coladera
Terra sabe chei de amor
Tem batuque tem funaná

Passepartudo

«Não vale a pena suportar tanto castigo.
Procuras Ítaca. Mas só há esse procurar.
Onde quer que te encontres está contigo
dentro de ti em casa na distância
onde quer que procures há outro mar
Ítaca é a tua própria errância.»
(Manuel Alegre)

Ajusto os headphones e tento sintonizar o canto das sereias em FM. Ao contrário de Ulisses só encontro o rumo quando me perco.
Os meus instrumentos de navegação e orientação são bastante precisos, mas volúveis. Há dias em que apontam para todas as direcções.
E estão certos!

5 de julho de 2005

Cerf volant - Cerf voleur


Pensando bem, se alguém se apropriasse do vento do vento até podia vendê-lo. E fazer subir o seu preço trancando-lhe as portas. Provocar uma guerra para disputar a sua posse e, logo, torná-lo mais caro e aumentando assim os lucros.
Quando isso acontecer, vai ser proibido lançar papagaios, brincar com coloridos vira-ventos e assobiar.
Mas haverá sempre alguém a semear palavras ao vento...

4 de julho de 2005

Ex-citação contrasenso

Pronto já tá. O Contador de Gaivotas já fazia parte da lista dos blogues amigos e também dos amigos dos amigos assim numa rede estendida de nós e laços e outras menos óbvias linkações.
Agora completou-se o ritual de passagem. O meu amigo HFR (re)citou, com todos os preceitos, uma generosa posta de pescada.
E assim temos um blogue adulto, mas sem saber como se comportar.
Acho que vou pedir umas lições de etiqueta à doutora Paula Blogue-on.

Um abraço consenso.

30 de junho de 2005

~~~ ^^ *«^»* ^^ ~~~

Porque há piações destituladas, fica assim com uns sinais que nem eu percebo...
Comecei por explicar a desconstrução criativa como quem destrói uma construção de legos-mecanos. A coisa é feita assim bonita e certinha para estar na montra e depois a vida não nada assim e a gente percebe que nem precisa de metade das peças.
E que também, sim senhora, tinha percebido tudo desde o início e até era capaz de repetir tudo, porque aquela data tinha algum significado para mim, porque mais coisa menos coisa, fazia anos ou meses ou talvez dias que tinha dado por falta de uma estrela. E era capaz de repetir tudo o que me tinha dito. Que era promoção e ficava isento do pagamento por toda a vida e ainda tinha um bónus de seis meses.
Como se tinha aguentado bem com a tempestade, sugeri que pusesse lá nos registos que estava muito interessado e que ia pensar e assim. E assim podíamos continuar a conversa a compasso de ondas e aragens.
Só não disse que tudo isto era uma bruma com que me enrolava antes do jantar.

28 de junho de 2005

Contando...


Faço contas. Faço de conta. Perco-me na conta, peso e medida. E também nos rumos, azimutes, horizontes...

Espraio e rio. Contemplo.
Demoro nas memórias lavradas na areia.
O que há-se ser nem nós o sabemos.
Mas há-de ser.
E a resposta - di-la-ão sempre os poetas - é que todas as respostas virão no vento.

27 de junho de 2005

Todas as praias...

E ainda dizem que morreste!...

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.
Sophia de mello Breyner Andresen

Mas fiquei a saber que apareceste a espalhar um tempo futuro como quem semeia utopias para nascerem no vento. Não sei se é justo servires assim de senha de acesso nacional... a tua voz fica bem melhor tatuada nas cascatas.
E porque também me sinto capaz de florir em todos os jardins.
E beber das fontes sem me saciar nunca.
E abraçar florestas...
Posso ficar a olhar o rio, a saborear o travo de uma Guiness.
O pé bate-se sozinho. Celta-se numa jig ali tocada.
E sem desassossegos grandes... assim - à beira-rio.



O meu amigo Manel perdeu o pai hoje.
A única coisa que sei fazer é dar-lhe um abraço em silêncio.

21 de junho de 2005

Metalogos


Sentámo-nos ali no areal e desembrulhámos o farnel. E por causa de uma formiga começámos a falar de vida e de morte e do que aconteceria se conseguíssemos matar a morte.
Já o sol se abalançava ao mergulho poente...
- Acho que as pessoas que morrem, depois voltam a nascer.
- E porque é que não pensas que morrem umas pessoas e nascem outras?
- E tu achas que era possível estar sempre a fazer pessoas e caras diferentes? Já não haveria imaginação!...

O silêncio encheu-se completamente de metafísica misturada com maresia.

17 de junho de 2005

Ouver a Sul...

Vinte cinco anos de músicas hoje mesmo na pontinha do dia.

Parabéns Rui e... break a leg!

é uma dor pequenina
quase como se não fosse
e como uma tangerina
tem um sumo agridoce

de onde vem essa dor
se a causa não se vê
se não é por desamor
então é uma dor de quê?

não exponhas essa dor
é preciosa é só tua
não a mostres tem pudor
é o lado oculto da lua

não é vício nem costume
deve ser inquietação
não há nada que a arrume
dentro do teu coração

certo é ser dor de quem
não se dá por satisfeito
não a mates guarda bem
guardada no fundo do peito!

(A Tua Pequena Dor - Carlos Tê/Rui Veloso)

16 de junho de 2005

Morrer na praia


"Lovers" by Njogu
Eles foram viagem, descoberta, aventura, espanto.
Foram riso e sal, suor e sonho. Equilibristas, peregrinos, grãos de areia, saltimbancos clandestinos.
Amantes ao sol, náufragos de searas e planícies, contempladores de constelações e crescentes.
Domadores de marés e tempestades.
Desfalecem agora na praia na carícia das ondas a lamberem-lhes as feridas.

E hoje está um belo dia.