15 de junho de 2005

Até amanhã...


Há palavras que ficam coladas à história. Aprendi a palavra "Rumo" num panfleto clandestino a anunciar a vitória de um profético "homem novo".
Cresci a acreditar num "amanhã". Nunca entendi muito bem porque é que as utopias, sejam elas quais forem, se guardam sempre para amanhã...
Hoje não vou ao teu funeral.
Despeço-me:

Até amanhã...

14 de junho de 2005

Contradores


.

Hoje é o dia nacional de Luta Contra a Dor.

O alívio da dor é um Direito Humano.

A vocação de observador da praia e do horizonte e o exercício de contador leva-me muitas vezes ao encontro com sofridos gestos espalhados pelo areal como despojos devolvidos pelo mar.
E dói-me a tua dor.


13 de junho de 2005

Onde estão as barcas? Onde são as ilhas?

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos

Também eu, génio, te quis matar. Tal como todos os poetas que conheço.
Porque andaste uma vida a encher as palavras de sal, a espremê-las com as mãos, sempre rente ao mar, na urgência do pólen que te brotava do peito...
Porque inclinaste as noites e partiste os dias um a um, e de palavra em palavra deste às romãs a cor do lume...
Porque inventaste o riso breve, desbravaste a síncopa dos peixes verdes e o contratempo do adeus...
Porque sempre me avisaste que irias com as aves...

Agora só me resta beber-te a sede.

8 de junho de 2005

Ondança

Hoje é o Dia Mundial dos Oceanos.


Foto de Valter Matos (roubada aqui)

Deve ser por isso que hoje nenhum petroleiro lava os tanques no alto mar; nenhum país deposita lixo radioactivo; nenhum arrastão anda a varrer o fundo; nenhum banhista descartou para as praias os plásticos dos seus excessos...
Hoje vou, talvez, embrulhar-me numa onda e dançar com ela.
Depois acordarei com a sensação de lhe ter jorrado sémen no seio.

7 de junho de 2005

gaivota

A partir de hoje, no Contador de Gaivotas, já é possível vir só ver os bonecos.

6 de junho de 2005

Resort danada

Sagrou-se ali o ambiente passerelle porque era dia e, já se sabe, todo o turista viu. E nestas performativas falações é sempre bom levantar alguma areia ao vento e dirigida aos óculos escuros. E depois são mil e tal e coisa assim em cima das dunas, mais uma que é uma Pina colada no farol... E logo as presidentadas vozes a tentarem chegar à estratosfera re-lixando o verbo ali remendado...
A piação das gaivotas é sabia. Elas vêem lá de cima e não entendem como alguns crimes se chamam empreendimentos. E eu não lhes consigo explicar que isso meteu muito dinheiro e outras vantagens nas mãos de alguns e mais umas bandeiradas contrapartidas. Não entendem! Precisam de se renaturalizar, talvez.

1 de junho de 2005

வம்சி - ரஜினியின் அடுத்த படம்

Namasté!...

O Contador tem uma versão em hindi.
Falará de praias de ondas rasteiras com mais corvos que gaivotas.
Por isso é que no título se escreve "o grasnar dos corvos".
Alguém que me traduza isto.

சந்திரமுகியில் வேட்டைய ராஜா கெட்டப்பில் வில்லன் போல் நடித்தது ரசிகர்களுக்கு மிகவும் பிடித்துப் போனது. விக்காக இருந்தாலும் வாக்கெடுத்து தலை சீவி லக்கலக்கலக்கலக்கா என்று சொல்லும் வில்லத்தனமான நடிப்பு ரஜினி பட்டய கெளப்பியிருந்தார். அதனால் அடுத்த படத்தில் வில்லனாக நடிக்க ரஜினி முடிவெடுத்திருக்கிறார்.ஆனால் வேறொருவர் கதாநாயகனாக நடித்து தான் வில்லனாக நடிப்பதை ரசிகர்கள் விரும்ப மாட்டார்கள் என்பதால் அவரே கதாநாயகனாகவும் வில்லனாகவும், ஆக மொத்தம் இரு வேடங்களில் நடிப்பதாக முடிவெடுத்திருக்கிறார். ஜக்குபாய் மூலமாக ஏற்பட்ட மனக்கசப்பை போக்க இதை கே.எஸ்.ரவிக்குமாரையே டைரக்ட் செய்ய அழைத்திருக்கிறார். இதன் பெயர் வம்சி என் சூட்டப்பட இருக்கிறது. இசை மீண்டும் வித்யாசாகர்.என்னால நம்ப முடியலன்னு சொல்லரீங்களா...ரஜினி இப்ப வில்லனா நடிச்சா சூப்பரா இருக்குமேன்னு தோணுச்சா... அதோட ரொம்ப நாளா எதுவுமே பதியலையேன்னு கொஞ்சமே கொஞ்சூண்டு சங்கட்டமா இருந்துச்சா... அதேன்... ச்ச்ச்ச்ச்சும்ம்ம்ம்மா.

