30 de maio de 2005

Pássaros doçul...

Si el sueño fuera (como dicen) una
tregua, un puro reposo de la mente,
¿por qué, si te despiertan bruscamente,
sientes que te han robado una fortuna?
(Jorge Luís Borges)

E ali se postou um bando ainda muito jovem e simultaneamente instituído. Eu que levo a vida a recolher destroços que o mar devolve, olhei-os assim como quem lhes quer ver as vísceras e tentei mostrar-lhes alguns mapas e itinerários para sua livre escolha.
Acabámos a discutir a alegada crise do espírito associativo contra o aparente incremento dos corpos danone e, ainda, a arte de obrigar velhinhas a atravessar a rua.
E curtimos bué!

17 de maio de 2005

Não me deste tempo...

Foi uma onda grande.
Um ribombar de dor de estalar a alma.
A notícia veio no vento norte.
Gelada.

A minha amiga deixou-se morrer.
Não cheguei a mostrar-lhe
tudo quanto me fazia gostar dela.

Desculpa, Fátima...
Precisava de muito mais tempo.

12 de maio de 2005

Praia do Martinhal

Não são só os sobreiros que andam em más Companhias. Conta-me uma gaivota bem informada que Sagres vai receber um complexo turístico de luxo em pleno Parque Natural da Costa Vicentina . Um bico de gaivota tem alguma dificuldade em pronunciar estas palavras, contudo explicou-se muito bem. De luxo, punhão!
E depois voou a piar tristezas.

11 de maio de 2005

Mudandança

Acordei a pensar ilhas. Mar a v(er) ilhas.
Granzin di terra longe, gente de sôdade e morabeza, de saburra e blimundo...
Dja seca. E seca na dor.
Mas odji ta tchób...
E trouxe o mar um soneto temperado por aquela fala quente com balanço de coladera.
'Brigado, Morna, nha cretcheu.

Ta muda tenpu, ta muda vontadi,
Ta muda ser, ta muda konfiansa;
Tudu mundu é fetu di mudansa,
Ta toma senpri nobu kolidadi.

Sen nunka pára nu ta odja nobidadi,
Diferenti na tudu di speransa;
Máguas di mal ta fika na lenbransa,
Y di ben, si izisti algun, ta fika sodadi.

Tenpu ta kubri txon di berdi manta,
Ki di nébi friu dja steve kubertu,
Y, na mi, ta bira txoru u-ki n kantaba

Ku dosura. Y, trandu es muda sen konta,
Otu mudansa ta kontise ku más spantu,
Ki dja ka ta mudadu sima kustumaba.

José Luis Tavares

2 de maio de 2005

O polo norte, o polo sul e o polyamory...

The sound of a kiss is not so loud as that of a cannon, but its echo lasts a great deal longer. Oliver Wendell Holmes

O sol já ia alto e a conversa ainda se confundia com a humidade da areia. E soltou-se assim do bico numa outra língua: que é isso de ethical sluts? Juntei de novo os búzios, alisei com a mão um círculo de areia e, num googleano movimento, logo ali os estendi. Concentrei-me para traduzir o achado e deles saiu uma espécie de vida vivida sem barreiras nem mentiras alternando wibble com fubble. O meu interlocutor sacudiu vagamente as asas (um tique que lhe conheço quando começa a ficar impaciente com as humanas peias morais) e atirou-me com algum desprezo: Só descobriram isso agora?

19 de abril de 2005

Arte de voar

Aetas: carpe diem,
quam minimum credula postero

(Odes, I, 11 – Horatius)

Fechei por um momento os olhos e recordei aquele sonho em que teimavas que eu aprenderia a voar contigo. Eu, temendo desiludir-te, ia-me esquivando, mas tu insistias e abrias argumentos em leque com que abanavas as minhas hesitações.
Não consegui, finalmente, resistir ao argumento sagital. Era porque querias muito.
E lá me explicaste como deveria fazer e, sobretudo, para não ter medo, porque só isso me poderia fazer cair. E assim foi. Elogiaste o meu voo e brincámos com aquela estória do Luís Sepúlveda de pôr um gato a ensinar uma gaivota a voar...
Achei que não ficaste muito satisfeita quando comecei a sugerir algumas correcções para melhorar a técnica.
Desculpa. É a minha natureza...

7 de abril de 2005

Abrílogo

Estas VTIC são uma maravilha. Eu explico: VTIC significa velhas tecnologias de informação e comunicação. E refiro-me em particular à MB (message in a bottle) ou em português MG que se lança ao mar depois de se pensar com alguma intensidade na força e orientação das correntes marítimas e também dos ventos e outras energias. As principais características deste meio de comunicação são a lentidão, a incerteza sobre o destino e o destinatário e a impossibilidade de retorno. E isto faz toda a diferença relativamente a outros meios! Mas não é disso que vou falar.
Hoje o mar devolveu-me uma garrafa com uma mensagem dentro. Quando a abri, reconheci-a e lembrei-me de a ter lido e lançado novamente ao mar, num qualquer Abril. Voltou a mim passado algum tempo. Sei que foi lida e reencaminhada muitas vezes (vinha cheia de FWs acrescentados ao original).
Vou estendê-la aqui a secar.


Há muitos anos, era a liberdade ainda pequena...
Eu também era um menino. E saltava pelas janelas

dos meus cadernos escolares e saía a correr
pelas portas que abria em cada livro.
As viagens que eu fazia!
A liberdade-menina

era uma fotografia na parede do meu quarto
e tinha uns olhos bonitos
que me seguiam.
Às vezes até me escondia e olhava de repente

a ver se ela estava distraída...
Mas nunca a apanhei em falta. Acho que era por gostar de mim...
Era a minha namorada!
Um dia acordei e vi que ela tinha crescido tanto

que já não cabia no meu quarto
e escorria pelas ruas
e dançava com toda a gente
e deixava-se beijar...
Não, nunca tive ciúmes!
Aquela que eu amava quase em silêncio

podia ser amada de todos
à luz do dia!
E vestiram-na de bandeiras
(ela que sempre se quis nua)

e foi momo de carnaval.
Embrulharam-na em editais,decretos e alvarás

e até as finanças lhe quiseram cobrar impostos.
Mas a minha amiga liberdade,

discretamente,
rasgou todos os cartões
e cartas de alforria,
e passou a andar por aí.
Disso tudo,

conservou um cravo no cabelo
que lhe fica tão bem.

Saímos muitas vezes juntos;

fazemos caretas às chatices
e escrevemos na areia da praia
em letras bem grandes o nosso caderno reivindicativo.

Ah! Temos uma coisa íntima
que tomo a liberdade de revelar:
Fazemos amor sempre que nos apetece!

Amamo-nos sempre!

3 de abril de 2005

Abri-lo!

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais feliz
dos povos à beira-terra
José Carlos Ary dos Santos

Voltei para abrir de par em par as portas do mar de Abril.
E logo me embebedei de maresia que andava à solta pela praia.
Depois, embalei-me de contradições e outros sonhos meridianos
.

21 de março de 2005

Para não dizerem que não falei de flores...

DECLARAÇÃO DE AMOR
Minha flor minha flor minha flor.
Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro.
Minha peônia.
Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão.
Minha gérbera.
Minha clívia.
Meu cimbídio.
Flor flor flor.
Floramarílis.
Floranêmona.
Florazálea.
Clematite minha.
Catléia delfínio estrelítzia.
Minha hortensegerânea.
Ah, meu nenúfar.
Rododendro e crisântemo e junquilho meus.
Meu ciclâmen.
Macieira-minha-do-japão.
Calceolária minha.
Daliabegônia minha.
Forsitiaíris tuliparrosa minhas.
Viole ta... Amor-mais-que-perfeito.
Minha urze.
Meu cravo- pessoal-de-defunto.
Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.
Carlos Drummond de Andrade

Come, 'mor, Arte!

Hoje só comi poesia. Gosto dela ao natural e também de lhe acrescentar os meus temperos e molhos (abertos e fechados) de redondilha.