Hic et nunc

"... pero que todos sepan que no he muerto;
que hay un establo de oro en mis labios;
que soy el pequeño amigo del viento Oeste;
que soy la sombra inmensa de mis lágrimas ..."
Federico García Lorca

Às vezes o tempo e o modo estão na sola dos pés e ficam inscritos na areia até à próxima maré. Só até à próxima maré. Ou só até que uma lambidela de um vento mais agreste os arrase.
E assim, matinal e breve, me visto de contrários. Aqui e agora. O primeiro passo de um longo caminho que se faz apenas andando. E logo hoje que tenho que desenhar os mapas e os percursos futuros.

30 de maio de 2005

Pássaros doçul...

Si el sueño fuera (como dicen) una
tregua, un puro reposo de la mente,
¿por qué, si te despiertan bruscamente,
sientes que te han robado una fortuna?
(Jorge Luís Borges)

E ali se postou um bando ainda muito jovem e simultaneamente instituído. Eu que levo a vida a recolher destroços que o mar devolve, olhei-os assim como quem lhes quer ver as vísceras e tentei mostrar-lhes alguns mapas e itinerários para sua livre escolha.
Acabámos a discutir a alegada crise do espírito associativo contra o aparente incremento dos corpos danone e, ainda, a arte de obrigar velhinhas a atravessar a rua.
E curtimos bué!

17 de maio de 2005

Não me deste tempo...

Foi uma onda grande.
Um ribombar de dor de estalar a alma.
A notícia veio no vento norte.
Gelada.

A minha amiga deixou-se morrer.
Não cheguei a mostrar-lhe
tudo quanto me fazia gostar dela.

Desculpa, Fátima...
Precisava de muito mais tempo.

12 de maio de 2005

Praia do Martinhal

Não são só os sobreiros que andam em más Companhias. Conta-me uma gaivota bem informada que Sagres vai receber um complexo turístico de luxo em pleno Parque Natural da Costa Vicentina . Um bico de gaivota tem alguma dificuldade em pronunciar estas palavras, contudo explicou-se muito bem. De luxo, punhão!
E depois voou a piar tristezas.

11 de maio de 2005

Mudandança

Acordei a pensar ilhas. Mar a v(er) ilhas.
Granzin di terra longe, gente de sôdade e morabeza, de saburra e blimundo...
Dja seca. E seca na dor.
Mas odji ta tchób...
E trouxe o mar um soneto temperado por aquela fala quente com balanço de coladera.
'Brigado, Morna, nha cretcheu.

Ta muda tenpu, ta muda vontadi,
Ta muda ser, ta muda konfiansa;
Tudu mundu é fetu di mudansa,
Ta toma senpri nobu kolidadi.

Sen nunka pára nu ta odja nobidadi,
Diferenti na tudu di speransa;
Máguas di mal ta fika na lenbransa,
Y di ben, si izisti algun, ta fika sodadi.

Tenpu ta kubri txon di berdi manta,
Ki di nébi friu dja steve kubertu,
Y, na mi, ta bira txoru u-ki n kantaba

Ku dosura. Y, trandu es muda sen konta,
Otu mudansa ta kontise ku más spantu,
Ki dja ka ta mudadu sima kustumaba.

José Luis Tavares

2 de maio de 2005

O polo norte, o polo sul e o polyamory...

The sound of a kiss is not so loud as that of a cannon, but its echo lasts a great deal longer. Oliver Wendell Holmes

O sol já ia alto e a conversa ainda se confundia com a humidade da areia. E soltou-se assim do bico numa outra língua: que é isso de ethical sluts? Juntei de novo os búzios, alisei com a mão um círculo de areia e, num googleano movimento, logo ali os estendi. Concentrei-me para traduzir o achado e deles saiu uma espécie de vida vivida sem barreiras nem mentiras alternando wibble com fubble. O meu interlocutor sacudiu vagamente as asas (um tique que lhe conheço quando começa a ficar impaciente com as humanas peias morais) e atirou-me com algum desprezo: Só descobriram isso agora?

19 de abril de 2005

Arte de voar

Aetas: carpe diem,
quam minimum credula postero

(Odes, I, 11 – Horatius)

Fechei por um momento os olhos e recordei aquele sonho em que teimavas que eu aprenderia a voar contigo. Eu, temendo desiludir-te, ia-me esquivando, mas tu insistias e abrias argumentos em leque com que abanavas as minhas hesitações.
Não consegui, finalmente, resistir ao argumento sagital. Era porque querias muito.
E lá me explicaste como deveria fazer e, sobretudo, para não ter medo, porque só isso me poderia fazer cair. E assim foi. Elogiaste o meu voo e brincámos com aquela estória do Luís Sepúlveda de pôr um gato a ensinar uma gaivota a voar...
Achei que não ficaste muito satisfeita quando comecei a sugerir algumas correcções para melhorar a técnica.
Desculpa. É a minha natureza...