ARTE POÉTICA

Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.
Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.
Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Hélia Correia

Neste dia...

Queria soltar um poema
todo ele de verdade
para dizer em cada linha
o que vai dentro de mim
A inspiração foi serena
mas pouca a habilidade
Deixo uma grande entrelinha

E o poema fica assim

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Dia primo de primavera
e da poesia
da rosa dos ventos
do mundo...

18 de março de 2005

Agarra o vento!...

Esperar junto a este mar
(en el que nacieron las ideas)
sin ninguna idea.
(Y así tenerlas todas.)
António Salinas

E logo hoje que me sinto sem me saber dizer, quando tanto me cresce por dentro...
O indizível espuma-se no vento e o que fica rebenta na areia como uma onda no peito.
E eu que só procurava um silêncio partilhado...

Não chego a saber se este mar me entende...

17 de março de 2005

Sobre nada...

Assim pescador de deitar a rede, lançar o fio e esperar no brilho das águas o olhar.
Imaginar marginal ao sol da baía e boa viagem.
Ainda não me soam as horas do manso apetite e vou esperar que me pique um motivo para abrir o farnel.

11 de março de 2005

Margens

Oh que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!
Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!

Fernando Pessoa

E eu que sou dado a destemperos de memória acordo com as mãos sujas por ter andado toda a noite a escrever o teu nome nas paredes.
Aprendi com as garças o cheiro da terra lavrada e a dança dos salgueiros ao vento na beira do meu rio. Aprendi a contar nas margens e hoje voltei lá e derramei-me.

10 de março de 2005

Grave...

(...)
Não tenho explicações

Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
(...)
Sophia de Mello Breyner Andresen

Às vezes distraio-me e deixo-me sentir saudades... Assim como quem só repara nos atacadores desapertados por andar sempre a pisá-los e a tropeçar em tudo.
E hoje deu-me uma grande saudade de voar.

22 de fevereiro de 2005

Zê... de zarpar

Deste pendular alfa-beto antes que seja tarde e se mude o calendário.
Este contar vai fazer um ano um dia destes.
Acho que vou fazer aqui umas obras e pintar o barco...
Depois vou virar a proa para outros horizontes.

Xis... de Xalavar

Que é para apanhar tudo e até o que sopra no vento do Dilan.
Nunca entendi muito bem porque se diz, quando nos enfastiamos com qualquer coisa, «vou apanhar ar...». Muito melhor é apanhar gambuzinos em horário nobre porque nem tudo o que vem à net é trabalho.

Vê!... de Vejam bem que não há só gaivotas em terra

E quando um gajo se põe a pensar e a estender os pensamentos na praia e a tentar arrumá-los assim junto uns dos outros e a separá-los por cores e formas e depois vê que há sempre uns quantos que não se encaixam em sítio nenhum...
E nunca se sabe bem quem lá vem quando se dorme ao relento à espera de esperar que seja bem vindo quem vier por bem...
O que faz falta é gente madura a animar a praça e deixar as estátuas com o cu a arder.

E depois foi o vento e também as marés...

2 de fevereiro de 2005

Uuuuuh!... de Universo

Tudo num só verso. Infinito dizer. Croissant sempre inacabado de saberes. O aqui e o lá longe num ponto imenso. Tudo, em toda a parte. Sempre.

Estou à deriva no Universo.

25 de janeiro de 2005

Tê... de Tempo

Entro fora de tempo e falho o compasso porque as ondas não são todas iguais. Repetem-se de sete em sete, dizem, mas isso é só na aparência. Não sei como medir esse tempo de observação das ondas, apenas as posso contar. E, contador, conto passos, pássaros. Multiplico luas por marés. Elevo suspiros à potência dos ventos...

Estado do tempo:
Prevê-se tempo frio para amanhã.
Mas... Quando está frio no tempo do frio o Caeiro acha isso agradável por ser natural.
Só pode ser louco quem se arroja contra ventos e marés, seja em que rumo for. Inútil.