7 de abril de 2005

Abrílogo

Estas VTIC são uma maravilha. Eu explico: VTIC significa velhas tecnologias de informação e comunicação. E refiro-me em particular à MB (message in a bottle) ou em português MG que se lança ao mar depois de se pensar com alguma intensidade na força e orientação das correntes marítimas e também dos ventos e outras energias. As principais características deste meio de comunicação são a lentidão, a incerteza sobre o destino e o destinatário e a impossibilidade de retorno. E isto faz toda a diferença relativamente a outros meios! Mas não é disso que vou falar.
Hoje o mar devolveu-me uma garrafa com uma mensagem dentro. Quando a abri, reconheci-a e lembrei-me de a ter lido e lançado novamente ao mar, num qualquer Abril. Voltou a mim passado algum tempo. Sei que foi lida e reencaminhada muitas vezes (vinha cheia de FWs acrescentados ao original).
Vou estendê-la aqui a secar.


Há muitos anos, era a liberdade ainda pequena...
Eu também era um menino. E saltava pelas janelas

dos meus cadernos escolares e saía a correr
pelas portas que abria em cada livro.
As viagens que eu fazia!
A liberdade-menina

era uma fotografia na parede do meu quarto
e tinha uns olhos bonitos
que me seguiam.
Às vezes até me escondia e olhava de repente

a ver se ela estava distraída...
Mas nunca a apanhei em falta. Acho que era por gostar de mim...
Era a minha namorada!
Um dia acordei e vi que ela tinha crescido tanto

que já não cabia no meu quarto
e escorria pelas ruas
e dançava com toda a gente
e deixava-se beijar...
Não, nunca tive ciúmes!
Aquela que eu amava quase em silêncio

podia ser amada de todos
à luz do dia!
E vestiram-na de bandeiras
(ela que sempre se quis nua)

e foi momo de carnaval.
Embrulharam-na em editais,decretos e alvarás

e até as finanças lhe quiseram cobrar impostos.
Mas a minha amiga liberdade,

discretamente,
rasgou todos os cartões
e cartas de alforria,
e passou a andar por aí.
Disso tudo,

conservou um cravo no cabelo
que lhe fica tão bem.

Saímos muitas vezes juntos;

fazemos caretas às chatices
e escrevemos na areia da praia
em letras bem grandes o nosso caderno reivindicativo.

Ah! Temos uma coisa íntima
que tomo a liberdade de revelar:
Fazemos amor sempre que nos apetece!

Amamo-nos sempre!

3 de abril de 2005

Abri-lo!

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais feliz
dos povos à beira-terra
José Carlos Ary dos Santos

Voltei para abrir de par em par as portas do mar de Abril.
E logo me embebedei de maresia que andava à solta pela praia.
Depois, embalei-me de contradições e outros sonhos meridianos
.

21 de março de 2005

Para não dizerem que não falei de flores...

DECLARAÇÃO DE AMOR
Minha flor minha flor minha flor.
Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro.
Minha peônia.
Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão.
Minha gérbera.
Minha clívia.
Meu cimbídio.
Flor flor flor.
Floramarílis.
Floranêmona.
Florazálea.
Clematite minha.
Catléia delfínio estrelítzia.
Minha hortensegerânea.
Ah, meu nenúfar.
Rododendro e crisântemo e junquilho meus.
Meu ciclâmen.
Macieira-minha-do-japão.
Calceolária minha.
Daliabegônia minha.
Forsitiaíris tuliparrosa minhas.
Viole ta... Amor-mais-que-perfeito.
Minha urze.
Meu cravo- pessoal-de-defunto.
Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.
Carlos Drummond de Andrade

Come, 'mor, Arte!

Hoje só comi poesia. Gosto dela ao natural e também de lhe acrescentar os meus temperos e molhos (abertos e fechados) de redondilha.


ARTE POÉTICA

Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.
Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.
Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Hélia Correia

Neste dia...

Queria soltar um poema
todo ele de verdade
para dizer em cada linha
o que vai dentro de mim
A inspiração foi serena
mas pouca a habilidade
Deixo uma grande entrelinha

E o poema fica assim

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Dia primo de primavera
e da poesia
da rosa dos ventos
do mundo...

18 de março de 2005

Agarra o vento!...

Esperar junto a este mar
(en el que nacieron las ideas)
sin ninguna idea.
(Y así tenerlas todas.)
António Salinas

E logo hoje que me sinto sem me saber dizer, quando tanto me cresce por dentro...
O indizível espuma-se no vento e o que fica rebenta na areia como uma onda no peito.
E eu que só procurava um silêncio partilhado...

Não chego a saber se este mar me entende...